Artigo da seção pessoas Glorinha Beuttenmüller

Glorinha Beuttenmüller

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deGlorinha Beuttenmüller: 04-08-1925 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Maria da Glória Cavalcanti Beuttenmüller (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1925). Fonoaudióloga e diretora. É especialista em estudos da voz e criadora do Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller, utilizado no desenvolvimento das possibilidades vocais do ator em cena e adotado por diversas instituições brasileiras de ensino em teatro.

Na década de 1940, faz aulas de violino na Escola de Música da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e é ouvinte da disciplina arte de dizer, ministrada pela professora de canto Julieta Telles de Menezes. No início dos anos 1950, apresenta-se em recitais de declamação e integra um grupo de artistas chamado Cintilas. Em 1957, forma-se em teatro pela Fundação Brasileira de Teatro (FBT) e, em 1960, gradua-se pela Escola de Música da UFRJ.

Em um dos seus recitais percebe certo cansaço vocal e recorre a Lilia Nunes, professora de impostação de voz que leciona na Escola de Teatro da Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara (Fefieg), atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Os exercícios aprendidos com Lilia Nunes, de quem se torna assistente, despertam seu interesse pela técnica vocal. Começa a trabalhar com deficientes visuais e é convidada a desenvolver um programa de estímulo da fala para cegos e amblíopes, como coordenadora do setor de logopedia do Instituto Benjamin Constant, em 1960.

Logo observa que, privado do sentido da visão, o indivíduo perde a percepção do espaço, daí as dificuldades na emissão da voz. Determinada a encontrar uma solução para os problemas de expressão oral de seus alunos, concebe um método revolucionário de trabalho: o Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller, que se baseia "na orientação do corpo no espaço por meio da estimulação dos sentidos. Com esse trabalho de reeducação, os deficientes visuais conseguem perceber e controlar melhor o direcionamento e a projeção da voz".1

Realiza também uma série de atividades inovadoras, como a criação do Coral Falado, integrado por deficientes visuais, que se apresenta no Teatro Maison de France, em 1961, com boa repercussão da crítica: "Há movimento, desembaraço e naturalidade nas oito meninas que formam o coral. Em diálogos com diferentes entonações de voz, o grupo chega quase à perfeição dos jograis. Nos movimentos, ora em conjunto, ora em roda e até em danças, há um pouco de teatro, e a poesia ganha um nova dimensão plástica".2

Glorinha assume a chefia do departamento de voz e dicção da escola de teatro da Fefieg em 1964, ano em que se inscreve no primeiro curso de foniatria do Brasil, organizado pela Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro, instalada na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), presidida pelo doutor Pedro Bloch, um dos pioneiros dessa área e autor de diversas peças de teatro.

Em meados da década de 1960, trabalha na preparação vocal dos atores do Teatro de Arena, utilizando seu método como fundamento. Cria o termo "direção vocal-interpretativa" para designar a orientação vocal dada aos elencos dos espetáculos teatrais. O objetivo é harmonizar o corpo, a voz e o gesto de forma integrada às atividades cênicas e de acordo com a proposta conceitual do espetáculo estabelecida pelo diretor. Cursa logopedia e fonoaudiologia na ABBR, em 1966.

Em 1972, registra seu método e lança o livro Expressão Vocal e Expressão Corporal, escrito em parceria com Nelly Laport, no qual sustenta a tese de que as pessoas devem falar com o corpo inteiro. Yan Michalski expressa sua opinião a respeito da metodologia da fonoaudióloga: "O método de Glorinha Beuttenmüller não se limita ao campo técnico da comunicação vocal. Ela dá merecida ênfase à interdependência entre fatores emocionais e problemas da voz, e acaba projetando o assunto para o terreno de uma conceituação quase filosófica, pois entre as unidades de ensino propostas destaca-se a teoria da gestalt aplicada à fala".3

A primeira encenação de A Gaivota, de Anton Tchekhov, realizada no Brasil em 1974, dirigida pelo argentino Jorge Lavelli, e a montagem de Dona Xepa, de Pedro Bloch, com a estreia de Francisco Milani como diretor e Vanda Lacerda no papel principal, já contam com a sua orientação vocal. Trabalha com os elencos das peças A Noite dos Campeões, de Jason Miller, 1975, e Os Filhos de Kennedy, de Robert Patrick, 1976.

Presta assessoria vocal à montagem de Os Veranistas, de Gorki, em 1978, que inaugura o Teatro dos Quatro, e recebe este comentário da crítica Tania Pacheco: "Importante, igualmente, o trabalho de Glorinha Beuttenmüller, mantendo no nível correto e oportuno vozes e murmúrios, descobrindo modulações, transformando determinadas falas na extensão do seu já famoso 'abraço sonoro', concepção de um método que defende justamente".4 Faz a direção vocal-interpretativa dos atores da superprodução musical Ópera do Malandro, de Chico Buarque, em 1978, com direção de Luís Antônio Martinez Corrêa. Em 1979, cuida da expressão vocal do elenco da peça Papa Highirte, de Oduvaldo Vianna Filho, texto proibido pela censura federal em 1968, e só montado 11 anos depois. Estreia na direção de Fala Baixo senão Eu Grito, de Leilah Assumpção, em 1979, inaugurando o Teatro do América Futebol Clube. Nessa década, é contratada pela TV Globo para trabalhar com jornalistas e lá permanece por 18 anos.

