Artigo da seção pessoas Rino Levi

Rino Levi

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deRino Levi: 31-12-1901 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 29-09-1965 Local de morte: (Brasil / Bahia / Lençóis)

Rino Levi (São Paulo, São Paulo, 1901 - Lençóis, Bahia, 1965). Arquiteto, urbanista. Filho de imigrantes italianos, ingressa na Escola Preparatória e de Aplicação para os Arquitetos Civis em Milão, Itália, em 1921. Em 1924, transfere-se para a Escola Superior de Arquitetura de Roma. Ali, conhece os arquitetos italianos Adalberto Libera (1903-1963) e Marcello Piacentini (1881-1960), em cujo escritório faz estágio. Em 1925, ainda estudante, envia ao jornal O Estado de S. Paulo uma carta que é publicada com o título Arquitetura e Estética das Cidades, considerada uma das primeiras manifestações por uma arquitetura moderna no Brasil. Em consonância com as posições da escola romana, propõe uma modernização sem rupturas com a tradição clássica.1 Retorna ao Brasil em 1926, e trabalha por um ano na Companhia Construtora Santos. Inicia uma carreira independente em 1927, construindo pequenas residências e conjuntos de casa de aluguel para membros da comunidade italiana paulista. Em 1929, visita a Casa Modernista, de Gregori Warchavchik (1896-1972), que influencia vivamente a sua produção. É do ano seguinte o primeiro estudo para o Edifício Columbus, construído alguns anos mais tarde.

Sua primeira obra moderna construída é o Pavilhão da L. Queiroz na Feira de Amostras do Parque da Água Branca, 1931. A construção do Cine Ufa-Palácio, 1936, e o sucesso alcançado pela aplicação dos princípios de acústica lhe abrem as portas para um novo programa. Seus projetos são publicados na Revista Politécnica, de São Paulo, na italiana Architettura, e na francesa Architecture d´Aujourd´hui, entre outras. A partir de 1936, seu escritório conta com a colaboração de outros dois arquitetos, que se tornam sócios: Roberto Cerqueira César (1917-2003) e Luiz Roberto Carvalho Franco (1926-2001). Levi tem participação decisiva na constituição do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em 1933. Vence, com outras duas equipes, o concurso promovido para a sede do IAB em São Paulo, 1946, com o projeto desenvolvido em seu escritório. Participa da criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), em 1948, e torna-se diretor-executivo da instituição. Integra o 1º Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em São Paulo em 1945, ano em que se torna membro do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (Ciam). Em 1952 chefia a delegação brasileira no 8º Congresso Pan-Americano de Arquitetos, no México, e é eleito diretor do IAB/SP, onde permanece por duas gestões, até 1955.

Em 1957, ao lado de Vilanova Artigas (1915-1985) e outros colegas, organiza uma proposta de reelaboração do ensino na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo  (FAU/USP), onde leciona até 1959. Tem atuação destacada também na imprensa, discutindo temas ligados à cidade e à arquitetura. Seu projeto para a Maternidade Universitária de São Paulo, 1944, lhe garante o reconhecimento público como uma autoridade na área de projetos hospitalares. A partir de então projeta inúmeros complexos hospitalares e realiza cursos e conferências sobre o tema. A convite da Venezuela, coordena o planejamento e o projeto de uma rede hospitalar nesse país. No Brasil, segue projetando edifícios residenciais e comerciais, galpões, hospitais etc. Seu último projeto é o Centro Cívico de Santo André, vencedor de um concurso público, em 1965.

Análise

Rino Levi é um dos principais arquitetos modernos brasileiros, não apenas pela quantidade e variedade de projetos realizados, mas sobretudo pela qualidade dos trabalhos, em paralelo à constante introdução de novidades técnicas e à busca de soluções originais para novos programas. Sua carreira é pautada pela atuação em programas tão distintos quanto complexos, sem deixar de lado a participação intensa nos órgãos de classe e na imprensa, numa constante luta pela regulamentação profissional, defesa de uma cidade vertical, e consolidação de uma arquitetura moderna brasileira.

Se o período de atuação profissional de Levi se dá num momento de intensa urbanização e modernização no Brasil, não se pode resumir o sucesso profissional do seu escritório aos fatores conjunturais. Ainda estudante, o arquiteto já demonstra vontade de intervir no caminho da arquitetura nacional ao publicar o texto Arquitetura e Estética das Cidades.2 Vê-se surgir ali uma característica presente ao longo de toda a sua carreira: a vontade de construir um campo de atuação em que fosse possível reconhecer a especificidade da arquitetura moderna brasileira. Se ainda na Itália, no contato com seus professores, toma conhecimento da renovação arquitetônica que não pretendia romper com a tradição, é em São Paulo que o arquiteto encontra campo fértil para a experimentação. E talvez seja por meio do "partido de integração física com a natureza, representada no interior da casa como jardim" que Levi realiza "sua mais importante contribuição para o modernismo brasileiro".3

Não resta dúvida de que a modernidade inicial de Levi deve muito à estética déco, em voga na época. O Edifício Columbus, 1934 - primeiro condomínio de apartamentos da cidade de São Paulo -, é exemplar quanto a esse momento. Inicia uma série de edifícios residenciais, todos com preocupações constantes na sua trajetória: a construção do espaço urbano, a integração com a paisagem e a setorização da planta por função.

