Artigo da seção pessoas Patativa do Assaré

Patativa do Assaré

Artigo da seção pessoas
Literatura / música / teatro  
Data de nascimento dePatativa do Assaré: 05-03-1909 Local de nascimento: (Brasil / Ceará / Assaré) | Data de morte 08-07-2002 Local de morte: (Brasil / Ceará / Assaré)

Biografia

Antônio Gonçalves da Silva (Assaré CE 1909 - idem 2002). Poeta, repentista. Cresce entre a lida na roça, as leituras de cordel e os ponteios de viola. Sua única educação formal ocorre aos 12 anos, por seis meses. Aos 16, compra sua primeira viola. Com 20, viaja para o Pará com o parente José Alexandre Montoril. Em Belém, sua poesia cativa o folclorista José Carvalho de Brito, correspondente do jornal Correio do Ceará, que contribui para a divulgação inicial de seus trabalhos. Apresentando-o como Patativa, publica alguns de seus poemas nesse jornal e inclui no seu livro O Caboclo do Pará e o Matuto Cearense um capítulo sobre o jovem violeiro. Patativa retorna ao interior e incorpora o topônimo Assaré ao nome. Entre 1930 e 1955 se estabelece na Serra de Santana, onde compõe a maior parte de sua obra. Seu parceiro mais habitual é João Alexandre. Outros esporádicos são Anacleto Dias, Miceno Pereira e Andorinha. Os Diários Associados chegam a Crato, Ceará, centro comercial do Cariri, em 1951, e inauguram a Rádio Araripe. Patativa passa a declamar seus poemas na emissora, e é ouvido pelo filólogo José Arraes, que o ajuda publicar Inspiração Nordestina, em 1956.

Em 1965, o cantor Luiz Gonzaga grava a toada ATriste Partida, faixa que dá título a seu LP desse ano. O compositor Raimundo Fagner grava, em 1973, com o nome de Sina o poema O Vaquêro, sem creditar a autoria a Patativa do Assaré. Após retratar-se, Fagner torna-se amigo do poeta, que autoriza a gravação de Vaca Estrela e Boi Fubá, em 1980, realizada em duo com Luiz Gonzaga.

Patativa publica Cante Lá que Eu Canto Cá, em 1978, adotado como emblema da programação cultural de 1979 do encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Torna-se conhecido por intelectuais e universitários, multiplicando-se as iniciativas que tomam como foco sua obra, bem como sua presença em eventos artísticos. No mesmo ano, lança seu primeiro disco, Poemas e Canções, produzido por Fagner, e participa do movimento massafeira, com o poema Senhor Doutor, incluído no álbum duplo de 1980. Lança o LP A Terra É Naturá. Contribui com os jornais da União Nacional dos Estudantes (UNE) com o pseudônimo Alberto Mororó. Seu poema Caboclo Roceiro, que quase o leva à prisão, excluído da segunda edição ampliada de Inspiração Nordestina (1967), é publicado por estudantes progressistas na Folha do Juazeiro.

Em São Paulo, apresenta-se com Fagner no Festival de Verão de Guarujá e no Memorial da América Latina, em 1981. No mesmo ano, participa do programa Som Brasil, na TV Globo, apresentado por Rolando Boldrin, que regrava a toada Vaca Estrela. Fagner, Chico Buarque e Milton Nascimento musicam o poema Seca d'Água, em 1985, em solidariedade aos flagelados das enchentes no Nordeste, um single que traz no outro lado a criação coletiva Chega de Mágoa, réplica brasileira de We Are the World, canção em prol das vítimas da fome na África. No mesmo ano, o Banco do Estado do Ceará lança um disco com poemas de Patativa. Publica Ispinho e Fulô, em 1988, e lança o disco Canto Nordestino, em 1989, produzido por Rosemberg Cariry. Recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Regional do Cariri (Urca), mais tarde também concedido pelas universidades estadual e federal do Ceará. Em 1994 lança o livro Aqui Tem Coisa, e o disco 85 Anos de Poesia, transformado mais tarde em seu primeiro CD.

