Artigo da seção pessoas Nise da Silveira

Nise da Silveira

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deNise da Silveira: 15-02-1905 Local de nascimento: (Brasil / Alagoas / Maceió) | Data de morte 30-10-1999 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Nise da Silveira (Maceió, Alagoas, 1905 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999). Médica psiquiátrica e curadora. É uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil. Em 1931, conclui os estudos na Faculdade de Medicina da Bahia. No Rio de Janeiro, especializa-se em psiquiatria e trabalha no Hospital da Praia Vermelha, primeira instituição psiquiátrica do país.
 
Em 1936, durante o Estado Novo (1937-1945), é presa, acusada de atividade subversiva associada ao comunismo. Na prisão, conhece o escritor Graciliano Ramos (1892-1953), que faz da médica uma das personagens do livro Memórias do Cárcere (1953).
 
Em 1944, retorna ao serviço público carioca. Dois anos depois, inaugura a Seção de Terapêutica Ocupacional, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira), no bairro de Engenho de Dentro. O inovador tratamento psiquiátrico substitui eletrochoques e lobotomia por atividades musicais e práticas artísticas, desenvolvidas em ambiente acolhedor. Em 1952, com a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente, os trabalhos dos pacientes são organizados para pesquisa e apresentados em exposições. 
 
Outro projeto da médica é a Casa das Palmeiras, uma clínica de reabilitação para antigos pacientes de instituições psiquiátricas. Na instituição, a expressão criativa como tratamento é aplicada em regime de externato.
 
Após estudos no Instituto Carl Gustav Jung, na Suíça, Nise torna-se uma das principais divulgadoras dos preceitos do psicoterapeuta suíço Carl Jung (1875-1961) no Brasil. Inaugura e preside, até 1968, o Grupo de Estudos C. G. Jung, além de publicar livros sobre a prática terapêutica junguiana e sobre as obras de pacientes. A partir do acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, organiza exposições no Brasil e no exterior. Recebe homenagens e prêmios por sua atuação social, como a Ordem Nacional do Mérito Educativo (1993) e títulos honoris causa das universidades de Alagoas e Rio de Janeiro (1988). Em 2015, o filme Nise, o Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner (1957) e protagonizado por Glória Pires (1963), reconta o trabalho de implementação da terapia ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II.

Análise

O projeto de terapia ocupacional de Nise Silveira ganha repercussão mundial com o Museu de Imagens do Inconsciente. Ele humaniza as práticas psiquiátricas da época (exercidas predominantemente por homens), com resultados clínicos importantes.
 
Entre 1946 e 1951, o artista plástico Almir Mavignier (1925), que trabalha na área recreativa do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, sugere e organiza com Nise uma oficina para práticas de música, modelagem, jardinagem e pintura. Essas atividades livres, com orientação apenas técnica, sem aulas, indução ou apresentação de referencial externo, trazem progressos na qualidade dos trabalhos desenvolvidos pelos pacientes.
       
Duas exposições desses trabalhos são realizadas fora do Brasil e a boa repercussão contribui para a inauguração do Museu de Imagens do Inconsciente. Essa iniciativa inédita impressiona Carl G. Jung, cujo trabalho conceitual serve como embasamento para a prática clínica de Nise. Jung associa a qualidade dos trabalhos ao ambiente acolhedor e afetuoso em que são produzidos. O psicoterapeuta suíço salienta que alguns desenhos representam a tendência de o inconsciente compensar seu estado caótico. As imagens oferecem, portanto, um importante parâmetro para compreensão da esquizofrenia.
       
Nise entende que a terapia ocupacional que desenvolve possibilita a expressão não verbal de vivências do inconsciente dos pacientes. O fazer artístico é considerado, portanto, meio e instrumento para a cura, com valor próprio, e o estudo das imagens revelam características sobre o estado do paciente. A liberdade de expressão e a relação de confiança e afeto com o terapeuta é fundamental para esse processo. Também a catalogação de padrões arquetípicos, que, dentro do conceito junguiano, são marcas do inconsciente coletivo presentes em toda humanidade. 
 
Para Nise, a produção artística de seus pacientes é, pela qualidade estética, comparável à de artistas socialmente reconhecidos. O curador de arte Nelson Aguilar (1943) identifica semelhanças entre o fazer artístico dos pacientes com o da escola modernista, “na capacidade de ver a formação da obra de arte pela liberdade com a linha e a cor sobre o plano”. A produção vinda do projeto terapêutico de Nise influencia artistas como Abraham Palatinik (1928), que considera que a liberdade de expressão dos pacientes, sem vínculos com teorias ou escolas de arte, potencializa o resultado plástico.    
       
Muitos pacientes ganham projeção, como Albino Braz (1893-1950), Adelina Gomes (1916-1984) e Aurora Cursino dos Santos (1896-1959). Nise, entretanto, proíbe qualquer exploração comercial das obras. O artista que alcança maior destaque nas artes contemporâneas é Arthur Bispo do Rosário (1911-1989). Esquizofrênico, permanece internado durante quase toda a vida. Sua produção evidencia sofisticada lógica de um fazer artístico pautado pela busca da sublimação da alma para atingir o reino dos céus. Em 1995, o manto confeccionado pelo artista para o encontro com Deus no dia do Juízo Final, entre outras obras, representa o Brasil na 46a Bienal de Veneza e em diversas exposições de arte.

Outras informações de Nise da Silveira:

  • Habilidades
    • psiquiatra
    • psicanalista
    • Curadora

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (3)

  • CALAÇA, A. Dra. Nise da Silveira: esboço biográfico. Quatérnio – Revista do Grupo de Estudos C. G. Jung, Rio de Janeiro, n. 8, p. 206, 2001.
  • CARVALHO, Sonia Maria Marchi de; AMPARO, Pedro Henrique Mendes. Dra.Nise da Silveira: a mãe da humana-idade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. IX, n. 1, p. 126-137, March 2006.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Imagens do inconsciente. Curadoria Nise da Silveira, Luiz Carlos Mello; tradução John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NISE da Silveira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3754/nise-da-silveira>. Acesso em: 16 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7