Artigo da seção pessoas Alaíde Costa

Alaíde Costa

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deAlaíde Costa: 08-12-1935 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Alaíde Costa Silveira Mondin Gomide (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1935). Cantora e compositora. Nascida no subúrbio carioca do Méier, quem a incentiva a tentar a música é o irmão mais novo, que a inscreve num concurso de calouros de um circo do bairro. Em seguida, apresenta-se como cantora mirim nas rádios Clube do Brasil e Tupi, em programas comandados por Renato Murce (1900-1987) e Paulo Gracindo (1911-1995).

Aos 16 anos, inscreve-se no programa de calouros de Ary Barroso (1903-1964) e interpreta “Noturno em Tempo de Samba” [Custódio Mesquita (1910-1945), Evaldo Ruy (1913-1954)]. Recebe a nota máxima e continua tentando em diversos concursos de calouros da época.

Em 1955, assina o primeiro contrato artístico como crooner do Dancing Avenida. Grava seu 78 rpm de estreia em 1956, pela Mocambo, com a música “Tens que Pagar”, de sua autoria em parceria com Airton Amorim (1921). No ano seguinte, ao registrar o bolero “Tarde Demais” [Raul Sampaio (1928), Hélio Costa] pela Odeon, profissionaliza-se no rádio e nos estúdios de gravação.

Durante a produção do terceiro 78 rpm, por intermédio de João Gilberto (1931), aproxima-se da turma da bossa nova. Em 1959, ao lado de Sylvia Telles (1934-1966), Billy Blanco (1924-2011), Ronaldo Bôscoli (1928-1994), Carlos Lyra (1939) e Roberto Menescal (1937), participa do 1o Festival de Samba Session, no Rio de Janeiro.

No mesmo ano, lança seu primeiro LP, Gosto de Você. Como compositora, cria sozinha “Afinal”, faixa título de seu disco de 1963, ou com parceiros, a exemplo das canções “Amigo Amado”, com Vinicius de Moraes (1913-1980); “Canção do Amor sem Fim” e “Canção do Breve Amor”, com Geraldo Vandré (1935); “Você é Amor”, com Tom Jobim (1927-1994), e “Meu Sonho”, com Johnny Alf (1929-2010).

Em 1962, casa-se com o locutor Mário Lima e transfere-se para São Paulo.

Apresenta-se no show O Fino da Bossa, em São Paulo, em 1964, interpretando “Onde está Você”, composição de Oscar Castro Neves (1940-2013) e Luverci Fiorini.

No ano seguinte, em Alaíde & Alaúde, divide o palco do Theatro Municipal de São Paulo com o violonista Antonio Carlos Barbosa-Lima (1944), em espetáculo de canções renascentistas dirigido pelo maestro Diogo Pacheco (1925).

Sofrendo de otoesclerose, afasta-se da música para tratar o problema. Após cirurgias em ambos ouvidos, retoma a carreira no início dos anos 1970, quando grava, em dueto com Milton Nascimento (1942), o samba “Me Deixa em Paz” [Monsueto Menezes (1924-1973), Airton Amorim (1921)], incluído no disco Clube da Esquina (1972).

Ao longo das décadas seguintes, lança mais de uma dezena de álbuns, com destaque para trabalhos em parcerias. Entre elas, com o produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho (1935) – Águas Vivas (1982) e Rasguei Minha Fantasia (2001) – e com o pianista João Carlos Assis Brasil (1945), com que grava Alaíde Costa & João Carlos Assis Brasil, (1995) e Voz & Piano (2006).

Em 2003, ao lado de Johnny Alf, apresenta-se no Queen Elizabeth Hall, em Londres, durante o London Jazz Festival. Em 2013, realiza um espetáculo com seu repertório autoral, no Sesc Santana, em São Paulo.

Análise

Alaíde Costa pode ser considerada uma estilista da música popular brasileira, definidora de uma maneira de cantar. Com voz suave, segura, e de grande domínio técnico (especialmente nas regiões mais agudas), caracteriza-se pela emissão delicada que dispensa o uso de vibratos. Sua principal influência – mais pelo jeito de interpretar do que pelo estilo vocal propriamente dito – é a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972).

Em seu repertório, prevalecem as canções românticas e dolentes, de ritmo lento e cadenciado. Não se intimida com as dificuldades impostas por harmonias e melodias intrincadas, a exemplo de “Noturno em Tempo de Samba” (Custódio Mesquita, Evaldo Ruy), “Onde Está Você?” (Oscar Castro Neves, Luvercy Fiorini), “Viver de Amor” [Toninho Horta (1948), Ronaldo Bastos (1948)] e “Noturna” [Guinga (1950), Paulo César Pinheiro (1949)].

Consegue imprimir seu estilo em sambas mais ritmados, com graça e habilidade nos vocalizes, como “Sonho de um Carnaval” [Chico Buarque (1944)], “Catavento” (Milton Nascimento) e “Valha-me Deus” [Baden Powell (1937-2000), Hermínio Bello de Carvalho] e “A Voz do Povo” [João do Vale (1933-1996), Luiz Vieira (1928)].

O amor é o tema central, inclusive nas composições em que Alaíde assina letra e música. Na música “Saída”, canta:

Daí eu saí de mansinho
Levando amor dentro em mim
Amor amado sozinho
É coisa de incomodar
Eu sou essa mulher tão triste
Que canta pra desabafar.  

