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Luciano Salce

Outros Nomes: Luciano Salce
  • Análise
  • Biografia
    Luciano Salce (Roma Itália 1922 - idem 1989). Diretor, cineasta. Jovem encenador italiano que permanece no Brasil por quatro anos na primeira metade dos anos 1950, dirigindo marcantes realizações para o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).

    Em 1947, já diplomado pela Regia Accademia di Arti Drammatica, em Roma, encena O Baile dos Ladrões, de Jean Anouilh (1910-1987). Faz assistência de direção para Vito Pandolfi (1917-1974) e Luchino Visconti (1906-1976), além de desempenhar papéis em diversos espetáculos.

    Vem para o Brasil em 1950, tornando-se um dos diretores do TBC. Nesse ano encena três montagens: A Importância de Ser Prudente, de Oscar Wilde (1854-1900), O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams (1911-1983), e Do Mundo Nada Se Leva, de George S. Kaufman (1889-1961) e Moss Hart (1904-1961).

    A primeira montagem de Salce na companhia, A Importância de Ser Prudente, de Oscar Wilde, tem cenografia de Bassano Vaccarini (1914-2002), figurinos de Aldo Calvo (1906-1991), tendo no elenco Elizabeth Henreid (1928-2006), Waldemar Wey (1918-2001), Sergio Cardoso (1925-1973), Nydia Licia (1926) e Cacilda Becker (1921-1969), entre outros. Mas, não se trata exatamente de uma realização representativa desta temporada.

    É a sua segunda incursão como encenador no TBC que chama a atenção para seus atributos, com Anjo de Pedra, de Tennessee Williams. É nessa montagem que Cacilda Becker consolida-se como primeira atriz da companhia, aproveitando todos os meandros interpretativos da protagonista Alma Winemiller, ao mesmo tempo que registra a entrada de sua irmã Cleyde Yáconis (1923-2013) para o quadro de atores contratados.

    Salce obtém um triunfo com essa montagem, assim comentado pelo crítico Décio de Almeida Prado (1917-2000):

    "Numa representação que é toda excelente, talvez a melhor que já apresentou até hoje o Teatro Brasileiro de Comédia, três elementos se salientam fortemente: a direção de Luciano Salce, o trabalho de Cacilda Becker e os cenários de Bassano Vaccarini. Tennessee Williams não é um autor que escreva primordialmente para a inteligência (...); o que nos conquista no autor norte-americano é o calor afetivo, a penetração intelectual não privada de simpatia, o olhar lúcido, mas compadecido. A compreensão psicológica, a comiseração pela condição humana, são as notas predominantes de Anjo de Pedra. São essas, exatamente essas, as qualidades que encontramos na encenação de Luciano Salce".1

    Juntamente com Guilherme de Almeida (1890-1969) funda, dentro da companhia, o Teatro das Segundas-Feiras, apêndice que pretende ser experimental e uma alternativa ao repertório convencional do TBC.

    Em 1951, está na direção de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho (1824-1895), montagem destinada a comemorar os três anos de existência do TBC, que pelas dimensões grandiosas é idealizada para o Theatro Municipal de São Paulo, estrelada por Cacilda Becker. Apesar do esforço de produção, a montagem revela-se aquém da densidade dramática proposta pelo texto de Dumas Filho.

    Em 1952, dirige Inimigos Íntimos, de Pierre Barillet (1923) e J. P. Grédy (1920), comédia inconsequente levantada às pressas para ocupar um buraco na programação pelo segundo adiamento de Antígone, carro-chefe de 1952. A peça marca o début de Mauro Francini (1924), mais um novo cenógrafo italiano contratado pelo TBC. O espetáculo faz enorme sucesso, cumprindo regiamente os seus objetivos.

    Salce está presente na programação de 1953 com Na Terra Como no Céu, de Fritz Hochwälder (1911-1986), drama histórico sobre as missões jesuíticas no Paraguai. O elenco masculino é numeroso, figurando apenas uma personagem feminina. A peça divide a crítica e torna-se um fracasso, sendo retirada de cartaz em poucas semanas. Segundo Antunes Filho (1929), já em sua terceira assistência para a companhia, o elenco não se entende com a direção, resultando num dos trabalhos mais infelizes de Salce em sua temporada brasileira.

    Ainda em 1953, tem sua primeira incursão na companhia cinematográfica Vera Cruz, como diretor da comédia Uma Pulga na Balança, realização cheia de méritos, que tem no elenco Waldemar Wey, Paulo Autran (1922-2007), Jaime Barcelos (1930-1980) e Xandó Batista (1920-1992), entre outros.

    Em 1954, abrindo a temporada da companhia e encerrando sua contribuição no país, sobe a cena O Leito Nupcial, de Jan de Hartog (1914-2002). A peça é escolhida para brindar o retorno de Cacilda ao teatro, depois das filmagens de Floradas na Serra, uma realização bem-sucedida da Vera Cruz, protagonizada por ela, e também dirigida por Salce. A produção é bem-cuidada, mas não contempla todas as expectativas. A crítica de Anhembí assim registra a performance da direção:

    "Luciano Salce, compreendendo o objetivo do texto, desejou valorizar o espetáculo pelo brilho da representação, pelo ritmo leve e pela flexibilidade dos movimentos. A parte mais alegre e divertida tem, assim, bom rendimento. Julgamos, contudo, que o diretor não dosou convenientemente os episódios sentimentais, deixando-os incorrer na pieguice, da qual não seria difícil poupá-los".2

    Luciano Salce regressa para a Itália em 1954, após um desentendimento com Franco Zampari (1898-1966), empresário que o trouxe para trabalhar no TBC, quatro anos antes. A partir de então, orienta sua carreira especialmente para o teatro e o cinema, à frente de incontáveis produções, tornando-se também autor de sucesso. Dá, também, sua contribuição no campo teórico, colaborando na Enciclopédia de Teatro Italiano de Silvio D'Amico.

    Fazendo uma diferenciação estética entre alguns diretores do TBC, Décio de Almeida Prado constata:

    "Se um dia alguém se lembrasse de estabelecer a sério um paralelo entre as qualidades físicas e as artísticas, poucos exemplos seriam tão apropriados como os dos três encenadores do Teatro Brasileiro de Comédia. A força, a robustez física de um Celi ou de um Ziembinski parecem comunicar-se e incorporar-se magicamente ao espetáculo, da mesma maneira que a fragilidade de um Salce vai transparecer inevitavelmente, no palco, sob a forma de ironia ou graça poética".3

    Notas

    1. PRADO, Décio de Almeida. 'Anjo de Pedra'. In: ______. Teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 256.

    2. Anhembí, n.41, abril de 1954.

    3. PRADO, Décio de Almeida. Assim é (Se lhe Parece...). In Apresentação do Teatro Brasileiro Moderno. São Paulo. Editora Perspectiva: 2001, p.73.

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Fontes de Pesquisa

Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço

D'AMICO, Silvio. Enciclopedia dello Spettacolo. Roma: Maschere, 1968. 9 v.

GUZIK, Alberto. TBC: crônica de um sonho. São Paulo: Perspectiva, 1986. 233 p.

PRADO, Décio de Almeida. Teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996.