Artigo da seção pessoas José Carlos Cavalcanti Borges

José Carlos Cavalcanti Borges

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Teatro  
Data de nascimento deJosé Carlos Cavalcanti Borges: 15-03-1910 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Goiana) | Data de morte 11-01-1983 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia
José Carlos Cavalcanti Borges (Goiana PE 1910 - Recife PE 1983). Autor, ator e professor. Quase toda a sua dramaturgia está vinculada à Região Nordeste do Brasil, sobretudo o conjunto de cinco peças que denomina de "comédias municipais". São obras que abordam fatos prosaicos do dia a dia do interior, em uma atmosfera de lirismo e comicidade, captando por meio das personagens o linguajar, quase um dialeto, de sua cidade natal.

Em 1933, diploma-se na Faculdade de Medicina de Recife, que atualmente integra a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e é aprovado em concurso público para o cargo de médico psiquiatra do Departamento de Assistência a Psicopatas do Estado de Pernambuco, com a tese Investigação Psicológica sobre a Personalidade de Epiléticos, padronizando e aplicando pela primeira vez no Brasil o psicodiagnóstico de Rorschach. Ingressa como professor na Faculdade de Medicina de Recife, em 1937, com a pesquisa A Personalidade de Menores do Recife, na área de psicologia social, e torna-se responsável pelo ensino de psiquiatria.

Inicia-se no teatro amador em Goiana e Paudalho, ambas cidades de Pernambuco. Durante o curso de medicina, nas férias, participa de espetáculos musicais como ator e diretor. No Recife, fica em 3º lugar e recebe menção honrosa com a peça Veneno, em 1939, no Concurso de Peças para Operários, promovido pela Diretoria de Reeducação e Assistência Social e pelo Grupo Gente Nossa (GGN), companhia fundada por Samuel Campelo. No ano seguinte, atua no espetáculo Zé Mariano, de Valdemar de Oliveira e Valter de Oliveira, em uma das últimas realizações do GGN. Sócio-fundador do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), trabalha como ator em quase todas as produções do grupo em 1941 e 1942.

A década de 1950 é o período de maior produtividade teatral de José Carlos Cavalcanti Borges. Com direção de Hermilo Borba Filho, estreia em setembro de 1950, no Teatro de Santa Isabel, A Comédia de Balzac, primeira peça de sua autoria a ser encenada. Dividido em três atos, o texto é composto, em sua maior parte, de cenas breves e rápidas, propositadamente mal delimitadas, confundindo-se entre si, mas que permitem captar o ritmo de vida do romancista francês. Reconhecendo a originalidade do trabalho do autor, o crítico e tradutor Paulo Rónai afirma: "José Carlos Cavalcanti Borges renunciou a uma reconstrução da época e dos costumes, e com isso a todas as vantagens que pudesse tirar dos matizes e minudências da cor local. O que lhe interessava era o enigma psicológico de Balzac, do qual chegou a dar uma solução tão verossímil como qualquer outra já oferecida".¹

Com o objetivo de encenar suas próprias peças, Cavalcanti Borges funda o Conjunto Cênico do Recife, em 1952. Todas as montagens do grupo têm direção de Alderico Costa e contam com a participação de Cavalcanti Borges no elenco. O espetáculo de estreia é O Poço do Rei. Anos depois, essa peça sofre reformulações e, em 1957, recebe nova versão, encenada pelo Grupo Teatro Pernambucano, com o título Acima do Bem Querer. Com esse texto, Cavalcanti Borges inicia o ciclo de "comédias municipais". A ação ocorre em Vila da Mata, assim como as demais comédias municipais, cidade fictícia onde o dramaturgo recria sua cidade natal, Goiana. Nesse lugar, cujo tempo é sempre o mesmo, "o fundo musical" (como ele denomina o enredo) é a desavença de dois grupos rivais que impede o romance entre Orlando e Antonieta. De certo modo, trata-se de uma versão bem-humorada de Romeu e Julieta, aclimatada na Zona da Mata pernambucana. 

O Conjunto Cênico do Recife representa, em 1954, Casa Grande & Senzala, "tentativa de uma comédia de costumes do século XVIII, como se fosse dramatização, ou ilustração" ² da obra homônima de Gilberto Freyre. Com esse espetáculo, Cavalcanti Borges inicia outro ciclo de peças, todas adaptadas de outras obras. Além de Casa Grande, o autor dramatiza Fogo Morto, em 1955, com base no romance de José Lins do Rego; A Flor e o Fruto, baseado em Dom Casmurro, de Machado de Assis, e recebe o Prêmio Cláudio de Souza da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1970; e O Caso do Colar, adaptação de um conto de Maupassant.

