Artigo da seção pessoas Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara

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Música  
Data de nascimento deDona Ivone Lara: 13-04-1922 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 16-04-2018 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Registro fotográfico Chema Llanos / Auditório Ibirapuera

Biografia

Yvonne Lara da Costa (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1921 - idem, 2018). Compositora, cantora e instrumentista. Nasce no bairro carioca de Botafogo, filha de João da Silva Lara e Emerentina Bento da Silva. Os pais têm participação ativa nos ranchos carnavalescos do Rio de Janeiro do início do século XX, a mãe é pastora e o pai toca violão. Após a morte do pai, muda-se com a mãe para a Tijuca. Estuda no internato Colégio Municipal Orsina da Fonseca e tem aulas de música erudita com Zaíra de Oliveira, esposa do compositor Donga (1899-1974), e também com Lucília Villa-Lobos - casada com o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) -, que a indica para o Orfeão dos Apiacás, da Rádio Tupi, regido por seu marido.

Aos 17 anos, órfã de mãe, vai morar com tio Dionísio Bento da Silva, no subúrbio de Inhaúma, com quem aprende a tocar cavaquinho. Na ocasião, se inscreve no concurso da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Aprovada, passa a receber uma bolsa que ajuda no sustento da casa. Forma-se em 1943, e exerce a função de plantonista de emergência. Nas horas de folga, participa das rodas de choro organizadas na casa do tio, com a presença de Pixinguinha (1897-1973) e Jacob do Bandolim (1918-1969).

Em 1945, Ivone decide fazer o curso para se tornar assistente social. Logo que se forma é contratada pelo Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, em que permanece por 30 anos, até se aposentar. Especializa-se em terapia ocupacional e trabalha no Serviço Nacional de Doenças Mentais com a doutora Nise da Silveira (1905-1999), médica que revoluciona o tratamento psiquiátrico no Brasil.

Casa-se, em 1945, com Oscar Costa, filho do fundador da escola de samba Prazer da Serrinha. Sempre priorizando o trabalho de enfermeira, programa suas férias para fevereiro para poder participar dos desfiles de Carnaval. Com o fim da escola Prazer da Serrinha, passa a frequentar a Império Serrano, para a qual compõe alguns sambas, porém sem perspectiva de se profissionalizar na música. No entanto, nunca deixa de escrever seus sambas, embora raramente os mostre. Algumas de suas canções são apresentadas a outros sambistas como de autoria de Mestre Fuleiro, um dos fundadores da Império Serrano e primo de Ivone. Por ser mulher, tem de enfrentar o preconceito para se lançar como compositora. Mesmo assim é a primeira mulher a integrar a ala dos compositores da escola de samba e, em 1965, assina com Bacalhau e Silas de Oliveira (1916-1972) Os Cinco Bailes da História do Rio, o samba-enredo da Império Serrano no Carnaval que comemora os 400 anos do Rio. Desde 1968, Ivone desfila na ala das baianas dessa escola.

Em 1970, participa do disco Sargentelli e o Sambão, gravado ao vivo, com as faixas Agradeço a Deus e Sem Cavaco Não, ambas feitas em parceria com Mano Décio da Viola (1909-1984). Adota o nome artístico de Dona Ivone Lara. Aposentada, em 1977, passa a dedicar-se exclusivamente à música. Um ano depois, lança seu primeiro LP, Samba, Minha Verdade, Minha Raiz. Dos discos seguintes, destacam-se Sorriso de Criança (1979), Sorriso Negro (1982), Ivone Lara (1985). Com o parceiro mais constante, Délcio Carvalho (1939-2013) - com quem compõe Acreditar, em 1976, sucesso na voz de Roberto Ribeiro, e Sonho Meu, lançado por Maria Bethânia, em 1978, no LP Álibi, com participação de Gal Costa -, ganha o Prêmio Sharp de melhor música de 1978. Nas décadas posteriores, se consagra como uma das referências mais importantes da música popular brasileira.

Análise

O ambiente doméstico da infância favorece o contato com a música - a mãe cantora, o pai instrumentista e mais tarde as rodas de choro organizadas em casa de seu tio Dionísio referenciam sua musicalidade. A tia Teresa participa cantando as cantigas dos escravos negros, os jongos. A iniciação de Dona Ivone Lara no repertório erudito se dá com a direção de Heitor Villa-Lobos no Orfeão dos Apiacás, da Rádio Tupi. Disso resulta a sofisticação melódica e harmônica de suas obras.

