Artigo da seção pessoas Ramos de Azevedo

Ramos de Azevedo

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deRamos de Azevedo: 08-12-1851 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 01-06-1928 Local de morte: (Brasil / São Paulo / Santos)

Biografia

Francisco de Paula Ramos de Azevedo (São Paulo SP 1851 - Guarujá SP 1928). Engenheiro, arquiteto, administrador, empreendedor e professor. Após trabalhar na Companhia Paulista de Vias Férreas, forma-se engenheiro-arquiteto, em 1878, na École Speciale du Génie Civil et des Arts et Manufactures da Universidade de Gand, na Bélgica. O curso, ministrado por tratadistas franceses e belgas, é alinhado ao historicismo das escolas politécnicas européias, em que predominam o estilo neoclássico e o ecletismo. Ramos de Azevedo gradua-se com excelentes recomendações e retorna ao Brasil no ano seguinte, para estabelecer seu primeiro escritório profissional, em Campinas, São Paulo. Sua primeira obra importante é a conclusão da Igreja Matriz de Campinas, ocasião em que conhece o visconde de Indaiatuba, que, em 1886, o convida para construir em São Paulo os edifícios da Tesouraria da Fazenda, da Secretaria da Agricultura e da Secretaria de Polícia, no pátio do Colégio, conhecidos como "Secretarias de Estado". Com essa obra, estabelece na capital paulista o maior escritório de projetos do século XIX e início do século XX: a F. P. Ramos de Azevedo e Cia.

Pela grande habilidade para lidar com o poder público e os interesses privados, ocupa muitos cargos de comando e responsabilidade. Como exemplo, é diretor da Companhia Mogyana de Estradas de Ferro, do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo - Laosp e da Escola Politécnica de São Paulo - Poli, conselheiro da Caixa Econômica de São Paulo e da Comissão Administrativa do Theatro Municipal, e presidente do Instituto de Engenharia e da Comissão de Obras da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Seu Escritório Técnico de Projeto e Construção, situado na rua Boa Vista, torna-se famoso não apenas pelas obras que realiza, mas também pelo numeroso grupo de engenheiros e arquitetos que, em conjunto, trabalham sob sua direção, tais como Victor Dubugras (1868 - 1933), Domiziano Rossi (1865 - 1920), Anhaia Mello (1891 - 1974), Ricardo Severo (1869 - 1940) e Arnaldo Dumont Villares (1888 - 1965). Os dois últimos, após a morte de Ramos de Azevedo, em 1928, criam a empresa Escritório Técnico Ramos de Azevedo, Severo & Villares S. A.

Em vários projetos de hospitais, asilos, quartéis, escolas, institutos, matadouros, edifícios públicos e residências, Ramos de Azevedo demonstra uma combinação segura entre o recurso a um repertório estilístico beaux arts e a consideração e exploração da racionalidade construtiva, a serviço da utilidade e da funcionalidade. Destacam-se como suas principais obras, na cidade de São Paulo, os prédios das "Secretarias de Estado", no pátio do Colégio, 1886/1896; o quartel da polícia, 1888/1891, no bairro da Luz; a Escola Normal, 1890/1894, e o jardim-de-infância, 1896, na praça da República; a Escola Prudente de Moraes, 1893/1895; a Escola Politécnica, 1895/1897; o Asilo do Juqueri, 1895/1898; o Liceu de Artes e Ofícios, 1897/1900 (hoje Pinacoteca do Estado de São Paulo - Pesp); o Portal do Cemitério da Consolação, 1902; o Theatro Municipal de São Paulo, 1903/1911; o Instituto Pasteur, 1903, e o Grupo Escolar Rodrigues Alves, 1919, na avenida Paulista; o Palácio das Indústrias, 1917/1924, no parque D. Pedro II; e a agência central dos Correios, no vale do Anhangabaú, 1922.

Análise

Engenheiro-arquiteto formado em Gand, na Bélgica, Ramos de Azevedo está à frente do principal Escritório Técnico de Projeto e Construção de São Paulo, entre a última década do século XIX e as três primeiras do século XX. Constrói obras que se tornam referência na cidade, como modelo de instituição pública do ponto de vista formal e funcional. Ele traz da Europa noções técnicas de higiene e conforto ambiental ainda desconhecidas dos engenheiros paulistas, e resolve de modo inovador os programas apresentados por um Estado em pleno crescimento pela pujante economia do café, no período em que a cidade deixa de ser um modesto sítio colonial para alçar-se à condição de moderno centro de comércio e serviços, substituindo as antigas construções de taipa por outras de tijolos e argamassa. Ramos de Azevedo protagoniza essa emancipação porque sabe estabelecer relações produtivas que incluem desde o desenvolvimento de projetos ao financiamento bancário das obras até sua execução e venda. Com raro tino para os negócios, gerencia eficientemente o escritório de projetos, a contratação de mão-de-obra, a importação de materiais de acabamento e a industrialização de elementos de construção, como o tijolo e a cerâmica. Nesse sentido, pode-se dizer que a sua contribuição empreendedora e gerencial na criação de uma "indústria da construção" em São Paulo é ainda mais relevante que seu papel como projetista.

