Artigo da seção pessoas Nelson Pereira dos Santos

Nelson Pereira dos Santos

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deNelson Pereira dos Santos: 22-10-1928 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Nelson Pereira dos Santos (São Paulo, São Paulo, 1928). Diretor, produtor, roteirista, montador, ator e professor. Em 1947, liga-se ao grupo teatral Os Artistas Amadores, do qual fazem parte os atores Paulo Autran (1922-2007) e Madalena Nicol (1917-1996).

Forma-se em direito pela Faculdade de Direito da USP em 1953. Inicia sua carreira na imprensa, em 1946, como revisor no Dário da Noite de São Paulo e, depois, como redator no Diário Carioca (1956-1958) e no Jornal do Brasil (1958-1969). Faz uma viagem de dois meses para Paris, período em que conhece o cineasta Joris Ivens (1898-1989).

Retorna ao Brasil em 1950, quando realiza seu primeiro filme Juventude, um documentário de 45 minutos sobre os jovens trabalhadores da cidade de São Paulo. Na primeira metade da década de 1950, atua como assistente de direção em Balança, Mas Não Cai (1952), de Paulo Vanderlei (1903-1973); O Saci (1953), de Rodolfo Nanni (1924) e Agulha no Palheiro (1953), de Alex Viany (1918-1992).

Realiza Rio, 40 Graus, seu primeiro longa-metragem, em 1955. Nessa fita, apresenta para o público o compositor Zé Keti (1921-1999) que compõe para o filme a música “A Voz do Morro”,  de grande sucesso. Ambos se tornam bons amigos. Após dirigir Rio, Zona Norte (1957), produz O Grande Momento (1958) de Roberto Santos (1928-1987). Dirige, também, Mandacaru Vermelho (1961),  Boca de Ouro (1963), e Vidas Secas (1963), baseado na obra do escritor Graciliano Ramos (1892-1953). O filme recebe, em 1964, o prêmio do Office Catholique de Cinéma (Ocic) no festival de Cannes. Na segunda metade dos anos 1960, roda El Justicero (1967) e Fome de Amor (1967). Participa da criação, em 1968, do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense, onde leciona.

Faz Azyllo Muito Louco (1970), baseado no conto “O Alienista” (1882) de Machado de Assis (1839-1908). Em 1971, roda Como Era Gostoso o Meu Francês, visão irônica da antropofagia como resistência cultural. Entre 1970 e 1980, dirige três obras relacionadas à cultura popular: O Amuleto de Ogum (1974), Tenda dos Milagres (1977) e Estrada da Vida (1980).

Em 1984, adapta Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. O filme recebe os prêmios de melhor filme da Crítica Internacional do Festival de Cannes e do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, concedidos em 1984. No período da chamada “retomada do cinema brasileiro”, dirige A Terceira Margem do Rio (1993), baseado em contos de Primeiras Histórias, de Guimarães Rosa (1908-1967) como: “Fatalidade”, “Sequência”, “A menina de lá”, além do conto que dá título ao filme. Depois vem Cinema de Lágrimas (1995), encomendado pelo British Film Institute (BFI) para comemorar os 100 anos do cinema.

Faz para a televisão Casa Grande e Senzala (2000), baseado na obra clássica do cientista social Gilberto Freyre (1900-1987). Suas últimas realizações no cinema são os documentários sobre o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Raízes do Brasil (2003) e sobre Tom Jobim (1927-1994), em A Música Segundo Tom Jobim (2011) e o longa Brasília 18 Por Cento (2006). Em 2006, é eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se o primeiro cineasta a fazer parte da instituição.

Análise

Em Rio, 40 graus, Nelson Pereira dos Santos transforma os representantes das camadas populares do Rio de Janeiro em protagonistas da narrativa. O destaque dado a esses personagens é suficiente para fazer do filme um marco do cinema brasileiro moderno. Sua importância reside no ineditismo de conteúdo e no modo de produção.

