Artigo da seção pessoas Elza Soares

Elza Soares

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deElza Soares: 23-06-1937 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia
Elza da Conceição Soares (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937). Cantora, compositora. Filha de uma lavadeira e de um operário, é criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Casada aos 12 anos, enfrenta a resistência do marido e do pai para cantar no rádio. Em 1953, participa do programa Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, apresentado por Ary Barroso (1903-1964), e leva o prêmio interpretando o samba “Lama” [Paulo Marques (1925) e Aylce Chaves]. Fica viúva aos 18, trabalha numa fábrica de sabão e num hospital psiquiátrico para ajudar no orçamento da família. Torna-se crooner da Orquestra Garam de Bailes, na qual o irmão é violonista. Substitui a vedete Vera Regina na peça Jou-jou Fru-fru, contracenando com Grande Otelo (1915-1993).

Em 1958, faz turnê pela Argentina, com o grupo de dança de Mercedes Baptista (1921-2014). Ao voltar, ingressa no elenco da Radio Vera Cruz. Grava o primeiro disco 78 rpm em 1959, pela Odeon, com o samba “Se Acaso Você Chegasse” [Lupicínio Rodrigues(1914-1974) e Felisberto Martins (1904-1980)] e o foxtrote “Assalto” [versão de Alberto Ribeiro (1902-1971) para “Mack The Knife”]. Participa do Festival Nacional de Bossa Nova, no Teatro Record e na Boate Oasis, em São Paulo. Nos anos 1960, destacam-se os discos A Bossa Negra (1960), Sambossa (1963) – com os sambas “Rosa Morena” [Dorival Caymmi (1914-2008)] e “Só Danço Samba” [Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980)] –, Na Roda do Samba (1964), e Elza, Miltinho e Samba (1967). Muda-se para Itália com o companheiro, Mané Garrincha (1933-1983), voltando ao Brasil em 1972.

No início dos anos 1980, com o grupo de rock Titãs, participa do show A Vingança Será Maligna, na boate Madame Satã. Em 1984, divide a faixa “Língua”, no disco Velô, com Caetano Veloso (1942). Faz carreira na Europa e nos Estados Unidos, de 1986 a 1994. Em 1997, lança o disco Trajetória, com participação de Zeca Pagodinho (1959) e composições de Chico Buarque (1944), Guinga (1950), Aldir Blanc (1946)Nei Lopes (1942). O disco ganha o Prêmio Sharp de Melhor Cantora de Samba. Em 1999, lança o disco Carioca da Gema e participa do show Desde Que o Samba é Samba. No mesmo ano, grava a coletânea Raízes do Samba. Em 2000, estreia o show Dura na Queda, no Teatro Glória, Rio de Janeiro. Participa do CD Cole Porter, George Gershwin – Canções, Versões, produzido por Carlos Rennó (1956). Participa do programa Millenium Concert, da BBC de Londres, quando é apontada pela emissora como a maior cantora do século XX.

Em 2002, lança o CD Do Cóccix Até o Pescoço, produzido por José Miguel Wisnik (1948). O álbum traz canções inéditas, como “Dor de Cotovelo” (Caetano Veloso), “Hoje é Dia de Festa” [Jorge Ben Jor (1942)] e versões como “Fadas” [Luiz Melodia (1951)] e Haiti [Caetano Velosos e Gilberto Gil (1942)]. Traz, também, duas composições de sua autoria: “Samba Crioula” e “A Cigarra”, em parceria com Letícia Sabatella (1971). No mesmo ano, a gravadora EMI lança a caixa Negra, com 12 CDs, reunindo 27 títulos de sua carreira entre os anos de 1960 e 1988, além de faixas-bônus e compilação de compactos. Em 2003, lança o CD Vivo Feliz. Em 2013, participa do projeto Inusitado, dirigido por André Midani (1932). Em 2015, lança o disco A Mulher do Fim do Mundo, num projeto coordenado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup (1969). O disco tem apenas composições inéditas de músicos ligados a cena paulistana como Romulo Froés (1971), Alice Coutinho, Cacá Machado (1972), Rodrigo Campos (1977), Kiko Dinucci (1977), Celso Sim (1969), Pepê da Mata Machado (1971), Marcel Cabral, Clima (1958), Alberto Tassinari e Douglas Germano (1968). Em 2014, a cineasta Elizabete Martins Campos dirige o documentário sobre a cantora My Name is Now, Elza Soares.

