Artigo da seção pessoas Milton Baccarelli

Milton Baccarelli

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deMilton Baccarelli: 14-09-1930 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 18-07-1994 Local de morte: (Brasil / Alagoas / Maceió)

Biografia

Milton João da Mota Baccarelli (São Paulo SP 1930 - Maceió AL 1994). Diretor, professor, ator, cenógrafo, figurinista, tradutor e teórico. Um dos encenadores mais destacados em Pernambuco entre as décadas de 1960 e 1990. Responsável pela primeira montagem de Vereda da Salvação, de Jorge Andrade.

Muda-se para Paris, em 1947, para estudar. Cursa letras na Sorbonne e se aperfeiçoa em fonética na Université de Paris. De volta ao Brasil, em 1957, matricula-se na Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo. Durante o curso de teatro, de 1957 a 1960, participa do elenco de algumas montagens e dirige cinco espetáculos na própria EAD, já evidenciando sua vocação de encenador. Recebe da escola o Prêmio Especial de Direção pelo trabalho em As Preciosas Ridículas, de Molière. Concluído o curso, Milton Baccarelli passa a lecionar francês e interpretação na EAD.1

Recém-formado, em 1961, atua em A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri, produzida pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC); dirige e integra o elenco de encenações da Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso; é responsável pela direção de O Dever do Médico, de Luigi Pirandello, montagem realizada por estudantes do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, São Paulo; dirige, para o Teatro Paulista de Comédia, Inimigos Íntimos, de Barrilet e Gredy, e, para o Teatro de Lotte Sievers, Farsa do Mancebo que Se Casou com a Mulher Brava, de Alejandro Casona.

Por indicação de Sábato Magaldi, em 1962, é convidado a lecionar no Curso de Formação de Ator da Escola de Belas Artes da Universidade do Recife (atual Universidade Federal de Pernambuco - UFPE). Nessa instituição, dirige vários espetáculos que atestam o seu gosto pelos textos clássicos e pela dramaturgia de reconhecida qualidade. Em 1975 assume o cargo de coordenador do curso de licenciatura em educação artística do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE.

Baccarelli procura se entrosar com a classe teatral pernambucana e, no início de 1963, integra o elenco da montagem de A Via Sacra, de Henri Ghéon, direção de Clênio Wanderley, produzida pelo Teatro Adolescente do Recife (TAR). Nesse ano, o Teatro Universitário de Pernambuco (TUP) é totalmente reestruturado na presidência do ator Ivan Soares. Milton Baccarelli é convidado para a direção do espetáculo que lança nacionalmente a peça Vereda da Salvação, de Jorge Andrade. A estreia acontece em maio de 1963, no Teatro de Santa Isabel, e recebe importantes prêmios da Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco (ACTP), de melhor diretor, para Milton Baccarelli; melhor intérprete masculino, para Carlos Reis e Orlando Vieira; e melhor espetáculo de conjunto local, para o TUP.

Valdemar de Oliveira, em dois textos, comenta a encenação de Milton Baccarelli: "Bem desejaria que ninguém se antecipasse a mim em louvar rasgadamente o espetáculo com que o Teatro Universitário de Pernambuco, ao encenar a peça Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, atinge, em pleno: uma vigorosa maturidade artística. [...] Valha este registro, apenas, como uma nota prévia para uma análise mais detida do texto e do espetáculo, desde já incorporado às melhores páginas do nosso foral artístico".2 "Milton Baccarelli situou a tragédia moderna de Jorge Andrade, num espetáculo que tanto se distancia da demagogia barata quando se aproxima da dignidade artística".3

Ainda em 1963, para a inauguração do Teatro da Associação de Imprensa de Pernambuco dirige Inimigos Íntimos, espetáculo em que também atua. Nesse ano, participa do 4º Seminário Sul-Rio-Grandense de Música, com as óperas Il Filosofo di Capagna, de Baldassarre Galuppi e Carlo Goldoni, e Dido e Enéias, de Henry Purcell e Nahum Tate. A convite de Valdemar de Oliveira, em 1964, dirige para o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), Macbeth, primeira montagem de um texto de William Shakespeare pelo tradicional grupo pernambucano.

