Artigo da seção pessoas Gilberto Gil

Gilberto Gil

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deGilberto Gil: 26-06-1942 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador)

Biografia

Gilberto Passos Gil Moreira (Salvador, Bahia, 1942). Compositor, cantor, instrumentista. Na caatinga baiana, recebe as primeiras influências musicais: as cantorias de cego, os cantores do rádio, Jackson do Pandeiro (1919-1982) e Luiz Gonzaga (1912-1989). Aos 9 anos, estuda na capital e aprende a tocar sanfona. Integra, em 1959, o conjunto Os Desafinados. Inspirado em João Gilberto (1931), toca violão e compõe bossas em 1962. Nesse ano, estreia, como cantor a marcha “Coça, Coça, Lacerdinha”, e sua composição “Bem Devagar” é gravada nas vozes d’As Três Baianas, embrião do Quarteto em Cy.

Seu primeiro disco, o compacto duplo Gilberto Gil – sua música, sua inspiração, é de 1963. Nesse ano, cursando Administração na Universidade da Bahia, conhece os irmãos Caetano Veloso (1942) e Maria Bethânia(1946), além de Gal Gosta (1945) e Tom Zé (1936). Juntos, criam um conjunto que estreia, em 1964, no show Nós, por Exemplo. Muda-se para São Paulo, em 1965, para estagiar no escritório da indústria Gessy Lever. No mesmo ano, grava um compacto com canções de protesto (“Procissão” e “Roda”) e participa com os amigos baianos dos espetáculos Arena Conta Bahia, no Teatro de Arena, e Tempo de Guerra, no Teatro Oficina, dirigidos por Augusto Boal (1931-2009).

Em 1966, Elis Regina (1945-1982) lança “Louvação”. O sucesso da canção leva-o a gravar seu primeiro LP, homônimo, e a abandonar o emprego para se dedicar à música. Em 1967, “Domingo no Parque” fica em segundo lugar no 3o Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Com os amigos baianos, participa do álbum Tropicália ou Panis et Circensis (1968). “Divino Maravilhoso”, composta com Caetano e terceiro lugar no 4o Festival da Record, dá nome ao programa tropicalista da TV Tupi em 1968. No final do ano, com a repressão política, é preso por dois meses. Antes de se exilar em Londres, em julho de 1969, grava um compacto com a canção “Aquele Abraço”. Na Europa, faz shows, grava um LP em inglês e estuda sobre macrobiótica e meditação.

De volta ao Brasil, em 1972, excursiona pelo país e grava Expresso 2222, que une a música brasileira, o exílio e a filosofia oriental. Em 1975, seu disco Refazenda inicia a chamada fase “Re”, marcada pelos álbuns: Refavela (1977), Refestança (1977) e Realce (1979). Apresenta-se na Feira Internacional do Mercado do Disco, em Cannes (1973), no Olympia de Paris (1973) e no Festival de Montreux (1978). Com Caetano, Bethânia e Gal, percorre o Brasil com Doces Bárbaros (1976), que origina um LP duplo e um documentário de Jom Tob Azulay (1941).

Nos anos 1980, é  secretário da cultura e vereador de Salvador e vive a fase pop da carreira, em álbuns como Um Banda Um (1982), Raça Humana (1984), Dia Dorim Noite Neon (1985) e O Eterno Deus Mu Dança (1989). Apresenta-se na Europa, Estados Unidos, América Latina, Israel e Japão e compõe trilhas de filmes, como Quilombo (1984), de Cacá Diegues (1940), e Jubiabá (1987), de Nelson Pereira dos Santos (1928). Grava Tropicália 2 (1993) com Caetano Veloso, comemorando os 25 anos do tropicalismo. Ainda nos anos 1990, aborda a globalização e a internet nos álbuns Parabolicamará (1992) e Quanta (1997) e retoma clássicos da carreira em Gilberto Gil Unplugged (1994). 