Na primeira metade dos anos 1950, com a falência Companhia Cinematográfica Vera Cruz, tentativas de implantar um cinema industrial no Brasil fracassam. Rio, 40 Graus representa uma nova possibilidade de produção fílmica. Nelson Pereira dos Santos incorpora as lições do neorrealismo italiano, movimento cinematográfico surgido na Itália após a Segunda Guerra Mundial, que defende a utilização de atores não profissionais e filmagens em locações reais, longe dos estúdios. O cineasta continua a investigação do modo de vida dos grupos populares em Rio, Zona Norte, cujo protagonista é Espírito da Luz, compositor de samba que vende as suas composições para tentar alcançar o sucesso.

Em relação ao “díptico sobre as pessoas comuns” do Rio de Janeiro, o cineasta Glauber Rocha (1939-1981) afirma: “Se em Rio, 40 graus a câmera narra e expõe com ardor os dramas, as misérias e a contradição da grande cidade, em Rio, Zona Norte a câmera estuda o meio, documenta, pergunta, expõe, acumula dados”1. Seu comentário sintetiza elementos importantes do cinema de Nelson Pereira dos Santos, com atenção às questões sociais e sobriedade cênica.

Às vésperas do golpe de estado civil-militar de 1964, o cineasta produz Vidas Secas, baseado na novela de Graciliano Ramos. Parafraseando o crítico literário Otto Maria Carpeaux (1900-1978), o cineasta não agita o mundo árido do sertão nordestino, mas fixa-o, estabiliza-o. Essa estabilidade reflete-se nos poucos movimentos de câmera e na interpretação concisa dos atores que encenam Fabiano e sua família.

Vidas Secas revela mais que a afinidade entre cineasta e escritor. Marca a tendência do cinema novo brasileiro de retomar o pensamento literário e científico dos anos 1930. Nesta época, surgem as obras de pensadores que procuram interpretar a nação, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. (1907-1990) e de escritores como Rachel de Queirós (1910-2003), José Lins do Rêgo (1901-1957), Jorge Amado (1912-2001), além do próprio Graciliano, que revelam, por meio de narrativas socialmente empenhadas, as condições e os modos de vida da gente pobre do Nordeste brasileiro.

A aridez é deixada de lado no filme El Justicero, comédia cuja narrativa centra-se na classe média da Zona Sul carioca. Acreditava-se que a única cópia desse filme era no formato de 16 mm, no entanto, em recente mostra sobre o realizador, a Universidade de Harvard, Estados Unidos, exibe uma cópia de 35 mm2.

Em 1967, dirige Fome de Amor, obra ímpar na filmografia de Santos pela estrutura anti-ilusionista e complexa organização das imagens com a trilha sonora. O som muitas vezes afasta-se da cena que acompanha e provoca um descompasso entre o que é visto e ouvido. Esse filme pertence a uma série de obras realizadas por artistas brasileiros que têm como meta rediscutir o papel do intelectual na sociedade, após a derrota das forças progressistas com o golpe militar de 1964.

Como Era Gostoso o meu Francês obtém sucesso de público, com mais de 800 mil espectadores. A narrativa sobre um aventureiro francês, capturado pelos índios Tamoios, que se servirão do estrangeiro num banquete antropofágico, é utilizada pelo cineasta para comentar nossa condição de país periférico. O crítico Ismail Xavier (1947) vê a fita como uma “ironia antropofágica que ativa o imaginário de uma sociedade indígena tropical sem culpa, idílica, mas condenada, numa narrativa que inverte as referências e faz a paródia da literatura de viagens própria ao colonizador”3.

O universo da cultura popular, em seu aspecto religioso, é o tema central de O Amuleto de Ogum. Aqui o diretor lança um olhar sem preconceitos sobre as manifestações religiosas do povo: “A única ideia em relação à umbanda foi no sentido de mostrar que ela é uma religião, com um respeito absoluto por sua teologia, seus ritos, sua formação, sua hierarquia e pela liberdade que existe na própria umbanda e que varia de terreiro para terreiro, comenta o crítico Jean-Claude Bernadet (1936)4.