O perfil intimista harmoniza-se com o primeiro momento da bossa nova. No entanto, essa personalidade musical não se revela de imediato em sua discografia. Seu LP de estreia, por exemplo, Gosto de Você, deveria ter João Gilberto ao violão. Como a gravadora contrata orquestra e arranjadores, João Gilberto não faz parte do LP. Por isso, os arranjos do álbum têm outra tônica e as quatro bossas do repertório, incluindo “Lobo Bobo” (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli) e “Minha Saudade” [João Donato (1934), João Gilberto], perdem a relação voz e violão, característica do gênero.

A sintonia entre voz e instrumentistas aparece no disco seguinte, Alaíde Canta Suavemente (1960). Apesar de alguns arranjos aproximarem-se mais do ritmo de gafieira, nota-se a intenção dos maestros Carioca (1910-1991), Nelsinho (1927-1996) e Mozart Brandão (1921-2006) de adaptar as canções ao estilo de Alaíde. Nesse trabalho, ela é responsável por colocar no mercado três músicas inéditas do repertório bossanovista: “Jura de Pombo” (primeira música composta por Roberto Menescal, com letra de Ronaldo Bôscoli), “Chora Tua Tristeza” (Oscar Castro Neves, Luvercy Fiorini) e “Fim de Noite” [Chico Feitosa (1935-2004), Ronaldo Bôscoli].

A sonoridade de Alaíde Costa começa a prevalecer no terceiro disco, quando interfere na produção. Pode, assim, trabalhar com os instrumentistas com que se identifica. Para cuidar dos arranjos, são escalados: Baden Powell em Joia Moderna (1963); Erlon Chaves (1933-1974) e Oscar Castro Neves em Alaíde Costa (1965); João Donato em Coração (1976) e Gilson Peranzzetta (1946) em Tudo que o Tempo Me Deixou (2005).

A mudança para São Paulo também marca sua música. A maior parte do repertório filia-se a corrente paulista da bossa nova, incluindo imigrados como o carioca Theo de Barros (1943), de quem grava “Natureza” e “Igrejinha”; o baiano Walter Santos (1939-2008), com “Cadê o Amor”; o paraibano Geraldo Vandré, com “Tristeza de Amor”; a paulista Vera Brasil (1932-2012), com “Rimas de Ninguém”, e Paulinho Nogueira (1929-2003), com “Ouvi Tua Voz” e “Historinha”.

A maior cumplicidade é com Johnny Alf, pianista e compositor, também negro, carioca e radicado na capital paulista. A amizade deles está sintetizada no CD tributo Alaíde Canta Johnny em Tom de Canção (2011). Embora considerados os principais responsáveis pela divulgação da bossa nova na cidade, sentem-se marginalizados quando o movimento ganha maior projeção e conquista o mundo.

Para Alaíde a razão é o preconceito e a discriminação racial, responsáveis também pelas dificuldades que enfrenta no mercado fonográfico. Em depoimento ao jornalista Tom Cardoso1, a cantora comenta: “Fui, sim, vítima de racismo na bossa nova, tenho absoluta certeza. Não só por parte de produtores e empresários, que achavam que uma negra só devia cantar sambas e rebolar, como pelos próprios artistas, que nunca mais me procuraram”.

Outra característica marcante da intérprete é a fidelidade à letra da canção e o cuidado com o sentido das palavras cantadas. O samba “Me Deixa em Paz” (Monsueto Menezes, Airton Amorim) é lançado pela cantora Linda Batista (1919-1988), em 1951, em ritmo de batucada. Nas vozes do duo Alaíde e Milton Nascimento torna-se lamento magoado, em interpretação que consagra a música.

No CD Rasguei Minha Fantasia, dedicado ao repertório carnavalesco, as composições são despidas do tom festivo e alegre para revelar as angústias e tristezas descritas nas letras. “Ouçam-na cantar o Taí [Pra você gosta de mim (Joubert de Carvalho, 1900-1977)] e duvido que não desabem quando ela expõe todos os fracassos amorosos que aquela canção revela. É de uma tristeza comovente, de uma melancolia que nos faz sentir o sentido total da palavra abandono, da interrogação que se faz diante do ato inexorável com que nos destituem de um amor"2, comenta o compositor Hermínio Bello de Carvalho, que assina a produção artística do álbum.

Notas

1 CARDOSO, Tom. "Fui vítima de racismo na bossa nova", diz Alaíde. Valor Econômico, São Paulo, 20 fev. 2003.

2 CARVALHO, Hermínio Bello de. Alaíde Costa, a navalha na voz. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,14 jun. 2004.

Outras informações de Alaíde Costa:

Espetáculos (1)

Eventos relacionados (2)

Fontes de pesquisa (11)

  • BORELLI, Helvio. Noites paulistanas: histórias e revelações musicais das décadas de 50 e 60. São Paulo: Arte & Ciências, 2005.
  • CARDOSO, Tom. "Fui vítima de racismo na bossa nova", diz Alaíde. Valor Econômico, São Paulo, 20 fev. 2003.
  • CARVALHO, Hermínio Bello de. Alaíde Costa, a navalha na voz. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,14 jun. 2004.
  • CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.
  • INSTITUTO Memória Musical Brasileira. Rio de Janeiro. Disponível em < http://www.memoriamusical.com.br >. Acesso em: 7 dez 2013.
  • MÁXIMO, João. Benção a uma das vozes favoritas da bossa nova. O Globo, Rio de Janeiro, 27 mar 2005.
  • PAVAN, Alexandre. Timoneiro: perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006.
  • SANTHIAGO, Ricardo. Solistas dissonantes: história (oral) de cantoras negras. São Paulo: Letra e Voz, 2009.
  • SOARES, Dirceu. Johnny, Alaíde e a brisa que atingiu a bossa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1 ago. 1978.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ALAÍDE Costa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa457142/alaide-costa>. Acesso em: 17 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7