Filia-se ao PV, em 1990, e torna-se Ministro da Cultura entre 2003 e 2008. Retoma o nordeste, compondo xotes e baiões e regravando clássicos do gênero em discos como Canções de Eu Tu Eles (2000), trilha do filme de Andrucha Waddington (1970) e São João Vivo! (2001). Volta a compor no final da década, atualizando a cultura nordestina nos discos Banda Larga Cordel (2008) e Fé na Festa (2010). Seus álbuns, Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo (2012) e Gilbertos Samba (2014), mesclam clássicos e inéditos.

Análise

O percurso artístico de Gilberto Gil tangencia a trajetória da MPB, sigla surgida nos anos 1960 para se referir à canção popular brasileira com letras de qualidade poética e relação com a realidade nacional. As permanências e rupturas em sua carreira refletem valores e tendências que norteiam a produção musical popular brasileira na segunda metade do século XX e início do XXI. Ao mesmo tempo, as fases de sua trajetória apontam caminhos que se entrecruzam ao longo da obra.

Na primeira fase, de 1962 a 1966, as composições de Gilberto Gil oscilam entre os dois modelos que disputam o gosto da classe média intelectualizada do país: a bossa nova e a canção de protesto. Sob influência da primeira, compõe sambas como “Serenata de Teleco-Teco” e “Vontade de Amar”. Já em canções como “Procissão” e “Roda”, gravadas em 1965, Gil adere ao engajamento dos festivais da canção, mesclando a denúncia das injustiças sociais à tópica regional do sertão. No contexto da ditadura, em que a intelectualidade defende uma música engajada e nacional, ele integra a Frente única da MPB, participando, em 1965, de uma passeata contra a presença da guitarra elétrica na música brasileira.

Em 1967, rompe com o nacional-popular e aproxima-se da contracultura, dos Beatles e da noção de “linha evolutiva” da música popular brasileira, proposta por Caetano Veloso1. Nessa segunda fase, questiona a “pureza” da cultura popular e integra o movimento tropicalista, que defende a modernização da música brasileira por meio da incorporação antropofágica da cultura pop estrangeira, da arte de vanguarda e da chamada corrente brega nativa. “Domingo no Parque” funde as sonoridades de um berimbau às guitarras elétricas de Os Mutantes; a cantiga folclórica à composição cinematográfica da letra; os elementos regionais baianos ao arranjo experimental de Rogério Duprat.

A prisão e o exílio, no final dos anos 1960, iniciam a fase eclética, em que Gil se aproxima da cultura pop dos Beatles e Jimi Hendrix (1942-1970) e de certo esoterismo filosófico. Trata da relação entre consciência humana e cibernética, em “Cérebro Eletrônico”; das coisas transcendentes em “Copo Vazio”; e dos estados alterados de consciência, como a viagem no tempo aludida em “Expresso 2222”. Ao mesmo tempo, compõe canções politicamente engajadas, como “Cálice”, parceria com Chico Buarque (1944), censurada pelos militares em 1973.

Os anos 1970 marcam, ainda, um engajamento com a negritude, sobretudo após a participação no Festival Mundial de Arte Negra, na Nigéria, em 1976. A canção “Refavela”, nome de um LP de 1977, aproxima a população negra da Nigéria à das favelas cariocas:

A refavela
Batuque puro
De samba duro de marfim
Marfim da costa
De uma Nigéria
Miséria roupa de cetim.

Em canções posteriores, como “A Mão da Limpeza” (1984), denuncia a discriminação sociorracial do Brasil: “Mesmo depois de abolida a escravidão/Negra é a mão/De quem faz a limpeza”. A busca de uma identidade afro-americana também aproxima Gilberto Gil do reggae, levando-o a compor “No Norte da Saudade” (1977) e a gravar uma versão de “No Woman no Cry”, de B. Vincent (1979), cuja letra (“Não Chore Mais”) é associada ao clima da anistia política e à volta dos exilados. Desde então, o ritmo jamaicano está presente em sua obra, em clássicos como “A Raça Humana” (1984), “Vamos Fugir”, parceria com Liminha (1951), gravada em 1984, na Jamaica, e “A novidade” (1986), sobre música de Bi Ribeiro (1961), Herbert Viana (1961) e João Barone (1963), além do disco Kaya N’Gan Daya (2002), em que homenageia Bob Marley (1945-1981).