A possibilidade de projetar um cinema, o Ufa-Palácio, 1936, abre um caminho novo e ele se envolve no estudo de acústica, refletindo na forma do edifício as necessidades técnicas. Entre 1940 e 1942 projeta o Instituto de Educação Sedes Sapientiae, atual Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, onde os volumes construídos se estruturam em função de um pátio interno. A circulação se dá ao redor desse espaço, protegida por marquises que levam à associação com as loggias e os pátios italianos. Entretanto, Levi reelabora os elementos de modo a transformá-los numa arquitetura própria. Inverte a forma das arcadas nas marquises onduladas, preenche o pátio com vegetação tropical, e constrói seu primeiro "teto-jardim".

Retomando a relação entre blocos construídos, projeta ainda uma série de "residências introvertidas", buscando integrar a paisagem à arquitetura com o emprego da vegetação tropical nos pátios. A primeira delas é sua própria residência em São Paulo, de 1944. Num terreno irregular de esquina divide as funções da casa em blocos separados pelos pátios, que garantem a convivência cotidiana do morador com a natureza (ainda que construída). Projeta ainda a residência Milton Guper, 1951, a residência Paulo Hess, 1952, e a residência Castor Delgado Perez, 1958/1959. Porém, é na residência Olivo Gomes, 1949/1951, que realiza o exemplo maior de "síntese das artes"4 que busca em suas obras - integrando arquitetura, paisagismo, mobiliário, afrescos e murais. Situada em São José dos Campos, a casa se abre como um mirante para a paisagem. A estrutura linear dispõe todos os ambientes em função da vista. Um grande painel de Burle Marx (1909-1994) torna-se "o fulcro de toda a forma", como "uma obra que condensa o significado da casa".5

Do mesmo ano do projeto de sua casa, 1944, é o Edifício Prudência. Um único volume, com planta ortogonal em U isolado dos limites do lote, tem acesso por duas rampas, que acentuam a continuidade entre a rua e o jardim, no térreo livre sobre pilotis, onde mais uma vez um painel de Burle Marx recebe os visitantes. Essa busca de integração com as artes não se dá apenas pelos murais, alguns edifícios tomam toda a fachada como um grande painel, como o Banco Sul-Americano, 1960, na avenida Paulista. Nesse edifício, atual Banco Itaú, as fachadas paralelas à avenida recebem um tratamento gráfico por meio de placas de mármore, compondo um imenso painel de padrão geométrico.

O projeto da Maternidade Universitária da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1944, ainda que não tenha sido concretizado, obtém enorme reconhecimento entre seus pares, rendendo o Prêmio para Projeto de Edifício de Uso Público na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, 1951. Após detalhado estudo das necessidades do programa, articulando usos complexos e conhecimentos científicos por uma sistemática colaboração com profissionais de outras áreas, Levi rompe com as tipologias hospitalares preexistentes, propondo 3 blocos separados reunindo usos afins, circulação hierarquizada e flexibilidade das plantas. O resultado são dois volumes especializados conectados por um longo volume horizontal de ligação. A partir daí, abre-se a possibilidade de franca atuação nessa área, o que Levi desempenha com brilhantismo, sempre seguindo tais diretrizes. Projeta inúmeros hospitais em São Paulo, além de uma série de hospitais em Caracas, Venezuela.

Levi participa do concurso de Brasília, e seu projeto é classificado em 3º lugar. O partido adotado, oposto à proposta vencedora de Lucio Costa (1902-1998), explicita as preocupações do arquiteto em relação à cidade contemporânea. O foco da proposta recai sobre as unidades habitacionais, superblocos de 300 metros de altura cortados por ruas elevadas que reúnem serviços e comércio - potencializando os princípios de habitação intensiva das unités d´habitacion de Le Corbusier (1887 - 1965). Adepto do modelo de cidade polinuclear, propõe núcleos com base nos edifícios de habitação, reservando o extremo leste da cidade para as funções administrativas, sem nenhum tratamento especial. Para o historiador da arquitetura Renato Anelli, era "a experimentação da escala de desafios colocados pela cidade de São Paulo" num projeto de cidade.6

Em seu último projeto, o Centro Cívico de Santo André, 1965, vencedor do concurso que propunha o deslocamento do centro político-administrativo para uma área limítrofe ao centro antigo, Levi retoma a concepção de cidade polinuclear, pretendendo, entretanto, que o novo núcleo assuma a função do core existente no centro urbano contíguo. São três níveis escalonados e relacionados pela torre administrativa, com três praças de caráter e uso diversos, hierarquizadas em função desses usos: a Praça Cívica na cota superior, a Praça Cultural na intermediária e uma praça inferior para serviços, articulando as esferas política, cultural e cotidiana da vida pública da cidade.

Notas

1. XAVIER, Alberto (Org.). Depoimento de uma geração: arquitetura moderna brasileira. 2.ed. rev. ampl. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p. 38-39.
2. Idem, ibidem.
3. ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001. p. 96-97.
4. Expressão utilizada nos anos 1950, de Corbusier à Mies Van der Rohe, de Lucio Costa à Mario Pedrosa, significa a busca da integração entre as artes e a arquitetura, sem hierarquizá-las, propondo uma verdadeira integração para um objetivo comum, a construção final e a fruição da obra como um todo. Ver: ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001. p. 137-142.
5. ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001. 144-145.
6. Idem, ibidem. p. 223.

Outras informações de Rino Levi:

  • Habilidades
    • Arquiteto-urbanista

Exposições (6)

Fontes de pesquisa (3)

  • ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. 1 ed. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001.
  • MINDLIN, Henrique. Arquitetura moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.
  • XAVIER, Alberto (Org.). Depoimento de uma geração: arquitetura moderna brasileira. 2.ed. rev. ampl. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p.38-39.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RINO Levi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa351575/rino-levi>. Acesso em: 14 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7