Apesar de ter abraçado, no fim da vida, a causa nacionalista das pesquisas neocoloniais, por influência do engenheiro-arquiteto português Ricardo Severo, seu sócio desde 1907, Ramos de Azevedo realiza suas obras mais importantes orientado pela tradição européia beaux arts do estilo neoclássico e do ecletismo acadêmico, dando forma material à chamada belle époque paulistana. São de estilo neoclássico, por exemplo, edifícios como a Tesouraria da Fazenda, a Secretaria da Agricultura e a Secretaria de Polícia, no pátio do Colégio, 1886/1896, a Escola Normal, 1890/1894, na praça da República - cuja planta apresenta uma configuração tradicional em "U", com uma galeria de circulação delimitada por arcadas, fazendo a transição entre o pátio interno e as salas de aula -, e os Laboratórios Gerais da Escola Politécnica, 1895/1897. No campo do repertório eclético, projeta, entre outros, o Asilo Juqueri, 1895/1898, combinando os estilos neo-românico e neogótico; o Theatro Municipal de São Paulo, 1903/1911, em estilo renascentista italiano, o Palácio das Indústrias, 1917/1924, no parque D. Pedro II, em estilo mourisco; e a Estação Sorocabana, 1926, solução compósita com detalhes em estilo Luís XVI.

Nas inúmeras residências que constrói, Ramos de Azevedo lança mão do receituário de elementos compositivos compilados nos tratados de Julien Guadet1 e Louis Cloquet.2 No entanto, como adequação à tradição rural brasileira, propôs algumas revisões desses programas "clássicos", introduzindo elementos novos e locais, como os jardins frontais nos sobrados urbanos. De modo geral, quanto à implantação tanto dos edifícios públicos quanto de residenciais, inaugura uma configuração urbana em que os volumes construídos são dispostos de forma solta no lote, com as quatro fachadas desenhadas.

No campo da articulação institucional, profissional e de ensino, Ramos de Azevedo tem atuação destacada no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo - Laosp e na Escola Politécnica de São Paulo. O Liceu paulista, criado em 1873 sob o espírito do positivismo burguês, é um importante centro de formação de artesãos para a construção civil e confecção de mobiliários. Sua fase próspera inicia-se em 1895, com a gestão de Ramos de Azevedo, marcada por uma importante reforma curricular, que proporciona a profissionalização dos seus quadros. O engenheiro-arquiteto projeta seu edifício sede, em 1897/1900, que hoje abriga a Pinacoteca do Estado de São Paulo - Pesp. No caso da Escola Politécnica, tem atuação decisiva na sua fundação, ao lado do engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza (1843 - 1917). Colabora amplamente na criação de seu programa, agregando disciplinas de arquitetura ao curso de engenharia, e como professor aplica métodos de desenho técnico para cálculo e projetos nas disciplinas de higiene e elementos de arquitetura. É diretor da Politécnica entre 1917 e 1928, ano da sua morte.

No plano da construção civil, implanta uma das primeiras indústrias de cerâmica de telhas e tijolos, além das primeiras madeireiras de São Paulo. De forma complementar, transforma profundamente o horizonte construtivo da cidade ao adotar a alvenaria de tijolo em vez da taipa, e ao reorganizar o trabalho do canteiro de obras, implantando a segmentação dos serviços de acordo com as especialidades dos artesãos. Tantos esforços no sentido da criação de mão-de-obra especializada para a construção civil em São Paulo explicam-se pela sofisticação das construções ecléticas, que requerem operários especializados e com conhecimento das normas clássicas, e não mais artesãos incultos, presos ao conhecimento empírico.

Desse modo, Ramos de Azevedo cria para São Paulo a imagem de uma cidade moderna e cosmopolita, palco de uma oligarquia agrária que adota padrões de gosto e conforto europeus, sobretudo franceses. Para a historiadora Maria Cristina Wolff de Carvalho, "seus edifícios contribuíram decisivamente para a transformação da paisagem construída paulista", com obras que "transcendem, em importância, o significado imediato", uma vez que conformam não apenas um acervo arquitetônico relevante, mas "uma nova paisagem física e cultural".3

Notas 

1 GUADET, Julien. Elements et theorie de l'architecture. Paris: Librairie de la Construcion Moderne, 1909.

2 CLOQUET, Louis. Traité d'architecture. Paris: Beranger, 1911.

3 CARVALHO, Maria Cristina Wolff. Ramos de Azevedo. São Paulo: Edusp, 2000. p. 362.

Outras informações de Ramos de Azevedo:

  • Outros nomes
    • Francisco de Paula Ramos de Azevedo
  • Habilidades
    • engenheiro
    • Arquiteto

Fontes de pesquisa (8)

  • CARVALHO, Maria Cristina Wolff de. Ramos de Azevedo. São Paulo: Edusp, 2000. 406 p., il. color. p.b. (Artistas brasileiros, 14).
  • CARVALHO, MARIA CRISTINA WOLFF DE. Ramos de Azevedo. São Paulo: Edusp, 2000 720.981 A994c
  • FABRIS, Annateresa (org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel: Edusp, 1987. Não catalogado
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Alvenaria burguesa: breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. 2. ed. rev. ampl. São Paulo: Nobel, 1989. 205 p., il. p.b.
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Ramos de Azevedo e seu escritório. Apresentação Francisco Romeu Landi, José Carlos Valente da Cunha. São Paulo: Pini, 1993. 165 p., il. p&b. color.
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Alvenaria burguesa: breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. São Paulo: Nobel, 1989. 728.098161 L557a
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Ramos de Azevedo e seu escritório. São Paulo: Pini, 1993. 720.981 A994L
  • LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. A evolução da casa paulista e a arquitetura de Ramos de Azevedo. São Paulo: Voz do Oeste, 1981. Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RAMOS de Azevedo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa441557/ramos-de-azevedo>. Acesso em: 18 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7