Artigo da seção pessoas Chico Science

Chico Science

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / música  
Data de nascimento deChico Science: 13-03-1966 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 02-02-1997 Local de morte: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia

Francisco de Assis França (Olinda, Pernambuco, 1966 - Recife, Pernambuco, 1997). Cantor, compositor. Passa a infância no Bairro Rio Doce, onde cata caranguejos no mangue para vender na feira. Inspirado pelos passos de dança do cantor pop Michael Jackson, em 1984, entra para o grupo de dança de rua Legião Hip Hop, um dos principais do Recife. Em 1987 integra o conjunto de black music Orla Orbe, que não chega a durar um ano. Em seguida, forma com Lúcio Maia, na guitarra, e Alexandre Dengue, no baixo, a banda Loustal, nome inspirado no famoso quadrinista francês Jacques de Loustal. Fazem uma mescla de rock e ska com soul, funk e hip-hop.

No início de 1991, Science trava contato com um grupo de percussão de Olinda que faz trabalho de educação popular na periferia do Recife, o bloco afro Lamento Negro. A percussão do grupo, que funde ritmos folclóricos como maracatu e coco de roda com samba-reggae, chama sua atenção. Ele convida o grupo a criar outra banda, apostando na união da linguagem roqueira e da black music com o samba-reggae e ritmos regionais. Assim, Loustal e Lamento Negro se fundem com o nome de Chico Science e Lamento Negro, logo substituído pelo nome que vinga, Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ). A formação original tem Chico Science (voz), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Toca Ogam (percussão/efeitos), Canhoto (caixa), Gira (tambor), Gilmar Bola 8 (tambor) e Jorge Du Peixe (tambor).

A banda estreia em junho de 1991 em show no Espaço Oásis, em Olinda. O CSNZ faz novas apresentações no Recife, juntamente com conjuntos de sonoridade e temáticas afins, como o Mundo Livre S/A. O sucesso dessa cena musical perante o público chama atenção da mídia local, que logo a denomina manguebeat,1 alusão à temática de muitas letras - em que o ecossistema do mangue atua como metáfora para estilos de vida e críticas sociais -, e também à batida da percussão que esses grupos utilizam.

Em 1993, CSNZ e Mundo Livre S/A excursionam por São Paulo e Belo Horizonte, e em seguida o Chico Science & Nação Zumbi assina com o selo alternativo Chaos, da Sony Music. No início de 1994 sai o primeiro disco, Da Lama ao Caos, produzido por Liminha no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. O disco arrebata a crítica e o público com músicas como A Praieira (incluída na trilha da novela Tropicaliente, da TV Globo, 1994), A Cidade (na trilha da novela Irmãos Coragem, da TV Globo, 1995) e Da Lama ao Caos, e a banda excursiona por Brasil, Estados Unidos e Europa.

O segundo trabalho, Afrociberdelia, de 1996, conta com a participação de diversos artistas convidados, como Gilberto Gil, Marcelo D2 e Fred 04. O álbum ratifica o êxito do CSNZ perante o público e a crítica. A regravação de Maracatu Atômico - canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina que faz sucesso na voz de Gilberto Gil em 1973 -, com ênfase em recursos eletrônicos e na percussão, serve de hino ao CSNZ e, com o sucesso de canções próprias como Manguetown, Cidadão do Mundo e Macô, o torna um dos conjuntos mais conhecidos e reverenciados em todo o país. 

Chico Science morre aos 30 anos, no dia 2 de fevereiro de 1997, pouco antes do Carnaval, em acidente de carro na divisa entre Recife e Olinda. Em 1998, sai o CD duplo CSNZ, que contém cinco faixas ao vivo com Chico Science, os artistas convidados Jorge Benjor, Falcão e Planet Hemp e músicas inéditas com vocal de Jorge Du Peixe, a nova voz do conjunto. A banda segue carreira até os dias de hoje com o nome Nação Zumbi.

Análise

Chico Science ganha projeção no cenário musical brasileiro no início dos anos 1990 com o conjunto Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ), um dos fundadores e egresso mais famoso da chamada Cena Mangue do Recife. A mistura original de signos do pop com elementos da cultura nacional e regional realizada pelo CSNZ faz com que esta seja uma das bandas de maior prestígio na história do rock brasileiro.

Science é reconhecido como figura catalisadora para o despertar da cena. Prestes a formar o CSNZ, ele faz o seguinte relato a amigos num bar do Recife: "Fiz uma jam session com o Lamento Negro, aquele grupo de samba-reggae, peguei um ritmo de hip-hop e joguei no tambor de maracatu... vou chamar essa mistura de mangue!".2 O mangue, fértil e rico ecossistema que sofre com a degradação proveniente da ocupação desordenada do Recife, é escolhido para servir de metonímia da cidade em um discurso que realça tanto sua riqueza e diversidade cultural quanto seus problemas sociais.

A imagem de uma antena é recorrente no discurso da banda e anda casada com a do mangue. Não é uma imagem gratuita, pois o CSNZ articula uma fusão bem-sucedida de signos tradicionais e modernos, regionais e cosmopolitas em música, performance e letra, que mesclam crítica social e afirmação hedonística da vida. A linguagem musical da banda une elementos da música pop, como as guitarras distorcidas do rock e os ritmos do reggae, do funk e do hip-hop, ao samba, ciranda, coco, embolada e maracatu. Diversas canções tematizam esse programa neotropicalista, como Mateus Enter ("Cheguei com meu universo / E aterrisso no seu pensamento / Trago as luzes dos postes nos olhos / Rios e pontes no coração / Pernambuco embaixo dos pés / E minha mente na imensidão"); Etnia ("Maracatu psicodélico / Capoeira da Pesada / Bumba meu rádio/ Berimbau elétrico / Frevo, samba e cores / Cores unidas e alegria / Nada de errado em nossa etnia"); A Cidade ("Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu / Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu / Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus"); e Antene-se.

