Artigo da seção pessoas Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Artigo da seção pessoas
Teatro / literatura / artes visuais  
Data de nascimento deJoaquim Cardozo: 26-08-1897 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 04-11-1978 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Olinda)
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Série Gaúcha. Linóleos e Pochoirs , 1977 , Joaquim Cardozo | Carlos Scliar
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
Joaquim Maria Moreira Cardozo (Recife PE 1897 - Olinda PE 1978). Autor. Sua dramaturgia se inspira nas fontes populares da cultura nordestina, mas transcende essas matrizes estéticas reunindo, de modo poético, referências advindas de culturas estrangeiras, e de diversos campos do saber, como as ciências exatas e a filosofia.

Joaquim Cardozo nasce em 26 de agosto de 1897, no bairro do Zumbi, no Recife. Faz o curso secundário no Ginásio Pernambucano. Aos 16 anos, edita, com Durval Cezar, Oscar Ramos, Eduardo Cunha e os irmãos Benedito e Honório Monteiro, o jornal O Arrabalde: Órgão Lítero-Elegante, em que estreia na literatura, com o conto Astronomia Alegre. Publica seus primeiros trabalhos como caricaturista e chargista nas edições de domingo do Diário de Pernambuco e também no Diário da Tarde, em 1914. No ano seguinte, inicia seus estudos na Escola Livre de Engenharia de Pernambuco (atual Escola de Engenharia de Pernambuco), concluídos em 1930, após diversas interrupções, por problemas de ordem financeira e pessoal.

Torna-se professor dessa escola, lecionando até 1939, quando é atingido por medidas repressivas do Estado Novo. Após pronunciar discurso em que critica os procedimentos governamentais no campo da arquitetura e da engenharia, Cardozo é preso, afastado da sala de aula, demitido do cargo na Secretaria Estadual de Viação e Obras Públicas, e se vê obrigado a mudar-se para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, ganha projeção como poeta e engenheiro calculista, sobretudo, quando inicia parceria com Oscar Niemeyer, fazendo os cálculos de seus projetos arquitetônicos em diversas cidades brasileiras e, particularmente, na construção de Brasília.

Ainda no Recife, Cardozo participa do grupo da Revista do Norte, junto com o poeta Ascenso Ferreira, e nela publica seus primeiros poemas. Aos 50 anos de idade, lança seu primeiro livro de poesias, Poemas, em 1947. Sua produção dramatúrgica surge ainda mais tarde, entre as décadas de 1960 e 1970. A primeira peça, O Coronel de Macambira, é publicada em 1963. Com essa obra, Cardozo inicia uma trilogia inspirada no bumba meu boi, que inclui De uma Noite de Festa, de 1971; e Marechal, Boi de Carro, de 1975. Sua peça seguinte, Os Anjos e os Demônios de Deus, de 1973, tem como matriz o pastoril religioso.

As duas últimas criações para o teatro, O Capataz de Salema e Antônio Conselheiro, ambas de 1975, não são diretamente inspiradas em nenhum espetáculo popular do Nordeste, mas seus temas estão ligados ao imaginário nordestino, notadamente aos problemas sociopolíticos. Por meio delas, o autor critica explicitamente o sofrimento da população nordestina economicamente menos favorecida. Tal engajamento, no entanto, não compromete a originalidade artística. Seu teatro, embora denuncie as injustiças sociais, jamais deixa de exprimir uma visão transcendental dos seres e das coisas. Isso permite que ele ponha a cultura popular nordestina em contato com assuntos aparentemente tão dessemelhantes como, por exemplo, a matemática, a filosofia, o teatro medieval e o teatro oriental.

O Coronel de Macambira, o mais conhecido texto teatral de Joaquim Cardozo, estreia em dezembro de 1965, em encenação de Maria José Campos Lima, com os alunos da Escola de Belas Artes de Pernambuco. Composta por dois quadros, a peça tem o boi como motivo principal do enredo. Para escrevê-la, Joaquim Cardozo se baseia no bumba-meu-boi de Capitão Antônio Pereira, coligido por Ascenso Ferreira e publicado em 1944, na revista Arquivos, da prefeitura do Recife. Além disso, utiliza-se das próprias lembranças, como espectador de bumbas-meu-boi. Diferentemente dos dois bois posteriores (De uma Noite de Festa e Marechal, Boi de Carro), O Coronel de Macambira está ainda muito próximo de sua matriz popular, aproveitando muitos tipos de personagem do bumba folclórico.

