Artigo da seção pessoas Caldas Barbosa

Caldas Barbosa

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Música / literatura  
Data de nascimento deCaldas Barbosa: 04-08-1739 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 09-11-1800 Local de morte: (Portugal / Distrito de Lisboa / Lisboa)
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Almanak das Musas , 1793 , Caldas Barbosa
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, ca.1740 - Lisboa, Portugal, 1800). Poeta, compositor e violeiro. Filho de Antonio Caldas Barbosa, funcionário da fazenda real portuguesa na África, e Antônia de Jesus, sua ex-escrava angolana, alforriada ao chegar ao Brasil. Caldas Barbosa nasce em 1740 na cidade do Rio de Janeiro, mas há controvérsias sobre esse fato: seu sobrinho, o historiador e fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), cônego Januário Cunha Barbosa, diz que pode ter nascido ainda no navio que trazia seus pais do continente africano.

Ingressa no colégio dos jesuítas no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, provavelmente em 1752. Na escola tem sólida formação e revela desde cedo talento para a improvisação e a poesia. Ao encerrar o período escolar é recrutado para o serviço militar na colônia de Sacramento, à época convivendo com disputas e enfrentamentos entre portugueses e espanhóis. Após três anos no Sul da colônia, retorna ao Rio de Janeiro em 1762 e, apoiado pelo pai, decide continuar os estudos em Portugal.

Chega à metrópole em 1763 e se matricula na faculdade de leis da Universidade de Coimbra. No ano seguinte seu pai falece, deixando-o em dificuldades econômicas. A vida acadêmica torna-se desregrada e entrega-se à boemia e às apresentações de improvisação poética, sempre acompanhado da viola de arame. É deste modo que conhece os irmãos Vasconcellos (José, futuro conde de Pombeiro, e Luis Vasconcellos de Souza) que o ajudaram a sobreviver em Portugal. Vindos de uma família nobre e politicamente influente, impressionam-se com o talento do poeta, e resolvem protegê-lo e apoiá-lo. É assim que na década de 1770, já em Lisboa, consegue colocação religiosa e outras facilidades.

Apoiado pela igreja e protegido pelos irmãos, Caldas Barbosa é aceito em salões e casas da nobreza lisboetas, apresentando suas poesias e cantando suas cantigas, "modinhas" e "lundus", embora esses gêneros fossem pouco conhecidos na época. Cantando e declamando, ele se destaca como animador dos salões aristocráticos e alcança na década seguinte relativa fama na cidade recém-modernizada. Nessa condição, no inicio da década de 1790, novamente apoiado pelos Vasconcellos, conquista posto na Nova Arcádia Portuguesa (a Academia de Belas Artes de Lisboa) e adota o pseudônimo de Lereno Selinuntino. A convivência na instituição não é fácil, surgem conflitos internos e há preconceito contra o poeta, principalmente de Nicolau Tolentino e Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). Desgostoso, Caldas Barbosa, conhecido tanto nos cafés populares de Lisboa como no circuito nobre da cidade, passa também a produzir para o teatro de entremeses (voltado ao entretenimento). Apesar das disputas na Arcádia, lança, em 1798, o primeiro volume da Viola de Lereno, uma compilação de seus poemas e modinhas, provocando novos desagrados entre grandes nomes da poesia lusitana. Em 1826, o volume 2 da obra é publicado.

Análise

A obra de Domingos Caldas Barbosa está relacionada com a construção de dois importantes gêneros musicais oitocentistas: a modinha e o lundu. Na realidade, esses gêneros confundem-se durante certo tempo e só se diferenciam - tornado-se claros para autores, editores, consumidores e ouvintes - no transcorrer do século XIX. Porém, a crítica musical tende a diferenciá-los no Brasil já no século XVIII. Se em Portugal a referência à modinha já existe no final do século, na colônia o termo ainda é ignorado e mesmo Caldas Barbosa, no volume 1 de Viola de Lereno dá preferência ao uso de cantigas para designar suas composições, usando raramente o termo modinha.

Além disso, essas confusões também estão vinculadas a certas visões historiográficas baseadas tanto numa percepção linear da "história nacional", como, posteriormente, na consagradora do "popular". Para essas concepções, sua obra é encarada como uma espécie de precursora da "música nacional", seguida pela "música popular brasileira". Consequentemente, Caldas Barbosa é interpretado com o "pai" e o "fundador" dessas tradições e raízes. Muito já se falou sobre as "origens nacionais e populares" da modinha, opondo a identificação de sua raiz brasileira à portuguesa. Mário de Andrade revelou muito bem esse choque ao afirmar nas Modinhas Imperiais (1930):

"Onde nasceu a Modinha? Os portugueses, com rara excepção, dizem-na portuguesa. E os brasileiros querem-na brasileira. A documentação existente parece não provar nada e as opiniões se formam apenas por dedução... e patriotismo!1

