Artigo da seção pessoas João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Artigo da seção pessoas
Literatura / artes visuais / teatro  
Data de nascimento deJoão Cabral de Melo Neto: 09-01-1920 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 09-10-1999 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Duas Águas , 1956 , João Cabral de Melo Neto
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
João Cabral de Melo Neto (Recife PE 1920 - Rio de Janeiro RJ 1999). Poeta e ensaísta. Irmão do diplomata e historiador Evaldo Cabral de Melo (1936) e primo do sociólogo Gilberto Freyre (1900- 1987), autor de Casa Grande & Senzala, e dos poetas Manuel Bandeira (1886 - 1968) e Mauro Mota (1911 - 1984). Até os 10 anos vive em engenhos de açúcar em São Lourenço da Mata e Moreno, na Zona da Mata pernambucana. De volta ao Recife, estuda no colégio dos irmãos maristas até 1935. Aos 22 anos muda-se para o Rio de Janeiro e publica seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono. Inicia a carreira diplomática em 1945 - passa a maior parte da vida fora do Brasil, na Europa (Espanha, Inglaterra, Suíça, França, Portugal), na África (Senegal) e na América Latina (Paraguai, Equador, Honduras) - e se aposenta em 1990. Em 1947, servindo em Barcelona, adquire uma impressora manual e, pelo selo O Livro Inconsútil, edita obras de amigos brasileiros e espanhóis, assim como a sua Psicologia da Composição. Seu trabalho torna-se mais conhecido, quando, em 1965, o grupo do  Teatro da Universidade Católica (Tuca)  encena em São Paulo Morte e Vida Severina, peça baseada em poema homônimo, musicado por Chico Buarque (1944). É eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1968, e é o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, em 1990, patrocinado conjuntamente pelos governos do Brasil e de Portugal. Dois anos depois, é  agraciado com o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma, Estados Unidos.

Comentário Crítico
A poesia de João Cabral é "capaz de seduzir pela pura qualidade verbal e pela capacidade de exprimir de maneira poderosa uma realidade que parece todavia nascer da experiência com a palavra", segundo o crítico Antonio Candido. A linguagem e o estilo do livro de estreia do poeta pernambucano, Pedra do Sono, se afastam da tendência dominante na poesia da época, representada pela geração de 45, que propõe a redefinição de padrões mais convencionais de lirismo.

A dívida de Cabral com o surrealismo é evidente, pelo emprego frequente das palavras sono e sonho e das imagens oníricas ou livremente associadas. Ao mesmo tempo, percebe-se um princípio ordenador contrário à tendência surrealista, que se evidencia no modo como o poeta trabalha algumas imagens materiais e organiza suas emoções em torno de objetos precisos. O mesmo impulso ordenador vai aparecer também em Os Três Mal-Amados, segundo livro do poeta, em prosa poética, que dialoga de perto com o poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987).

Nas obras seguintes, Cabral trata de experimentar e definir um estilo próprio, que vai se caracterizar por uma linguagem rigorosa, despojada, seca. Em O Engenheiro, passa a produzir uma poesia de natureza autorreflexiva, que tematiza a própria linguagem e os recursos poéticos empregados. Embora ainda inclua poemas de filiação surrealista, esse livro já traz as bases de sua nova concepção de poesia, de acordo com a qual o poema deve resultar de uma atitude objetiva, em que as emoções aparecem racionalmente controladas.

Esse procedimento vai se acentuar em Psicologia da Composição: poemas como "Fábula de Anfion e Antiode" levam ao limite a radicalidade construtiva de Cabral, que, a partir daí, utiliza certo padrão de composição baseado no emprego predominante da estrofe de quatro versos, das rimas toantes, do verso de oito sílabas e do desdobramento contínuo de uma imagem em outra, até chegar àquela capaz de alcançar a aproximação máxima do objeto visado. Sob constante vigilância da razão, seus poemas se concentram seja na linguagem e nos recursos de composição empregados, seja nos objetos, nas paisagens e nos fatos sociais, mas excluindo sentimentos e impressões subjetivas que a matéria abordada poderia despertar no eu lírico. Em nenhum momento, ele se deixa levar pela confissão, pelo apelo sentimental e pelo envolvimento emocional do leitor. O eu está fora de seu horizonte lírico, o que leva a crítica a ver em sua obra uma ruptura com o lirismo ou a considerar sua expressão poética como antilírica.

Em O Cão sem Plumas, a preocupação com a temática social aparece na poesia cabralina. A pobreza crônica e a aridez do cenário nordestino são filtradas pelo rigor da construção, da palavra trabalhada à exaustão, em sua multiplicidade de sentidos. A linguagem depurada parece encontrar aí uma temática à altura: o rio Capibaribe, rio-detrito, com sua sujeira e com a população que vive em condições subumanas às suas margens, reflexo trágico da história de miséria e atraso do país.

A matéria social, sempre articulada à estruturação formal, vai se acentuar no livro seguinte: O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente à Cidade do Recife, que forma, com O Cão sem Plumas e Morte e Vida Severina, o denominado tríptico do rio. Nesse longo poema de mais de 400 versos, é o próprio Capibaribe quem assume a voz poética para descrever seu percurso pelos "três Nordestes" (sertão, agreste e Zona da Mata), acompanhando a trajetória do retirante e denunciando, nas transformações da paisagem, as contradições sociais e a exploração econômica, as modificações e persistências históricas que se refletem em suas águas. O Recife com que se depara o Capibaribe, no fim de seu percurso, antes de desaguar no mar, aparece ainda na abertura do livro seguinte de Cabral: Paisagens com Figuras.

