Artigo da seção pessoas Valdemar de Oliveira

Valdemar de Oliveira

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Teatro  
Data de nascimento deValdemar de Oliveira: 02-05-1900 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 18-04-1977 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia 

Valdemar de Oliveira (Recife PE 1900 - idem 1977). Diretor, autor, tradutor, compositor, arranjador, regente, crítico, ator, cenógrafo. Funda em 1941 o Teatro de Amadores de Pernambuco, marco zero do moderno teatro pernambucano, inspirado pelo grupo carioca Os Comediantes e pelas pioneiras iniciativas de Paschoal Carlos Magno, que cria, no Rio de Janeiro, o Teatro do Estudante do Brasil.

Oliveira cursa a Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, de 1917 a 1922. Doutora-se em 1924, na mesma instituição, com a tese Musicoterapia. Torna-se bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, em 1929. Defende tese de livre-docência Exame Pré-Nupcial, na Faculdade de Medicina do Recife, em 1928, para ocupar a cátedra de higiene. Defende a tese Formação Geológica da Planície do Recife, para a cátedra de história natural da Escola Normal Oficial, em 1942.

Desde 1918, em Salvador, atua na imprensa como jornalista, especialmente como crítico de arte, em particular de música e teatro. De volta ao Recife, continua a escrever para diversos jornais, mas é no Jornal do Commercio que se populariza, com a coluna A Propósito..., mantida de 1934 a 1970. Uma de suas maiores contribuições ao jornalismo artístico-cultural ocorre a partir de 1946, ao editar a revista Contraponto.

Pouco tempo depois de retornar da Bahia, troca definitivamente o consultório pelo magistério. No Recife, exerce cargos públicos, o primeiro deles no Serviço de Estatística e Propaganda Sanitária e, depois, no Serviço de Higiene Industrial. Dirige o Teatro de Santa Isabel, de 1939 a 1950. Entra para a Academia Pernambucana de Letras - APL em 1936, e assume a presidência da casa entre 1949 e 1961. A Sociedade de Cultura Musical, criada em 1925, é por ele dirigida no período de 1945 a 1977. Em 1953, funda, com outros livres-docentes da Faculdade de Medicina, a Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, tornando-se professor emérito em 1970, quando é aposentado compulsoriamente.

No campo da música, a convite de João Wanderley Jacques, Oliveira compõe sua primeira opereta, com libreto de Nelson Paixão: Berenice, estreada em 3 de fevereiro de 1926, no Teatro de Santa Isabel. De 1926 a 1939 se dá a fecunda colaboração entre Oliveira e Samuel Campêlo (1889 - 1939): compõem operetas, encenadas por várias companhias brasileiras, como a de Vicente Celestino e Antonia Denegri, e trabalham juntos no Grupo Gente Nossa - GGN, fundado por Campêlo e Elpídio Câmara, em 1931. Com a morte de Samuel Campêlo, em 1939, Valdemar de Oliveira assume a direção do Teatro de Santa Isabel e do GGN, cujo departamento profissional ele desativa paulatinamente, e instala ali, no mesmo ano, um departamento de teatro infantil.

Em 1941, Valdemar de Oliveira é convidado a dirigir uma "hora d'arte" nas comemorações do centenário da Sociedade de Medicina de Pernambuco. Sugere e realiza, com médicos, esposas e familiares, Knock ou O Triunfo da Medicina, de Jules Romains. A partir de então, percebe a possibilidade de criar um "teatro de cultura" no Recife e abre um departamento autônomo no GGN, denominado Teatro de Amadores, estreando com Primerose, de Robert de Flers e Gaston Arman de Caillavet, nesse mesmo ano. Mas, na prática, o GGN existe de 1941 a 1944, como "produtor executivo" do TAP. A partir de 1944, os espetáculos do TAP deixam de figurar no programa das peças como realizações do GGN, que encerra oficialmente suas atividades nesse ano. 

O TAP é a maior contribuição de Valdemar de Oliveira ao teatro pernambucano. Primeiro, por seu destemor em se confrontar com a sociedade patriarcal de então: desafia um preconceito arraigado no Recife, onde mulheres não podiam subir ao palco sem serem consideradas prostitutas. Segundo, por se mostrar frontalmente contra as chanchadas, o teatro ligeiro e as comédias leves que então dominam os palcos brasileiros. Terceiro, por traçar uma política para o grupo que privilegia o ecletismo do repertório.

Torna-se o primeiro "ensaiador" do TAP e, paulatinamente, a partir de 1944, aprende as técnicas da mise en scène com os diretores sintonizados com o processo de modernização teatral no Brasil: Zygmunt Turkow (1944), Adacto Filho, Ziembinski (1949), Jorge Kossowski (1952), Graça Mello (1953, 1954, 1957 e 1961), Flaminio Bollini (1955), Bibi Ferreira (1956), Hermilo Borba Filho (1958, 1959 e 1961) e Milton Baccarelli (1964), que trabalham com o grupo.

