Artigo da seção pessoas Cláudio Santoro

Cláudio Santoro

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Música  
Data de nascimento deCláudio Santoro: 23-11-1919 Local de nascimento: (Brasil / Amazonas / Manaus) | Data de morte 27-03-1989 Local de morte: (Brasil / Distrito Federal / Brasília)

Biografia

Cláudio Franco de Sá Santoro (Manaus, Amazonas, 1919 - Brasília, Distrito Federal, 1989). Compositor, regente, violinista, professor. Inicia estudos de violino aos 11 anos, em sua cidade natal, Manaus. Em 1933, com uma bolsa de estudo do governo amazonense, ingressa no Conservatório de Música do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, então capital federal, onde estuda violino com Edgard Guerra, harmonia com Nadine Lacaz Barros e musicologia com Augusto de Freitas Lopes Gonçalves. Aos 17, já formado, torna-se professor de violino e de harmonia da instituição, leciona por cinco anos, paralelamente à carreira de concertista e à atividade de compositor - que inicia em 1938. Participa, em 1940, da fundação da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), em que atua como primeiro violino. No mesmo ano, passa a ter aulas com o compositor e professor alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter, introdutor do dodecafonismo¹ no Brasil. Integra o Música Viva, grupo fundado em 1939 por Koellreutter, que combate o nacionalismo folclórico e propõe a criação de uma linguagem musical universal. Santoro conclui a Sinfonia nº 1, em 1941, com nítida coloração dodecafônica. Nessa época, aproxima-se do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Após vencer vários concursos no Brasil, recebe uma bolsa de estudo da Fundação Guggenheim de Nova York, em 1946. Contudo, por ser filiado ao PCB, tem negado seu visto de entrada nos Estados Unidos (EUA). No ano seguinte, com bolsa do governo francês, estuda no Conservatório de Paris, composição com Nadia Boulanger (1887 - 1979) e regência com Eugène Bigot (1888 - 1965). Em 1948, participa do Congresso de Compositores de Praga. Nesse momento inicia sua fase nacionalista, abandonando a técnica dodecafônica. De volta ao Brasil, em 1949, sem obter o posto de regente que almeja na OSB, passa a compor para rádio e cinema, área em que se destaca e recebe diversos prêmios. Compõe para filmes como Agulha no Palheiro, com direção de Alex Viana, e O Saci, de Rodolfo Nani. Em meados dos anos 1950, começa a atuar como regente na Europa, onde passa longas temporadas. Funda, em 1957, a Orquestra da Rádio MEC, da qual é nomeado maestro.

Em 1962, torna-se coordenador do Departamento de Música da recém-criada Universidade de Brasília (UnB). Afasta-se do cargo, em 1965, por não concordar com a demissão de professores, praticada pelo governo militar. Em seguida, participa do programa artista residente em Baden-Baden, pela Casa de Brahms, e em Berlim Ocidental (1965-1967). Após uma temporada em Paris, exila-se na Alemanha, entre 1970 e 1978, onde obtém renome internacional. Leciona na Escola Superior de Música de Heildelberg e na Hochschule de Mannheim, cidade em que inicia pesquisas com música eletrônica e pintura.

Novamente no Brasil, em 1978, retorna à UnB como chefe do Departamento de Artes. Em 1980, funda a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, que dirige até a morte - ocorrida no palco, durante ensaio do Concerto para Piano e Orquestra nº 2, de Johannes Brahms. Ao longo da carreira, recebe vários prêmios e condecorações nacionais e internacionais, entre eles o Lili Boulanger- que tem como jurados Igor Stravinsky e Aaron Copland - e o Berkshire Music Center, ambos em Boston, EUA. O Teatro Nacional de Brasília é batizado com seu nome, assim como o auditório da cidade de Campos do Jordão, São Paulo, em que ocorre anualmente o Festival de Inverno.

