Artigo da seção pessoas Beto Diniz

Beto Diniz

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro  
Data de nascimento deBeto Diniz: 15-04-1953 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 06-03-1989 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Biografia
Carlos Roberto Diniz Silvino (Rio de Janeiro RJ 1953 - idem 1989). Cenógrafo, iluminador e figurinista. O mais atuante cenógrafo de meados da década de 1970 até fins dos anos 1980, no Recife. Responsável pela atualização estética na cenografia do teatro pernambucano, trabalha com diretores de várias gerações e tendências.

Entra no curso de cenografia da Escola de Teatro da Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara, atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, em 1975, mas não chega a concluí-lo. No mesmo ano, realiza cenário, figurino e iluminação para E a Liberdade Está Lá Fora, de Flávio Peixoto, com direção do autor, no Teatro Duse, quando é estimulado por Paschoal Carlos Magno a firmar-se nessa área.

Em janeiro de 1976 passa férias no Recife e resolve fixar-se temporariamente na capital pernambucana. Inicia-se a parceria entre o cenógrafo Beto Diniz e o encenador Antonio Cadengue. Na peça de estreia, A Lição, Beto Diniz acentua o absurdo da obra de Eugène Ionesco, por meio de elementos cenográficos desmesurados.

Ainda em 1976, faz cenário e figurinos para O Pirata Tubarão, de Rubem Rocha Filho, e cenários, figurinos e máscaras para Pedreira das Almas, de Jorge Andrade. Além disso, trabalha com o Grupo de Teatro Vivencial, na montagem de Sobrados e Mocambos, de Hermilo Borba Filho, para a qual assina cenários, figurinos, adereços e programação visual, cuja estreia se dá em janeiro de 1977. Em entrevista a Lúcia Machado, em 1986, Beto Diniz fala dessa obra: "Eu considero o cenário de Sobrados e Mocambos um dos meus melhores trabalhos. Não como cenário, mas como estrutura plástica de palco. Os praticáveis que usei deram muita mobilidade ao espetáculo. Foi o primeiro cenário que eu fiz e que tinha essa mobilidade. Ele se transformava em muitas coisas: módulos que ora eram sobrados, ora mocambos, ora praça, ora rua".1

Para sua estreia, em 1977, a Companhia Praxis Dramática escolhe Esta Noite Se Improvisa, de Luigi Pirandello, com Cadengue na direção, e Beto Diniz em várias funções. No Jornal do Brasil, em uma nota, Yan Michalski destaca: "Não é só no Rio que Pirandello está fazendo sucesso. Em Recife está em cartaz uma muito criativa e pessoal versão de Esta Noite Se Improvisa, a cargo da Companhia Praxis Dramática. Guardem os nomes do jovem diretor Antonio Cadengue e do cenógrafo Beto Diniz: a julgar pela amostra, eles poderão ir longe..." 2

Também em 1977, Beto Diniz participa do Mamulengo Só-Riso, no qual projeta e executa uma tenda para teatro de bonecos. Em depoimento ao designer Claudio Lira, o diretor do Só-Riso, Fernando Augusto, declara: "Essa tenda foi tão importante na nossa vida que a estamos usando desde 1978. [...] Ela nos acompanhou para a Europa e os Estados Unidos, em turnês, e ganhou elogios no Festival Mundial de Teatro de Bonecos, em Nova York e em Washington. Os bonequeiros de outros países ficavam nos perguntando quem a tinha feito. Ficaram impressionados por sua praticidade e o efeito de ilusão que causava".3

Em 1978, Beto Diniz volta a se radicar no Rio de Janeiro e realiza cenário e figurino para Vicente e Sílvia, de Cacá Fraga Melo, direção de Gene Moraes, e a iluminação para Era uma Vez nos Anos 50, texto e direção de Domingos Oliveira. Em dezembro desse ano, Guilherme Coelho entra em contato com Beto Diniz para que faça a iluminação do espetáculo Repúblicas Independentes, Darling, do Grupo de Teatro Vivencial, que participa do Mambembão de 1979.

Terminada essa etapa, Beto Diniz volta ao Recife (e a Olinda), onde se fixa definitivamente, e começa a gerenciar com Guilherme Coelho o Vivencial Diversiones, novo espaço do Vivencial, e a exercer várias funções nos espetáculos do grupo: faz iluminação e sonoplastia para o show Bonecas Falando para o Mundo; a direção, iluminação e sonoplastia de Ensaios Espontâneos; e a sonoplastia e programação visual para o show Pernas, pra que Te Quero, texto de Jomard Muniz de Britto.

Além da atuação no Vivencial, em 1980, Beto Diniz trabalha com Cadengue nos espetáculos Fala Baixa Senão Eu Grito, de Leilah Assumpção; Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues; e All Star Tapuias, todos no Recife; e Soy Loco por Ti Latrina, em João Pessoa. Em All Star Tapuias, sua cenografia experimenta o palco nu, deixando de lado os módulos e praticáveis comuns em seus trabalhos anteriores. Utiliza-se de elementos cênicos de força expressiva que se transmutam com muita ironia, como, por exemplo, a penteadeira de um cabaré que, ao virar-se, se apresenta ao público como o brasão da república.