Em 1965, Baccarelli dirige o TUP pela segunda vez, na peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Volta a dirigir o TUP no ano seguinte, desta vez com o texto de Arthur Miller As Feiticeiras de Salém, que obtém o Prêmio Samuel Campêlo de melhor espetáculo de conjunto local, atribuído pela ACTP, além de outros prêmios conferidos a intérpretes da peça.

Na segunda metade dos anos 1960, Milton Baccarelli é convidado a dirigir espetáculos em outras cidades do Nordeste: Terras de Arisco, de Meira Pires, para o Teatro Escola de Natal; Nossa Cidade, de Thornton Wilder, para o Teatro da Universidade Regional de Campina Grande; e O Ministro do Supremo, de A. Gonzaga, com Elba Ramalho no elenco, para a Fundação Artística Manuel Bandeira, em Campina Grande, Paraíba.

Trabalha também para a televisão. Dirige diversos teleteatros, no início dos anos 1960, na TV Excelsior, de São Paulo, e em meados dessa década participa como diretor, ator, cenógrafo, figurinista de produções da TV Jornal do Commercio e da Televisão Universitária, do Recife. Entre 1970 e 1976, Baccarelli se dedica prioritariamente às atividades como docente e coordenador de cursos. Cria e coordena o programa A Vez É Nossa na Televisão Universitária,  que é selecionado para concorrer ao Prêmio Japão de Televisão Educativa.

É contratado pela Companhia Praxis Dramática (CPD) para encenar Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, em 1978. Além de dirigir e de trabalhar como ator, Baccarelli assina a tradução, a cenografia e os figurinos da peça. Com esse espetáculo, recebe o prêmio de melhor direção e a Companhia Praxis Dramática é agraciada com o prêmio de melhor espetáculo de 1978, no Recife, ambos conferidos pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT). A montagem é muito bem recebida pela imprensa local e pelo público.

No ano seguinte, Baccarelli volta a dirigir o TAP, com a peça A Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller. Ainda em 1979, dirige, para a Companhia Praxis Dramática, a peça de Millôr Fernandes É... O espetáculo, que estreia no Teatro Valdemar de Oliveira, com a presença do autor, confere-lhe o Prêmio Espontâneo do Recife, de melhor direção e de melhor espetáculo. É... quebra recordes de público no Recife e, como Galileu Galilei, prolonga sua temporada apresentando-se no Teatro de Santa Isabel.

Em outubro de 1985, Baccarelli estreia Assim É... (se Lhe Parece), de Luigi Pirandello, para o consórcio de produtores formado pela Aquarius Produções Artísticas e pela Remo Produções Artísticas. Referindo-se ao trabalho de Baccarelli, o colunista do Diario de Pernambuco Valdi Coutinho escreve: "O encenador Milton Baccarelli soube dar um tratamento adequado ao texto de Pirandello, extraindo dele, nesta recriação, o que mais se oferece de cativante, belo e profundo".4

Na segunda metade dos anos 1980, Baccarelli se dedica intensamente à reestruturação do Curso de Formação de Ator, de extensão universitária, ligado ao Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística da UFPE, do qual é o coordenador. Com os alunos desse programa, em 1986, num projeto pedagógico, encena Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, em tributo ao cinquentenário da morte do poeta andaluz. Monta, em 1988, Fernando ou o Cinto Acusador, de Martins Pena e, dois anos depois, dirige Seis Pirandellos Procuram um Diretor, sua livre adaptação do texto de Luigi Pirandello, Seis Personagens à Procura de um Autor.

Em 1991, uma montagem malsucedida, após tantos êxitos como encenador: Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. O espetáculo provoca forte reação negativa da imprensa local, gerando manchetes como "Um bonde chamado tropeço", "Forrobodó no palco", "Atores pegam o bonde errado". Desgostoso, Baccarelli aposenta-se da UFPE e muda-se para Maceió. Na capital alagoana, ministra curso de extensão universitária na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e dirige, mais uma vez, Bodas de Sangue, para a Fundação Teatro Deodoro (Funted), de Maceió.

