Artigo da seção pessoas José Bina Fonyat Filho

José Bina Fonyat Filho

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deJosé Bina Fonyat Filho: 1918 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador) | Data de morte 1977

Biografia

José Bina Fonyat Filho (Salvador, Bahia, 1918 - s.l. 1977). Arquiteto. Forma-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil - atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1949, e passa a trabalhar como assistente de seu professor, o arquiteto Lucas Mayerhofer. É convidado pela Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia para dar aulas de composição da arquitetura e teoria e filosofia da arquitetura, permanecendo à frente das duas cadeiras até 1958, quando decide dedicar-se exclusivamente a seu escritório. Realiza uma série de obras em Salvador, das quais se destaca o Teatro Castro Alves, 1957/1967, menção honrosa da 1ª Bienal de Artes Plásticas de Teatro, e integrante da 4ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1957. Participa ativamente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), assumindo entre 1956 e 1957 o cargo de secretário do conselho diretor.

Análise

A partir da metade do século XX a arquitetura moderna praticada no Rio de Janeiro desde os anos 1930 começa a se disseminar pelo Brasil com a atuação de arquitetos cariocas em outros estados e de arquitetos graduados no Rio de Janeiro, que, recém-formados, retornam às cidades de origem. O baiano José Bina Fonyat Filho é um desses divulgadores. Formado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, Fonyat volta a Salvador no início da década de 1950 a convite da Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia, onde assume as cadeiras de composição da arquitetura e teoria e filosofia da arquitetura. Em sua atuação como professor e arquiteto defende, reverberando o discurso de Lucio Costa (1902-1998) e a produção de Oscar Niemeyer (1907 - 2012), que a arquitetura moderna brasileira supera o "frio e árido tecnicismo" do movimento moderno ao legitimar "a intenção plástica na concepção de obra arquitetônica, e mesmo [autorizar] a procura deliberada e constante da forma, aliada às conveniências funcionais".1 É justamente a aliança entre o plástico e o funcional que distingue sua obra e caracteriza sua contribuição.

Ensaiada na Residência João Antero de Carvalho, 1954, em Petrópolis, desenvolvida com o arquiteto Tércio Pacheco (1922), e na Refinaria de Manguinhos, ca. 1955, com os arquitetos Firmino Fernandes Saldanha (1906-1985) e H. Kaulino, essa aliança só ganha consistência no Teatro Castro Alves, 1957/1967, em Salvador, e no Posto de Serviço da Petrobras, 1959/1960, construído em Brasília.

No teatro, realizado com o engenheiro Humberto Lemos Lopes e a colaboração dos arquitetos Ubirajara Motta Lima Ribeiro (1930-2002) e João Carlos Bross, além do cenógrafo e figurinista italiano Aldo Calvo (1906-1991), essa aliança aparece claramente em dois momentos: na separação do programa funcional em dois blocos independentes interligados por ampla rampa de circulação, e no desenho audacioso de seus volumes. O bloco menor abriga o foyer, sala de exposições e eventos, bar e um terraço-jardim voltado para a praça de Campo Grande, configurando uma lâmina horizontal e transparente em que se destaca a estrutura independente. O bloco maior abriga num volume único e opaco palco e plateia, adequando-se às exigências técnicas necessárias ao bom funcionamento de um teatro de grande porte - que deve abrigar da ópera à comédia. Aproveitando a inclinação da cobertura e da plateia e as dimensões da caixa do palco, Fonyat projeta um prisma triangular de grandes proporções que faz referências ao primeiro projeto de Niemeyer para o Auditório do Ibirapuera, de 1952, construído em 2003/2004, mas que em virtude da complexidade e dimensão do projeto está, ao contrário deste, solidamente implantado no terreno. Estrutura, vedação e cobertura juntam-se numa forma única bastante expressiva que é esculpida em concreto armado.

