Artigo da seção pessoas Augusto de Campos

Augusto de Campos

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / literatura  
Data de nascimento deAugusto de Campos: 14-02-1931 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Luxo , 1966 , Augusto de Campos

Biografia

Augusto Luís Browne de Campos (São Paulo, São Paulo, 1931). Poeta, tradutor, crítico literário e musical, e ensaísta. Forma-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. Publica seus primeiros poemas em 1949, na Revista Brasileira de Poesia, editada pelo Clube de Poesia, entidade ligada ao grupo literário da Geração de 45. Publica seu livro de estreia, O Rei Menos o Reino, em 1951. No ano seguinte, afasta-se do Clube de Poesia, por discordar de sua orientação estética, participa da criação do grupo Noigandres (palavra extraída de uma canção do trovador provençal Arnaut Daniel, que significa "o olor que afasta o tédio") e edita uma revista com mesmo nome, ao lado de Haroldo de Campos (1929 - 2003) e Décio Pignatari (1927-2012), com quem também organiza o movimento da poesia concreta.

Em 1956, participa da 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), e dois anos depois a revista Noigandres nº 4 publica o Plano-piloto da Poesia Concreta, que apresenta os princípios teóricos do movimento. Em 1959, participa de uma exposição internacional de poesia concreta, em Stuttgart, Alemanha, e no ano seguinte de uma exposição realizada em Tóquio, Japão. Em 1963, apresenta-se na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e no ano seguinte expõe a série de poemas-cartazes Popcretos. Na década de 1960, com colaborações de poetas como Cassiano Ricardo (1895 - 1974), Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003) e Paulo Leminski (1944 - 1989), edita a revista literária Invenção.

Em 1974, é publicada a Caixa Preta, conjunto de poemas visuais e poemas-objeto manipuláveis, desenvolvidos em parceria com o artista plástico Júlio Plaza (1938-2003). Como tradutor, Augusto de Campos divulga em português autores como Ezra Pound, Etienne Mallarmé, James Joyce, E.E. Cummings e Vladímir Maiakovski. No campo da crítica literária e do ensaio publica as antologias Re-Visão (1964 e 1971) com as obras de Sousândrade (1833 - 1902) e Pedro Kilkerry (1885 - 1917), respectivamente, e Pagu: Vida-Obra (1982). Estudioso da música erudita de vanguarda, publica artigos sobre compositores como Edgar Varèse, Anton Webern e John Cage no jornal Folha de S.Paulo, reunidos posteriormente no livro Música de Invenção (1998). Augusto de Campos também se interessa por movimentos de renovação da música popular brasileira, como a bossa nova e a tropicália. Publica o livro O Balanço da Bossa (1974) e tem parcerias com os compositores Caetano Veloso, Arnaldo Antunes (1960) e Arrigo Barnabé (1951). Em 1994, grava o CD Poesia É Risco, com Cid Campos.

Análise

A poesia de Augusto de Campos situa-se no campo das vanguardas da segunda metade do século XX. Faz uso de diferentes procedimentos de criação artística, mesclando recursos da poesia, das artes visuais, da publicidade, da música e das tecnologias digitais, norteado pelo desejo de unir palavra, som, imagem e movimento numa unidade estrutural. Para a compreensão do pensamento e da prática poética do autor, voltado à pesquisa e experimentação de linguagem, é essencial o conceito de produção poética como invenção, formulado por Ezra Pound.

Em O Rei Menos o Reino, seu livro de estreia, publicado em 1951, Augusto de Campos pratica o verso tradicional, em poemas líricos, metafóricos, de forte tensão existencial. As imagens poéticas usadas nessa obra recordam por vezes a plasticidade surrealista, como por exemplo no poema O Vivo ("As mortas-vivas rompem as mortalhas / Miram-se umas nas outras e retornam / Seus cabelos azuis, como arrastam o vento1"), mas os versos são construídos com rigoroso artesanato formal, ao contrário da experiência mais espontânea da escrita automática, proposta por André Breton. É possível identificar nesse livro a influência de Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Federico García Lorca, na construção de imagens e na experiência criativa com a sintaxe, que por vezes se afasta da lógica discursiva linear, prenunciando suas futuras experiências poéticas, como na peça que abre o volume ("Onde a Angústia roendo um não de pedra / Digere sem saber o braço esquerdo / Me situo lavrando este deserto / De areia areia arena céu e areia2").