Beto Diniz passa uma temporada no Rio de Janeiro, em 1983, e, no ano seguinte, retorna ao Recife e funda o Ópera Buffo Café Teatro. O espaço pretende reeditar o Vivencial Diversiones, mas em pouco menos de um ano fecha as portas. Antes de fechar o espaço, volta a trabalhar com Cadengue e torna-se assistente de direção de Sonho de uma Noite de Verão. E também assistente de cenografia de João Denys, que em depoimento a Claudio Lira afirma: "quando Beto viu o desenho do cenário ficou enlouquecido e me falou: 'Isso é o cenário que eu queria fazer'. Eu lhe entreguei o projeto, ele comprou a madeira, fez tudo e... fez melhor do que eu faria. Às vezes as pessoas ficavam sem saber se o cenário era de João Denys ou de Beto Diniz. Então, quer dizer... foi nosso! O cenário de Sonho de Uma Noite de Verão não é um cenário meu; eu fiz o projeto, a ideia é minha, mas acho que, se não fosse Beto, aquele cenário não sairia".4

No Curso de Formação do Ator - CFA, entre 1985 a 1988, Beto Diniz dá sua contribuição não só concebendo e realizando cenografias, iluminações, sonoplastias e figurinos, como também se empenha para que os alunos-atores aprendam o ofício de cenotécnico, construindo com eles os cenários dos espetáculos. No CFA, cria os cenários de O Despertar da Primavera, de Frank Wedekind, em 1986; O Balcão, de Jean Genet, em 1987; e O Sumidouro, de Jorge Andrade, em 1987.

Faz cenografia e figurino para As Três Farsas do Giramundo, produção da Fundação de Cultura Cidade do Recife - FCCR, em 1985. O espetáculo, formado pelos textos A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, Um Gesto por Outro, de Jean Tardieu, e Deus, de Woody Allen, dá a Beto Diniz condições excepcionais para a concretização de suas ideias: para a primeira peça elabora uma enorme caixa cênica com várias portas que se abrem no final; para a segunda, justapõe obras como A Morte de Marat, de Jacques-Louis David, a vasos sanitários que remetem à obra de Marcel Duchamp; e para a terceira, cria um cenário em que tudo é simulacro, com colunas e escadarias gregas de um anfiteatro, feitas de madeira e isopor, deixando visível seu anti-ilusionismo. O que lhe importa é resignificar o valor do palco italiano e suas múltiplas possibilidades.

Trabalha intensamente para a Aquarius Produções Artísticas, especialmente na cenografia de Tal e Qual Nada Igual, Nº 2 (A Novelha República), de Jomard Muniz de Britto, Marcelo Mário de Melo e Adalberto Ribeiro, com direção de Guilherme Coelho, em 1986; Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu, direção de Lúcio Lombardi, em 1986; Tango, de Slowomir Mrozek, direção de Cadengue, em 1987; e O Burguês Fidalgo, de Molière, que codirige com Cadengue, em 1988.

Um dos mais importantes projetos que Beto Diniz lega ao teatro no Recife é o Centro Experimental Teatro Apolo - CETA, atual Teatro Hermilo Borba Filho. Segundo Cadengue, esse projeto "foi essencialmente poético, de procura, descoberta e inclusive de sacralização do espaço. Reinventou os velhos galpões a partir deles mesmos - e não de um outro lugar qualquer usado como referência".5

Além dessas montagens, Beto Diniz produz outras cenografias com o mesmo espírito de recriação e de transgressão da tradição, a exemplo dos que projeta e realiza para "Toda Nudez Será Castigada, O Balcão e O Sumidouro. Eram cenários criados a partir de um sistema de praticáveis que em uma visão de conjunto, lembrava uma abstração em que os personagens evoluíam como se em abismos estivessem. Embora fixos estes dispositivos, permitiam uma multiplicidade simultânea de espaços para ação. [...] Todos esses projetos e realizações, constituíam-se em poemas visuais, pondo em relevo o corpo do ator de forma plástica, rítmica inclusive, sem descuidar da composição geral do espetáculo".6

Notas
1. DINIZ, Beto. Entrevista concedida a Lúcia Machado. Recife, 3 out. 1986.

2. MICHALSKI, Yan. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 set. 1977. Caderno B, [s.p.]

3. AUGUSTO, Fernando. Apud: LIRA, Claudio. Beto Diniz: construtor de cenas. Recife, 1993, p. 76. [Inédito].

4. DENYS, João. Apud: LIRA, Claudio. Beto Diniz: construtor de cenas. Recife, 1993, p. 90. [Inédito].

5. CADENGUE, Antonio. Um novo espaço e suas cerimônias: prefaciando o ceta, o sumidouro e o balcão. In: Prefeitura da Cidade do Recife. Programação da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Recife, n. 12, [s.p.], 1987.