Assume com Emiliano Queiroz a direção da peça Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela, de Leilah Assumpção, substituindo Monah Delacy na última etapa dos ensaios do espetáculo, realizado em 1981. Yan Michalski elogia o esforço da dupla: "O processo de ensaios do espetáculo foi tão sofrido que o simples fato de ele ter sido levado a bom termo merece ser saudado quase como um milagre do teatro. E, considerando os antecedentes, a limpeza da produção chega a constituir uma agradável surpresa".5 No ano de 1982, a convite de Eric Nielsen e Gustavo Ariani, Glorinha participa da criação da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), escola de teatro da qual se torna madrinha e onde ministra um dos cursos inaugurais.

Em 1993, faz a preparação vocal de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, com adaptação e direção de Sergio Britto, e, em 1998, presta assessoria vocal nos espetáculos Amor de Poeta, de Tiago Santiago, sobre Castro Alves, e Um Caso de Vida ou Morte, que reúne três peças dos autores americanos David Mamet, Elaine May e Woody Allen. Prossegue com o trabalho de orientação vocal em Nostradamus, de Doc Comparato, 1999, e De Caso com a Vida, de Paul Rudnick, 2001, peça que dirige com novo elenco em São Paulo, em 2002.

É responsável, em 2009, pela direção vocal-interpretativa de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, tradução e adaptação de Ferreira Gullar, com encenação de Renato Carrera; de Exercício nº 2 - Formas Breves, adaptação e encenação de vários textos por Bia Lessa; e de Câmera, de Emanuel Aragão e Diego de Angeli, também diretor da montagem.

Sua contribuição para a terapia da fala é reconhecida por atores, cantores, jornalistas, radialistas, locutores e todos os profissionais que dependem da voz. Tragédia: O Mal de Todos os Tempos, livro técnico de sua autoria, publicado em 2009, traz um depoimento de Fernanda Montenegro: "Glorinha Beuttenmüller é uma profissional com profundo conhecimento técnico. [...] O que distingue Glorinha é uma eterna busca da alma de quem dela necessita. E faz milagres. Eu vi. Em apenas uma hora de atendimento, atores completamente afônicos entram em cena e dá-se o milagre de que falo: voz absolutamente limpa".6

De acordo com Lídia Becker: "Submetendo as pessoas a tratamentos inusitados e sempre originais, foi construindo essa fama de fazer milagres e criando novas abordagens de aplicação de seu método, instrumento excelente para a preparação da voz no teatro, sobretudo no que se refere à projeção da voz no espaço e à produção do magnetismo da presença cênica. Quem passou por suas mãos torna-se para sempre agradecido e entende que a magia de Glorinha Beuttenmüller está na sua capacidade de observação e generosidade".7

Notas

1 GUBERFAIN, Jane Celeste. Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller no trabalho vocal com atores. Tese (Doutorado em Teatro), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, Rio de Janeiro, 2009. p. 75.

2 Grupo de declamadoras cegas - Glorinha emprega a arte de declamar no trabalho de recuperar os cegos e amblíopes para a sociedade. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 dez. 1961. Caderno B.

3 MICHALSKI, Yan. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 ago. 1971.

4 PACHECO, Tania. Os Veranistas: a comunhão fundo / forma em belíssimo espetáculo. O Globo, Rio de Janeiro, 14 jul. 1978.

5 MICHALSKI, Yan. O tempo não passou na janela. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 maio 1981.

6 BEUTTENMÜLLER, Glorinha. Tragédia: o mal de todos os tempos. Rio de Janeiro: Alerj: Instituto Montenegro e Raman, 2009. p. 13.

7 BECKER, Lídia. Por uma estética da voz no teatro: harmonização de conteúdo e expressão sob a ótica do Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller. 2007. 265 f. Dissertação (Mestrado em Teatro), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, Rio de Janeiro, 2007. p. 79.

Outras informações de Glorinha Beuttenmüller:

  • Outros nomes
    • Maria da Glória Cavalcanti Beuttenmüller
    • Glorinha Beuttenmeuller
    • Glória Beuttenmüller
    • Glorinha Beuttenmuller
    • Maria da Glória Beuttenmüller
  • Habilidades
    • diretora de teatro
    • fonoaudiólogo

Espetáculos (4)

Fontes de pesquisa (7)

  • ACERVO de Artes Cênicas. Rio de Janeiro, Cedoc/Funarte.
  • BECKER, Lídia. Por uma estética da voz no teatro: harmonização de conteúdo e expressão sob a ótica do Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller. 2007. 265f. Dissertação (Mestrado em Teatro) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, Rio de Janeiro, 2007.
  • BEUTTENMÜLLER, Glorinha. O que é ser fonoaudióloga: memórias profissionais de Glorinha Beuttenmüller; em depoimento a Alexandre Raposo. Rio de Janeiro: Record, 2003.
  • BEUTTENMÜLLER, Glorinha. Tragédia: o mal de todos os tempos. Rio de Janeiro: Alerj; Instituto Montenegro e Raman, 2009.
  • GUBERFAIN, Jane Celeste. Método Espaço-Direcional-Beuttenmüller no trabalho vocal com atores. 2009. Tese (Doutorado em Teatro) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, Rio de Janeiro, 2009.
  • Programa do Espetáculo - Boca Molhada de Paixão Calada - 1984. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo - Exercício nº 2. Formas Breves - SP 2009 Não Catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GLORINHA Beuttenmüller. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa405030/glorinha-beuttenmueller>. Acesso em: 17 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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