Artigo da seção pessoas José Carlos Mário Bornancini

José Carlos Mário Bornancini

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deJosé Carlos Mário Bornancini: 1923 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Caxias do Sul) | Data de morte 24-01-2008 Local de morte: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Biografia
José Carlos Mário Bornancini (Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, 1923 - Porto Alegre, Rio Grande do Sul,  2008). Engenheiro e designer. Forma-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1946. Ingressa na carreira docente no ano seguinte, como assistente da disciplina de desenho técnico na Escola de Engenharia da UFRGS. Nessa época, tem contato com o trabalho do arquiteto Eugene Steinhof (1880-1952), professor na UFRGS.

Leciona na Faculdade de Arquitetura e no então Departamento de Expressão Gráfica da mesma universidade, ministrando as disciplinas de desenho artístico, desenho à mão livre e desenho técnico. Em 1948, trabalha como engenheiro no Departamento de Hidrografia e Navegação da Marinha Brasileira. Em 1952, é criado o núcleo autônomo da Faculdade de Arquitetura da UFRGS que pesquisa integração entre arte e técnica. Nesse período, Bornancini trabalha com design.

Leciona desenho geológico no curso de Formação de Geólogos da UFRGS em 1957. Funda, em 1960, a cadeira de desenho técnico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) e, em 1963, organiza  a cadeira de Desenho Técnico da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Santa Cantarina (UFSC), na qual dá aula por dois semestres.

A partir de 1963, trabalha com o arquiteto Nelson Ivan Petzold (1931), que integra o corpo docente da UFRGS. Em 1966, ambos trabalham para a Todeschini, então fabricante de acordeões, assessorando a pesquisa e desenvolvimento de um novo produto no setor moveleiro. Torna-se diretor do Departamento de Educação e Cultura da UFRGS em 1968. Participa da Exposição Internacional de Desenho Industrial no Rio de Janeiro em 1969.

Desenvolve os talheres Camping (1974), para a Zivi-Hercules, que integram, desde 1976, o grupo de produtos da loja do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Bornancini e Petzold produzem, ao longo de quatro décadas de parceria, centenas de patentes, muitas delas internacionais. Desenvolvem, com o professor Henrique Orlandi Jr., o sistema de ensino de desenho técnico à mão livre da UFRGS. Os três são autores da coleção Desenho Técnico Básico - Fundamentos Teóricos e Exercícios à Mão Livre - Vol. I e II (1978), referência para o ensino do desenho técnico em todo o país.

Torna-se, em 1978, membro de uma comissão do Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação e Cultura (DAU/MEC) para a reformulação do currículo básico dos cursos de Desenho Industrial no país.

Cria, com Petzold e Paulo Müller, a Bornancini Petzold & Müller em 1994 em Porto Alegre, atuante até 2006.

Recebem diversas premiações, entre as quais o Lápiz de Plata da Bienal de Diseño de Buenos Aires, em 1985, e a homenagem na 2a Bienal Brasileira de Design em 2008. Em 2006, a Associação dos Profissionais em Design do Rio Grande do Sul (Apdesign) institui o Prêmio Bornancini, voltado para a produção de design no Rio Grande do Sul.

Análise da trajetória
José Carlos Bornancini é um dos pioneiros do design de objetos industrializados no Brasil. Interessado não apenas no puro funcionalismo, difundido pela Bauhaus, seus projetos revelam acurada atenção às múltiplas facetas que envolvem a relação dos usuários com os produtos. Em parceria com o arquiteto Nelson Ivan Petzold desde 1963, valorizou as dimensões funcionais e afetivas dos produtos e a inovação tecnológica, visando eficiência e economia de meios.

A trajetória de Bornancini acompanha a consolidação da atividade no país. Nos anos 1960 e 1970, a união do design com a indústria é uma novidade que desperta descrédito no setor industrial brasileiro. Ainda assim, Bornancini defende a inserção do trabalho do designer no processo de produção das fábricas, para possibilitar inovações. A intimidade de sua equipe com o processo de fabricação dos produtos foi propiciada por parcerias de longo prazo com os clientes. Suas criações têm origem na observação da linha de montagem e na integração com especialistas das fábricas.