Em posfácio na primeira edição da peça, Cardozo escreve: "Trata-se aqui, de uma obra inteiramente original, no texto, mas obedecendo às regras características desse drama falado, dançado e cantado - espécie de auto pastoril quinhentista, de onde, certamente, proveio. Contrariando, também, o espírito dessa brincadeira popular, que dá bom tratamento apenas ao boi e aos seus vaqueiros, como assinala Téo Brandão, dei relevo especial e simpático a três figuras, necessárias ao arremate, mais ou menos apoteótico, frequente em espetáculos desse gênero. Este trabalho estava praticamente concluído, quando me veio ao conhecimento, através da revista Das Schönste, que o escritor japonês Yukio Mishima escrevera seis nôs modernos. Trabalho, até certo ponto, semelhante ao que acabo de fazer, uma vez que o nô é teatro de tradição popular para o Japão, como o Boi o é para o Nordeste brasileiro; como o nô, que na opinião de Yeats é forma dramática distinta, indireta e simbólica, como o nô, que é texto, dança e canto, o Boi merece a meu ver, ser revitalizado, reanimando, como diversão e forma literária".1

O Coronel de Macambira recebe ainda algumas encenações importantes que apresentam o teatro de Joaquim Cardozo à crítica teatral e ao grande público. O Teatro Universitário de Juiz de Fora monta a peça em 1966, com direção de José Luiz, cumpre temporada no Rio de Janeiro, no ano seguinte, e recebe críticas elogiosas de Van Jafa, especialmente em relação ao texto: "[...] Joaquim Cardozo é antes de tudo um poeta. E como poeta se afirma um poeta maior, daqueles que não têm pressa, que passa pelo mundo e deixa sua imagem definida e sua poesia definitiva. É poeta daqueles que sabem a 'paisagem profundamente', e dos que estiveram com ela 'nas horas concluídas'. E no seu drama-poético, O Coronel de Macambira tudo isso flui calmo e nacionalistamente de uma maneira poético-dramática. [...] Joaquim Cardozo poderia não ter realizado nada mais que O Coronel de Macambira se incumbiria de imortalizá-lo".2

O bumba meu boi De uma Noite de Festa tem sua primeira representação em dezembro de 1972, no Mosteiro de São Bento de Olinda, Pernambuco, dirigida por Maria José Campos Lima, com os alunos da Escola de Artes da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Esse bumba é estruturado em três dimensões denominadas quadros, constituídos de fragmentos distintos: no primeiro quadro, predomina a perspectiva da realidade; no segundo, uma perspectiva onírica e, no terceiro, uma síntese entre o mágico, o real e o onírico. Cardozo realiza uma dupla operação: de um lado, afasta-se "do 'boi' na sua expressão popular", deixando de "obedecer às modificações introduzidas no gênero pela interpretação folclórica"; de outro, perfaz um caminho inverso, procurando "reorganizá-lo como poderia ser na sua origem".3 Apesar de sua tentativa de renovação do bumba-meu-boi, Cardozo se preocupa em conservar-lhe a estrutura, supondo que, assim, poderia preservar esse "teatro como gênero e não apenas como espécie".4

Procedimento semelhante se encontra em Marechal, Boi de Carro, o último e o mais melancólico boi cardoziano. Nele, a estrutura básica é a mesma que perpassa os demais bumbas: o enredo em torno da tentativa de salvação do boi condenado ao matadouro. Novamente, algumas personagens típicas do folguedo atuam como porta-vozes das críticas sociais do autor. No entanto, "em oposição aos Bois que sempre terminam em festa e regojizo, este bumba finda numa dolorosa despedida. A cerimônia fúnebre que era dedicada apenas ao boi alarga-se para o próprio bumba-meu-boi, no solitário e perdido aboio de Mateus".5

Os Anjos e os Demônios de Deus é estruturada em doze jornadas, cada uma com um título. Nessa peça, as pastoras anunciam a vinda do Messias, além de louvarem as belezas do planeta Terra por intermédio de cantigas, enquanto os anjos e os demônios discutem os desígnios de Deus para salvar a humanidade. Não existe, aqui, a luta entre o bem e o mal, entre anjos e demônios. São personagens que, mesmo ocupando a cena simultaneamente, não chegam a dialogar verdadeiramente. Funcionam como forças antitéticas (luz e sombra) que se complementam, imprimindo um diálogo de teor filosófico ao texto.

Em O Capataz de Salema, a trama é centrada no conflito da paixão do Capataz por Luzia. Eles pertencem a esferas sociais diferentes: o capataz é o homem que manda e vigia os pescadores, dos quais Luzia descende. Mesmo que a moça corresponda aos sentimentos do capataz, por seus distintos papéis sociais (patrão e subalterno) e por sua natureza distinta - Luzia é a terra (fêmea) onde tudo germina e o Capataz é o mar (macho) que tudo devora, sempre inconstante -, ela não consegue nem pode aceitá-lo. Essa é a peça de menor extensão de Cardozo e também a de maior concisão dramática.

Antônio Conselheiro busca recriar a saga de Canudos. Com base em Os Sertões, Cardozo aprofunda e amplia as questões relativas à história, à política, à sociedade e à religião. Desconstruindo a história, o dramaturgo faz com que o passado, o presente e o futuro se aglutinem de maneira dialética em uma mesma estrutura.

