Artigo da seção pessoas Lourival Gomes Machado

Lourival Gomes Machado

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro  
Data de nascimento deLourival Gomes Machado: 1917 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Ribeirão Preto) | Data de morte 17-03-1967 Local de morte: (Itália / Lombardia / Milão)

Biografia
Lourival Gomes Machado (Ribeirão Preto SP 1917 - Milão, Itália 1967). Crítico de arte, historiador da arte, professor, cientista político, jornalista. Transfere-se para São Paulo na década de 1930, e ingressa no curso de ciências sociais, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP) e no curso de direito, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Em 1939, torna-se assistente da cadeira de sociologia da FFLCH, sob responsabilidade do professor francês Paul Arbousse-Bastide, e professor de sociologia do Colégio Universitário. Em 1941, funda, com Antonio Candido (1918), Gilda de Mello e Souza (1919 - 2005), Paulo Emilio Salles Gomes (1916 - 1977), Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado (1917 - 2000), entre outros, a revista Clima, com a qual pretendem renovar a crítica de arte, literatura, cinema e teatro no Brasil.

Migra, com Arbousse-Bastide, para a cadeira de política e defende a tese de doutorado Alguns Aspectos Atuais do Problema do Método, Objeto e Divisões da Ciência Política, em 1942. No mesmo ano, colabora como crítico de arte na Folha da Manhã e, em 1946, torna-se redator de política internacional do jornal O Estado de S. Paulo, no qual passa a escrever críticas um ano depois. É quando publica seu primeiro livro: o ensaio Retrato da Arte Moderna no Brasil.

Em 1949, defende a livre-docência em ciência política, com o tema Tomás Antonio Gonzaga e o Direito Natural. Passa a dirigir do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), após a saída do crítico belga León Degand, onde permanece até 1951, quando é nomeado diretor-artístico da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada no Masp. Três anos depois, ministra aulas de história da arte e estética na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), da qual é diretor entre 1961 e 1962.

Publica Teorias do Barroco, em 1953 e, no ano seguinte, defende a tese Homem e Sociedade na Teoria Política de Jean-Jacques Rosseau, para ingressar na cátedra de política da USP. Entre 1956 e 1962, torna-se responsável pela seção de artes plásticas no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, na qual escreve crítica, além de encomendar artigos a colegas como Mário Pedrosa (1900 - 1981) e Geraldo Ferraz (1905 - 1979), entre outros. É comissário da representação do Brasil na 29º Bienal de Veneza, em 1958, e diretor-artístico, mais uma vez, da 5ª Bienal Internacional de São Paulo.

Na década de 1960, publica Reconquista de Congonhas, com fotos de Eduardo Ayrosa, e escreve o capítulo Arquitetura e Artes Plásticas, de História Geral da Civilização Brasileira, organizado por Sérgio Buarque de Holanda (1902 - 1982). Em 1961, organiza a exposição Barroco no Brasil, no Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado (MAB/Faap), e inicia os entendimentos para a transferência do acervo do MAM/SP para a USP, além de integrar o Conselho Consultivo da Galeria de Arte das Folhas.

Em 1962, muda-se para Paris, onde é diretor de assuntos culturais e, mais tarde, delegado da Organização da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) na campanha de preservação dos monumentos e obras de arte de Veneza e Florença, Itália. Falece em Milão, em 17 de março de 1967, aos 49 anos.Postumamente, em 1969, é publicado Barroco Mineiro, coletânea de artigos de Gomes Machado sobre o tema.

Comentário Crítico
Lourival Gomes Machado não é apenas crítico de arte bastante atuante entre as décadas de 1940 e 1960, como também dedica-se a funções da maior relevância para o meio artístico brasileiro, como a direção do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) e a 1ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada nesse museu. A crítica de Gomes Machado é publicada, principalmente, em jornais e revistas paulistas especializadas em arte, além de capítulos de livros e catálogos de exposição. É ainda autor de livros sobre arte e ciência política, fruto de seus estudos dentro e fora do âmbito acadêmico.

