Artigo da seção pessoas Carlos Nelson Ferreira dos Santos

Carlos Nelson Ferreira dos Santos

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deCarlos Nelson Ferreira dos Santos: 1943 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 1989 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Carlos Nelson Ferreira dos Santos (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1943 - idem 1989). Arquiteto, urbanista, antropólogo, professor. Ingressa na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ em 1962 e forma-se em 1966. Participa do movimento estudantil e do trabalho de medicina social e sanitária desenvolvido pelos colegas da Faculdade de Medicina nas favelas cariocas Catumbi e São Carlos, onde conhece a Federação de Favelas do Estado da Guanabara - Fafeg da qual se torna assessor urbanístico e habitacional. Em 1967, é criada a secretaria executiva do Grupo de Trabalho, GT 3881, vinculada à Companhia do Progresso do Estado da Guanabara - Copeg, que encarrega o Centro de Pesquisas Habitacionais - Cenpha, de realizar um levantamento urbanístico de três favelas cariocas, para o qual Ferreira dos Santos é contratado ao lado dos colegas Sylvia Lavenère-Wanderley, Sueli de Azevedo e Rogério Aroeira Neves, com quem funda a Quadra Arquitetos Associados Ltda. A Companhia de Desenvolvimento de Comunidades - Codesco, fundada em 1968, contrata a Quadra para assessorar e executar seus planos urbanísticos e habitacionais, e o primeiro deles é desenvolvido pelos arquitetos para a favela Brás de Pina. Além do plano urbanístico, a Quadra é responsável pela elaboração das unidades habitacionais, que começam a ser construídas em 1969. Por cinco anos, Ferreira Santos trabalha no canteiro de obras, acompanhando a implantação dos projetos e recolhendo dados para as necessárias adequações. A companhia é extinta em 1975 e então o arquiteto passa a integrar, como assessor especial e depois diretor, o Instituto Brasileiro de Administração Municipal - Ibam, onde permanece até sua morte.

Em 1971, é pesquisador visitante no Massachusetts Institute of Technology - MIT. Defende, em 1979, no Museu Nacional da UFRJ, a dissertação de mestrado Três Movimentos Sociais Urbanos no Rio de Janeiro, publicada com o título Movimentos Urbanos no Rio de Janeiro, em 1981. Em 1984, doutora-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, com a tese Formações Metropolitanas no Brasil, e é professor do programa de mestrado do curso de geografia econômica industrial da UFRJ e da graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense - UFF em Niterói, Rio de Janeiro.

É autor dos livros Quando a Rua Vira Casa, de 1981, roteiro do filme de mesmo nome realizado por Ferreira dos Santos e Tetê Morais, em 1980; A Cidade como um Jogo de Cartas, em 1988, fruto da tese apresentada para o curso de professor titular da UFF, defendida em 1985; do estudo Seis Novas Cidades em Roraima, realizado pelo Ibam em 1985; e da série de artigos publicados na seção Cartas Urbanas da revista Projeto, criada especialmente para ele nos anos 1980. Na década de 1960, é premiado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil - IAB, nas categorias planejamento urbano e arquitetura religiosa e, em 1988, recebe o Prêmio Pereira Passos por sua contribuição à capital fluminense.

Análise

Carlos Nelson Ferreira dos Santos define-se como um "antropoteto", uma mistura de antropólogo e arquiteto. O foco central de seus interesses é o outro lado da metropolização das cidades brasileiras em curso desde os anos 1950: a expansão desordenada da periferia e o crescimento acelerado das favelas. Preocupado em compreender como a cidade se constrói, mas, sobretudo, como ela poderia se construir, Ferreira dos Santos revê o papel da arquitetura e propõe uma aproximação entre o saber erudito e o popular. Sua reflexão sobre o tema, expressa em artigos, livros, palestras e aulas, e na atuação na Federação de Favelas do Estado da Guanabara - Fafeg; na Companhia de Desenvolvimento de Comunidades - Codesco, e no Instituto Brasileiro de Administração Municipal - Ibam, é reconhecida, em 1988, com o Prêmio Pereira Passos.