Análise

Entre os compositores eruditos brasileiros do século XX, Cláudio Santoro é um dos que obtém maior projeção internacional. Produz uma obra profícua e variada, experimentando diversos estilos e técnicas de composição. Sua carreira artística reflete ainda os embates estéticos e políticos que marcam a música desse século no Brasil e no mundo, os quais opunham a vanguarda dita "burguesa" ao realismo socialista e a técnica dodecafônica ao nacionalismo folclórico. Sem se afiliar cegamente a nenhuma tendência, Santoro aproxima-se de várias delas no decorrer da vida, mas sempre mantendo um estilo próprio, caracterizado pela prevalência da linha melódica (atribuída pelos críticos a sua ascendência italiana e à formação violinística) e pela riqueza timbrística (fruto, segundo o próprio Santoro, de seu trabalho como orquestrador de rádio e cinema).

Podem-se distinguir quatro fases na trajetória do compositor. Na primeira, entre os anos de 1940 e 1942, dedica-se à chamada música pura, baseando-se no dodecafonismo. Nessa época, adere ao grupo Música Viva, formado por compositores vanguardistas, como César Guerra-Peixe, Edino Krieger, Eunice Katunda, liderados por Hans-Joachim Koellreutter. Adeptos do sistema proposto por Arnold Schoenberg, esses músicos combatem ferrenhamente os nacionalistas seguidores das ideias de Mário de Andrade, cultores do folclore como matéria-prima e do contraponto como técnica de composição. Embora os primeiros trabalhos de Santoro, já atonais, apresentem uma inclinação espontânea para o uso de séries, é somente a partir dos ensinamentos de Koellreutter que compõe segundo as regras da técnica dos 12 sons. Esta aparece claramente na Sonata para Violino e Piano nº 1, 1940, uma de suas primeiras obras conhecidas pelo grande público. Ele, porém, não é um dodecafonista ortodoxo, mescla muitas vezes o cerebral método de Schoenberg a uma expressividade bastante singular.

Em 1943, Santoro inicia a segunda fase, compondo música mais lírica e programática.¹ Busca a simplicidade, de forma a se comunicar mais facilmente com os ouvintes, sem, no entanto, abandonar o dodecafonismo. A sinfonia Impressões de uma Usina de Aço,de 1943, primeiro sucesso de público, descreve o interior de uma siderúrgica, em homenagem ao desenvolvimento dessa atividade no Brasil. Também são dessa fase Quarteto nº 1, 1943, menção honrosa no concurso da Chamber Music Guild, de Washington, e a Sinfonia nº 2, 1945, uma das peças mais importantes do período. Nelas já aparecem os experimentos com timbres e a densidade contrapontística que marcam sua obra orquestral.

Em sua primeira estada na Europa, Santoro participa como delegado brasileiro do Congresso dos Compositores Progressistas, ocorrido em Praga, em 1948. Marcado pela polarização política da Guerra Fria, o evento tem profundas consequências em sua obra. Seguindo à risca as determinações do Informe Jdanov,² os congressistas condenam a música dodecafônica, considerada "burguesa e decadente" e propõem a utilização de técnicas simples de composição, de modo a aproximar a arte das massas. Isso afasta Santoro da vanguarda e o aproxima do nacionalismo - caminho seguido por outros compositores do Música Viva, como Guerra-Peixe e Eunice Katunda. Embora já se possa notar certo "sentimento nacional" em peças como Música para Cordas, 1946, caracterizada por um "dodecafonismo nacionalista", e Sonata para Trompete e Orquestra, 1946, que contém ritmos brasileiros, é a Sinfonia nº 3, 1948, que marca uma nova fase. As Sinfonias nº 4 (1953) e nº 5 (1955), assim como algumas de suas sonatas, remetem a sonoridades amazônicas. Porém, as obras mais importantes dessa etapa - como Canto de Amor e Paz (1950) e a já citada Sinfonia nº 4 - não se baseiam diretamente no folclore nem nos recursos empregados pelos nacionalistas brasileiros. Influenciado pela música soviética, o autor adota soluções próximas às de Prokofiev, mesclando o realismo socialista a colorações brasileiras. E, malgrado a excelente qualidade formal de suas peças, em muitas delas o nacionalismo soa falso. Acusado, no período dodecafônico, de ter abandonado o folclore, é agora criticado pelo artificialismo de sua brasilidade.

