Artigo da seção pessoas Ignácio de Loyola Brandão

Ignácio de Loyola Brandão

Artigo da seção pessoas
Teatro / literatura  
Data de nascimento deIgnácio de Loyola Brandão: 31-07-1936 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Araraquara)

Biografia

Ignácio de Loyola Lopes Brandão (Araraquara, São Paulo, 1936). Romancista, contista, cronista, jornalista. Filho de Antônio Maria Brandão, funcionário da estrada de ferro de Araraquara, cidade do interior paulista, e de Maria do Rosário Lopes Brandão. Conclui os estudos primário e ginasial na cidade natal. Adolescente cinéfilo, escreve críticas de cinema para jornais locais. Funda o Clube de Cinema de Araraquara e conclui o curso científico. À semelhança de outros colegas de geração, como o encenador e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa (1937), muda-se para São Paulo em 1957, contratado como repórter do jornal Última Hora.

Viaja para Roma, Itália, disposto a se tornar roteirista dos estúdios da Cinecittá. Durante a estadia, trabalha como colaborador do Última Hora e da TV Excelsior. Publica seu primeiro livro, Depois do Sol (1965), volume de contos. É redator da revista mensal Claudia. Lança seu primeiro romance, Bebel que a Cidade Comeu (1968), adaptado para o cinema pelo diretor Maurice Capovilla (1936). Nesse mesmo ano, recebe o Prêmio Especial do 1º Concurso Nacional de Contos do Paraná por Pega ele, Silêncio, coletânea de contos. Inicia a redação do romance Zero (1974). Trabalha para as revistas Realidade, Setenta e Planeta.

Com a ajuda do colega de redação e dramaturgo Jorge Andrade (1922-1984), chega à versão final de Zero. Recusado pelas editoras brasileiras, o romance é publicado na Itália. Em 1975, Zero é publicado no Brasil para, a seguir, ser censurado e ter a venda proibida no país. Lança novo romance, Dentes ao Sol (1976), o livro de contos Cadeiras Proibidas (1976) e o infantojuvenil Cães Danados (1977). Viaja à Cuba como júri do Prêmio Casa de Las Americas. A aventura na ilha de Fidel rende o livro-reportagem Cuba de Fidel: Viagem à Ilha Proibida (1978). Zero é finalmente liberado pelo governo militar. Loyola deixa o jornalismo para se dedicar à literatura. A convite da Fundação Fullbright, vai aos Estados Unidos como conferencista. Publica o romance Não Verás País Nenhum (1981). Viaja para Berlim, a convite da fundação cultural Deutscher Akademischer Austauschdienst, onde vive por 16 meses. De volta ao Brasil, publica Cabeças de Segunda-feira (1983), livro de contos, e O Verde Violentou o Muro (1984), baseado na experiência alemã. Assume a vice-presidência da União Brasileira de Escritores. Lança os romances O Beijo não Vem da Boca (1985) e O Ganhador (1987).

Análise

Ignácio de Loyola Brandão é autor de mais de duas dezenas de livros, entre romances, coletâneas de contos e crônicas, memórias, livros de viagem e infantojuvenis. Consagra-se, em meados da década de 1970, como uma das principais vozes da geração literária que estreia ou amadurece depois do golpe militar de 1964. Com a publicação do romance Zero, acompanhada de sua interdição pela censura, Loyola obtém reconhecimento da crítica. Consolida-se como um dos principais representantes de um conjunto de novos autores que, apesar da repressão política, renova a literatura brasileira. A busca por soluções estéticas inovadoras acompanha um percurso cultural que se manifesta em diferentes áreas artísticas desde o final da década de 1960. É o caso, por exemplo, do tropicalismo na música popular, ou do chamado “cinema marginal”, na cinematografia.

A década de 1970 é marcada pela “legitimação da pluralidade”, para usar a expressão do crítico literário Antonio Candido (1918). Tal pluralidade traduz-se na diferença dos projetos literários e na forma híbrida que muitas narrativas da época assumem. Entre os recursos  que diluem a fronteira dos gêneros literários e traduzem a agitação experimental daqueles anos estão autobiografias romanceadas, romances-reportagem, contos que não se distinguem de poemas ou crônicas, uso de fotomontagens e grafismos dentro dos textos, poemas visuais e estilhaços de história. Escritores como Renato Tapajós (1943), Roberto Drummond (1933-2002), Rubem Fonseca (1925) e Loyola debruçam-se sobre a experiência repressiva da ditadura. Criam obras pautadas pela agressividade de forma e conteúdo, retratando os novos tempos de violência, censura, êxodo rural, marginalidade econômica e social – o Brasil do chamado “milagre econômico”.