6. LIRA, Claudio. Beto Diniz: construtor de cenas. Recife, 1993, p. 130. [Inédito].

Outras informações de Beto Diniz:

  • Outros nomes
    • Carlos Roberto Diniz Silvino
  • Habilidades
    • diretor de teatro
    • figurinista
    • Iluminador
    • cenógrafo

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Exposições (1)

Fontes de pesquisa (27)

  • ALVAREZ, Enéas. As Três Farsas do Giramundo - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 30 jul. 1985. Caderno C, [s.p].
  • ALVAREZ, Enéas. Boca Molhada de Paixão Calada - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 26 nov. 1985. Caderno C, [s.p].
  • ALVAREZ, Enéas. O Deus nos Acuda - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 28 out. 1986. Caderno C, p.5.
  • ALVAREZ, Enéas. As Moças - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 23 nov. 1982. Caderno C, [s.p].
  • ALVAREZ, Enéas. Era Uma Vez... Beto Diniz. Jornal do Commercio, Recife, 10 mar. 1989. Caderno C, p. 5.
  • ALVAREZ, Enéas. O Despertar da Primavera - Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 19 jun. 1986. Caderno C, [s.p].
  • CADENGUE, Antonio Edson. Da ficção às fricções: o exercício de criação de Beto Diniz nas Três Farsas. Recife, set. 1985. [Inédito. Acervo Antonio Cadengue].
  • CADENGUE, Antonio. Um novo espaço e suas cerimônias: prefaciando o CETA, o Sumidouro e o Balcão. In: Prefeitura da Cidade do Recife. Programação da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Recife, n. 12, [s.p.], 1987.
  • CADENGUE, Antonio. Beto, o que veste o cubo e revela a esfera. In: Companhia Praxis Dramática. Esta Noite se Improvisa. Direção Antonio Cadengue. Recife, Nosso Teatro, programa, 1977.
  • COUTINHO, Paulo César. Esta noite se faz teatro. Jornal da Cidade, Recife, p. 13, 2 a 9 set. 1977.
  • COUTINHO, Valdi. "Esta Noite se Improvisa" volta, agora no Parque. Diario de Pernambuco, Recife, 27 set. 1977. Viver, p. B-5.
  • COUTINHO, Valdi. A incomunicabilidade da Cantora Careca. Diario de Pernambuco, Recife, 2 ago. 1985. Viver, [s.p.].
  • COUTINHO, Valdi. A loucura segundo Pirandello, assim é... Diario de Pernambuco, Recife, [s.d], [s.p.], [Acervo Antonio Cadengue]
  • COUTINHO, Valdi. All Star Tapuias: escola, circo e show. Diario de Pernambuco. Recife, 10 nov. 1980. Viver, [s.p.].
  • COUTINHO, Valdi. Mariazinha deu descarga nela própria. Diario de Pernambuco, Recife, 17 set. 1980. Viver, [s.p.].
  • COUTINHO, Valdi. Ópera Buffo. Diario de Pernambuco, Recife, 10 ago. 1984. Viver, [s.p.].
  • CRAVEIRO, Paulo Fernando. Para Beto Diniz. Diario de Pernambuco, Recife, p. A-7, 8 mar. 1989.
  • DINIZ, Beto [Carlos Roberto Diniz Silvino]. Curriculum Vitae. Rio de janeiro, 22 fev. 1979 [Acervo Antonio Cadengue]
  • DINIZ, Beto. Entrevista concedida a Lúcia Machado. Recife, 3 out. 1986. [Acervo Lúcia Machado].
  • FUNDAÇÃO DE CULTURA CIDADE DO RECIFE. As três farsas de Giramundo. Direção Carlos Bartolomeu. Recife, Teatro de Santa Isabel, programa, jul. 1985.
  • LACERDA, Ângela. O que o público não vê na montagem de uma peça. Diario de Pernambuco, Recife, 20 jul. 1977. Viver, [s.p.].
  • LIRA, Claudio. Beto Diniz: construtor de cenas. Recife, 1993, 203 p. [Livro inédito].
  • MACHADO, Lúcia. A Modernidade no Teatro - Ali e Aqui - Reflexos Estilhaçados. Vol. III. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986. p. 237-406.
  • MICHALSKI, Yan. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 set. 1977. Caderno B, [s.p.]
  • MOURA, Ivana. Beto Diniz: sem o seu talento, a cenografia pernambucana ficou mais pobre. Diario de Pernambuco, Recife, 6 mar. 1990. Viver, p. B-1.
  • Planilha enviada pelo Pesquisador Igor Almeida Não Catalogado
  • PONTES, Mariza. Beto, um personagem que arquiteta poemas cênicos. Diario de Pernambuco, Recife, 19 set. 1977. Viver, p. B-1.

Como citar?

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  • BETO Diniz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa513072/beto-diniz>. Acesso em: 18 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7