Artigo da seção pessoas Tetê Espíndola

Tetê Espíndola

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deTetê Espíndola: 11-03-1954 Local de nascimento: (Brasil / Mato Grosso do Sul / Campo Grande)

Biografia

Teresinha Maria Miranda Espíndola (Campo Grande MS, 1954). Cantora, compositora, instrumentista. É reproduzindo o som de cachoeiras e pássaros de seu estado natal que Tetê Espíndola, ainda criança, desenvolve o gosto pela música, compartilhado por seis de seus sete irmãos, autodidatas como ela. Aos catorze anos, recebe o prêmio de melhor intérprete num festival de música de Campo Grande, defendendo com sua voz potente a canção Sorriso, do irmão Geraldo. Em 1974, ganha uma craviola1, com a qual compõe sua primeira canção, Fio de Cabelo. No ano seguinte, forma com os irmãos Geraldo, Marcelo (Celito) e Alzira o grupo Luz Azul, que excursiona por Campo Grande e Cuiabá.

Muda-se para São Paulo em 1977. No ano seguinte, reúne os membros do Luz Azul para gravar o LP Tetê e o Lírio Selvagem, pela Philips. Com canções como Rio de Luar, Andorinha Manca ou Pássaro Sobre o Cerrado - esta última em parceria com o cunhado Carlos Rennó.

Em 1980, lança pela Philips seu primeiro disco solo, Piraretã. Nesse disco interpreta a faixa Tamarana, dos irmãos Arrigo e Paulo Barnabé. Posteriormente, participa do disco Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé. Também é dele a valsa Londrina, que a cantora defende no Festival MPB Shell, da Rede Globo, em 1981. No ano seguinte, pelo selo independente Som da Gente, lança o LP Pássaros na Garganta, pelo qual é premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como de cantora revelação.

A guinada em sua carreira ocorre em dezembro de 1985, com o hit Escrito nas estrelas, parceira de Arnaldo Black, seu marido, com Carlos Rennó. Na voz de Tetê, a canção conquista o primeiro lugar no Festival dos Festivais da TV Globo, levando o disco mix2 homônimo, lançado às pressas pela Polygram, a vender 50 mil cópias em uma única semana. Até então restrita a um público alternativo, Tetê se consagra como estrela da MPB. Seu álbum seguinte, Gaiola (1986), conta com a participação de Ney Matogrosso, Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal. Segue-se uma grande exposição na mídia, que inclui uma participação especial no filme Mônica e a sereia do Rio (Walter Hugo Khouri, 1987), em que contracena com animações das personagens de Mauricio de Souza. Ainda nos anos 1980, apresenta-se em Roma, Paris e Bruxelas.

Com bolsa da Fundação Vitae, realiza pesquisa sobre o canto dos pássaros amazônicos, que resulta no álbum independente Ouvir/Birds, de 1991. Seguem-se Só Tetê (1994), com canções de diversos autores, e Canção do amor (1995), álbum totalmente acústico. Em 1998, lança com Alzira Espíndola o CD Anahí (Dabliú Discos), que reúne clássicos da música regional que as irmãs ouviam na voz de sua mãe. Com o compositor francês Philippe Kadosch, grava em Paris o disco VozVoixVoice (MCD, 2001), que explora percussividades vocais e sons onomatopaicos de aves e outros animais. Cria o selo Luz Azul, pelo qual lança Fiandeiras do Pantanal (2002), em parceria com a poetisa Raquel Naveira; Espíndola Canta (2004), com os irmãos Espíndola; Zencinema (2005), só com músicas do marido Arnaldo Black; E Va Por Ar (2007), somente com composições suas, algumas em parceria; e Babeleyes (2009), segundo trabalho com Philippe Kadosch, composto sobre sons de línguas mortas, raras e ameaçadas.

 

Comentário crítico

Com seu repertório exótico e uma voz completamente fora dos padrões do mercado, dotada de um timbre metálico e de uma extensão incomum, em que se destacam seus agudos extremos e afinados, Tetê Espíndola desenvolve um estilo sem paralelo na música brasileira. Não por acaso, ela encontra na São Paulo dos anos 1970 e 1980 um ambiente privilegiado para a divulgação de seu trabalho. Ali, músicos de diferentes origens e com as mais variadas propostas estéticas, mas sem espaço na grande mídia ou na indústria fonográfica, assumem a produção independente de seus álbuns. O caráter experimental e alternativo do trabalho desses artistas lhes rende o rótulo de "Vanguarda Paulista", cunhado pela imprensa da época. Mesmo tendo iniciado sua carreira numa gravadora multinacional e com respaldo da grande mídia (a canção Bem-te-vi, do álbum Tetê e o Lírio selvagem, integrou a trilha da novela Roda de Fogo, da TV Tupi), Tetê Espíndola logo se identifica com o grupo, do qual se torna um dos principais expoentes.

Como intérprete, ela desenvolve um repertório eclético que inclui tanto composições suas e de seus parceiros, moldadas especialmente à sua voz, como regravações de clássicos da música popular brasileira, interpretados de forma bastante peculiar. É o caso, por exemplo, de Judiaria, valsa de Lupicínio Rodrigues registrada no álbum Só Tetê. Para reforçar o caráter passional da letra ("Agora você vai ouvir aquilo que merece/ As coisas ficam muito boas quando a gente esquece/ Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão/ A judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração"), a cantora se vale de uma interpretação dramática, integrando ao canto certas inflexões típicas da fala - procedimento, aliás, utilizado por vários outros artistas e bandas da Vanguarda Paulista, como Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e Grupo Rumo. Para tanto, ela altera o timbre da voz em passagens estratégicas (como nas palavras "esquece", meio sussurrada, e "coitadinho", quase um choro) e abusa dos portamentos3, recursos que podem ser notados em quase todas as suas interpretações, caracterizadas ainda por expressões faciais marcantes, envolvendo sobretudo o olhar.

