Artigo da seção pessoas Luiz Sergio Person

Luiz Sergio Person

Artigo da seção pessoas
Teatro / cinema  
Data de nascimento deLuiz Sergio Person: 12-02-1936 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 07-01-1976 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Luiz Sergio Person , 1962
Autoria desconhecida. Acervo: Família Person

Biografia

Luiz Sergio Person (São Paulo, São Paulo, 1936 - idem, 1976). Diretor de cinema e teatro, roteirista, produtor e ator em cinema e teatro. Cursa interpretação no Centro de Estudos Cinematográficos de São Paulo, em 1951. Ingressa, em 1954, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), mas não conclui o curso. A partir de 1955, dedica-se ao teatro amador, com os amigos Antunes Filho (1929), Cláudio Petraglia e outros. Em 1956, edita a revista de cinema e teatro, Sequência, que não passa do primeiro número e, em seguida, é acolhido como ator na Companhia de Comédias de Odilon Azevedo (1904-1966), pela qual interpreta as peças Vamos Brincar de Amor (1955) e O Complexo de Champanhe (1956).

Durante o ano de 1957, levado por Antunes Filho, atua e dirige teleteatros nas TVs Tupi e Record. Roteiriza, participa como assistente de direção e atua no filme Casei-me com Um Xavante (1957), de Alfredo Palácios (1922-1997). Ainda em 1957, dirige o longa-metragem Um Marido Para Três Mulheres, lançado apenas dez anos depois, como Marido Barra Limpa, com cenas adicionais filmadas pelo produtor Renato Grecchi, que assina o filme.

Afasta-se do meio artístico para assumir a diretoria comercial da empresa de sua família, Person-Bouquet S/A, onde permanece por apenas dois anos. Em 1961, viaja a Roma onde cursa direção no Centro Sperimentale di Cinematografia (CSC). Dirige o curta-metragem Al Ladro (1962), que ganha o prêmio de qualidade do governo italiano. No mesmo ano, é assistente de direção de Luigi Zampa (1905-1991) no filme Anni Ruggenti (1962). Em 1963, realiza o curta L'Ottimista Sorridente em 16mm, seu trabalho de formatura no CSC.

De volta ao Brasil, em 1964, concretiza em regime de cotas a produção de São Paulo Sociedade Anônima (1965), com roteiro escrito durante sua permanência na Itália, considerado pela crítica um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Escreve, em parceria com Jean-Claude Bernardet (1936) e Jô Soares (1938), o roteiro de SSS Contra Jovem Guarda (1966), com o cantor Roberto Carlos no elenco, mas o filme não chega a ser rodado. Em sociedade, organiza uma produtora com o diretor Glauco Mirko Laurelli (1930-2003) – a Lauper Filmes e dirige O Caso dos Irmãos Naves (1967), cujo roteiro divide, novamente, com Bernardet e conta com a montagem do sócio na Lauper Filmes, responsável também por filmes publicitários dos diretores. Nesse ano, é professor da Escola Superior de Cinema São Luiz e integra a Comissão Estadual de Cinema, na qual fica até 1971. Faz o episódio Procissão dos Mortos, do longa Trilogia de Terror (1968). Nos anos seguintes, lidera a criação da Reunião de Produtores Independentes (RPI), dirige Panca de Valente  (1969) e atua nos filmes O Quarto, Anuska, Manequim e Mulher, O Estranho Mundo de Zé do Caixão (todos de 1968) e Audácia!, a fúria dos desejos (1970). Cria centenas de filmes publicitários para a agência G. Smith do Brasil (1969-1971). Produz A Moreninha (1970), dirige Cassi Jones, o Magnífico Sedutor (1972), e retoma sua carreira no teatro com a abertura do Auditório Augusta, onde dirige com grande sucesso: El Grande de Coca Cola (1973), Orquestra de Senhoritas (1974), Lição de Anatomia (1975). Realiza, também, os curtas-metragens Il Palazzo Doria Pamphili (1963), Esportes no Brasil (1964) e Vicente do Rego Monteiro (1975). Morre, em 1976,  vítima de um desastre automobilístico, aos 39 anos de idade. Entre os roteiros nunca filmados está A Hora dos Ruminantes (1967), outra parceria com Jean-Claude Bernardet. O documentário Person (2006), de sua filha Marina, relembra sua vida e obra.