Mas o título não remete apenas a Pernambuco. O livro estabelece, pela primeira vez, uma correlação entre duas paisagens culturais que o poeta conhece de perto: a pernambucana e a espanhola. Mais do que afinidades, entretanto, ele busca surpreender diferenças significativas entre elas (e entre algumas de suas figuras representativas). É o que demonstra o último poema do livro ao explorar as distintas razões para a lucidez e a medida como traços afins às duas paisagens. A presença da paisagem física e cultural da Espanha (Andaluzia, Sevilha) expressa, por exemplo, na arquitetura severa, nas touradas e no flamenco, vai se tornar cada vez mais frequente em livros posteriores. Chega ao ponto, mesmo, de ser a matéria dominante, se não exclusiva, dos seus três últimos livros: Crime na Calle Relator, em que o poeta experimenta o poema narrativo; bem como nos livros em espelho, que personificam as curvas sinuosas da cidade-mulher: Sevilha Andando e Andando Sevilha.

Para alguns intérpretes de Cabral, a relação mais equilibrada entre a estruturação formal e a matéria social encontra-se no poema dramático Morte e Vida Severina, auto de natal pernambucano. Embora o poeta considere essa uma de suas obras mais fracas, o poema que fala dos dilemas da seca e da migração no Nordeste, escrito a pedido de Maria Clara Machado (1921 - 2001), acaba se tornando a sua obra mais popular, com adaptações não só para o teatro, mas também para a televisão.

Sem perder de vista as preocupações histórico-sociais, Cabral volta a se ocupar dos recursos formais característicos de sua poética precisa e contundente em Uma Faca Só Lâmina (ou serventia das ideias fixas). Segue-se a publicação dos 20 poemas dedicados a Murilo Mendes (1901 - 1975) reunidos em Quaderna, termo ligado ao jogo de dados, mas que também alude à idéia de quadra, composição poética de raízes populares, tanto no Nordeste brasileiro quanto na lírica ibérica. A poética contundente de Cabral parece encontrar sua expressão mais acabada num dos poemas mais celebrados do livro, A Palo Seco, cuja última estrofe diz: "não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas o de empregar o seco / porque é mais contundente". Há, ainda, a presença significativa, em nove dos poemas, do lirismo amoroso, erótico, que surpreende num poeta antilírico por definição.

No livro seguinte, Dois Parlamentos, retorna à temática social em dois poemas sobre Pernambuco: Congresso no Polígono das Secas e Festa na Casa-Grande, nos quais a crítica da realidade da zona das secas e da vida de cassaco, do trabalhador do eito, se faz por meio da crítica da linguagem, dos discursos marcados que se pronunciam a respeito dessa mesma realidade. Com Serial, a composição do livro revela a intensificação de um processo, o do poema em série, já esboçado ou anunciado em Quaderna, que explora sucessivamente diferentes ângulos do ser ou objeto tematizado.

Quatro anos depois, Cabral lança A Educação pela Pedra, cujo título explicita certa tendência cada vez mais acentuada em sua poética. No título, a educação acentua o caráter pedagógico de sua poesia, como modo de apreensão ao mesmo tempo estética e ética do real, ao passo que pela pedra alude-se ao grau de dificuldade implícito nessa dura aprendizagem. O mesmo veio pedagógico vai se anunciar no título de outra antologia de poemas: Escola de Facas, que retoma a metáfora cara à poética contundente de Cabral já definida em Uma Faca Só Lâmina. Entre os dois livros marcados pelo referido veio pedagógico, Cabral publica Museu de Tudo, conjunto volumoso de poemas-objetos sobre temas diversos: escritores, futebol, artistas plásticos, aspirina, a função da poesia e dos poetas, reflexões sobre o tempo, as doenças como meios de transporte.

Em dois poemas, de Museu de Tudo e Escola de Facas, desponta uma personalidade histórica pernambucana a que Cabral dedica o próximo livro publicado: Auto do Frade. Para retraçar aí os momentos que antecedem a execução do herói da Revolução Constitucionalista de Pernambuco, frei Caneca, o poeta retoma a forma dramática do auto explorada em Morte e vida severina. São, ambos, poemas em voz alta, como definiu Cabral, por oposição aos poemas de leitura silenciosa. Em seguida, Cabral publica Agrestes, livro que se aproxima de Museu de Tudo pela diversidade temática, agora mais organizada em seções. À confluência estabelecida entre Pernambuco e Espanha, vão se aproximar outras paisagens, da África e dos Andes. O crítico João Alexandre Barbosa observa que o traço mais saliente do livro é uma espécie de educação para a morte, não mais social, como predomina até então na obra cabralina, mas sim individual.

Outras informações de João Cabral de Melo Neto:

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Obras de João Cabral de Melo Neto: (6) obras disponíveis:

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Fontes de pesquisa (3)

  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. 415 p. R792.0981 A636t 1994
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - Morte e Vida Severina - 1980 Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOÃO Cabral de Melo Neto. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3026/joao-cabral-de-melo-neto>. Acesso em: 22 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7