Como compositora, Tetê desenvolve um estilo igualmente singular. No início da carreira, funde gêneros regionais pantaneiros como a polca e a guarânia ao folk-rock e o comportamento hippie, numa fusão batizada por Arrigo Barnabé de "sertanejo lisérgico". Mais tarde, por influência do mesmo Arrigo, ela se aproxima da música urbana - sem, no entanto, se afastar de suas origens sul-mato-grossenses.

Talvez em função de seu autodidatismo, muitas de suas melodias não são compostas no sistema tonal tradicional. Fio de cabelo, por exemplo, gravada no disco Pássaros na garganta, possui características modais. A uma harmonia de colorações impressionistas, arpejada na craviola, Tetê sobrepõe uma melodia sem um centro tonal, o que provoca no ouvinte certo efeito hipnótico. Alegria de cantarolar, registrada em Tetê e o Lírio Selvagem, é um longo vocalise4 a quatro vozes cuja melodia passeia por regiões tonais distantes, desorientando o ouvinte habituado à harmonia tradicional.

Com relação às letras, elas trazem quase sempre um sentimento regional, sem, no entanto, serem regionalistas. Inspiradas na grande proximidade da compositora com a natureza do cerrado, suas primeiras composições chamam atenção para a ação do homem sobre as matas, antecipando onda ecológica dos anos 1980. Pássaro sobre o cerrado, gravada em Tetê e o Lírio selvagem, critica a prática de aspersão de veneno sobre as plantações: "Pássaro sobre o cerrado/ Sua vida suave/ Sabe o canto e o corte sem saber/ Do veneno que pode com o vento/ Minar seu alimento". Em Caucaia, no mesmo disco, Tetê denuncia o perigo da construção de um aeroporto na região da Mata Atlântica: "Caucaia do Alto, tomara/ Sua rara mancha derradeira/ Na região não caia na mão/ Das empreiteiras".

Pouco a pouco, já sob influência da Vanguarda Paulista, o tom de denúncia cede espaço a imagens quase fotográficas, que remetem a paisagens do pantanal mato-grossense e da Chapada dos Guimarães, bem como à cultura indígena da região, com o abuso de palavras e topônimos em tupi. É o caso de Piraretã, gravada no disco homônimo, que traz uma colagem de elementos associados à floresta ("Jaguatirica/ Lagarto tatu jabuti/ Paca veado cobra/ Bichos que habitam as matas daquele lugar"), cantados sobre uma batida de rock. O mesmo se nota em Cuiabá ("Vaia de arara passa pelos ares/ Daqui pra'li/ Fica no olhar a flutuar/ O leque dos buritis") e em Paisagem fluvial ("No ritmo das águas/ No ritmo dos peixes/ No ritmo dos seixos rolando no rio/ Ah! Correnteza leva meu corpo/ Pra longe/ Junto dos jungos do musgo verdinho/ Macio/ Que aflora na fofa folhagem dos flancos").

Ao longo de sua carreira, a relação de Tetê Espíndola com o ambiente natural em que passa sua infância e desenvolve sua escuta musical vai se transformando. Se nos primeiros discos a natureza aparece apenas como tema, a partir de Pássaros na garganta ela passa a ser parte integrante da música, por meio da captação de sons da floresta. Essa integração se aprofunda em Ouvir/Birds, quando a natureza se transforma em instrumento musical. Nesse disco está registrada uma das passagens mais emocionantes do trabalho da cantora, em que ela canta "em dueto" com um uirapuru. Finalmente, em VozVoixVoice, a cantora - segundo suas próprias palavras - "se transforma na natureza", explorando com sua vozes 128 timbres diferentes de vozes, pássaros e outros animais.

 

Notas:
1 Instrumento projetado pelo violonista brasileiro Paulinho Nogueira. Semelhante a um violão 12 cordas, porém com o bojo superior arredondado, seu timbre metálico remete às sonoridades do cravo e da viola.

2 Disco de vinil com formato de LP, contendo, porém, apenas uma faixa de cada lado.

3 No canto, a palavra portamento designa a passagem de uma altura (nota) à outra passando por todas as alturas intermediárias, em absoluto legato, como se a voz "escorregasse" de um ponto a outro. Na gravação citada, o portamento é claramente percebido na última sílaba do verso "Meus óinho fechou", bem como em outras passagens.

4 Vocalise: melodia vocal sem palavras.

Outras informações de Tetê Espíndola:

  • Outros nomes
    • Terezinha Maria Miranda Espíndola
    • Tetê Spindola

Eventos relacionados (2)

Fontes de pesquisa (3)

  • ESPÍNDOLA, Tetê. Site oficial da cantora. Disponível em: <www.teteespindola.com.br> Acesso em: 10 dez. 2012.
  • MURGEL, Ana Carolina A. de Toledo. Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti: produção musical feminina na Vanguarda Paulista. Dissertação de mestrado. Campinas, IFCH-UNICAMP, 2005.
  • SANTIAGO, Ricardo. "'Eu sonhava e via tudo'. Entrevista com Tetê Espíndola". Oralidades. São Paulo, NEHO-USP, n. 1, p. 151-161, 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TETÊ Espíndola. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa375596/tete-espindola>. Acesso em: 21 de Jul. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7