Artigo da seção pessoas Félix Ferreira

Félix Ferreira

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deFélix Ferreira: 1841 | Data de morte 1898

Biografia

Félix Ferreira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1841 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1898). Escritor, jornalista, livreiro e historiador da arte. Desde jovem, atua como jornalista e escritor. Colabora na revista Cruzeiro do Brazil, do Rio de Janeiro, e na folha ilustrada O Guarany. Em 1867, escreve em versos a peça teatral As Deusas do Balão: Comédia em um Ato e, em 1873, publica Os Dramas do Adultério por Xavier de Montepin. Inicia a atividade de livreiro e editor por volta de 1877, quando cria a empresa Félix Ferreira & Cia.

Seu primeiro livro voltado às artes é sobre o arquiteto Bethencourt da Silva (1831 - 1911), fundador da Sociedade Propagadora das Belas-Artes e do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro,  lançado em 1876, em edição ilustrada com fotografias. É do mesmo ano a obra Do Ensino Profissional: Liceu de Artes e Ofícios, que traz os estatutos da Sociedade Propagadora das Belas-Artes e o regulamento interno do Liceu de Artes e Ofícios. Como editor, publica nos anos 1870 coletâneas de autores clássicos, como Luís de Camões (1524 - 1580), Padre Antônio Vieira (1608 - 1697), Diogo Bernardes (1520 - 1605), Almeida Garrett (1799 - 1854) e Alexandre Herculano (1810 - 1877).

Entre 1877 e 1878, colabora com o periódico O Contemporâneo. Edita em 1879 as coletâneas Noções da Vida Doméstica para Uso das Escolas Brasileiras do Sexo Feminino, e Noções da Vida Prática: Livro de Leitura para as Escolas e de Conhecimentos para o Povo, várias vezes reeditadas, e escreve o romance A Má Estrela. Publica a revista mensal Ciência para o Povo, entre 1880 e 1881, com artigos sobre temas científicos. Cria a coleção Biblioteca para Todos, que dedica, entre outros, dois títulos ao Liceu: O Liceu de Artes e Ofícios e as Aulas de Desenho para o Sexo Feminino e A Imprensa e o Liceu de Artes e Ofícios, ambos de 1881.

Com Guilherme Cândido Bellegarde e José Maria Velho da Silva (1811 - 1901), organiza a Poliantéia Comemorativa da Inauguração das Aulas do Sexo Feminino do Imperial Liceu de Artes e Ofícios, em 1881, divulgando as opiniões de mulheres e homens de letras a respeito da educação feminina. Em 1882, lança Notas Bibliográficas: a Exposição de História do Brasil na Biblioteca Nacional, uma coletânea de artigos de sua autoria publicados no Cruzeiro. Sua mais importante obra sobre artes plásticas, o livro Belas Artes: Estudos e Apreciações, é de 1885.

Lança também Elementos de Gramática Portuguesa - Adaptados nas Escolas Regimentares do Exército, em edição revista e ampliada em 1872, e A Educação da Mulher: Notas Coligidas de Vários Autores, de 1881. Sobre o Rio de Janeiro, publica, em 1879, o Guia do Estrangeiro no Rio de Janeiro - com localização e um breve histórico dos monumentos, igrejas, teatros e bibliotecas -; em 1886, A Reforma da Biblioteca Fluminense: Considerações e Projeto de uma Sociedade Bibliográfica Brasileira; e, em 1888, A Província do Rio de Janeiro: Notícias para Emigrantes, com informações geográficas e estatísticas.

Postumamente, em 1899, é editada outra obra historiográfica de sua autoria, sobre a Santa Casa da Misericórdia Fluminense e sua trajetória, do começo do século XVII até o fim do século XIX.

Análise

Tanto a biografia de Félix Ferreira quanto as obras por ele publicadas evidenciam sua atuação profissional predominante nos campos editorial e jornalístico. Talvez por esse motivo, seu principal trabalho, o livro Belas Artes: Estudos e Apreciações, de 1885, não tenha a mesma visibilidade de outros publicados no mesmo período, como o livro de Gonzaga Duque (1863 - 1911), A Arte Brasileira: Pintura e Esculptura, de 1888.

A obra de Ferreira é dividida em duas partes: a primeira, Estudo Histórico, recapitula a história da arte internacional em quatro capítulos. O primeiro capítulo, "Origens e Desenvolvimento", traz uma reflexão sobre as origens da arte, remetendo ao antigo Egito, Índia, China e Japão e, no Ocidente, à Grécia, que, segundo o autor, assimila aspectos da arte oriental e leva à perfeição a arte antiga pagã; o segundo capítulo, "Transformação e Florescimento", trata especificamente da arte clássica grega, considerada como expressão mais elevada do desenvolvimento das artes universalmente; no terceiro capítulo, "Grandeza e Decadência", o autor aborda a tradição artística romana e sua relação com a afirmação do poder político, tomando como argumento a arquitetura; e o último capítulo, "Renascimento - Arte Moderna", é dedicado ao período da Renascença italiana, e apresenta também passagens sobre o desenvolvimento da arte na Idade Moderna em outras regiões, como Flandres, Espanha e França.