No convívio com esses mestres, ficam ainda mais claras, para Valdemar de Oliveira, "as funções de um metteur en scène que cuida de 'fio a pavio', ou seja, da leitura da peça até o abrir-se da cortina; sem descuidar-se, evidentemente, dos problemas técnicos que cada peça impõe ao seu diretor".3

A longa experiência de Valdemar de Oliveira como encenador, especialmente a partir de seu trabalho no TAP, está estritamente ligada à fidelidade ao texto teatral, o que responde a questões pertinentes ao Brasil à época. À medida que o teatro no mundo assiste ao teatro do absurdo, ao teatro político, ao irracionalismo, ao coletivismo, ao despojamento, entre outras formas e temas da contemporaneidade, a cena de Valdemar de Oliveira, no entanto, se aprofunda e depura naquilo que mais sabe fazer: uma estrita composição formal, entradas e saídas convencionais e som e luz ajustados ao clímax de cada cena.

Esse respeito formal é endossado pelas minuciosas pesquisas que faz para vários de seus espetáculos. Quando da montagem, por exemplo, de A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, em 1948, sabe como levantar os diálogos, como dar mobilidade às máscaras faciais, como distinguir e passar para o elenco os vários matizes de vozes ou as atmosferas de cada um dos atos. Mas suas pesquisas são também de outra ordem: procura informações com atores e personalidades que, passando pelo Recife, dão-lhe notícias de outras montagens vistas pelo mundo afora.

Foram-lhe especialmente úteis as de Eros Martim Gonçalves - que faz cenografia, figurino, iluminação e adereços da montagem - assistidas em Paris. A partir de então, Valdemar de Oliveira aprimora essas lições de mise en scène, absorvendo-as a ponto de se tornarem verdades indiscutíveis. Outro exemplo de sua maneira de dirigir é a busca, peça após peça, pelo equilíbrio entre o ambiente e a ação dramática.

Também acontece de Valdemar se espelhar em outras montagens, como ocorre em Arsênico e Alfazema, de Joseph Kesselring, em 1950, que é encenada pelo Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, em 1949. Há nele um espírito de investigação em sintonia com seu tempo.

Na montagem de Um Sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963, um de seus mais bem-sucedidos trabalhos como encenador, enquadra a peça na perspectiva que já lhe é familiar: mimese e verossimilhança. Enfatiza a passagem de tempo (a história se passa de um dia para outro, sábado para domingo), e de espaço (entre a ante-sala de jantar de uma casa-grande e rua) e dá vivacidade aos diálogos, mesmo quando a ação os pede ralentados, mostrando a intimidade de uma família interiorana, segurando assim a atenção do público. O efeito do real é obtido pela decisão de composição da cena pelo acúmulo de minúcias e remete à ideia de "fatia da vida" buscada pelos encenadores naturalistas. Tenta se apossar de todos os pormenores dos anos 1930 necessários à montagem, inclusive na pesquisa musical ou na recolha de expressões usadas na peça, mas em desuso na cidade e nos dias atuais, cuja lista faz constar no programa distribuído ao público.

Em suas encenações, Valdemar de Oliveira tem clareza - especialmente em sua fase mais madura (dos anos 1950 até sua última encenação, em 1976, O Milagre de Annie Sullivan, de William Gibson) -  de que existe uma hierarquização das funções dentro da montagem e que todos os co-criadores, do cenógrafo ao elenco, devem estar a serviço do que do texto emana ou da sua verdade intrínseca. Assim se conduz, e a crítica que acompanha seus espetáculos assinala que, mesmo se não há inovações formais em cena, há um decoro próprio de um homem de teatro que se forma ao mesmo tempo em que o teatro brasileiro afirma sua modernidade.

Além de ensaiador e encenador, atua como intérprete em várias peças do grupo, especialmente nos seus primórdios. Compõe, faz direções musicais para várias produções do TAP e se exercita como cenógrafo, chegando a receber um prêmio da Associação de Cronistas Teatrais de Pernambuco, pela cenografia de Panorama Visto da Ponte.

Escreve várias peças, muitas delas encenadas pelo GGN; algumas em parcerias, a exemplo de Soldados da Retaguarda (1945), com Hermilo Borba Filho; O Mistério do Cofre, com Samuel Campelo e Eustórgio Wanderley, 1933; Mocambo, com Filgueira Filho, 1941 e Zé Mariano, com Walter de Oliveira, 1941. Com a peça Honra ao Mérito, de 1936, recebe menção honrosa da Academia Brasileira de Letras - ABL.

Além de dramaturgo, atua como pesquisador do frevo e dos caboclinhos, presenças constantes na cultura do Recife. Publica obras ligadas à história de Pernambuco, com destaque para aquelas dedicadas à vida teatral recifense no século XIX, como os ensaios premiados no Concurso de Monografia do Serviço Nacional de Teatro - SNT, em 1976 e 1977.