O teatro de Joaquim Cardozo "oferece aos leitores, atores e encenadores, únicos agentes possíveis de atualização do texto teatral, uma obra sempre nova e provocante, porque prenhe de modernidade não apenas na escritura do texto, mas na rica estrutura imaginária da encenação. Uma obra cuja propriedade é seu chão maduro, remoto, futuro; em que a tradição se faz aberta à contemporaneidade".6

Notas
1 CARDOZO, Joaquim. Posfácio. In: ______. O Coronel de Macambira. Rio de Janeiro: Tecnoprint Gráfica Editora, 1970. p. 159-160.

2 JAFA, Van. O Coronel de Macambira. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 abr. 1967.

3 CARDOZO, Joaquim. Prefácio. In: ______. De uma Noite de Festa. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.]. p. 5.

4 Idem, p. 11.

5 LEITE, João Denys Araújo. Sob a Força e o Poder das Armas, adeus bumba-meu-boi. In: CARDOZO, Joaquim. Marechal, Boi de Carro: teatro. 2ª ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001. p. 9.

6 LEITE, João Denys Araújo. O teatro luminoso de Joaquim Cardozo sob a sombra da história. Folhetim, Rio de Janeiro, Teatro do Pequeno Gesto, n. 11, set./dez. 2001. p. 94.

Outras informações de Joaquim Cardozo:

  • Outros nomes
    • Joaquim Maria Moreira Cardozo
    • Joaquim Cardoso
  • Habilidades
    • Poeta
    • Ilustrador
    • crítico de arte
    • Topógrafo
    • dramaturgo
    • engenheiro
    • Autor
    • Contista
    • Caricaturista
    • desenhista
    • engenheiro civil
    • professor
    • editor

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Fontes de pesquisa (16)

  • CARDOZO, Joaquim. Posfácio. In: ______. O Coronel de Macambira. Rio de Janeiro: Tecnoprint Gráfica Editora, 1970, p. 159-160.
  • CARDOZO, Joaquim. Prefácio. In: ______. De uma Noite de Festa. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.], p. 5-11.
  • D'ANDREA, Moema Selma. A cidade poética de Joaquim Cardozo: elegia de uma modernidade. Recife: [s.n.], 1998.
  • DANTAS, Maria da Paz Ribeiro. Joaquim Cardozo - ensaio biográfico. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1985. p. 89.
  • DANTAS, Maria da Paz Ribeiro. Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro. Prefácio João Denys Araújo Leite. Recife: ENSOL, 2003. p. 441.
  • DANTAS, Maria da Paz Ribeiro. O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo. Prefácio Audálio Alves. Rio de Janeiro: José Olympio Editora; Recife: Fundarpe, 1985.
  • ENGENHARIA e arte: o centenário de Joaquim Cardozo. Suplemento Cultural do Diário Oficial, Recife, ano 12, ago. 1997.
  • JAFA, Van. O Coronel de Macambira. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 9 abr. 1967.
  • LEITE, João Denys Araújo. Um teatro da morte: transfiguração poética do bumba-meu-boi e desvelamento sociocultural na dramaturgia de Joaquim Cardozo. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2003. 324 p.
  • LEITE, João Denys Araújo. O teatro luminoso de Joaquim Cardozo sob a sombra da história. Folhetim, Rio de Janeiro, Teatro do Pequeno Gesto, n. 11, p. 82-95, set./dez. 2001.
  • LEITE, João Denys Araújo. Sob a Força e o Poder das Armas, adeus bumba-meu-boi. In: CARDOZO, Joaquim. Marechal, Boi de Carro: teatro. 2ª ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001, p. 5-9.
  • LIMA NETO, Manoel Ricardo de. Joaquim Cardozo: um encontro com o deserto. 2008. 294 f. Tese (Doutorado em Literatura) - Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.
  • MINISTÉRIO da Educação e Cultura; Secretaria de Cultura; Serviço Nacional de Teatro. Anuário do teatro brasileiro/1978. Coord. Vanêde Nobre. Rio de Janeiro: Reser - Artes Gráficas S. A., 1982.
  • OLIVEIRA, Érico José Souza de. Antônio Conselheiro: poética intertextual na dramaturgia de Joaquim Cardozo. 2002. 150 f. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) - Escola de Teatro e Escola de Dança, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2002.
  • PÁDUA, Vilani Maria de. Tradição e modernidade em O Coronel de Macambira, um bumba-meu-boi de Joaquim Cardozo. 2004. 155 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
  • PY, Fernando. Joaquim Cardozo: três poemas dramáticos (Orelha do livro). In: CARDOZO, Joaquim. O Capataz de Salema. Antônio Conselheiro. Marechal, Boi de Carro. Rio de Janeiro: Agir; Brasília: INL, 1975.

Como citar?

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  • JOAQUIM Cardozo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3908/joaquim-cardozo>. Acesso em: 16 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7