Estreia, em 1955, sua segunda comédia municipal, Tempestade em Água Benta, também com o Conjunto Cênico do Recife. Retornando à Vila da Mata, o autor mostra as confusões criadas quando se descobre que o velho vigário local será transferido para outra cidade, depois de 40 anos de ofício. Para Barbara Heliodora, "Tempestade em Água Benta nos leva [...] a um clima e uma vida de singeleza de que já praticamente nos esquecemos na ânsia de ser 'grande metrópole', e o maior encanto do texto está na ternura, na profunda e boa intimidade da vida de cidade pequena com que José Carlos Cavalcanti Borges trata seus personagens: seus problemas são tão deslavadamente sentimentais que nos sentimos tocados não só pelo ambiente em si como também por uma certa nostalgia de simplicidade daquela vida...".3

No ano seguinte, Cavalcanti Borges é eleito membro da Academia Pernambucana de Letras. Em 1958, ingressa na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, como professor fundador do Curso de Arte Dramática, e ministra, nas habilitações em interpretação, direção e dramaturgia, a disciplina de psicologia aplicada à arte dramática.

Mão de Moça, Pé de Verso é sua terceira comédia municipal. Brincando com algumas noções da psicanálise freudiana, o dramaturgo mostra o impasse de uma jovem que recusa todos os seus pretendentes ao casamento por não conseguir abandonar o pai. Antes do título definitivo, a peça ganha outras denominações: Coração sem Remédio, Sem Remédio e Soneto de Seu Pai. Com este, recebe menção honrosa no 1º Concurso Nacional de Peças Brasileiras, promovido pela Companhia Tônia-Celi-Autran (CTCA), em 1957.

A quarta comédia municipal é O Motor de Seu Lima, encenada pelo Conjunto Teatral Marista, em 1957. Essa peça sofre algumas modificações e passa a se chamar O Eclipse. Por esse texto José Carlos Cavalcanti Borges recebe prêmios no Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo, e estreia em agosto de 1961, com direção de Hermilo Borba Filho, com o Teatro Universitário de Pernambuco (TUP). Hermilo Borba Filho ainda dirige, nesse ano, Em Figura de Gente, a quinta comédia municipal, em um ato, que compõe o espetáculo O Processo do Diabo, com os textos A Primeira Lição, de José de Moraes Pinho, e A Caseira e a Caterina, de Ariano Suassuna, pelo Teatro Popular do Nordeste (TPN), do qual Cavalcanti Borges também é fundador. Nos anos 1970, Em Figura de Gente ganha nova versão, em dois atos, de maior comicidade, com o título O Cão Vivo.

Essas comédias municipais estão repletas de tipos regionais, como prefeitos ignorantes, beatas, vigários, chefes de bandas musicais, solteironas, delegados de polícia, entre outros. No entanto, uma análise mais detalhada evidencia que no fundo dessas histórias ingênuas há "uma técnica de construção sóbria, quase seca, com especiais cuidados para as unidades aristotélicas e lineamento psicológico dos personagens".4

Outras peças de sua autoria são O Vereador Vermelho, estreada em 1956, pelo Conjunto Cênico do Recife; Capitão de Patente, que recebe o Prêmio Serviço Nacional de Teatro, em 1975; e as "comédias de maus costumes" Meu Querido Ladrão e As Urnas Vão Rolar. Além de atuar em espetáculos, participa do elenco dos filmes Riacho de Sangue, direção de Fernando de Barros, em 1966, e A Compadecida, adaptação de Ariano Suassuna e George Jonas, que também assina a direção, em 1969, ambos produzidos em Pernambuco pela Aurora Duarte Produções.

Analisando a produção dramatúrgica de autores pernambucanos, entre as décadas de 1940 e 1960, Joel Pontes conclui ser a linguagem o principal aspecto a ser ressaltado na obra de José Carlos Cavalcanti Borges. Para ele, o dramaturgo consegue, assim como Luiz Marinho, autor que também se notabiliza por trazer o falar do matuto para a cena, "levar para o palco linguagens de ligação entre o campo e a cidade grande, com uma fidelidade ao real que não se encontra nos outros escritores [Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho, Isaac Gondim Filho, Aristóteles Soares e Aldomar Conrado]. Não se trata de uma caçada ao pitoresco, mas de uma permanência na memória auditiva e na sensibilidade".5

Notas
1. RÓNAI, Paulo. (1950) Balzac em Pernambuco. In: ______. Encontros com o Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958. p. 188.

