Artigo da seção pessoas Jairo de Andrade

Jairo de Andrade

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deJairo de Andrade: 1935 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Uruguaiana)

Biografia

Jairo de Andrade (Uruguaiana RS 1935). Ator, diretor, produtor. À frente do Teatro de Arena de Porto Alegre, Jairo de Andrade torna-se o principal nome gaúcho do teatro de resistência à ditadura militar nos anos 1970, com uma linha de valorização da dramaturgia nacional.

Chega a Porto Alegre em 1962 e faz o curso de arte dramática, vinculado à Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul (URGS). Ao formar-se, cria com as colegas Alba Rosa, Araci Esteves e Edwiga Falej o Grupo de Teatro Independente (GTI), uma tentativa de desenvolver o profissionalismo em Porto Alegre, numa época em que a maioria dos atores formados em arte dramática segue para São Paulo ou Rio de Janeiro em busca de trabalho.

O grupo excursiona pela fronteira oeste do estado gaúcho com a peça A Farsa da Esposa Perfeita, de Eddy Lima, em 1966. De volta a Porto Alegre, o GTI encena mais cinco peças no mesmo ano: Ratos e Homens, de John Steinbeck; Esperando Godot, de Samuel Beckett; Soraya Posto 2, de Pedro Bloch; Um Elefante no Caos, de Millôr Fernandes; e O Demorado Adeus, de Tennessee Williams. As temporadas são curtas, devido à histórica falta de teatros em Porto Alegre. O grupo começa a alimentar o sonho de ter sede própria.

Jairo de Andrade descobre uma área abandonada no subsolo de um edifício na subida do viaduto Otávio Rocha, no centro, onde inicialmente seria erguida uma fábrica de remédios. E é nesse local que os próprios atores constroem, em seis meses, o teatro, aproveitando material de construção recolhido em obras da cidade.

O GTI se dispersa e restam, como sócios, Jairo de Andrade e Alba Rosa, que constituem o Teatro de Arena, com o apoio de Câncio Vargas e Hamilton Braga. O Santo Inquérito, de Dias Gomes, com direção de Andrade, marca o início da trajetória do Teatro de Arena, em outubro de 1967. O pequeno teatro, com 120 lugares, torna-se palco de peças de Bertolt Brecht, Jean-Paul Sartre e Peter Weiss e dos brasileiros Plínio Marcos, Oduvaldo Vianna Filho, Consuelo de Castro, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri.

Paralelamente, Jairo de Andrade dirige uma gráfica que presta serviços principalmente a grupos de esquerda e entidades estudantis e chega a publicar quatro números de Teatro em Revista, com matérias sobre o mundo teatral. O vínculo político permite promoções conjuntas com diretórios acadêmicos que adquirem ingressos e os distribuem entre os estudantes, o que representa importante fonte de renda para o teatro. Em conjunto com o Diretório Central dos Estudantes, o Arena desenvolve o Teatro Jornal, com base nas experiências de Augusto Boal.

Os anos seguintes são marcados por dificuldades financeiras e políticas. Jairo de Andrade busca em vão as fontes oficiais de subsídios. Ao mesmo tempo, a linha de trabalho do Arena fica na mira da censura e da repressão policial. Jairo de Andrade consegue reverter as ameaças de proibição às montagens de Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, e de Os Fuzis da Senhora Carrar, de Brecht, mas em outubro de 1968, pouco antes da decretação do Ato Institucional nº 5, uma carta do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) ameaça explodir o teatro caso prossigam os ensaios de Feira Gaúcha de Opinião, adaptação da Primeira Feira Paulista de Opinião, encenada pelo Teatro de Arena de São Paulo. Durante a temporada de Os Fuzis, o teatro é invadido por tropas do exército, em busca das armas utilizadas no espetáculo. Andrade é preso e torturado para que confesse a origem das armas, na verdade, carcaças de fuzis emprestados pela Brigada Militar.

No início de 1969, Cordélia Brasil, de Antônio Bivar, com direção de Wagner Mello, é proibida no quinto dia de exibição, o que apressa a estreia de Jairo de Andrade como ator em Quando as Máquinas Param, de Plínio Marcos.

Marlise Saueressig ingressa no Teatro de Arena em 1971, inicialmente ajudando na produção dos espetáculos. A repressão contra o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) faz com que Andrade, vinculado ao partido, deixe Porto Alegre junto com Marlise. No ano de 1972, os dois viajam pelo Brasil promovendo cursos de expressão corporal em vários estados.