A primeira longa parceria resulta no modelo de fogão Visomaster (1959) para a metalúrgica Wallig, com a qual trabalha por doze anos. O modelo Wallig Nordeste é premiado em 1968 no 4o Salão de Arquitetura do Rio Grande do Sul. Para este projeto os designers reduzem em 15 cm a altura padrão dos fogões, para adaptá-los ao biotipo dos usuários brasileiros, com economia de materiais.

Em 1966, quando trabalham para a Todeschini, então fabricante de acordeões, Bornancini e Petzold assessoram a empresa na pesquisa de mercado e avaliação da estrutura da fábrica, em busca de um novo produto. Chegam a um sistema modular de composição dos móveis para a cozinha, com o desenvolvimento de acessórios específicos, como dobradiças especiais, na própria fábrica. A reestruturação fabril envolveu os designers em todos os setores da produção. Uniu o gosto pelas cozinhas americanas metálicas, adaptou-as à tradição de produção local, vinculada à madeira e adicionou, ainda, a versatilidade da montagem com a mescla de materiais.

Desenvolvem, em 1968, as rolhas Giromagic para garrafas térmicas da Termolar, patenteadas em 16 países. O modelo permite servir o líquido sem a remoção da tampa. Já as garrafas Chimarritas são pensadas especificamente para o público do sul e seu uso do chimarrão. A produção de garrafas térmicas da Termolar, em seus diferentes modelos, chega a atingir 55% do consumo nacional.

A criação de um produto inteiramente novo, como a geladeira para camping Gelita (ca. 1980), da Termolar, é baseada nas necessidades de um segmento da população. Por meio de pesquisa, constata-se o uso de caixas de isopor em atividades ao ar livre por não haver um produto específico para este fim. A Gelita, que pode ser usada na posição vertical e horizontal, com a abertura da porta para a esquerda ou direita, possui capacidade para 64 litros, acabamento antiferrugem e compartimentos removíveis.

Para as empresas Zivi-Hercules e Hercules/Mundial desenvolvem linhas de produtos de ampla aceitação nacional e internacional. A tesoura Mundial Multiuse (1972) apresenta precisão e conforto no manuseio. O desenho dos olhais permite o encaixe de todos os dedos e o uso por destros ou canhotos. As tesouras Softy foram lançadas, em 1993, na Feira Internacional de Frankfurt, Alemanha, onde foram rapidamente vendidas. Possuem características semelhantes à Multiuse, porém, com anéis flexíveis nos olhais que diminuem o incômodo pelo uso contínuo. Cópias da tesoura são produzidas em diversos países,embora o projeto seja protegido por patente internacional. Já a Faca de Corte Laser se diferencia pela lâmina de aço inoxidável com microsserrilha e pelo cabo anatômico, conciliando, mais uma vez, conforto e precisão.

Os Talheres Camping (1974), também elaborados para a Zivi-Hercules, integram, desde 1976, os produtos da loja do MoMA. O produto reúne desenho inovador, em aço inoxidável, e praticidade na forma como a colher, o garfo e a faca encaixam-se uns aos outros. Nas décadas de 1970 e 1980, desenvolvem para a mesma empresa uma linha de talheres com motivos infantis, Talheres Comer Brincando (1975) concebidos como os personagens Príncipe Garfo, Cão Faquinha e Princesa Colher, acompanhados por um prato e um copo de inox. O conjunto atinge cerca de 2,5 milhões de unidades vendidas, marcando toda uma geração de consumidores.

Mais tarde, Bornancini desenvolve com Petzold e Paulo Müller a cabine Skyline de Elevadores Sûr, com a qual recebe o Prêmio Museu da Casa Brasileira em 1996. A cabine, que possui teto curvo, traz uma sensação de amplitude ao espaço e auxilia no transporte de objetos altos. O painel possui inclinação de 45º em relação à parede, para facilitar a visualização, e caracteres em braille.