Sempre pronto a captar novas ideias e sonoridades, Gilberto Gil preserva o frescor da criação, num diálogo com a juventude que atravessa gerações. Nos anos 1980, flerta com as discotecas (“Realce”) e o rock nacional (“Pessoa Nefasta”, “Punk da Periferia”, “Nos Barracos da Cidade”). Nos anos 1990, antevê a revolução das comunicações no mundo globalizado em “Parabolicamará”:

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará.

Saúda, também, a rede mundial em “Pela Internet”, paródia do primeiro samba gravado: “O chefe da polícia carioca avisa pelo celular/Que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar”. É o primeiro artista brasileiro a abrir um canal no YouTube, em 2008, e a disponibilizar a obra em seu website, defendendo formas alternativas de licenciamento de obras, como o Software Livre, o Copyleft e o Creative Commons.

Outra importante contribuição de Gil para a música popular brasileira é o toque de violão, ritmado e enérgico, que se torna sua marca desde Expresso 2222. Explorando diferentes “batidas”, ele confere ao instrumento um swing, presente do samba ao xote, do reggae ao rock. Produz o mesmo efeito com a voz, ao deslocar acentos, variar figuras rítmicas e acelerar ou retardar em certas passagens. É o que se ouve, por exemplo, em seu samba “Aquele Abraço”, com seus breques, síncopas, gingado e improvisos. Explora, ainda, a expansividade de sua voz, valorizando os agudos e a potência. Com a idade, explora os graves, como em “Não Tenho Medo da Morte”, gravada no disco Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo.

O diálogo do pop estrangeiro com as tradições brasileiras, procedimento incorporado por diferentes grupos e artistas das últimas décadas, torna Gilberto Gil uma referência da canção brasileira. Ao mesmo tempo, reorienta o engajamento de sua geração sem nunca perder de vista as questões políticas, sociais e estéticas do Brasil.

Nota

1 Caetano Veloso teria afirmado, em 1966, que “só a retomada da linha evolutiva pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação” (apud CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras bossas. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 63.

Outras informações

  • Outros nomes
    • Gilberto Passos Gil Moreira
    • Gilberto Gil Moreira
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete
    • Instrumentista

Obras (3)

Espetáculos (13)

Eventos relacionados (3)

Fontes de pesquisa (11)

  • A Descoberta do Luxo, do Som e do Lixo. Palco e Platéia, São Paulo, ano III, no. 14, p. 6, março de 1972. Não catalogado
  • CAMPOS, Augusto de. Balanço da Bossa e outras bossas. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 63.
  • COHN, Sérgio. Gilberto Gil. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007.
  • GIL, Gilberto. Gilberto bem perto. Organização de Regina Zappa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
  • GIL, Gilberto. Gilberto Gil: Todas as letras, incluindo letras comentadas pelo compositor. Organização de Carlos Rennó. Ed. revisada e ampliada. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
  • GIL, Gilberto. Gilberto Gil. Org. de Fred de Góes. Com colaboração de Lauro Góes e Nelson Motta. São Paulo-Brasil: Abril Educação, 1982. (Literatura Comentada).
  • GILBERTO GIL. Site oficial do artista. Disponível em: < www.gilbertogil.com.br >. Acesso em: 13 set. 2016.
  • OS DOCES Bárbaros. Direção: Jom Tob Azulay. Com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Reedição do filme em 35mm lançado em 1978. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2008. 1 DVD.
  • PEREIRA, Simone Luci. Entre refazendas, refavelas e refestanças: aspectos da trajetória de Gilberto Gil. In: VALENTE, Heloisa de A. D.; SANTIAGO, Ricardo. O Brasil dos Gilbertos: notas sobre o pensamento (musical) brasileiro. São Paulo: Letra e Voz, 2001. p. 107-127.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - Arena Conta Tiradentes - 1967 Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GILBERTO Gil. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2914/gilberto-gil>. Acesso em: 31 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7