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Adélia Prado

Outros Nomes: Adélia Luzia Prado de Freitas | Adélia Luzia Prado
  • Análise
  • Biografia
    Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópolis MG 1935). Poeta, romancista, contista e autora de histórias infantis. Filha do ferroviário João do Prado Filho e da dona de casa Ana Clotilde Corrêa, ingressa em 1942 no Grupo Escolar Padre Matias Lobato, na cidade natal, onde se alfabetiza. Escreve os primeiros versos em 1950, aos 15 anos, após a morte da mãe. Nesse mesmo ano, termina os estudos no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, entrando, em seguida, para o magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui dois anos depois, em 1953. Começa a dar aulas em 1955, voltando a estudar dez anos mais tarde: de 1965 a 1973, em companhia do marido, gradua-se em filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis. Embora tenha publicado em 1969 os versos A Lapinha de Jesus, em parceria com o escritor Lázaro Barreto (1934), considera sua estreia efetiva o livro Bagagem (1976), editado pela Imago por iniciativa de Affonso Romano de Sant'Anna (1937) e sugestão de Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Publica ainda um título de poemas, O Coração Disparado (1978), antes de lançar-se na prosa, com os contos Solte os Cachorros (1979) e o romance Cacos para um Vitral (1980). Na Prefeitura de Divinópolis, atua, entre 1983 e 1988, como chefe da Divisão Cultural e, entre 1993 e 1996, integra a equipe de orientação pedagógica. Sem deixar de dar continuidade aos seus escritos em prosa e verso, publica, em 2006, Quando Eu Era Pequena, primeiro trabalho dedicado ao público infantojuvenil.

    Comentário Crítico
    Autora de obra lírica - tanto no verso quanto na prosa -, Adélia Prado dedica-se à abordagem do cotidiano doméstico e da sexualidade, cultivando elementos do catolicismo e desenvolvendo um singular retrato da condição feminina.

    O primeiro poema de Bagagem (1976), seu livro de estreia, ao efetuar uma paródia de Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade, apresenta os principais pontos sobre os quais se desenvolve sua obra. "Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher, / esta espécie ainda envergonhada", inicia-se a composição. Com base no texto que lhe serve de partida e da linguagem adotada, o discurso localiza-se no âmbito do coloquial. Já o encerramento do poema esclarece a forma como será vista a feminilidade: "Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou".

    O retrato da mulher é constituído, nesse livro, sobretudo com base na importância conferida aos sentidos: o paladar, o olfato e a visão atribuem contornos eróticos e místicos ao ambiente doméstico. Nesse mesmo quadro se dá a manifestação da religiosidade, efetuando-se no prosaico a procura por Deus. Ele é evocado em Orfandade, por exemplo: "Me dá um Natal e sua véspera, / o ressonar das pessoas no quartinho".

    Também a família cumpre papel central em sua poética. No caso de Poema Esquisito, ainda de Bagagem, o eu lírico reflete sobre a herança legada pelos pais: "Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos? / É dentro de mim que estão". Em seguida, questiona o sentido da ausência após a morte, cobrando-se por não ter ido ao cemitério reverenciar a memória dos pais: "Passou Finados não fui lá, aniversário também não. / Pra que, se para chorar qualquer lugar me cabe?". A matéria elevada da meditação, contudo, não impede a queda no prosaísmo, neste caso revelador também do ambiente rural de origem: "Dentro de mim eles respondem tenazes e duros, / porque o zelo do espírito é sem meiguices: / Ôôôôi fia".

    A importância das relações para esse eu lírico - que frequentemente se apresenta diante de um outro ou convoca a comunhão dos seres - é uma das chaves de leitura para um programático verso de O Pelicano (1978): "Os vocativos são o princípio de toda poesia". 