2. BORGES, José Carlos Cavalcanti. Casa grande & senzala; comédia em 3 atos. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1970. p. 5.
 
3. HELIODORA, Barbara. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 jul. 1959. Apud: BORGES, José Carlos Cavalcanti. Tempestade em água benta; comédia municipal n. 2 (três atos). Recife: Universidade do Recife / Imprensa Universitária, 1964. p. 13.

4. PONTES, Joel. O Teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa, 1966. p. 152.

5. ______. p. 141.

Outras informações de José Carlos Cavalcanti Borges:

  • Habilidades
    • ator
    • autor
    • dramaturgo

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Fontes de pesquisa (25)

  • ACADEMIA Pernambucana de Letras: sua história. Recife: APL, 2006.
  • CADENGUE, Antonio Edson. TAP: anos de aprendizagem (O Teatro de Amadores de Pernambuco: 1941-1947). 1989. 252 f. Dissertação (Mestrado em Artes-Teatro). Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.
  • PRADO, Décio de Almeida. O teatro brasileiro moderno: 1930-1988. São Paulo: Perspectiva, 1988. 149 p. (Debates, 211).
  • RONÁI, Paulo. (1950) Balzac em Pernambuco. In: ______. Encontros com o Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958, p. 185-190.
  • BACCARELLI, Milton. O teatro em Pernambuco: trocando a máscara. Prefácio José Mário Austregésilo. Recife: Fundarpe, 1994. 184 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. A comédia de Balzac. Recife, 1950?. 41 f. Datilografada. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. A flor e o fruto (Segundo o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis). Recife: Imprensa Universitária, 1971. 101 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Acima do bem-querer: comédia municipal de amor e dissonância (três atos). Recife, jun. 1957. 87 f. Datilografada. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Acima do bem-querer; comédia municipal n. 1 (três atos). Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1964. 101 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Capitão de patente. Recife, 1975?. 56 f. Datilografado. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Casa grande & senzala; comédia em 3 atos. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1970. 94 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Em figura de gente; comédia municipal n. 5. Cadernos de Teatro, Rio de Janeiro, n. 54, jul./ago./set. 1972.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Mão de moça, pé de verso; comédia municipal n. 3 (três atos). Recife, [s.d.]. 70 f. Datilografada. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Mão de moça, pé de verso; comédia municipal n. 3 (três atos). Recife: Universidade do Recife/ Imprensa Universitária, 1965. 101 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. O assassino; contos. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1980. 85 p.
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. O poço do rei: comédia municipal em 3 atos. Recife, 13  jun. 1953. 47 f. Datilografado. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Tempestade em água benta; comédia municipal n. 2 (três atos). Recife, [s.d.]. 53 f. Datilografada. [Acervo Cedoc/Funarte].
  • BORGES, José Carlos Cavalcanti. Tempestade em água benta; comédia municipal n. 2 (três atos). Recife: Universidade do Recife/ Imprensa Universitária, 1964. 104 p.
  • COUTINHO, Valdi. A modernidade cáustica e subversiva no palco. Diario de Pernambuco, Recife, 7 jul. 1988. Viver, p. B-4.
  • FRAGA, Maria Auricéia Vasconcelos. O Curso de Formação do Ator da Universidade do Recife (1958-1966). 111 f. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Centro de Artes e Comunicações, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986.
  • GRUPO GENTE NOSSA. Anuário do Grupo Gente Nossa. Recife: Tipografia Renda, Priori & Cia, [1940?].
  • HELIODORA, Barbara. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 jul. 1959. Apud: BORGES, José Carlos Cavalcanti. Tempestade em água benta; comédia municipal n. 2 (três atos). Recife: Universidade do Recife/ Imprensa Universitária, 1964, p. 13.
  • PONTES, Joel. O Teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa, 1966. 157 p.
  • REIS, Luís Augusto. Hermilo Borba Filho: destaques de sua trajetória no teatro. Moringa, João Pessoa, Departamento de Artes Cênicas, Universidade Federal da Paraíba, n. 2, p. 49-53, jun. 2007.
  • UMA comédia nordestina traz de volta J. C. Cavalcanti Borges. Diario de Pernambuco, Recife, 10 dez. 1981. Viver, p. B-1.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOSÉ Carlos Cavalcanti Borges. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa403076/jose-carlos-cavalcanti-borges>. Acesso em: 12 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7