 

Comentário Crítico

Considerado o poeta popular que melhor representa as mazelas, os desejos e costumes sertanejos, Patativa do Assaré não se reconhece como músico ou compositor. Pouco a pouco abandona a prática das cantorias para concentrar-se apenas na poesia: "Eu deixei de ser violeiro, porque nunca tive prazer em cantar ao som da viola. (...) minha ideia de versejar estava muito acima dessa nossa poesia de viola, que podemos dizer é uma poesia mais ou menos corriqueira. (...) sempre gostei de escrever meus versos, a atualidade, a marcha da vida"¹. Ao deixar a viola, busca também fugir de plateias que o assistam de maneira espetacular, assumindo uma prática mais compatível com sua timidez e visão de mundo. Isso não impede que sua poesia seja musicada por um elenco eclético, do forró eletrificado do grupo Mastruz com Leite (Sem Terra, 1996), aos intérpretes nordestinos Alcymar Monteiro, Joãozinho do Exu, Abidoral Jamacaru, passando pelos cantadores Cícero do Assaré, Gildásio e José Flávio. Recebe ainda a releitura experimental em forma de rap pela cantora Daúde para o poema Vida Sertaneja; uma versão brega de Cabaré Globalizado, 2001, por Falcão; e seus poemas Triste Partida e Vaca Estrela e Boi Fubá tornam-se clássicos da música popular brasileira, regravados pela dupla Pena Branca e Xavantinho, Sérgio Reis, Renato Teixeira e Rolando Boldrin, além da regravação da cantora Simone Guimarães da canção Sina.

Apesar de deixar a viola de lado, sua obra continua no campo da oralidade. Sua criação não está vinculada ao intuito da publicação, mas se faz mentalmente, durante a labuta cotidiana na roça. Por outro lado, o interesse que desperta faz com que terceiros desejem publicá-lo, como ocorre em 1970, com o livro de Novos Poemas Comentados, rechaçado pelo autor por se tratar de uma obra atravessada pelos comentários do organizador, J. de Figueiredo Filho. Outra interferência ocorre nas transcrições quando fica cego, o que justifica a falta de padrão presente em alguns poemas.

Sua obra é marcada pela agilidade do improviso e pelo inesgotável repertório de situações - o que aprende com o modelo de mote e glosa dos cantadores, isto é, o estilo de versificar nos desafios feitos entre violeiros. Não costuma retrabalhar o verso: a transcrição serve-lhe apenas como um exercício de memória, e continua dentro dos códigos da transmissão oral. Da mesma forma, o poeta estuda tão somente para satisfazer a curiosidade, sem se ater a categorias gramaticais. Em relação à forma, seu único estudo se dá pelo contato com o Manual de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos. Interessa-se por poetas românticos brasileiros, elegendo Castro Alves como seu preferido, em função do compromisso social. Aprecia também os escritores Artur Azevedo, Casimiro de Abreu, Luís de Camões, Machado de Assis, e o poeta cearense Rogaciano Leite. Aprende com Os Lusíadas a oitava camoniana, tipo de estrofe que emprega em seu poema O Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

O poeta usa as corruptelas da língua popular de modo a aproveitar a sonoridade das palavras, recorrendo a esse vocabulário que lhe é próprio, o que o distingue, por exemplo, do compositor Catulo da Paixão Cearense, que o faz para estilizar, dando um aspecto exótico à fala nordestina. Embora prefira não investir no viés da literatura de cordel, seus poemas seguem sua tradição, consistindo numa obra narrativa, que traduz a experiência do camponês e aborda personagens do imaginário popular, como o caboclo, o roceiro, o caçador, o mendigo, o cangaceiro Lampião. Há ainda referências a aventuras encontradas em obras literárias internacionais como As Mil e Uma Noites, no poema A História de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa.

Baseado em preceitos cristãos, defende que as coisas da natureza são para todos os homens. Há em sua obra um sentido de comunhão de experiências, estabelecendo um vínculo entre a poesia, o sertão e o público interlocutor, ao qual o poeta transmite valores morais, seja instruindo ou divertindo, como se observa na curiosa narrativa Brosogó, Militão e o Diabo. O poema conta a história de um vendedor ambulante que contrai dívidas com um coronel, e no fim é defendido pelo seu advogado - o diabo -, a quem ele havia ofertado três velas, por nunca ter lhe tentado. A história inicia com a lição de moral: "O melhor de nossa vida / É paz, amor e união / E em cada semelhante / A gente ver um irmão / (...) Quem faz um grande favor / Mesmo desinteressado / (...) um dia sem esperar / Será bem recompensado". Mais surpreendente é a recomendação final: "Bom leitor tenha cuidado / Vivem ainda entre nós / Milhares de Militões / Com o instinto feroz / Com traçadas e mentiras / Perseguindo os Brosogós", uma clara crítica à exploração pelos coronéis.