    Ainda no que diz respeito ao ambiente doméstico, as imagens relacionadas à culinária são recorrentes nessa poesia, servindo como mediação entre um ambiente considerado tipicamente feminino, a reflexão poética sobre temas elevados e a inclinação religiosa do eu lírico. Em Tempo, de O Coração Disparado (1978), lê-se: "Quarenta anos: não quero faca nem queijo. / Quero a fome". A ênfase na busca, motor da fé cristã e do ofício poético, apropria-se do conhecido clichê para se afirmar.

    Essa mesma composição inaugura a presença da personagem Eliud Jonathan, a partir de então constante na obra de Adélia Prado. Aproximada a Jesus em versos de um livro posterior ("A matéria de Deus é seu amor. / Sua forma é Jonathan" - A Faca no Peito, 1988), essa figura é a síntese entre religiosidade e erotismo. Em O Pelicano, está fortemente presente. Versos do poema A Terceira Via, iniciados com "Jonathan me traiu com uma mulher / que não sofreu por ele", a amante chega a afirmar: "Sem o corpo a alma de um homem não goza. / Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão, / adoro Cristo na cruz".

    Os temas se mantêm constantes na poesia de Adélia Prado, desenvolvendo-se ainda questões relacionadas ao ofício do poeta. Em Esplendores, de A Duração do Dia (2010), publicado após dez anos de silêncio poético, tal ofício é definido como "águas de compaixão"; o poeta oferece versos "como quem dá comida às criancinhas".

    Também nos contos e nos romances se mantém a unidade dessa produção. Numa prosa sempre poética, apresentam-se protagonistas femininas vivenciando o cotidiano, em experiências que retomam os temas poéticos: a escrita, a sexualidade, a chegada da velhice, a religiosidade.

    Quando Eu Era Pequena (2006), sua estreia na literatura infantil, apresenta a personagem Carmela. Trata-se de uma menina, filha de um ferroviário, em período pré-escolar, que narra sua vida em família - com os pais, os irmãos e o avô - em uma cidade pequena: a declamação de poemas, as primeiras orações e as dificuldades financeiras enfrentadas durante a Segunda Guerra Mundial. A trajetória é continuada em Carmela Vai à Escola (2011), centrada no momento em que a menina descobre os livros e os amigos de estudo. Em ambos os casos, embora se trate de ficção, Carmela se assemelha a um alter ego da autora: são recordações de Adélia Prado que retornam nessa produção.

Primeiras edições

Obra publicada no Brasil

Poesia
A Lapinha de Jesus - 1969 - em parceria com Lázaro Barreto
Bagagem - 1976
O Coração Disparado - 1978
Terra de Santa Cruz - 1981
O Pelicano - 1987
A Faca no Peito - 1988
Poesia Reunida - 1991
Oráculos de Maio - 1999

Conto
Solte os Cachorros - 1979
Prosa Reunida - 1999
Filandras - 2001

Romance
Cacos Para Um Vitral - 1980
Os Componentes da Banda - 1984
O Homem da Mão Seca - 1994
Manuscritos de Felipa - 1999
Quero Minha Mãe - 2005

Infantil e Juvenil
Quando Eu Era Pequena - 2006

Traduções e edições estrangeiras

Obra publicada no exterior

Espanhol
El Corazón Disparado [O Coração Disparado]. Tradução Cláudia Schwartz e Fernando Roy. Buenos Aires: Leviatan, 1994
Bagaje [Bagagem]. Tradução José Francisco Navarro. México: Universidade Ibero-Americana, 2000

Inglês
The Headlong Heart [O Coração Disparado]. Tradução Ellen Watson. New York: Livingston University Press, 1988
The Alphabet in the Park. Tradução Ellen Watson. Middletown: Wesleyan University Press, 1990

Italiano
Poesie. Tradução Goffredo Feretto. Genova: Fratelli Frilli Editore, 2005

Espetáculos

Exibir

Fontes de Pesquisa

ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. 415 p., il. p&b.

COMPANHIA TEATRAL AS GRAÇAS. Site oficial do grupo. Disponivel em e . Acessado em: 19 maio 2011. Espetáculo Endecha das Três Irmãs - 1995