Sua sensibilidade musical manifesta-se aos 12 anos, quando compõe Tié, nome de um pássaro que lhe é dado de presente pelo tio Mestre Fuleiro. O nome Tié e a expressão moçambicana oialá-oxa inspiram esse primeiro trabalho, uma parceria com seus primos Fuleiro e Hélio. Mais tarde, a participação nas escolas de samba estimula Dona Ivone, que, aos poucos, conquista o respeito de sambistas como Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, um de seus parceiros. Em 1947, frequentando a escola Prazer da Serrinha, compõe Nasci para Sofrer, com o qual a escola desfila nesse ano. Depois ingressa na Império Serrano. É dessa época o samba Não Me Perguntes, com Mestre Fuleiro, considerado o hino da escola. Como suas músicas são constantemente entoadas nas rodas de samba do bairro Madureira, reduto da escola, ganha o reconhecimento e passa a integrar a ala dos compositores, até então, espaço restrito aos homens. A tradição das escolas reserva às mulheres o papel de pastora, cabendo a elas memorizar a letra e entoá-la na quadra em meio à batucada. No entanto, a sambista rompe essa barreira, eleva consigo o timbre e a dicção do canto das pastoras.

Até o fim da década de 1960, a atuação artística de Ivone está restrita à comunidade carnavalesca, mas a partir das apresentações nas rodas de samba do teatro Opinião, em Copacabana, no Rio de Janeiro, frequentado pela intelectualidade e artistas, como Nara Leão e Carlos Lyra, seu público ouvinte se amplia. Em 1974, faz o primeiro show solo, na boate Monsieur Pujol, produzido pelos jornalistas e agitadores culturais cariocas Sérgio Cabral e Albino Pinheiro. Além dos shows, a gravação de discos consolida a carreira de Ivone Lara, sendo identificada nessa década pela crítica como uma das melhores compositoras de samba do Brasil. Suas obras são gravadas por intérpretes como Elizeth Cardoso, Maria Creuza, Cascatinha e Inhana, Beth Carvalho, Nana Caymmi, Paulinho da Viola, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Mart'nália. Um de seus maiores sucessos, Alguém Me Avisou, é gravado pelo trio Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1980.

Uma das características marcantes de seu trabalho é a melodia de seus sambas. As letras geralmente ficam por conta de parceiros como Hermínio Bello de Carvalho, Mas Quem Disse que Eu Te Esqueço, 1981; Paulo César Pinheiro, Bodas de Ouro, 1998; Caetano Veloso, Força da Imaginação, 1982; Nelson Sargento, Nas Asas da Canção, 1990; e Ivan Lins, Deus É Mais, 2006; além de seu parceiro mais fiel, Délcio Carvalho. Com ele, compõe Samba Minha Raiz e Nunca Mais (1976); Vai na Paz  e Sorriso de Criança (1979); Nasci pra Sonhar e Cantar (1982); Acreditar, Sonho Meu e Candeeiro da Vovó (1996); e Sem Dizer Adeus (2004). Destacam-se ainda as canções que elabora sozinha: Alguém Me Avisou e Não Chora Neném, esta gravada por Beth Carvalho, em 1979, assina ainda Andei para Curimá (1974), Axé de Langa (Pai Maior, 1980) e Roda de Samba pra Salvador (1982). Essas obras explicitam o legado da herança africana do samba de roda, jongo e partido-alto que evocam o universo musical dos morros cariocas de sua infância, tal qual relembra em Axé de Langa:

Tia Teresa nos contava 
a história do vovô  
que tirava irmão do tronco 
escondido do senhor  
pra curar seus ferimentos 
com o banho de abo 
Ianga, Ianga que tipoiIanga  
didianga me...

Essa vertente lhe vale o apelido de "Mãe de Angola", quando, em 1980, viaja pela África em uma temporada de shows produzidos por Fernando Faro. Além da África, torna-se conhecida em outros continentes por ocasião da divulgação do LP Ivone Lara, gravado em 1985 pela Som Livre, com apresentação nos Estados Unidos, Japão e países europeus e participação de Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Grupo Fundo de Quintal.

Outras informações de Dona Ivone Lara:

  • Outros nomes
    • Ivone Lara da Costa
    • Ivone Lara
    • Yvonne Lara da Costa
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor
    • Instrumentista

Obras de Dona Ivone Lara: (13) obras disponíveis:

Midias (1)

Dona Ivone Lara em apresentação no Auditório Ibirapuera em 19 de junho de 2015
Registro fotográfico Chema Llanos / Auditório Ibirapuera

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (7)

  • BOTTESELLI, João Carlos & PEREIRA, Arley (coord.). A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes. São Paulo, Sesc, 2003. Vol. 7
  • BURNS, Mila. Nasci para sonhar e cantar - Dona Ivone Lara - A mulher no samba. Rio de Janeiro, Record, 2009.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antonio Marcondes. São Paulo: Art editora Ltda, 1977.
  • FARO, Fernando. Programa Ensaio com Dona Ivone Lara. São Paulo, TV Cultura, 2000.
  • MORRE Dona Ivone Lara aos 97 anos. El País. 17 abr 2018. Brasil. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/17/politica/1523963309_464951.html >. Acesso em 17 abr 2018.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. São Paulo, Editora 34, 1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • DONA Ivone Lara. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359508/dona-ivone-lara>. Acesso em: 19 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7