Essa incursão panorâmica pela história da arte, empreendida pelo autor, segue uma visão linear, evolutiva, característica da historiografia predominante no período. Félix Ferreira considera que as artes alcançam no Classicismo sua máxima expressão, após o que entram em um longo período de decadência durante a Idade Média, até ressurgir com o Renascimento. O tratamento dado aos artistas também segue o tradicional apelo à "genialidade" como fator explicativo, explorando o virtuosismo e a excepcionalidade individual, em detrimento de condicionamentos sociais e análises contextuais.

Na segunda parte do livro, o autor faz um relato de diversas exposições contemporâneas ao período da publicação, com seus comentários críticos a respeito da produção de diversos artistas e do meio cultural brasileiro da época. A leitura dos capítulos, em especial os que versam sobre as exposições da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, de 1882 e de 1884, revela a importância da obra como fonte historiográfica, pois permite apreender a configuração do meio artístico nacional, bem como extrair as concepções e interpretações que balizam o olhar sobre as artes plásticas do período.

No século XIX, e de modo mais intenso nos anos que antecedem a proclamação da república, a principal questão em voga no meio cultural diz respeito à formação de uma arte nacional, que expressasse aspectos inequívocos de uma identidade brasileira. Em torno de tal debate são produzidos livros fundamentais para o entendimento das artes no país no século XIX, como História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero (1851 - 1914), e A Arte Brasileira: Pintura e Esculptura, de Gonzaga Duque, ambos publicados em 1888, de que é também exemplo a referida obra de Ferreira. Nesse livro, o autor opõe à arte idealizada da Aiba a pintura de paisagem e de gênero como alternativas capazes de fazer surgir no Brasil uma arte nacional, com características próprias. É nesse sentido que elogia a produção de Almeida Júnior (1850 - 1899), em texto sobre exposição de 1882, artista que soube conservar o "abrasileirado", apesar dos anos de permanência em Paris.

A obra de Félix Ferreira dá destaque especial ao Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Em comentário sobre a exposição do Liceu de 1882, ele relata a situação da instituição, recém-criada pela Sociedade Propagadora das Belas-Artes, e expressa sua opinião sobre as implementações que devem ocorrer, defendendo a popularização do ofício e valorizando as artes industriais.

Em muitos trechos, como no comentário a respeito da produção do pintor Arsênio da Silva (1833 - 1883), Ferreira critica a indiferença do meio social brasileiro com relação às artes, caracterizando-o como mercenário e insensível aos valores artísticos. Belas Artes: Estudos e Apreciações traz ainda inventários das obras de diversos artistas - possibilitando perceber as temáticas e os tratamentos pictóricos predominantes, bem como a mudança nas preferências dos artistas -, diversas descrições das obras apresentadas nas exposições do período e informações sobre o contexto de produção de alguns trabalhos, como no comentário sobre a tela O Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles (1832 - 1903), quando indica os locais visitados pelo artista antes de produzir a obra e os estudos realizados.

Merece especial menção seu comentário crítico sobre a Exposição Geral de Belas Artes de 1884. Félix Ferreira recapitula a história da Aiba, descreve a organização da mostra, com as seções em que é dividida, e aponta ao leitor o que nela lhe parece mais notável. Finaliza com observações sobre o meio social brasileiro e a necessidade de incrementar o gosto pela arte por meio das instituições e da profissionalização.

Também compõe o livro um perfil artístico do arquiteto Bethencourt da Silva, com informações biográficas, seu papel na fundação da Sociedade Propagadora das Belas-Artes e no Liceu de Artes e Ofícios e suas principais obras arquitetônicas.

Outras informações de Félix Ferreira:

  • Habilidades
    • historiador
    • crítico de artes visuais

Fontes de pesquisa (3)

  • BLAKE, Augusto Vitorino Alves Sacramento. Dicionário bibliográfico brasileiro. Brasília: Conselho Federal de Cultura, Brasília, 1970 [1893].
  • FERREIRA, Félix. Belas artes: estudos e apreciações. Rio de Janeiro: Baldomero Carqueja Fuentes Editor, 1885.
  • LEVY, Carlos Roberto Maciel. Disponível em: [http://www.artedata.com/crml/]. Acesso em: maio 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • FÉLIX Ferreira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa410450/felix-ferreira>. Acesso em: 16 de Jan. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7