Nos anos 1960, após as denúncias das atrocidades do stalinismo, Santoro se desilude com o comunismo e retorna ao serialismo e à música de vanguarda, iniciando a quarta fase de sua carreira. A Sinfonia nº 8, de 1963, obra experimental de execução bastante difícil, é um marco nesse processo. Na Alemanha, fundindo elementos da música eletrônica à pintura, ele cria os quadros Aleatórios, formados por uma parte auditiva, gravada em fita magnética, e outra visual, com pinturas de sua autoria. À aproximação do ouvinte, uma aparelhagem fotoelétrica gera 30 segundos de música eletroacústica. Dificuldades técnicas, contudo, impedem o prosseguimento desses experimentos. Santoro emprega recursos da música aleatória e da micropolifonia em suas composições, além de explorar contrastes de densidade e novos timbres, inclusive com o uso de clusters.³ Em suas Mutações, série de peças escritas cada qual para um instrumento solista e dois gravadores, ele desmistifica os estúdios eletrônicos da Europa, provando que manipulações caseiras podem gerar efeitos sofisticados.

Após retornar ao Brasil, compõe peças de grande envergadura, entre elas a Sinfonia nº 9. Feita em homenagem a Brahms, a obra resume todos os estilos do compositor, desde o dodecafonismo até as experimentações aleatórias, passando pelo "realismo-socialista-nacionalista". Santoro ainda se aventura pela ópera, compondo Alma, 1985, sobre textos de Oswald de Andrade.

Conhecido, sobretudo, pela escrita orquestral, com suas 14 sinfonias e inúmeras outras peças para formação orquestral, também compõe importante obra vocal, tendo escrito em várias línguas e em parceria com diversos poetas brasileiros, como Oneyda Alvarenga, Jorge Amado e Vinicius de Moraes. Com Vinicius, aproxima-se da música popular. Algumas de suas parcerias - Acalanto da Rosa, Cantiga do Ausente, Amor em Lágrimas e Luar de Meu Bem - são reunidas, em 1989, no disco Tributo a Cláudio Santoro: Prelúdios e Canções de Amor, que conta com a participação do pianista Gilson Peranzzetta e dos grupos Boca Livre e Quarteto em Cy. Amor em Lágrimas é gravada por Elizeth Cardoso, em 1967, pela portuguesa Eugénia Melo e Castro, em 1994, e por Simone Santos, em 2003, num disco que também reúne Luar de Meu Bem e Em Algum Lugar, ambas de Santoro e Vinicius. Várias de suas composições instrumentais são arranjadas para a linguagem popular: Ponteio é gravada por Wagner Tiso, em 1993, e por Jota Moraes e Mauro Senise, em 2005, e a Paulistana nº 1, por Mário Adnet e Mônica Salmaso, em 2006. Em parceria com Silvia Autuori, compõe músicas infantis, como A Festa no Céu, O Macaco Sabido, A Galinha dos Ovos de Ouro, O Lavrador e Seus Filhos, A Onça Lograda, lançadas numa série em 78 rpm pela EMI/Odeon, entre 1950 e 1951.

Notas

1. Chama-se programática a música que procura descrever imagens ou evocar ideias não musicais, inspirada por elementos exteriores à própria música, como textos, paisagens, obras de arte, eventos históricos. Nesse sentido, opõe-se à chamada música pura.

2. Redigido em 1948 pelo diretor do Comintern, o político soviético Andrei Jdanov, o documento define as orientações estéticas da produção cultural dos países socialistas, fundamentando-se no folclore e no jornalismo.

3. Bloco formado pela sobreposição de alturas sonoras vizinhas. No piano, esse efeito é obtido ao se tocar, com a mão espalmada ou mesmo com o braço, diversas teclas ao mesmo tempo.

 

Outras informações de Cláudio Santoro:

  • Outros nomes
    • Cláudio Franco de Sá Santoro
  • Habilidades
    • professor de música
    • Violinista
    • Regente/maestro
    • Compositor

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (5)

  • CACCIOATORE, Olga. Dicionário biográfico de música erudita brasileira. Rio: Forense Universitária, 2005. p. 384-386.
  • CLAUDIO SANTORO. Catálogo online das obras do compositor. Disponível em: <www.claudiosantoro.art.br>. Acesso em: 12 jul. 2010.
  • MARIZ, Vasco. Claudio Santoro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.
  • MARIZ, Vasco. Figuras da música brasileira contemporânea. Brasília: Ed. UnB, 1970. p. 69-78.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CLÁUDIO Santoro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359497/claudio-santoro>. Acesso em: 18 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7