Outra característica de sua produção, é a versatilidade de materiais e a variedade dos produtos desenvolvidos. Bornancini e Petzold projetam tratores, elevadores, computadores, utensílios domésticos, materiais escolares, etc., para empresas como Gerdau, Massey Fergusson, Springer, Mercur, entre outras.

A partir de meados da década de 1990, o design brasileiro passa a ser objeto de atenção  governamental, na tentativa de incremento da indústria nacional, em projetos como o Programa Brasileiro do Design (PBD), do Ministério da Indústria e do Comércio. O PBD é pensado para criar uma espécie de marca brasileira que diference os produtos nacionais no mercado externo.

O trabalho de Bornancini promove a internacionalização do design brasileiro e contribuiu com a estruturação de diversos cursos de desenho industrial em todo o país.

Outras informações de José Carlos Mário Bornancini:

  • Outros nomes
    • José Carlos Mário Bornancini
  • Habilidades
    • designer
    • engenheiro civil

Exposições (2)

Fontes de pesquisa (13)

  • BORGES, Adélia. Bornancini & Petzold, uma homenagem. Catálogo da II Bienal Brasileira de Design, Brasília, 2008, p. 132-145. Disponível em:<

    http://www.adeliaborges.com/wp-content/uploads/2011/02/12-15A-2009-miolo-II-bienal-brasileira-de-deisgn1.pdf >. Acesso em: 20 set.15.

  • BORGES, Cesar. ‘Design’ brasileiro será artigo de exportação. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 16 out. 1995. Negócios & Finanças, p. 12.
  • BORNANCINI, José C. M.; ORLANDI JR., Henrique; PETZOLD, Nelson. Desenho Técnico Básico - Fundamentos Teóricos e Exercícios à Mão Livre - Vol. I e II. Porto Alegre: Liv. Sulina, 1978. 
  • BRASIL Faz Design 2002. São Paulo: Brasil Faz Design, 2002.
  • BRASIL FAZ DESIGN, 4., 2000, São Paulo, SP. Brasil Faz Design 2000: design e madeiras do Brasil. Curadoria Marili Brandão, Fábio Magalhães, Christian Ullmann; projeto gráfico Claudio Ferlauto; coordenação editorial Marili Brandão; texto Maria Cecília Loschiavo dos Santos; apresentação Sergio Tutikian, Henrique Pessoa Pereira Alves; introdução Marili Brandão, Fábio Magalhães; tradução Rita de Cássia Guarino, Carlotta Zoni, Eduardo Quartim; texto Marili Brandão, Christian Ullmann, Francisco Homem de Melo. São Paulo: Brasil Faz Design, 2000. 80 p., il. color.
  • COSSIO, Gustavo; CURTIS, Maria do Carmo. O projeto de Bornancini e Petzold: um estudo sobre inovação no produto para a Todeschini. 10º P & D Design – Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, São Luís, 2012.
  • CURTIS, Maria do Carmo; HENNEMANN, Helena. Bornancini - Uma Trajetória no Design de Produto. 7º P & D Design – Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, Paraná, 2006
  • DESENHO Industrial Gaúcho. Porto Alegre: Margs, 1978.
  • I BIENAL brasileira de design: catálogo oficial. Curitiba: Bienal Brasileira de Design, 1990. 
  • LEITE, João de Souza. Sotssas e Bornancini, duas perspectivas, uma lição. In: D2B Design To Branding Magazine, São Paulo, Porto Alegre, p. 19-25, jul 2008. Disponível em:< http://gad.com.br/PT/d2b/detalhe-d2b/5 >. Acesso em: 23 set. 2015.
  • MOMA: The Museum of Modern Art: design. São Paulo: Centro Cultural FIESP, s/d.
  • STEPHAN, Auresnede Pires (Coord.). 10 Cases do design brasileiro: os bastidores do processo de criação. São Paulo: Editora Blucher, 2010. v.2.
  • TERMOLAR coloca 20% de sua produção no exterior. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 16 fev 1981. Economia, p. 12

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOSÉ Carlos Mário Bornancini. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa486967/jose-carlos-mario-bornancini>. Acesso em: 19 de Nov. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7