Falece, vítima de enfarte, em 18 de julho de 1994, às vésperas da estreia de A Mandrágora, de Maquiavel. O espetáculo da Associação Teatral das Alagoas (ATA) estreia com a direção de Lauro Gomes, enquanto Baccarelli aparece na ficha técnica como encarregado da preparação de atores e criador dos figurinos. No programa da montagem, o presidente da ATA, Ronaldo de Andrade, diz: "Se Baccarelli, por forças inumanas não integrou de maneira efetiva, como outros diretores de Recife, o movimento teatral em Maceió, nos três momentos em que aqui esteve, testemunhou nossa existência, por ela se deixando envolver e para ela constituindo referência de respeito e louvor".5

O livro O Teatro em Pernambuco (Trocando a Máscara), de Baccarelli, é lançado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), em 1994. Em dezembro de 2002, o Centro de Artes e Comunicação da UFPE inaugura uma sala de espetáculos, para uso prioritário dos estudantes de artes cênicas, que recebe o nome de Sala Milton Baccarelli.

Notas

DIONYSOS - Especial: Escola de Arte Dramática. Org. Ilka Marinho Zanotto, Mariângela Alves de Lima, Maria Thereza Vargas e Nanci Fernandes. Brasília: MinC/Fundacen, n. 29, 1989.

2 OLIVEIRA, Valdemar de. A propósito... Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 29 maio 1963.

3 idem, 31 maio 1963.

4 COUTINHO, Valdi. A loucura segundo Pirandello, assim é... Diario de Pernambuco, Recife, 19 nov. 1985. Viver, [s.p.].

5 ALMEIDA, Ronaldo de. Baccarelli - um testemunho para a história. In: Associação Teatral das Alagoas. A Mandrágora. Direção Lauro Gomes. Maceió, programa, 1994.

Outras informações de Milton Baccarelli:

  • Outros nomes
    • Milton João da Mota Baccarelli
  • Habilidades
    • diretor de teatro
    • Tradutor
    • Crítico
    • professor
    • Ator
    • Cenógrafo
    • figurinista
  • Relações de Milton Baccarelli com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (20)

Fontes de pesquisa (11)

  • ZANOTTO, Ilka Marinho et al. (Org.). Escola de Arte Dramática.  Dionysos, Brasília, n. 29, 1989. Edição especial.
  • ALBERTO, João. Coluna Social. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 20 jul. 1994.
  • ALMEIDA, Ronaldo de. Baccarelli - Um testemunho para a história. In: Associação Teatral das Alagoas. A Mandrágora. Direção Lauro Gomes. Maceió, programa, 1994.
  • CADENGUE, Antonio. TAP: sua cena & sua sombra - o Teatro de Amadores de Pernambuco (1948 - 1991). 769 f. Tese (Doutoramento em Artes-Teatro) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1991..
  • COUTINHO, Valdi. A loucura segundo Pirandello, assim é... Diario de Pernambuco, Recife, 19 nov. 1985. Viver, [s.p.].
  • GALILEU Galilei bate recorde de público. Diário da Manhã, Recife, [s.p.], 17 maio 1968.
  • MACHADO, Lúcia. Milton Baccarelli e o teatro recifense: um feliz encontro. In: Idem A modernidade no teatro - ali e aqui - reflexos estilhaçados. Prefácio Luís Augusto Reis. Recife: Edição da autora, 2009. [No Prelo]
  • OLIVEIRA, Valdemar de. A Propósito... Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 2 jun. 1963.
  • OLIVEIRA, Valdemar de. A Propósito... Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 29 maio 1963.
  • OLIVEIRA, Valdemar de. A Propósito... Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 31 maio 1963.
  • SANTANA, Jorge José B. A televisão pernambucana por quem a viu nascer. Recife: Edição do autor, 2007. 418 p.

Como citar?

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  • MILTON Baccarelli. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa404659/milton-baccarelli>. Acesso em: 21 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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