Análise da trajetória
Elza Soares destaca-se pelas interpretações que imprime aos sambas de várias épocas. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, registra vários compositores do gênero e suas vertentes. Seu repertório inclui de Lupicínio Rodrigues (em “Vingança” e “Se Acaso Você Chegasse”, pareceria com Felisberto Martins) a Chico Buarque (“Meu Guri”, “Dura na Queda”), passando pelo lírico Nelson Cavaquinho (1911-1986) e pelos sambas-enredo e de quadra, no álbum Elza Carnaval & Samba (1969). Valendo-se de sua atuação cênica, coloca dinamismo em suas performances no palco.

Os sambas predominam na primeira fase da carreira, dos anos 1960 aos anos 1970. O LP O Máximo do Samba (1967), por exemplo, traz alguns clássicos do gênero, como “Conversa de Botequim” [Noel Rosa (1910-1937)] e “Atire a Primeira Pedra” [Ataulfo Alves(1909-1969) e Mário Lago (1911-2002)]. Registra também “Tenha Pena de Mim” [Ciro de Souza (1911-1995) e Babaú (1914-1993)] que, nos anos 1950, faz sucesso na voz de Aracy de Almeida (1914-1988). Também é interprete de sambalanço gravando “Boato”, “Telecoteco n. 2”, “O Samba Brasileiro”, “Ziriguidum”, “Gamação”, “Na Roda do Samba” e “Vou Rir de Você”.

Lança os primeiros discos pela Odeon, gravadora que explora o nicho da bossa nova, e tem contato com músicos ligados a esta produção. Divide um disco com Wilson das Neves (1936), grava com o baterista Milton Banana (1935-1999) e interpreta músicas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Apesar de o início de sua popularidade coincidir com o ápice da bossa nova, este movimento apenas tangencia a obra de Elza, porque seu modo de cantar não entra no padrão minimalista do movimento. Sua ligação com o jazz é mais empírica do que programática.

Tomando como referência os ícones da juventude, desenvolve a habilidade de atingir “o vibrato dolorido de Dalva de Oliveira e a limpidez aguda de Ângela Maria”1. É capaz de imitar as duas cantoras com a mesma perfeição que imita vocais masculinos de Cauby Peixoto (1931-2016) e Nelson Gonçalves (1919-1998). A rouquidão característica é explorada desde criança, de maneira intuitiva. Depois, faz uso dela de forma consciente, por meio do contato com cantores norte-americanos. Elza é pioneira no Brasil, do scat-singing – técnica de improviso vocal do jazz que consiste em empregar, aleatoriamente, sílabas sem sentido textual, combinadas com sons, característica de cantores como Louis Armstrong (1901-1971). Este recurso faz com que Elza transcenda a estrutura do samba e dê lugar a fraseados jazzísticos. Por tal razão, atribui-se à cantora o epíteto de “a bossa negra”, subtítulo de seu álbum de estreia, produzido por Aloysio de Oliveira (1914-1995).

Além do samba, seu repertório contém outros gêneros, como samba-rock, tango (como a versão do choro “Fadas”, de Luís Melodia) e funk. Em seu disco Sambas e Mais Sambas (1970), a cantora demonstra essa diversidade de gêneros. No mesmo disco, registra o “Mas que Nada” (Jorge Benjor); “Recado”, de Paulinho da Viola (1942) e Casquinha (1922); “Dá-me Tuas Mãos” [Erasmo Silva (1911-1985) e Jorge de Castro (1915)], um bolero acompanhado por arranjos de órgão; e “Tributo a Martin Luther King” [Ronaldo Bôscoli (1929-1994) e Wilson Simonal (1939-2000)], cujo canto se aproxima aos spirituals norte-americanos.