Análise

Composta por diversas facetas, a obra do cineasta Luis Sergio Person revela, conforme sua própria declaração, seu apreço por um cinema que misture a “parte sociológica com a artística”, desde que dentro de uma linguagem que não dispense a acolhida do público.

A inacabada chanchada Um Marido para três mulheres (1957) é ponte para introduzi-lo no acanhado meio cinematográfico paulista da década de 1950. Quando reaparece, dez anos depois, Person não reconhece o trabalho inicial, embora estivesse filmando Panca de Valente (1967), uma “chanchada campestre”, como ele mesmo define, meio paródia ao faroeste italiano que atrai então grandes bilheterias. O fracasso de seu filme o conduz à direção de campanhas publicitárias, colocando sua habilidade técnica a serviço do mercado que se abre com a modernização do país. Os merchandisings, certo “psicodelismo” visual e o grande número de referências a outros filmes jamais escondem a incorporação da linguagem do cinema publicitário.

Do mesmo modo, a tentativa de retomar o diálogo do cinema brasileiro com o espectador de massa, que a chanchada perdera para a televisão, encontra expressão no interrompido projeto de filmar Roberto Carlos e sua turma da Jovem Guarda, e deságua por fim em Cassi Jones, o magnífico sedutor, adesão voluntária às comédias eróticas que o mercado cinematográfico  acolhe desde o fim da década de 1960.

Bem diversa é a obra que Person atinge com seus filmes mais aclamados, nos quais defende o cinema como “prolongamento da vida” e encontra no moderno neorrealismo italiano da década de 1960 a linguagem apropriada às suas interrogações existenciais, sociais e políticas. São Paulo Sociedade Anônima, quase um retrato autobiográfico, que remete ao tempo que assumiu a empresa da família. Nessa obra, consegue unir observação crítica da realidade, empenho estético e profundidade psicológica na concepção dos personagens. Assim, articula um testemunho racional e emocional sobre os mecanismos que conduzem  um membro da classe média brasileira ao conformismo, no contexto do desenvolvimento econômico de São Paulo impulsionado pela indústria automobilística.

Embora relacionado ao Cinema Novo, essa aproximação não agrada o cineasta, embora não se coloque contra o movimento; o personagem central do filme não é o herói positivo da revolução social que o Cinema Novo preconiza. Person interpreta a sociedade na sua repercussão sobre o indivíduo e não nas proposições coletivas idealizadas. Trata-se aqui do sujeito que se descobre engrenagem da máquina econômica da qual não consegue se libertar, pois a reproduz nos atos cotidianos e sentimentais, no egoísmo, na objetividade financeira, na submissão a uma ordem burguesa remodelada, mas não humanizada, por novos comportamentos.

O Caso dos Irmãos Naves traz a marca do cinema político do diretor italiano Francesco Rosi (1922-2015), seu reconhecido mestre. O filme reconstitui o erro judiciário de Araguari, no qual os irmãos Joaquim e Sebastião, em pleno período da constituição do Estado Novo, final da década de 1930, são condenados por um crime que não cometeram. O ponto de partida é o livro escrito pelo advogado de defesa em que se descreve a truculência de um delegado, tenente da Força Pública, que, ao torturar barbaramente os irmãos e seus familiares, instala o medo e consegue forjar uma falsa confissão dos incriminados.

Narrado em forma de reportagem, na procura de superar a ficção, mas sem se prender ao documentário, o filme determina corajosamente um paralelo daqueles fatos com a  época de sua realização. Nessa alegoria histórica, o golpe militar de 1964, do mesmo modo que a ditadura de Getúlio Vargas,  consolida-se por meio da repressão, da delação e da arbitrariedade. Isso possibilita à figura um subordinado, o delegado no filme,  tornar-se intimidatória pelas particularidades sádicas e por estar sob a proteção de uma política maior, que autoriza o descumprimento das normas judiciais.

