Artigo da seção pessoas Abigail Moura

Abigail Moura

Artigo da seção pessoas
Música / literatura  
Data de nascimento deAbigail Moura: 1904 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Eugenópolis) | Data de morte 1970 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Abigail Cecílio de Moura (Patrocínio de Muriaé, Minas Gerais, 1905 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1970). Arranjador, regente, compositor, trombonista, baterista, poeta. Na virada para os anos 1930, muda-se para o Rio de Janeiro, onde ganha a vida como baterista e trombonista. Compõe canções de sucesso, como a marcha “Que É o Amor” (1937), parceria com Vicente Paiva (1908-1964) e F. J. dos Santos. Também compõe para o teatro:  assina a música da opereta Mandioca Puba (1942), de Canuto Silva (1932). Além disso, atua como líder de jazz-bands e como copista na rádio MEC, função que exerce até o fim da vida.
 
Em 1942, cria a Orquestra Afro-Brasileira, dedicada à música brasileira de matrizes africanas que dirige por quase 30 anos. O primeiro disco da orquestra, de 1951, contém a macumba (invocação) “Obaluayê”, do próprio Abigail. Esse é também o título  de seu primeiro LP, Obaluayê! (1957), com oito composições de Moura. O segundo LP, Orquestra Afro-Brasileira (1968) aparece no ano em que uma lei estadual fluminense reconhece a utilidade pública da orquestra.
 
Além de dirigir a Afro-Brasileira, grava discos de música popular à frente de sua jazz-band. Entre os raros registros dessa atividade, um disco de 1960, contém o charleston “Rhode la Rocque”, de Bequinho (1895-1980) e o cateretê “Eu só Quero É Beliscar”, de Eduardo Souto (1882-1942). Também colabora com o Teatro Experimental do Negro, musicando peças como Aruanda (1948), de Joaquim Ribeiro, e Sortilégio (1951), de Adbias do Nascimento (1914-2011), além de escrever poemas dedicados à causa negra como “Sombras que Sofrem”, incluído na Antologia de la Poesia Negra Americana (1953), de Idelfonso Palés Matos.
 
Sua obra não desperta interesse comercial e Abigail Moura fica esquecido. O pesquisador Gregório de Villanova organiza um trabalho que resulta no lançamento de um livro-CD (2003) com alguns fonogramas do artista e a Orquestra Afro-Brasileira, por ocasião da mostra Negras Memórias, no Museu Afro Brasil. Em 2014, no mesmo museu, é realizada a exposição Breves Notícias: Abigail Moura e a Orquestra Afro-Brasileira. Neste ano, no dia da consciência negra, há um show da Orquestra Afro-Brasileira, liderada pelo músico Carlos Negreiros, percussionista da orquestra nos anos 1960.

Análise 

Autodidata, Abigail Moura aprende orquestração por meio das cópias que realiza para as orquestras da Rádio MEC. No espaço da rádio também realiza os ensaios da Orquestra Afro-Brasileira, grupo que não tem interesse comercial ou de entretenimento. Ao longo de quase 30 anos, a orquestra realiza mais de uma centena de concertos, boa parte deles na sede da Associação Brasileira de Imprensa ou no salão do Automóvel Club, reunindo público seleto e intelectualizado. Os programas radiofônicos de que participa são irradiados por emissoras educativas, como a Rádio Clube do Brasil, a Roquette-Pinto e a própria Rádio MEC. Tudo isso permite à orquestra desenvolver-se como um espaço de experimentação.

Formada por amadores, tem por objetivo “transmitir as mais profundas mensagens da arte negra”1. A partir de 1945, é integrada unicamente por músicos negros, em sintonia com outros grupos artísticos afro-brasileiros surgidos após a redemocratização. Por exemplo, o Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, e o grupo de dança Brasiliana, de Solano Trindade (1908-1974), com os quais Moura mantém contato. Em suas apresentações, a orquestra rende homenagem a efemérides (como a Lei do Ventre Livre) e personalidades [como Teodoro Sampaio (1855-1937) e Castro Alves (1847-1871)] ligadas à história dos africanos no Brasil.