Após estrear na ficção com Depois do Sol, seguido de Bebel que a Cidade Comeu, que documentam personagens e cenários da cidade de São Paulo, Ignácio de Loyola Brandão produz uma narrativa estilhaçada, composta por fragmentos de origem diversa. O método de criação de Zero baseia-se num exercício de “bricolagem”: trechos de textos, fotos, notícias de jornal, recortes e frases esparsas são coletados e reagrupados, produzindo novos sentidos. Com base nesse arranjo, Zero narra a história de um rapaz nascido num país da “América Latíndia”, num futuro indeterminado. Faxineiro de um cinema pulguento, José casa-se, logo depois, transforma-se num assassino e, finalmente, integra um grupo subversivo, caçado pelas autoridades de um governo autoritário. Com esse enredo, Loyola compõe um “mundo infernal” feito de lixo, labirintos, seres disformes e personagens destroçados, títeres de uma cidade-pesadelo digna da ficção científica, a que não faltam alusões ao insólito kafkiano.

Romance estilizado, paródico, construído a partir de outros textos, Zero remete o leitor às obras canônicas do modernismo brasileiro, como Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter (1928), de Mário de Andrade (1893-1945), ou o par Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade (1890-1954). A agressividade formal e temática do livro faz com que Antonio Candido aproxime-o de uma das principais tendências da prosa daquela década, a que denomina de “realismo feroz”. Como seus mais consagrados representantes, João Antônio (1937-1996) e Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola utiliza-se de um narrador em primeira pessoa (“eu”) que dilui a fronteira entre o discurso e a matéria narrada. No caso de Zero, a violência da situação é transmitida pela brutalidade de seu agente, o protagonista José. O discurso direto abre o espaço necessário para que a prosa do romance incorpore o coloquial, a gíria, a obscenidade e o vocabulário de baixo calão. O procedimento ainda determina os momentos em que a voz em primeira pessoa converte-se em terceira pessoa (de “eu” para “ele” e vice-versa). Nas mãos de Loyola, o realismo feroz adquire contornos próprios, transborda para o grotesco e o absurdo, ultrapassando o registro documental e alcança a alegoria política.

A experiência da fragmentação narrativa persiste em obras posteriores, como no romance Não Verás País Nenhum, em que se juntam incursões no terreno do fantástico e do surrealismo. Essa disposição para quebrar o “pacto realista”, comum à obra de outros autores contemporâneos a Loyola, manifesta-se também nos contos Cadeiras Proibidas e Cabeças de Segunda-feira.

Lançado no começo dos anos 1980, Não Verás País Nenhum configura-se como desdobramento dos temas e recursos de Zero. É como se Loyola perseguisse uma ideia única e fosse desenvolvendo-a gradativamente. Nele, o escritor volta a criar uma “ficção político-burocrática”, conforme suas próprias palavras, impregnada do ambiente apocalíptico e insólito de Zero. Tendo São Paulo como cenário da história, situada num futuro sombrio, nos dois romances, o leitor é colocado diante de protagonistas que vagam a esmo por mundos ditatoriais e paisagens degradadas, como anti-heróis literários privados de um itinerário claro.

A obra de Ignácio de Loyola Brandão cumpre um papel fundamental na literatura brasileira ao colocá-la no rumo de novas possibilidades expressivas. Os temas trabalhados em seus contos e romances (a perda da identidade, a incomunicabilidade, a desumanização do homem, a dissociação entre homem e natureza etc) e os recursos utilizados para dar forma a esse universo (a fragmentação, a descontinuidade narrativa e o uso da paródia) apontam para o que a história das artes e da literatura define como o “pós-modernismo”.

 

 

Outras informações de Ignácio de Loyola Brandão:

  • Outros nomes
    • Ignacio de Loyola Lopes Brandão
    • Inácio de Loyola Brandão
  • Habilidades
    • escritor
    • jornalista
    • Autor
    • Romancista
    • Cronista

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Eventos relacionados (5)

Fontes de pesquisa (9)

  • ITAÚ Cultural. Mesa redonda com Ignácio de Loyola Brandão. Não verás país nenhum – Redes da Criação. Itaú Cultural, São Paulo, 2008.
  • Anos 70: Trajetórias (vários autores). São Paulo: Editora Iluminuras/Itaú Cultural, 2005.
  • ARRIGUCCI JR., Davi. Jornal, realismo, alegoria: o romance brasileiro recente. In: ______. Achados e Perdidos: ensaios de crítica. São Paulo: Polis, 1979. p. 79-115.
  • BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Zero. 6. ed. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1979.
  • CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: ______. A Educação pela Noite. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. p. 241-260.
  • INSTITUTO Moreira Salles. Cadernos de literatura brasileira: Ignácio de Loyola Brandão. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, jun. 2001.
  • PELLEGRINI, Tânia. Gavetas vazias: ficção e política nos anos 1970. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos: Mercado de Letras, 1996.
  • SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
  • TV Cultura. Entrevista com Ignácio de Loyola Brandão. Programa Roda Vida – TV Cultura. 12 de julho de 1999.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • IGNÁCIO de Loyola Brandão. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa282/ignacio-de-loyola-brandao>. Acesso em: 17 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7