Esse mesmo universo é retratado em Tenda dos Milagres. Inspirado na obra homônima de Jorge Amado, a película narra a vida de Pedro Arcanjo, intelectual da classe popular que defende o candomblé e a presença da cultura negra na formação do país, além de se opor ao preconceito racial. Em Jubiabá (1987), segunda transposição fílmica de uma obra de Amado, o diretor concentra-se na relação amorosa entre o negro Baldo e a branca Lindinalva para, segundo o próprio Santos, discutir a questão racial brasileira5.

Com Memórias do Cárcere, o diretor retorna a Graciliano Ramos. Por meio do relato autobiográfico do escritor, faz um retrato social do Brasil, que vive os últimos anos da ditadura militar. A referência à ausência do estado de direito que vitimou o escritor, foi utilizada para discutir a instabilidade política e social presente na história da República Brasileira desde sua fundação. Segundo Jean-Marie Le Clézio (1940), a qualidade de Memórias reside no fato de tratar das prisões físicas, feitas de pedras e grades, e de outras igualmente reais: “as prisões do egoísmo, da fome, do endividamento, do racismo, do desprezo”.

Em 2011, lança nos cinemas A Música Segundo Tom Jobim, obra que caminha em sentido oposto ao de vários documentários atuais, ao abdicar do tradicional método de entrevistas para fazer somente a música falar pelo copositor.

Notas

1 ROCHA, Glauber. Brazyl 40 graus. In: ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.  p. 110.
2 HARVARD Film Acrhives. Nelson Pereira dos Santos, cinema novo and Beyond. HARVARD Film Acrhives, Cambridge, Massachusetts, abr./ maio 2012. Disponível em: < http://hcl.harvard.edu/hfa/films/2012aprjun/santos.html >. Acesso em: 15 maio 2013.
3 XAVIER, Ismaill. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra. 2001. p. 77.
4 BERNADET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 243.
5 PAPA, Dolores. (Org.) Nelson Pereira dos Santos: uma cinebiografia do Brasil. Rio de Janeiro: Onze do Sete, 2005. p. 152.

Outras informações

Obras (3)

Midias (2)

Entrevista ao jornalista Claudiney Ferreira, no programa Jogo de Ideias, gravado em novembro de 2003, no Itaú Cultural, em São Paulo/SP.

Entrevista ao jornalista Claudiney Ferreira, no programa Jogo de Ideias, gravado em novembro de 2003, no Itaú Cultural, em São Paulo/SP.

Exposições (5)

Eventos relacionados (2)

Fontes de pesquisa (27)

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  • AVELLAR, José Carlos. O som do silêncio. In: AVELLAR, José Carlos. O cinema dilacerado. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.
  • BERNADET, Jean-Claude. O novo cinema novo. In: BERNADET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 233-237.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Caxias, para mim, é a capital cultural de Brasília: entrevista com Nelson Pereira dos Santos. In: BERNADET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.  p. 238-250.
  • COUTO, José Geraldo. O amuleto de Ogum. In: LABAKI, Amir. (Org.). Cinema brasileiro: de O pagador de promessas a Central do Brasil. São Paulo: Publifolha, 1998. 
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  • KINDER, Marsha. Tent of miracles. In: JOHNSON, Randall; STAM, Robert. Brazilian cinema. New York: Columbia University Press, 1995.
  • MERENA, Edith; VIEIRA, João L. Hunger for love. In: JOHNSON, Randall; STAM, Robert. Brazilian cinema. New York: Columbia University Press, 1995.
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  • Xavier, Ismail. “Graciliano herói.” Filme Cultura, abril-agosto 1984.  p. 14-18.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NELSON Pereira dos Santos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa370579/nelson-pereira-dos-santos>. Acesso em: 29 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7