A principal característica da orquestra é a incorporação de instrumentos percussivo-religiosos do candomblé, como o trio de atabaques (rum, rumpi e lê), o urucungo (espécie de berimbau), a angona-puíta (ancestral da cuíca), o adjá e o gonguê (espécies de sineta), o agogô, o afoxé e o ganzá. Todos envoltos numa aura de religiosidade pelo uso de indumentária e gestual ritualísticos. À percussão somam-se as vozes (coro e solista), além de instrumentos da tradição musical jazzística, como piano e sopros (saxofones, clarinetes, trompetes e trombones). Tal formação, contudo, em nada remete ao jazz, em função da rítmica característica (os metais e o piano seguindo a mesma clave da percussão) e da orquestração em bloco (cuja sonoridade assemelha-se à de uma orquestra de salão). Ao fundir o que ele qualifica de “primitivo” e “civilizado”, Moura alia o resgate de suas raízes africanas à construção de uma identidade moderna. Faz isso por meio da criação de uma “música de concerto” afro-brasileira.

O repertório é composto por pontos de candomblé e cantos ritualísticos de matriz africana, gêneros folclóricos brasileiros (maracatu, frevo, jongo, congada etc.) e outros de inspiração erudita (fantasias, prelúdios, poemas sinfônicos), nunca gravados. Em muitas composições, essas referências se fundem. É o caso da macumba “Obaluayê”, gravada pela primeira vez em 1951. A música inicia-se com um canto responsorial entre solista e coro, enquanto uma kalimba marca o tempo binário. Em seguida, metais e piano dissolvem a aura ritualística para introduzir uma ambiência mais moderna, com acordes jazzísticos em ritmo sincopado. A percussão afro-brasileira reintroduz a marcação binária. O canto retorna, não mais na versão ritualística, mas numa melodia original, com arpejos e alternância entre a terça maior e menor, o que revela a atualização do arranjador em relação aos procedimentos eruditos. Já em “Calunga”, gravada no LP Orquestra Afro-Brasileira, a fusão se dá entre a música folclórica e a ritualística. No trabalho de composição, ele se vale da memória, recuperando as cantigas da avó, do que ouve nos terreiros de umbanda e candomblé e de motivos recolhidos por etnógrafos como Édison Carneiro (1912-1972), Roger Bastide (1898-1974) e Manuel Querino (1851-1923), que pesquisava com afinco.

Considerado pioneiro na incorporação de elementos rítmicos africanos na música brasileira, Abigail Moura, dá continuidade a uma tradição inaugurada por Pixinguinha (1897-1973) que, nos arranjos dos anos 1930, integra elementos percussivos afro-brasileiros a uma orquestra de metais. Moura inspira trabalhos como os de Moacir Santos (1926-2006), no LP Coisas (1965) e de Letieres Leite (1960) na fundação da Orquestra Rumpilezz (2006). Ambos também fundem a rítmica dos cultos afro-brasileiros às sonoridades do jazz.

Nota

1 MOURA, Abigail. Uma definição do que é essa orquestra negra. Programa de um dos concertos da Orquestra Afro Brasileira. Apud VILLANOVA, Grégoire de; ARAUJO, Emanuel (Coord.). Abigail Moura – Orquestra Afro-Brasileira. Publicação integrada à exposição Negras Memórias, Memórias de Negros. São Paulo: Museu Afro-Brasileiro, 2003.

Outras informações de Abigail Moura:

  • Outros nomes
    • Abigail Cecílio de Moura
    • Maestro Abigail Moura
  • Habilidades
    • Regente/maestro
    • Poeta

Espetáculos (2)

Fontes de pesquisa (4)

  • PROGRAMA Antena MEC FM. Especial sobre Abigail Moura. Novembro de 1914. Disponível em: < http://radios.ebc.com.br/antena-mec-fm/novidade/2014-11/consciencia-negra-abigail-moura  >. Acesso em: 15 nov. 2016.

     

  • DIAS, Andrea Ernst. Mais “Coisas” sobre Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro. Tese (Doutorado em Música) – Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000.
  • LOPES, Ney. Dicionário literário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Pallas, 2007.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Rosyane Trotta Não Catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ABIGAIL Moura. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa429701/abigail-moura>. Acesso em: 19 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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