Em poemas publicados posteriormente, como O Sol por Natural (1950-1951), Ad Augustum per Angusta (1951-1952) e Os Sentidos Sentidos (1951-1952), o poeta vai progressivamente direcionando o rigor na composição para recursos como a espacialização de palavras e linhas, a criação de neologismos e a fragmentação léxica. Em Poetamenos, que publica em 1955, no número 2 da revista Noigandres, ele apresenta um ciclo de poemas coloridos, de temática amorosa, em que a sintaxe discursiva é substituída pela organização gráfico-visual das palavras. Essas composições, inspiradas na melodia de timbres do músico austríaco Anton Webern (cada cor equivale a uma nota distribuída a um instrumento musical diferente), são os primeiros exemplos de poesia concreta publicados no Brasil. O movimento concretista, criado por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari (1927), defende o "fim do ciclo histórico do verso" e propõe a criação de novas estruturas de composição poética, integrando recursos sonoros, visuais e verbais numa unidade "verbivocovisual".

A poesia concreta surge num momento em que a sociedade brasileira vive um breve período de democracia política, acompanhada pelo surto desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek, que culminou com a construção de uma nova capital para o país, Brasília, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Nessa época, quando também se aceleram a urbanização e a industrialização, com investimentos de capital estrangeiro, "surgem os primeiros filmes do Cinema Novo [...], o Teatro de Arena, a Bossa Nova [...], as vanguardas na poesia e nas artes plásticas"3, como assinalam Iumna Maria Simon e Vinícius Dantas. Na década seguinte, há um crescimento dos movimentos sociais, que demandam a reforma agrária e outras mudanças na economia e na política do país, acirrando os conflitos com os setores conservadores, que vão apoiar o golpe militar de 1964. 

Augusto de Campos adere a uma poesia participante desde 1961, com o poema Greve, que concilia a invenção de linguagem com temas de caráter político e social, adotando como lema a frase de Maiakovski: "Sem forma revolucionária não existe arte revolucionária". Nessa época, aliás, Augusto e Haroldo de Campos estudam o idioma russo com Boris Schnaiderman (1917), na Universidade de São Paulo (USP), para com ele traduzir poemas de Maiakovski, Khlébnikov, Krutchonik e outros autores de vanguarda russa, reunidos na antologia Poesia Russa Moderna (1968). A temática social está presente em outros poemas de Augusto de Campos, como Luxo / Lixo (1965), construído como paródia das logomarcas comerciais, e na série de poemas-cartazes Popcretos (1964-1966), que afirmam a contestação da ordem econômica e política pelo trabalho criativo com a linguagem. Em Psiu, poema circular construído a partir da colagem de textos e imagens recortados de jornais e revistas, pode-se ler, por exemplo, a frase "Saber viver, saber ser preso, saber ser solto" junto a outros retalhos semânticos como "bomba", "dinheiro", "amar", "vamos falar", "livre" e "paz", além de "pedaços de mensagens comerciais, referências à ditadura militar e aos atos institucionais"4, como observou Flora Süssekind (1955).

Já no poema Cidade (1963), Augusto de Campos faz uma representação irônica do movimento caótico, acelerado e ruidoso da vida urbana, aglutinando, numa única linha, fragmentos de palavras em diversos idiomas, formando uma frase quase impronunciável ("atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveveravivaunivoracidade city cite5"). Esse poema permite diferentes possibilidades de leitura, pela combinação e permutação de prefixos e sufixos presentes na frase, aglutinados ao substantivo "cidade", gerando significados como "atrocidade", "caducidade", "causticidade", "ferocidade", entre outros. Uma experiência similar a esta é o Colidouescapo (1971), livro-poema composto de folhas soltas em que estão escritos diversos fragmentos de palavras que podem ser combinados de modo aleatório pelo leitor, que participa assim da construção do sentido, numa leitura interativa.