Ele mesmo prefere a interpretação de que nossa modinha deriva da moda portuguesa, de origem erudita, que "aclimatada" e "popularizada" no Brasil no decorrer do século XIX, converte-se em gênero popular nacional. Em oposição, Mozart de Araújo considera que Caldas Barbosa transporta do Brasil as referências "nacionais", introduzindo em Portugal a modinha já carregada dessas características. José Ramos Tinhorão apresenta outros argumentos e amplia essa interpretação ao reafirmar as origens populares das canções do mulato poeta; elas "só podiam constituir a autêntica música popular na colônia".2 Para o historiador, o gênero teria percorrido a seguinte dinâmica: de origem popular e aspecto urbano na colônia, é levada por Caldas Barbosa a Portugal. Em Lisboa ela se "italianiza", tornando-se peça erudita. No século XIX, de volta ao Brasil, ela se "repopulariza" e se "renacionaliza", principalmente nos dois principais centros urbanos do país, localizados na Bahia e no Rio de Janeiro.

A publicação do estudo de Gèrard Béhague sobre o gênero, de 1968, adicionou contribuições e esclarecimentos do ponto de vista musical, ampliando o debate. Baseado em documentação existente na Biblioteca da Ajuda que indica ser quase integralmente de Caldas Barbosa, ele estabelece a existência de pelo menos dois estilos de modinhas no final do XVIII: a "portuguesa" e a "brasileira". Na primeira o "eu lírico" (pastor) e as musas (anardas) têm referências arcádicas, já na segunda aparecem os negrinhos e sinhás; nela prevalece também aquilo que Mário de Andrade chamou de "compêndio de brasileirismos vocabulares", com o aparecimento das "sinhás", "iaiás", "nhanhá" e "mugangueirinha". Na modinha portuguesa é nítida a influência das tradições italianas, como o bel canto, enquanto que na segunda predomina uma performance ou um jeito mais brasileiro de cantar e tocar ("à baiana"). Por fim e mais importante: a base rítmica da primeira é regular, enquanto na brasileira prevalece a síncope.  Esse último fator é determinante para caracterizar as influências afro-americanas no gênero e seu caráter miscigenado e popular. Mário de Andrade já havia ressaltado a síncope interna e entre os compassos como elemento de distinção do gênero "abrasileirado" (ao lado da poesia que trata do amor, do sofrimento; do predomínio do modo menor), condição confirmada nos documentos analisados por Béhague.

Nesse debate - que ainda permanece - o certo é reconhecer em Caldas Barbosa um dos principais protagonistas deste longo processo de decantação do gênero oitocentista, iniciado no final do século XVIII. De diversos modos, ele conduz do Brasil à Portugal elementos da cultura mestiça, formas musicais e poéticas um tanto diferentes da cultura cortesã, que encantam a nobreza lisboeta. A poesia que seduz a aristocracia não é a que segue a tradição, mas aquela que é cantada, ou seja, de base oral e temáticas sensuais. Ao mesmo tempo, participa da rede de sociabilidade da corte - animando-a com suas poesias e cantorias - e compartilha sua cultura com as instituições (universidade, igreja e academia). Além disso, vive em Portugal do apoio e das conveniências da nobreza lusitana. Deste modo, ele realiza na corte uma série de negociações, intermediações e diálogos culturais que se evidenciam na sua poesia e música. Na verdade, Caldas Barbosa vive mediando e transitando por diversas realidades: a vida colonial e a metropolitana; a cultura mestiça brasileira e a portuguesa; o arcadismo e o romantismo; a música e a poesia; o popular e o erudito; o informal e o institucional; o oral e o escrito.

Considera-se que sua produção tenha sido vasta, mas há poucas informações já que frequentemente deixava de assinar as obras. Sua principal obra é o livro Viola de Lereno, cuja primeiro volume, organizado pelo próprio autor, é de 1798. O segundo volume é editado somente em 1826 e de algum modo já está marcado pelas transformações do século XIX e de um país independente.

Notas

1 Pequena história da música brasileira, p.13

2 TINHORÃO, José Ramos. Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e do lundu (1740-1800). São Paulo: Editora 34, 2004.

Outras informações de Caldas Barbosa:

  • Outros nomes
    • Domingos Caldas Barbosa
  • Habilidades
    • Violonista
    • Compositor
    • Poeta

Obras de Caldas Barbosa: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (7)

  • ANDRADE, Mário de. Modinhas imperiais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
  • ARAÚJO, Mozart de. A modinha e o lundu no século XIII. São Paulo: Ricordi, 1963.
  • RENNÓ, Adriana de Campos. Violando as regras: uma (re)leitura de Domingos Caldas Barbosa. São Paulo: Arte & Ciência, 1999.
  • SANDRONI, Carlos, Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Jorge Zahar: Ed.UFRJ, 2001.
  • TINHORÃO, José Ramos. Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e do lundu (1740-1800). São Paulo: Editora 34, 2004.
  • TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música brasileira. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
  • VARNHAGEN, F. A. Florilégio da poesia brasileira, 3 vols., Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1946.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CALDAS Barbosa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2892/caldas-barbosa>. Acesso em: 09 de Dez. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7