Alguns de seus poemas se enquadram no gênero de canto de trabalho, que, em geral, culminam na reivindicação por melhores condições para o homem do campo e o extermínio das desigualdades sociais. Num desses, fica latente a questão da burocracia, a complicar mais a vida do trabalhador: "(...) e sem podê trabaiá / com secenta e sete ano / precurei me apusentá / fui batê lá no iscritoro / depois eu fui no cartoro / porém de nada valeu / (...) me disse que só dava / pra fazê meu apusento / com coisa que eu só achava / no Antigo Testamento, / eu que tava prazentêro / mode recebê dinhêro, me disse aquele iscrivão / que precisava dos nome / e também dos subrinome / da Eva e seu marido Adão (...)", trecho de Aposentadoria do Mané Riachão, em Aqui Tem Coisa.

A temática de sua obra denuncia a morosidade dos políticos em eliminar a pobreza, afirmando que o problema maior do sertão não é a seca, mas a "cerca", defendendo abertamente a reforma agrária. Esse tema é tratado em poemas como O Poeta da Roça, Eu e o Sertão, Caboclo Roceiro e ABC do Nordeste Flagelado, no livro Cante Lá que Eu Canto Cá, e Reforma Agrara É Assim, em Aqui Tem Coisa. Por esses temas é transformado num ícone da esquerda política, mas ao mesmo tempo, por valorizar a tradição é também arrebatado pela direita.

Nota

¹ citado por ANDRADE, Cláudio Henrique Sales. Patativa do Assaré: As Razões da Emoção (capítulos de uma poética sertaneja). Fortaleza: Editora UFC / São Paulo: Nankin Editorial, 2003, p. 48.

Outras informações de Patativa do Assaré:

  • Outros nomes
    • Antônio Gonçalves da Silva
    • Antonio Gonçalves da Silva
  • Habilidades
    • compositor
    • poeta
    • autor

Espetáculos (4)

Fontes de pesquisa (9)

  • ANDRADE, Cláudio Henrique Sales. Patativa do Assaré: As Razões da Emoção (capítulos de uma poética sertaneja). Fortaleza: Editora UFC / São Paulo: Nankin Editorial, 2003. 240p.
  • ÂNGELO, Assis. O poeta do povo: Vida e obra de Patativa do Assaré. São Paulo: CPC-UMES, 1999.
  • ÂNGELO, Assis. O Poeta do povo: vida e obra de Patativa do Assaré. Apresentação José Neumanne, Mário Chamie; fotografia Gal Oppido; projeto gráfico Helenice Diamante. São Paulo : CPC-UMES, 1999. 188 p. il. color.
  • CARVALHO, Gilberto de. Patativa do Assaré: Pássaro Liberto. Fortaleza: Museu do Ceará; Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2002. 176p.
  • CARVALHO, Gilberto de. Patativa do Assaré: um poeta cidadão. São Paulo: Expressão Popular, 2008. 104p. (Coleção Viva o Povo Brasileiro)
  • CARVALHO, Gilberto de. Patativa em Sol Maior: Treze ensaios sobre o Poeta Pássaro. Fortaleza: Edições UFC, 2009.
  • SILVA, Antonio Gonçalves (Patativa do Assaré). Aqui tem coisa. Fortaleza: Secretaria da Cultura e do Desporto do Estado do Ceará / Multigraf Editora, 1994. 252p. (Coleção Obras Raras e de Referência, v.2)
  • SILVA, Antonio Gonçalves (Patativa do Assaré). Inspiração Nordestina. São Paulo: Hedra, 2006.
  • SILVA, Antonio Gonçalves (Patativa do Assaré); DEBS, Sylvie (introdução). Patativa do Assaré: uma voz do Nordeste. São Paulo: Hedra, 2000. 132p. (Biblioteca de Cordel)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PATATIVA do Assaré. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3743/patativa-do-assare>. Acesso em: 20 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7