O grande sucesso popular desse filme procura um prolongamento modesto no episódio Procissão dos Mortos, do longa Trilogia de Terror (1968), no qual o cineasta, evocando a figura de Ernesto “che” Guevara, recém-assassinado, tematiza em tom fantástico a repercussão da guerrilha no meio rural brasileiro.

A reaproximação com o teatro na década de 1970, com o qual inicia carreira artística, permite-lhe encenar, entre peças clássicas do dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956) e do filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980), comédias de apelo comercial. Nestas últimas, procura imprimir a denúncia política e representar novos comportamentos sociais: El Grande de Coca-Cola, um teatro de revista sobre um ditador latino-americano; Orquestra de Senhoritas, um café-concerto em que todos os papéis femininos da peça são interpretados por homens – um escândalo na época.

Estes são apenas sinais de que Person se afasta, em definitivo, tanto do cinema de mercado quanto do politicamente empenhado. A morte prematura, além da dificuldade na obtenção de recursos financeiros, acabam por impedi-lo de concretizar um filme para o qual procura financiamento desde 1967: A Hora dos Ruminantes, um “filme-fábula”, em suas palavras, com toques de realismo fantástico, em que, mais uma vez, deseja refletir sobre a atitude passiva dos homens diante da intimidação do poder.

Notas

1. Todas as declarações de Person foram retiradas de sua entrevista para Luzes Câmera, programa da TV Cultura: Fundação Padre Anchieta. São Paulo, dez. 1975.

Outras informações de Luiz Sergio Person:

  • Outros nomes
    • Luis Sérgio Person
    • L. S. Person
    • Luiz Sérgio Peson
  • Habilidades
    • ator
    • roteirista
    • Produtor
    • diretor de cinema
    • diretor de teatro
  • Relações de Luiz Sergio Person com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Luiz Sergio Person: (2) obras disponíveis:

Representação (1)

Espetáculos (11)

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (12)

  • BIN, Marco. Person & Person. Socine: Estudos de Cinema, São Paulo, n.2, 1999. p. 153-168.
  • CARVALHO, Tania. Ney Latorraca: uma celebração. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 135 p. (Aplauso Especial).
  • CINEASTAS: Luiz Sérgio Person. Disponível em:< http://filmescopiobr.amplarede.com.br/cineastas/lsperson >. Acesso: 04 fev. 2013.
  • FESTIVAL BRASILEIRO DE CINEMA UNIVERSITARIO, 11. 2006. Rio de Janeiro.  Mostra homenagem a Luiz Sérgio Person. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense. 2006. 218 p. Mostra realizada no período de 29 mai. a 11 jun. 2006. p. 129-148.
  • GUERINI, Elaine. Nicette Bruno & Paulo Goulart: tudo em família. São Paulo: Cultura - Fundação Padre Anchieta: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 256 p. (Aplauso Perfil).
  • LABAKI, Amir (Org). Person por Person. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. [Transcrição do programa LUZES CAMERA. Depoimento a Joana Fomm. São Paulo: TV Cultura, dez. 1975].
  • MACHADO, Ney. ‘Quando as paredes falam’ no Teatro da Maison de France. Jornal A Noite. 30 ago. 1956. 2º Caderno.p. 3. Bibioteca Nacional Digital, s/d. Rio de Janeiro. Disponível em : < http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=348970_05&pagfis=38086&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader > Acesso em: 10 fev. 2016.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Cinema: um zapping de Lumière a Tarantino. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995. p. 96-103.
  • MIS/EMBRAFILME. Depoimentos sobre Luiz Sérgio Person. 5 pastas. [Transcrição datilografada em D 155, acervo da Cinemateca Brasileira]
  • Programa do Espetáculo - Entre Quatro Paredes - 1974
  • Programa do Espetáculo - Orquestra de Senhoritas - 1974
  • SGANZERLA, Rogério. Textos críticos 1.  São Paulo, Florianópolis: Itaú Cultural;Universidade Federal de Santa Catarina, 2010.  p. 101-111.

Como citar?

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  • LUIZ Sergio Person. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa401489/luiz-sergio-person>. Acesso em: 22 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7