Pelos aspectos biográficos, sua trajetória é comparada à da cantora norte-americana Billie Holiday (1915-1959). As características musicais do repertório de Elza Soares tendem mais ao balanço do que à melancolia do blues. Isto se evidencia em trabalhos como Elza Pede Passagem (1972), em que constam os sambalanços “Saltei de Banda” [Zé Rodrix (1947-2009)  e Luiz Carlos Sá (1945)], “O Gato” [Gonzaguinha (1945-1991)], “Amor Perfeito” [Billy Blanco (1924-2011), entre outros. Na capa, a cantora não aparece como uma das divas da era de ouro do rádio, mas com penteado black power e trajando uma calça boca-de-sino.

Por seu trabalho com diferentes orquestras, consegue imitar vozes como instrumentos musicais, tecendo diálogos com sax, pistão e flauta. Quando há possibilidade, improvisa imitando a bateria. Sua voz passa por mudanças significativas ao longo dos anos. Do início, com “Se Acaso Você Chegasse”, até o final dos anos 1970, encaixa-se na categoria mezzo-sopranos, com fluidez maior do que a de um contralto convencional. No final dos anos 1980, quando retoma a carreira, apresenta uma voz mais metálica – dialogando com os metais da orquestra –, grave em com timbre que remete ao contralto. Além da extensão vocal, atingindo notas das mais graves às mais agudas, Elza alcança potência, suficiente para preencher um teatro sem recorrer à amplificação por microfone.

A cantora mostra-se aberta a novas tendências musicais, transitando também pelo rap e pelas experimentações com música eletrônica, nos discos Do Cóccix Até o Pescoço, Vivo Feliz e em sua participação no projeto Inusitado. Está em sintonia com compositores de uma geração mais recente da MPB, não necessariamente vinculados à tradição do samba. Entre eles, Arnaldo Antunes (1960), José Miguel Wisnik (1948), Marcelo Yuka (1965) e Carlinhos Brown (1964). As composições de A Mulher do Fim do Mundo (2015) trazem questões como violência doméstica, transsexualidade, narcodependência, crise da água e morte. As sonoridades do disco abarcam gêneros como samba, rock, rap e eletrônico.

A carreira artística de Elza Soares atrela-se a sua luta pela sobrevivência. Além do preconceito por ser negra, é perseguida ao assumir o romance com o jogador Mané Garricha – fato que aparece em um sambolero, “Eu Sou a Outra” (1936), de Ricardo Galeno, e, no mesmo disco, em “Amor Impossível” [David Nasser (1917-1980) e João Roberto Kelly(1938)]. Driblando cada um dos desafios, a música que melhor traduz sua trajetória é “Dura na Queda”, composta por Chico Buarque em sua homenagem para o musical Crioula (2000).

Notas
1SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Ed. 34, 2003. p. 121. (Todos os Cantos.)

Outras informações de Elza Soares:

  • Outros nomes
    • Elza da Conceição Soares
    • Elza da Conceição Gomes
  • Habilidades
    • cantor/Intérprete
    • compositor

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Fontes de pesquisa (7)

  • NATURA musical. Ouça “A Mulher do Fim do Mundo", novo disco de Elza Soares. Disponível em: < http://www.naturamusical.com.br/ouca-mulher-do-fim-do-mundo-novo-disco-da-elza-soares >. Acesso em: 15 de out. 2015.
  • ALVES, Sávio. Análise vocal - Elza Soares. Vocal Pop. Disponível em:< http://www.vocalpop.com.br/2014/05/analise-vocal-elza-soares.html >. Acesso em: 20 jul. 2014.
  • CASTRO, Ruy. Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • ELZA Soares. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: < http://dicionariompb.com.br/elza-soares >. Acesso em: 20 jul. 2014.
  • LEÃO, Renata. Aqui e agora. Entrevista com Elza Soares. Revista TPM, São Paulo, v. 4, n. 51, p. 16, 23 fev. 2006.
  • LOUZEIRO, José. Elza Soares: cantando para não enlouquecer. São Paulo: Editora Planeta, 2010.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ELZA Soares. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359516/elza-soares>. Acesso em: 29 de Abr. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7