Retornam com ânimo renovado em 1974, mas as dificuldades econômicas prevalecem, levando-os a morar no teatro para conseguir pagar o aluguel do prédio. No mesmo ano, os dois estão em cena na peça À Flor da Pele, de Consuelo de Castro, com direção de José Rubens Siqueira. O crítico Antônio Hohlfeldt escreve: "Jairo de Andrade e Marlise Saueressig reanimam aquelas duas personalidades - o professor burguês e frustrado e a aluna revoltada e insatisfeita -, com um novo gosto que não se pode dizer de coisa boa, porque a peça é amarga demais para isso, mas que se pode qualificar tranquilamente como a melhor produção teatral já realizada pelo Arena local em toda a sua existência. Como nunca, À Flor da Pele tem gosto de teatro profissional".1 Praticamente em sua estreia no teatro, Marlise é saudada como uma grande atriz. É o maior sucesso de bilheteria do Teatro de Arena e permite que Andrade e Marlise finalmente comprem o teatro.

No ano seguinte, Jairo de Andrade é procurado pelo Instituto Cultural Brasil-Alemanha, que propõe uma produção conjunta. O texto escolhido é Mockinpott, de Peter Weiss. Para dirigi-lo, chega a Porto Alegre o espanhol José Luiz Gómez, que provoca uma revolução cênica e de profissionalismo na cidade. Andrade faz o papel do militar que compõe a tríade dos poderosos que oprimem o personagem principal. Depois de apenas uma semana em cartaz no Arena, Mockinpott segue para uma excursão pelo Brasil. No Rio de Janeiro, é recomendada pela Associação Carioca de Críticos Teatrais (ACCT), presidida por Yan Michalski. Mas, em São Paulo, a censura proíbe a montagem duas horas antes da estreia. Jairo de Andrade consegue mobilizar os meios culturais da cidade. Uma comissão, integrada por Raul Cortez, Ruth Escobar e Elis Regina, segue para Brasília e o espetáculo é liberado. Apesar do sucesso nacional de Mockinpott, os altos custos de produção praticamente consomem a renda obtida e as dificuldades econômicas ressurgem.

Na luta pela democracia, em meados dos anos 1970, o Teatro de Arena transforma-se em espaço de reuniões políticas, especialmente da campanha pela anistia. A abertura política praticamente encerra um ciclo de peças de contestação. Na falta de um novo repertório, Jairo de Andrade e Marlise tentam remontar sucessos antigos como Jornada de um Imbecil até o Entendimento, de Plínio Marcos, e Cordélia Brasil, recém-liberada pela censura, mas o público não comparece.

Como última tentativa, o Arena busca o recomeço, mobilizando dezenas de jovens interessados em teatro. É criado o Grupo Dramático Açores, que monta três peças simultaneamente e serve de berço para uma geração de novos artistas do teatro gaúcho que têm destacada atuação nas décadas seguintes, como Luciano Alabarse, Carlos Cunha, João Pedro Gil, Mauro Soares, Pedro Santos, Marta Biavaschi e Mirna Spritzer. 

As dívidas crescem e a situação se torna insuportável. Jairo de Andrade e Marlise abandonam as atividades teatrais. Uma mobilização da classe teatral impede que o prédio vá a leilão, mas o Teatro de Arena permanece fechado até 1987, quando é encampado pelo governo do estado. A reabertura do Arena é saudada pela classe artística com uma manifestação que conta com a presença de Andrade e Marlise. Na ocasião, Andrade declara: "O Teatro de Arena foi um lugar onde as pessoas lutaram pelo que acreditaram e tentaram ser felizes. Hoje estamos tranquilos porque sabemos que, com o que se passou, o Arena jamais deixará de ser o que foi na nossa época: antes de tudo, um teatro".2

Notas

1 HOHLFELDT, Antônio. À Flor da Pele é a própria essência do Arena. Correio do Povo, jun. 1973.

2 GUIMARAENS, Rafael. Teatro de Arena: palco de resistência. Porto Alegre: Libretos, 2007.

Outras informações de Jairo de Andrade:

  • Habilidades
    • diretor de teatro
    • Ator
    • Produtor

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Fontes de pesquisa (2)

  • GUIMARAENS, Rafael. Teatro de Arena: Palco de Resistência. Porto Alegre. Libretos, 2007.
  • KILPP, Suzana. Os cacos do teatro: Porto Alegre anos 70. Porto Alegre: Unidade Editorial PMPA, 1996.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JAIRO de Andrade. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa508224/jairo-de-andrade>. Acesso em: 21 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7