Poemóbiles (1974), conjunto de 12 poemas-objeto coloridos tridimensionais, desenvolvidos em parceria com Júlio Plaza, também solicita a participação visual e tátil do leitor, já que cada uma dessas peças pode ser manipulada, como as esculturas móveis, ou móbiles, de Alexander Calder, conduzindo a diferentes interpretações. O poema Viva Vaia, que integra essa série, chama a atenção pela tipologia empregada, que abole as fronteiras entre palavra e imagem: os signos visuais podem ser "lidos" como letras (sons / ideias) e ainda como formas plásticas, recuperando a dimensão visual da escrita. Esse é um dos aspectos centrais na poesia de Augusto de Campos, e atinge o seu ponto de maior desenvolvimento na Caixa Preta (1975), conjunto de poemas visuais e poemas-objeto elaborados novamente em parceria com Júlio Plaza, no qual se destaca o poema Pulsar, em que letras do alfabeto estilizadas mesclam-se a sinais gráficos como círculos e estrelas, que substituem as vogais. A peça foi musicada por Caetano Veloso (1942), e consta na gravação em vinil que acompanha a Caixa Preta.

A obra de Augusto de Campos só obtem maior circulação a partir do fim da década de 1970 com a publicação da antologia Viva Vaia (1949-1979), que reúne parte considerável de sua produção poética. Entre 1979 e 2003, o poeta publica duas outras coletâneas com mostras mais recentes de seu trabalho, Despoesia (1994) e Não (2003), sendo que esta última é acompanhada de um CD-ROM com poemas dinâmicos e interativos do autor elaborados com o apoio de programas multimídia.

Convém destacar o trabalho de Augusto de Campos na área da crítica literária, com a revalorização de poetas criativos do passado que se achavam esquecidos, como o romântico Sousândrade, o simbolista Pedro Kilkerry e os modernistas Oswald de Andrade (1890 - 1954) e Pagu (1910-1962), considerados por ele poetas inventores, e ainda o amplo trabalho desenvolvido como tradutor de poesia, sendo seus trabalhos mais recentes nessa área: Emily Dickinson: Não sou Ninguém (2008), Byron e Keats: Entreversos (2009) e August Stramm: Poemas-Estalactites (2009).

Notas

1 CAMPOS, Augusto de. Viva Vaia. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 17.

2 Idem. p. 9.

3 SIMON, Iumna Maria, e DANTAS, Vinícius. Poesia concreta (coleção Literatura Comentada). São Paulo: Nova Cultural, 1982, p. 103.

4 GUIMARÃES, Júlio Castañon e SUSSEKIND, Flora (organizadores). Sobre Augusto de Campos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004, p. 155.

5. CAMPOS, Augusto de. Viva Vaia. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, pp. 114-115.

Outras informações de Augusto de Campos:

  • Outros nomes
    • Augusto Luiz Browne de Campos
  • Habilidades
    • escritor
    • poeta
    • tradutor
    • crítico de música
    • crítico literário
    • advogado

Obras de Augusto de Campos: (2) obras disponíveis:

Espetáculos (3)

Exposições (50)

Artigo sobre Arte e Tecnologia (1985 : São Paulo, SP)

Artigo da seção eventos
Temas do artigo: Artes visuais  
Data de inícioArte e Tecnologia (1985 : São Paulo, SP): 02-09-1985  |  Data de término | 09-09-1985
Resumo do artigo Arte e Tecnologia (1985 : São Paulo, SP):

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (Ibirapuera, São Paulo, SP)

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Fontes de pesquisa (1)

  • Programa do Espetáculo - O Cobrador - 1990. Não Catalogado

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  • AUGUSTO de Campos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2884/augusto-de-campos>. Acesso em: 15 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7