Gomes Machado inicia-se na crítica de arte ao fundar a revista Clima, com colegas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Em 1941, além dele, Antonio Candido (1918), Gilda de Mello e Souza (1919 - 2005), Paulo Emilio Salles Gomes (1916 - 1977), Décio de Almeida Prado (1917 - 2000), Ruy Coelho, entre outros,  se reúnem com Alfredo Mesquita (1907 - 1986), da família proprietária do jornal O Estado de S. Paulo, com a intenção de criar uma revista que renove a maneira de fazer crítica no Brasil, aliando o rigor da pesquisa científica a uma escrita acessível ao público em geral. Cada um dos colegas fica responsável por uma seção, que estabelece, atuação desses intelectuais no campo da crítica: Gomes Machado é diretor da publicação e responsável pela seção de arte; a Antonio Candido cabe a crítica literária; Salles Gomes escreve sobre cinema e Almeida Prado, sobre teatro. Nessa revista, os colegas da faculdade definem suas atuações como críticos no meio artístico e cultural da cidade. Nos artigos de Gomes Machado, nota-se a influência do pensamento de Mário de Andrade (1893 - 1945) - que publica o artigo Elegia de Abril,1  no primeiro número -, além da influência da sociologia da arte, estudada na faculdade.

Em 1942, Gomes Machado passa a colaborar como crítico na Folha da Manhã. Nesse jornal, demonstra sua desaprovação ao trabalho de outros críticos, como mostram as resenhas de Evolução Social da Pintura, 1942, de Luiz Martins, no qual discorda da visão de arte engajada proposta pelo colega, e Pintura Quase Sempre, 1944, de Sérgio Milliet (1898 - 1966), no qual Gomes Machado percebe um modelo de crítica de arte essencialmente sociológico - que para ele deveria ser superado.

O crítico paulista lança Retrato da Arte Moderna no Brasil, em 1947, um ensaio que, dois anos antes, recebe o prêmio Fábio Prado. No livro, Gomes Machado trata do modernismo paulista, a partir do exame da Semana de Arte Moderna de 1922 e de artistas modernistas, como Di Cavalcanti (1897 - 1976), Tarsila do Amaral (1886 - 1973), Lasar Segall (1891 - 1957) e Candido Portinari (1903 - 1962). O objetivo do ensaio é, além de afirmar a importância dessa semana, apontar a presença das ideias modernistas na crítica brasileira posterior.

Em 1949, Gomes Machado é nomeado diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) após a saída do crítico belga León Degand, função que exerce até 1951, quando se torna diretor artístico da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, realizado no MAM/SP. No catálogo, o crítico estabelece quais os objetivos da mostra: "Colocar a arte moderna do Brasil, não em simples confronto, mas em vivo contato com a arte do resto do mundo, ao mesmo tempo que para São Paulo se buscaria conquistar a posição de centro artístico mundial".2 Por ocasião de uma viagem a Ouro Preto, Minas Gerais, ainda na década de 1940, Gomes Machado escreve uma série de artigos para O Estado, intitulada O Barroco e o Absolutismo, unindo seus estudos de história da arte e ciência política.

Publica Teorias do Barroco, em 1953, no qual analisa obras de autores estrangeiros que discutem o assunto como Heinrich Wölfflin (1864 - 1945), Hannah Levy, Wilhelm Worringer (1881 - 1965) e Alois Riegl (1858 - 1905), entre outros, demonstrando uma de suas preocupações centrais no âmbito da crítica de arte, pois a arte de Minas Gerais do século XVIII é a primeira manifestação de "uma autêntica cultura brasileira".3 Em 1969, esse texto é republicado na coletânea póstuma Barroco Mineiro, ao lado de outros artigos sobre o mesmo tema. Ainda hoje, esse livro é uma das referências em curso de história da arte no país.

