Artigo da seção pessoas Sabotage

Sabotage

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deSabotage: 03-04-1973 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 24-01-2003 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Mauro Mateus dos Santos (São Paulo, São Paulo, 1973 - idem 2003). Rapper, ator. Reside, até 1998, na favela do Canão, no bairro do Brooklin, muda-se posteriormente, com os filhos e a esposa, para as favelas da Paz, do Morro e do Autódromo, todas no bairro de Interlagos, zona sul da cidade de São Paulo. Ex-interno da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), atual Fundação Casa, o rapper envolve-se com o crime desde a infância, assim como seu irmão, morto no massacre do Carandiru, em 1992, e seu tio, condenado a 28 anos de prisão. Mas, por volta de 1985, interessa-se pelo rap e começa a compor.

Ao contrário da geração inicial do hip-hop de São Paulo, não frequenta o Largo São Bento, um dos principais pontos de encontro dos garotos da "cultura de rua", mas vai com assiduidade aos bailes funks, em que ocorrem as primeiras apresentações de rap na cidade, em meados dos anos 1980. Nos concursos de rap organizados pela equipe de bailes Zimbabwe, conhece Mano Brown (1970) e Ice Blue, integrantes do grupo Racionais MC's, no fim da década de 1980. Com incentivo do chefe do tráfico do Canão e apoiado pelos rappers Rappin Hood (1971) e Helião, passa, no fim dos anos 1990, a dedicar-se à música e participa de shows e gravações de vários artistas. Lança seu único álbum, Rap É Compromisso, em 2001, pelo selo independente Cosa Nostra, dos Racionais MC's.

Participa, interpretando a si mesmo, do filme Invasor, do diretor Beto Brant (1964). Além de atuar, faz músicas para a trilha do filme e colabora com o roteirista Marçal Aquino (1958), ajudando a compor as falas do personagem Anísio, um matador de aluguel interpretado pelo músico e ator Paulo Miklos. Pela trilha desse filme, é premiado nos festivais de cinema de Brasília e do Recife, em 2002. Nesse ano, participa de uma coletânea do selo Instituto, cantando o samba "Dama Tereza", e recebe dois Prêmios Hutus, um dos mais importantes do rap nacional, nas categorias personalidade do hip-hop e revelação. A convite do diretor Hector Babenco (1946), atua em Carandiru, lançado em 2003, e compõe com o diretor uma música para a trilha sonora do filme.

Entre seus parceiros de composição e shows destacam-se os rappers Helião, Negra Li (1979), Sandrão, Black Alien, Rappin Hood, Sombra, Bastardo, B Negão, os DJs e os produtores DJ Cia, Zé Gonzáles e Ganja Man. Sabotage morre, assassinado, no dia 24 de janeiro de 2003, no meio da rua, após deixar a mulher no trabalho.

Em 2016, é lançado o disco Sabotage, disco póstumo que reúne composições do rapper com a participação e releitura de artistas que trabalharam com Sabotage, como Rappin Hood e Negra Li, além de djs como Daniel Ganjaman e a dupla Tropkillaz.

Análise

Por meio do rap, Sabotage revela seu cotidiano na periferia da cidade de São Paulo, a relação com os amigos, família, favela, polícia, e trata de questões como a marginalidade, discriminação e drogas. Utiliza com propriedade a linguagem - expressões e gírias - dos jovens marginalizados e envolvidos com o crime. "Dar um pega", "viagem", "quebrada", "só no sapatinho", "fininho", "verdinho", "cavernoso", "dedo de gesso", "piolho", "loque", "se pá", "Zé Povim" e "tamanduá quer te abraçar" são termos que aparecem em suas letras, e, em alguns casos, até na forma ortográfica correspondente à linguagem falada.

Como é característico do rap, suas rimas seguem a cadência da base rítmica produzida com amostras (samples) musicais de gêneros como soul e funk. Mas Sabotage tem facilidade de compor sobre bases de outros gêneros musicais, como samba, música eletrônica e rock, o que pode ser observado em músicas como "Dama Tereza" (Instituto - Coleção Nacional, 2002), "Aracnídeo" (O Invasor, 2002), "Cabeça de Nego" (Selo Instituto na Coleta Seletiva, 2005).

Seu único disco lançado, Rap É Compromisso, é um projeto pedagógico para salvar os "manos da criminalidade". Ele acredita que por meio de conselhos e exemplos pode instruir os jovens da favela a não se envolver com o tráfico, e sim com o rap, que, para ele, é uma alternativa ao crime. As adversidades enfrentadas pelo soldado do tráfico, o vício, a morte precoce, as prisões, a relação com polícia, e a dificuldade de se desvencilhar desse sistema criminoso, são descritas em suas letras, como em "Cocaína" (2001):

São vários jogo di baralho marcado
É foda. é ve meus manos nesse estado
Irmãos que desandaram viajaram não ficaram lúcidos
Chupando manga só o pó sujos
Imundo é foda. essa parada
Sujeito a tudo ou nada
Só fita furada
Ta devendo
E nunca paga
Em outras áreas recebe o nome de canalha
Irmão se for parar então que faça já
Porque vários já morreram"

Na maioria das suas letras, Sabotage reafirma essa missão salvadora do rap e descreve suas atitudes como criminoso, quase como uma autobiografia de quem tem um pé no crime e outro na vida artística, como na música "Incentivando o Som" (2001):

"Esta vida: favela, nossas opção
é só ter malícia
Talvez um desastre, o peso da maldade
não posso viajar sem esquecer da realidade
na calma ligue o rádio
da casa então do carro
em questão de tempo, o rap ira te envolver
tera a atitude capaz de entender
mais vale aquele homem que honre sua virtude
não preciso de capataz, dou meu sangue
minha mãe se foi, meus filhos veio, cresceram no veneno
No morro do Piolho, Adeus-Xambau moreno
'nono' via as coisas, se tumultoa
voce me fez lembrar, não posso marcar toca
so vou pra arrebento se for mesmo fita boa
Nossa, em cana ainda vai, mas jaz
é roça"

 

 

Outras informações de Sabotage:

  • Outros nomes
    • Mauro Mateus dos Santos
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor

Fontes de pesquisa (4)

  • AMARAL, Marina. Som e fúria: a saga de Sabotage. In: ESPECIAL Caros Amigos. Hip Hop Hoje, n. 24, jun. 2005.
  • PENNA, João Camillo. Espaços da (In) Segurança Nacional: ensaio sobre a soberania. In: MARGATO, Izabel (Org.). Espécies de espaço: territorialidades, literatura, mídia. Belo Horizonte: UFMG, 2008. p. 211-246.
  • SABOTAGE - documentário - direção; Ivan Vale Ferreira, Tiago Bambini e Pedro Caldas. São Paulo: 13 Produções, 2003.
  • SOUSA, Ana Paula. Lições de Sabotage. In: Carta Capital. São Paulo, ano 8, nº 186, p. 56-58, 24 abr. 2002.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • SABOTAGE . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa454562/sabotage>. Acesso em: 24 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7