No Posto de Serviço da Petrobras o arquiteto volta a desenhar blocos independentes definidos pelas especificidades do programa, pensados também em conjunto, de forma a garantir uma unidade geral à composição. Tal como ensaia na Refinaria de Manguinhos, onde estabelece um vocabulário comum aos blocos com base no desenho da estrutura, nesse projeto Fonyat desenha uma laje de concreto armado, cuja seção em losango, adotada nos edifícios que compõem o conjunto, ora no sentido longitudinal, ora transversal, ora radial, embute o volume da caixa - d'água, sempre complicado de se solucionar do ponto de vista formal. A disposição adotada, segundo o historiador da arquitetura Yves Bruand, "é engenhosa no plano prático, e permitiu, sobretudo, dar a essa construção utilitária uma unidade estética verdadeiramente notável, raramente atingida num tipo de programa muitas vezes negligenciado no plano plástico".2 Ainda segundo Bruand, a solução é retomada pelo arquiteto em outros projetos como a Agência do Banco do Brasil, ca. 1966, construída em Salvador, e também por outros arquitetos, que reconhecem seu potencial expressivo.

Além da plasticidade característica de sua produção, vale destacar sua preocupação em recuperar elementos característicos da história da arquitetura do Brasil, tais como a treliça, o azulejo, o colorido das construções coloniais e a veneziana de madeira. Consideradas um exemplo primoroso da aliança entre o plástico e o funcional, entre o passado e o presente da arquitetura do país, as venezianas são objeto de um estudo detalhado que o arquiteto realiza com seus alunos e publica em um número especial da revista Acrópole. Lançado em setembro de 1959, nesse trabalho é possível identificar a sua maneira de pensar a arquitetura do país e a relevância histórica de Lucio Costa.

Notas

1 FONYAT FILHO, José Bina. Veneziana e vidro - a ocorrência. Acrópole. São Paulo, n. 251, pp. 384, set. 1959.

2 BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. Tradução Ana M. Goldberger. 3ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 220.

Outras informações de José Bina Fonyat Filho:

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (19)

  • FICHER, Sylvia; ACAYABA, Marlene Milan. Arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Projeto Editores, 1982. 124 p.
  • AGÊNCIA DO BANCO DO BRASIL. Acrópole. São Paulo, n. 328, pp. 37-9, mai. 1966.
  • BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. Tradução Ana M. Goldberger. São Paulo: Perspectiva, 1981.
  • CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno: Guia de Arquitetura 1928-1960. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
  • CONJUNTO DE APARTAMENTOS. Acrópole. São Paulo, n. 223, pp. 250-2, mai. 1957.
  • Disponível em: [http://bienalsaopaulo.globo.com/biografia.asp?origem=N&codigo=4522]. Acesso em: 28/12/04. Fundação Bienal São Paulo
  • Disponível em: [http://www.vivercidades.org.br/publique/cgi/public/cgilua.exe/web/templates/htm/_template02/view.htm?editionsectionid=14&user=reader&infoid=826]. Acesso em: 16/05/05. Revista Viver Cidades
  • EDIFÍCIO DO BANCO DO BRASIL. Acrópole. São Paulo, n. 353, pp. 37-9, ago. 1968
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  • EDIFÍCIOS DE APARTAMENTOS EM SALVADOR. Acrópole. São Paulo, n. 382, pp. 14-6, mar. 1971.
  • FONYAT, José Bina. Veneziana e vidro - a ocorrência. Acrópole. São Paulo, n. 251, pp. 383 - 413, set. 1959.
  • POSTO DE SERVIÇO DA PETROBRÁS EM BRASÍLIA. Acrópole. São Paulo, n. 268, pp. 146-9, fev. 1961.
  • REFINARIA DE MANGUINHOS.Módulo. Rio de Janeiro, ano I, n. 3, pp. 39-43, dez. 1955.
  • RESIDÊNCIA EM PETRÓPOLIS. Arquitetura e Engenharia. Belo Horizonte, n. 36, pp. 10-4, jul./ago. 1955.
  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.
  • SERRONI, J. C. Teatros: uma memória do espaço cênico no Brasil.São Paulo: Editora SENAC, 2002, pp. 51-55. 360p., il. p&b.
  • TEATRO CASTRO ALVES EM SALVADOR. Acrópole. São Paulo, n. 261, pp. 232-7, jul. 1960.
  • TEATRO CASTRO ALVES, SALVADOR Arquitetura e Engenharia. Belo Horizonte, n. 59, pp. 2-8, jan./fev 1961.
  • TEATRO CASTRO ALVES, SALVADOR, BAHIA. Habitat. São Paulo, n. 48, pp. 10-2, mai./jul. 1958.

Como citar?

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  • JOSÉ Bina Fonyat Filho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa378644/jose-bina-fonyat-filho>. Acesso em: 25 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7