Entre 1956 e 1962, Gomes Machado é responsável pela seção de artes plásticas do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, cujo projeto editorial é do colega e crítico literário, Antonio Candido. Nela publica artigos tratando de inúmeros temas, como o barroco mineiro, a arte moderna e contemporânea, brasileira e internacional, os modernistas paulistas, a Escola de Paris, entre outros. Além disso, ao lado de Décio de Almeida Prado, diretor do suplemento e também amigo de Clima, e Italo Bianchi (1924 - 2008), autor do projeto gráfico e diagramador, Gomes Machado escolhe ilustrações para o caderno, concebidas por inúmeros artistas e fotógrafos. No suplemento, Gomes Machado deixa registrada sua oposição aos teóricos tanto da abstração como do concretismo e do neoconcretismo, para ele, doutrinários. Sua convicção de que o crítico deve ser isento de preferências olhando para todos os artistas e tendências como iguais, buscando, assim, definir qual espaço cabe a cada um deles numa concepção de meio artístico diversificado. Em 1959, Gomes Machado dirige a 5ª Bienal Internacional de São Paulo, vista pelo colega de crítica Mario Pedrosa como uma "ofensiva tachista e informal".4

A erudição e o conhecimento no campo da história da arte levam Gomes Machado ao cargo de diretor do departamento de assuntos culturais da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em Paris, indicado pelo governo brasileiro, e de delegado especial da mesma entidade na preservação do patrimônio histórico de Veneza e Florença, na Itália.

 

Notas
1 ANDRADE, Mario de. Elegia de AbrilClima, São Paulo, n. 1, maio 1941.
2 BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 1., 1951, São Paulo, SP. Catálogo. Apresentação Newton Simões Filho, Francisco Matarazzo Sobrinho, Lourival Gomes Machado. São Paulo: MAM, 1951. 199 p., il. p&b., p. 15.
3 MACHADO, Lourival Gomes. Arquitetura e artes plásticas. In: HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.); CAMPOS, Pedro Moacyr (org.). História geral da civilização brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livrol, 1960. p.120.
4 PEDROSA, Mario. A Bienal de cá pra lá. In: PEDROSA, Mário; ARANTES, Otília Beatriz Fiori (org.). Política das artes: textos escolhidos I. São Paulo: Edusp, 1995. 363 p., il., foto. p&b., p.268.

Outras informações de Lourival Gomes Machado:

  • Habilidades
    • Direito
    • professor universitário
    • crítico de arte
    • Ciências Sociais
    • jornalista
  • Relações de Lourival Gomes Machado com outros artigos da enciclopédia:

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Fontes de pesquisa (7)

  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 1., 1951, São Paulo, SP. Catálogo. Apresentação Newton Simões Filho, Francisco Matarazzo Sobrinho, Lourival Gomes Machado. São Paulo: MAM, 1951. 199 p., il. p&b.
  • FERNANDES, Ana Cândida Franceschini de Avelar. Artistas Plásticos no Suplemento Literário de O Estado de São Paulo (1956-1967). 2007. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) -Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP, 2007.
  • MACHADO, Lourival Gomes. Barroco mineiro. Organização Francisco Iglésias; Apresentação Rodrigo Melo Franco de Andrade. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1978. 443 p. (Debates, 11).
  • MACHADO, Lourival Gomes. Arquitetura e artes plásticas. In: HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.); CAMPOS, Pedro Moacyr (org.). História geral da civilização brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livrol, 1960.
  • PEDROSA, Mário; ARANTES, Otília Beatriz Fiori (org.). Política das artes: textos escolhidos I. São Paulo: Edusp, 1995. 363 p., il., foto. p&b.
  • PONTES, Heloisa. Destinos mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-68). Ilustração de capa Moema Cavalcanti. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 297 p., il. p.b.
  • PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. R703.0981 P818d

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LOURIVAL Gomes Machado. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa341/lourival-gomes-machado>. Acesso em: 27 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7