Uma temática presente nas letras de Science é a abordagem das mazelas sociais que resultam de um histórico de crescimento desordenado e desigual do Recife, como miséria, fome, violência, poluição e caos no transporte e na habitação. Ao mesmo tempo as mensagens salientam as atividades lúdicas e artísticas como nichos de conciliação criativa entre tradição e modernidade, numa dicção original que busca escapar aos lugares-comuns - as letras incorporam, por exemplo, o colorido do dialeto cotidiano recifense, com uso de gírias. Além disso, contêm um léxico próprio, metafórico, conceitual, preenchido em grande parte por componentes da paisagem do mangue. Termos como "caranguejos" e "urubus", "mangue" e "lama", "mocambos" e "molambos" assumem significados variados. Denunciam pobreza e precariedade, ao mesmo tempo que atuam como totens de resistência dos excluídos, em canções como Manguetown ("Andando por entre os becos / Andando em coletivos / Ninguém foge a vida suja / nos dias da Manguetown / [...] / Fui no mangue catar lixo / Pegar caranguejo / Conversar com urubu"), Rios, Pontes e Overdrives ("E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo / E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia / O carro passou por cima e o molambo ficou lá / Molambo eu, molambo tu") e Da Lama ao Caos ("Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola / Ia passando uma veia, pegou a minha cenoura / Aí minha veia, deixa a cenoura aqui / Com a barriga vazia não consigo dormir / E com o bucho mais cheio comecei a pensar / Que eu me organizando posso desorganizar / Que eu desorganizando posso me organizar").

Também estão a serviço da celebração da cena musical e da sociabilidade de seus componentes, como em Cidadão do Mundo ("Daruê Malungo, Nação Zumbi / É o zum, zum, zum da capital / Só tem caranguejo esperto / saindo desse manguezal") e Manguetown ("Esta noite eu sairei / Vou beber com meus amigos / E com as asas que os urubus me deram ao dia / Eu voarei por toda a periferia / Vou sonhando com a mulher / Que talvez eu possa encontrar / Ela também vai andar / Na lama do meu quintal / Manguetown").

Esse repertório colhido do mangue é empregado de forma alusiva e irônica, sem coerência sistêmica, combinado a registros provenientes de outras linguagens captadas pela "antena", também utilizadas com descompromisso. Um deles é o manancial do folclore nordestino (cordel, ciranda etc.), atualizado em pontes com a realidade do aqui e agora, como a citação da figura mítica de Lampião na descrição do cotidiano violento das favelas do Recife em Banditismo por uma questão de classe ("Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela / A polícia atrás deles e eles no rabo dela / Acontece hoje e acontecia no sertão / Quando um bando de macaco perseguia Lampião"). Outro registro adotado é a linguagem de livros de ficção científica, presente, por exemplo, em O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu. Demais influências notórias são as histórias em quadrinhos, a teoria do caos e os livros Geografia da Fome e Homens e Caranguejos, do médico, geógrafo, antropólogo e escritor Josué de Castro (1908 - 1973), citado em Da Lama ao Caos ("Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais miséria tem mais urubu ameaça").

Science valoriza os contornos linguísticos da região também como cantor ao entoar o sotaque de seus pares e os das camadas populares do Recife. Alterna diferentes registros musicais, como a fala cantada rítmica do rap e da embolada com o canto e os gritos próprios do rock. Nos shows circula na linha de frente, com os percussionistas ao fundo: sua linguagem corporal alterna um gestual performático com os passos de um ágil dançarino folclórico, que mimetiza os movimentos não lineares de um caranguejo e o modo agachado e arrastado de se locomover de um homem-caranguejo (catador).

Notas

1. Inicialmente Chico Science sugere o nome mangue para a sonoridade sua banda, mas o termo passa a abranger uma cena musical pernambucana e, por conta de uma canção homônima gravada por Fred 04 e Mundo Livre S/A no disco Samba Esquema Noise, de 1994, muda a nome para mangue bit. Por fim, graças às repetidas menções na imprensa, o termo se populariza como manguebeat.

2. MATOS, Rejane Pires Calazans. Mangue: a lama, a parabólica e a rede. Tese de doutorado, curso de pós-graduação em desenvolvimento, agricultura e sociedade da UFRRJ, 2008. Depoimento de Renato L., p. 20.

Outras informações de Chico Science:

  • Outros nomes
    • Francisco de Assis França
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • CHICO Science. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: http://www.dicionariompb.com.br/chico-science/biografia. Acesso em 25 setembro 2011.
  • CHICO Science. In: JC CBN/Recife: NE10. Disponível em: http://www2.uol.com.br/JC/chicoscience/carreira.htm. Acesso em 23 Setembro 2011.
  • CHICO Science. In: Letras.com.br. Disponível em: http://www.letras.com.br/biografia/chico-science. Acesso em 27 Setembro 2011.
  • MATOS, Rejane Pires Calazans. Mangue: a lama, a parabólica e a rede. Tese de Doutorado, Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, 2008.
  • Montenegro, Fred. Caranguejos com cérebro. Manifesto, 1992.
  • SHARP. Daniel Berson. A satellite dish in the Shantytown Swamps: musical hybridity in the 'New Scene' of Recife, Pernambuco, Brazil, The University of Texas at Austin, 2001.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CHICO Science. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359495/chico-science>. Acesso em: 22 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7