O arquiteto e alguns colegas - entre eles Sylvia Lavenère-Wanderley, Sueli de Azevedo e Rogério Aroeira Neves, com quem funda a Quadra Arquitetos Associados Ltda - aproximam-se de entidades como a Fafeg com o intuito de "tentar aprender, através da observação de suas práticas e do registro direto de seus discursos, qual era a sua 'realidade' e oferecer-lhes em troca as contribuições possíveis dentro do [...] campo específico" de arquiteto.1 É por meio dessa entidade que é apresentado, em 1964, à associação de moradores da favela de Brás de Pina, ameaçada de desocupação pelo governo estadual na gestão de Carlos Lacerda. Percebendo que a única possibilidade de se manter naquele local é a formulação de uma alternativa à política habitacional do governo de desocupação e transferência de favelados para conjuntos habitacionais construídos nos limites da cidade, os moradores, com a ajuda de Ferreira dos Santos, propõem a urbanização da favela, ou seja, a legalização da posse de terra, a execução de infraestrutura e a reconstrução definitiva das moradias. O plano de urbanização, desenvolvido e discutido com os moradores, só é viabilizado em 1967, quando o governo de Francisco Negrão de Lima cria a secretaria executiva do Grupo de Trabalho, GT 3881. É ela que encomenda ao Centro de Pesquisas Habitacionais - Cenpha, o levantamento das favelas Brás de Pina, Morro Azul e Catumbi, em parte realizado pela Quadra. Esse levantamento complementa o realizado anteriormente para a associação de moradores, e subsidia o plano de urbanização do escritório, cuja característica marcante é o respeito à conformação urbana da favela, expresso no sistema viário - redesenhado para atender à necessidade de infraestrutura e integração aos bairros circundantes com base nas ruas existentes - e nas novas casas, redesenhadas pelos arquitetos a partir das propostas dos moradores.

A observação das relações sociais estabelecidas entre favelados, técnicos e o estado, além das redes de significado construídas antes e depois do plano de urbanização, aproxima-o da antropologia, levando-o a retomar a experiência na dissertação de mestrado Três Movimentos Sociais Urbanos no Rio de Janeiro, defendida em 1979 no Museu Nacional da UFRJ - origem do livro Movimentos Urbanos no Rio de Janeiro de 1981. Ainda nos anos 1960, o arquiteto concebe, com Sylvia Lavenère-Wanderley e Sueli de Azevedo, a Capela do Cristo Redentor (não construída), na favela Catumbi, menção honrosa na 5ª Premiação do Departamento do Estado da Guanabara do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB, em 1967. Nesse projeto, os arquitetos novamente procuram aproximar o edifício dos moradores, empregando para isso técnicas construtivas populares, como o solo cimento2 e a madeira, num edifício que pretende se inserir e dialogar com o entorno existente.

A preocupação com o crescimento das metrópoles, aliada à busca de novas políticas e estratégias de intervenção urbana adequadas ao contexto das periferias metropolitanas e ao momento histórico do país, é retomada na tese de doutorado Formações Metropolitanas no Brasil, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP em 1984. O tema e o propósito são retomados no livro A Cidade como um Jogo de Cartas, de 1988, fruto da tese apresentada para o concurso para professor titular da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense - EAU/UFF, e no estudo Seis Novas Cidades em Roraima, desenvolvido no Ibam, ambos de 1985. Como parte de uma "série de reflexões sobre como se formam e desenvolvem as cidades, se ordenam e controlam os espaços edificados", o livro se dirige a dois públicos específicos: um formado por profissionais, a quem procura dar subsídios técnicos para a elaboração de planos urbanísticos; e outro, por estudantes do 1º grau, a quem se propõe explicar esses processos. O livro reafirma o compromisso de Ferreira dos Santos de elaborar planos urbanos e projetos arquitetônicos, que são fruto da colaboração entre o saber técnico, erudito e o saber popular.

 

Notas
1 SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Movimentos urbanos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. p. 12.
2 Mistura homogênea de solo, cimento e água de boa resistência que pode ser compactada ainda úmida em pequenas fôrmas, que resultam em blocos, ou em fôrmas contínuas que resultam em paredes moldadas in loco.

Outras informações de Carlos Nelson Ferreira dos Santos:

  • Habilidades
    • professor universitário
    • Urbanista
    • Antropólogo
    • Arquiteto

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (5)

  • LOPES; Alberto Costa; BARROS, Constança d'Assunção; VASCONCELLOS, Eduardo Mendes de; OLIVEIRA, Isabel Cristina Eiras de; VASCONCELLOS, Lélia Mendes de; Silva, Maria Lais da; LIMA, Maria Lourdes Costa Alves de; SANTOS, Marli Monteiro dos; BAHIA, Sérgio Rodrigues. Carlos Nelson, um estudioso das cidades brasileiras. Projeto, São Paulo, n. 123, p. 124-5. jul. 1989.
  • SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Movimentos urbanos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. 255p. il. p&b.
  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.
  • ______. A cidade como um jogo de cartas. Niterói: Universidade Federal Fluminense: São Paulo:Projeto, 1988. 192p. il. p&b.
  • ______. Sobretudo um arquiteto. Projeto, São Paulo, n. 123, p. 125, jul. 1989.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CARLOS Nelson Ferreira dos Santos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa446137/carlos-nelson-ferreira-dos-santos>. Acesso em: 15 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7