Por ocasião da morte de Valdemar de Oliveira, em 1977, Joel Pontes sintetiza o perfil empreendedor e antecipador do fundador do TAP: "Agindo, à sua maneira prudente, mas persistente, sobre uma sociedade retraída como era a nossa quando ele a agitou, abriu-lhe espaços novos com a Sociedade de Cultura Musical, [a revista] Contraponto (nada melhor tivemos até hoje em periodismo artístico), dinamização da Academia Pernambucana de Letras e, acima de tudo, com sua obra mais pessoal, aquela que moldou desde o primeiro instante, o Teatro de Amadores de Pernambuco, marca histórica do nosso desenvolvimento artístico até na reação mais nítida que desencadeou - à qual estive e sou fiel sem havermos quebrado a amizade. Mas foi o seu movimento o que prevaleceu e o mérito disto ninguém ousará diminuir. Foram o seu tino administrativo, sua capacidade de aglutinar ideais análogos, seu pisar firme no chão conhecido que mantiveram de pé o que outros, na doidice (bendita) de revolucionar mais cedo do que era possível, não foram capazes de salvar".4

Notas

1. OLIVEIRA, Valdemar de. Mundo Submerso. 2.ed. Recife: Cepe, 1974, p. 129. 2v.

2. CADENGUE, Antonio. Valdemar de Oliveira e sua obra maior: o TAP. Jornal do Commercio, Recife, 2 maio 2000. Caderno C, p. 3.

3. CADENGUE, Antonio Edson. TAP: sua cena & sua sombra (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1948-1991). 1991. v. 1. 252 f. Tese (Doutorado em Artes - Teatro) - Universidade de São Paulo. Escola de Comunicação e Artes, São Paulo, p. 27-28.

4. PONTES, Joel. A propósito... . Jornal do Commercio, Recife, 20 abr. 1977. Caderno I, p. 4.

Outras informações de Valdemar de Oliveira:

  • Outros nomes
    • José Capibaribe
    • Valdemar Oliveira
    • Waldemar Oliveira
  • Habilidades
    • Autor
    • Compositor
    • diretor de teatro
    • Tradutor
    • Arranjador
    • crítico de artes cênicas
    • Ator
    • Cenógrafo
    • Regente/maestro
    • músico

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Fontes de pesquisa (14)

  • CADENGUE, Antonio Edson. TAP: anos de aprendizagem (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1941-1947). 1989. 252 f. Dissertação (Mestrado em Artes-Teatro). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.
  • CADENGUE, Antonio Edson. TAP: sua cena & sua sombra (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1948-1991). 1991. 769 f. Tese (Doutorado em Artes-Teatro) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo. 3v.
  • OLIVEIRA, Valdemar. O teatro de amadores de Pernambuco: origem e evolução. In: Teatro de Amadores de Pernambuco. Dionysos, Rio de Janeiro,  n. 17, p. 22-29, jul. 1969. Edição especial.
  • ASSOCIAÇÃO DE CRONISTAS TEATRAIS DE PERNAMBUCO. Os Melhores do teatro pernambucano. Recife: ACTP, abr. 1964.
  • CADENGUE, Antonio. Valdemar de Oliveira e sua obra maior: o TAP. Jornal do Commercio, Recife, 2 maio 2000. Caderno C, p. 3.
  • NASCIMENTO, Luiz. Roteiro jornalístico de Valdemar de Oliveira. In: OLIVEIRA, Valdemar de et al. Valdemar, setentão: crônicas, discursos, registros, mensagens. Recife: Gráfica Editorial Norte Brasileiro Ltda, 1971. p. 71-86.
  • OLIVEIRA, Valdemar de. Mundo submerso (Memórias). Recife: Cepe, 1974. 291 p. 2v.
  • OLIVEIRA, Valdemar de. Mundo submerso. Recife: Companhia Oficial, 1966. 270 p. v.1
  • OLIVEIRA, Valdemar de. A fala de Valdemar de Oliveira no MIS de Pernambuco. Revista de Teatro, Rio de Janeiro, n. 416, mar./abr. 1977. (Depoimento)
  • OLIVEIRA, Valdemar de. O homem que não acreditava no impossível. Boletim Informativo do Inacen, Rio de Janeiro, ano 1, n. 6, p. 45-50, 1 jul. 1984. (Depoimento)
  • PONTES, Joel. "A propósito...". Jornal do Commercio, Recife, 20 abr. 1977. Caderno I, p. 4.
  • PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa. 1966. 157p.
  • RIVAS, Lêda. Valdemar de Oliveira o homem e o sonho - reportagem sentimental. Apresentação Joezil Barros. Prefácio Potiguar Matos. Recife: Associação da Imprensa de Pernambuco - ABI, 1983, 62 p.
  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO. Valdemar de Oliveira: uma vida... um exemplo. Recife: Ed. Universitária, 1977. 141 p.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • VALDEMAR de Oliveira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa427524/valdemar-de-oliveira>. Acesso em: 17 de Fev. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7