Artigo da seção pessoas Zeca Baleiro

Zeca Baleiro

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deZeca Baleiro: 11-04-1966 Local de nascimento: (Brasil / Maranhão / São Luís)

Biografia

José de Ribamar Coelho Santos," Zeca Baleiro" (Arari MA 1966). Compositor, instrumentista e produtor musical. Sua relação com a música começa em casa, nas festas folclóricas e na farmácia de seu pai, palco de artistas itinerantes. Aprende a tocar violão na adolescência.

Estreia no programa de rádio Contatos Imediatos, ao lado de Nosly Jr., com o baião Sem Pé nem Cabeça, em 1984. No ano seguinte, participa do Festival Viva 85, com o samba de breque O Hipocondríaco. Em 1986, faz temporada em Belo Horizonte com o show Umaizum. Sua canção Querubim ganha o primeiro lugar e o prêmio de melhor intérprete com a cantora Fátima Passarinho no 2° Festival Universitário de Música Popular, no Maranhão. Realiza o show solo Urubu Guarani - As Sete Faces da Canção, em 1987. Concorre no Festival de Música Popular Maranhense com Noves Fora, parceria com Nosly Jr. (registrada no disco do festival), e Canção para Inglês Ver nº 2, com Norberto Noleto (prêmio de aclamação popular).

Apresenta Os Vampiros Não Comem Lasanha, em 1991, primeiro show em São Paulo, onde trava contato com Chico César, que passa a ser seu amigo e parceiro musical. Entre 1994 e 1996, realiza o projeto Outras Caras, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), e participa dos projetos Arte nas Ruas e Sangue Novo, idealizado por Sérgio Castellani. Passa a atuar como produtor musical.

Lança seu primeiro CD, Por Onde Andará Stephen Fry?, em 1997, com participação de Genival Lacerda no tecnoxaxado Parque de Juraci, e de Wanderléa na canção Skap. Com a canção Flor da Pele - homenagem a Vapor Barato (Jards Macalé/Wally Salomão), de 1971, incluída depois no álbum Gal Costa Acústico MTV (1997) -, torna-se conhecido na grande mídia. O segundo CD, Vô Imbolá, de 1999, tem a participação do cantor Zeca Pagodinho no Samba do Approach.

Zeca Baleiro interpreta a canção Bicho de Sete Cabeças (G. Azevedo/Zé Ramalho/R. Rocha) na trilha do filme homônimo (2000). Participa dos álbuns Fagner (2001) e Me Leve (2002), de Fagner - grava disco autoral em parceria com esse compositor em 2003 -, do álbum Intimidade, de Osvaldo Montenegro (2008), e da série de songbooks produzida por Almir Chediak, nos volumes Chico Buarque (1999), Braguinha (2002) e João Bosco (2004). Produz os álbuns de Antônio Vieira (compositor popular do Maranhão), Ceumar, Décio Rocha, Rita Ribeiro e Vange Milliet. Em 2005, lança com sua empresária, Rossana Decelso, a Saravá Discos, selo destinado a divulgar seus projetos especiais, entre eles o disco póstumo de Sergio Sampaio, Cruel, no mesmo ano, e o de Odair José, Praça Tiradentes, em 2012.

Compõe a trilha do espetáculo musical infantojuvenil Quem Tem Medo de Curupira, de sua autoria, dirigido por Débora Dubois, que faz temporada no Sesi Paulista em 2011.

Análise

Com vasta discografia, Zeca Baleiro é autor de uma obra marcada pelo equilíbrio entre o frescor da experimentação, as referências aos clássicos da música popular brasileira e a levada pop. Seu repertório transita entre ritmos nordestinos - embolada, toada - e variados gêneros urbanos, como samba, ska, rap, hip-hop, rock e drum'n'bass, que se arranjam internamente dando origem a novos gêneros. É o caso, por exemplo, da embolada eletrônica, com arranjos de guitarra e bateria de rock, Vô Imbolá, do disco homônimo de 1999. A essa miscelânea de sonoridades se integra a poesia, iniciada por uma paráfrase do poema Os Patos, de Rui Barbosa, e funde diferentes elementos da cultura popular: "Vô imbolá minha farra / minha guitarra, meu riff / Bob Dylan, banda de pife / Luiz Gonzaga, Jimmy Cliff". Ao modo dos emboladores, ele se apresenta: "Nem Frank Zappa / nem Jackson do Pandeiro / (...) me chamei Zeca Baleiro / pra melhor me apresentar". Desse encontro de sonoridades surgem canções como a marcha Boi de Haxixe, de 1999, uma homenagem ao Boi de Axixá e um de seus cantadores, Donato Alves. Zeca Baleiro também transita por composições mais lentas, reunidas em trabalhos como Líricas (2000) e Baladas do Asfalto e Outros Blues (2005).

Sua relação com a poesia é tão forte quanto com a música. Alguns de seus poetas favoritos são mencionados em suas canções, como Manuel Bandeira nas canções Bandeira (1997) e Dindinha (1999), gravada pela cantora Ceumar; e Murilo Mendes, citado na canção Não Tenho Tempo (1999). Musica alguns poemas de Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa e de poetas da geração beat. Grava o CD Ode Descontínua para Flauta e Oboé, em 2006, em que trabalha poemas de Hilda Hilst, gravados por Maria Bethânia, Ângela Rô Rô, Rita Ribeiro e Zélia Duncan, entre outras.

Tem influência de compositores e intérpretes nordestinos dos anos 1970, como Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Ednardo, Belchior e, principalmente, Raimundo Fagner, que mais tarde se torna parceiro musical. Revisita clássicos da MPB, como Pagode Russo (1947), de Luiz Gonzaga/João Silva; Disritmia (1974), de Martinho da Vila, regravado em 2006; e Na Subida do Morro (1952), de Geraldo Pereira/Moreira da Silva, interpretado por ele com Jards Macalé, em 2007. Por meio de samplers explicita outras de suas referências musicais, como na canção Telegrama (2002), na qual cita Estrada do Sol (1958), de Tom Jobim/Dolores Duran; a gravação original de Vapor Barato, na voz de Gal Costa, em Flor da Pele (1997); Não Vá se Perder por Aí (1969), de Raphael Villardi/Roberto Loyola, em Salão de Beleza (1997); e A Flor e o Espinho (1956), de Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito, no hip-hop Piercing (1999).

Zeca Baleiro também ressignifica algumas composições numa leitura irônica. No rap Meninas dos Jardins, cita Rua Augusta (Hervé Cordovil, 1964), criticando a cultura de consumo em São Paulo: "Desço a Rua Augusta a 120 por hora / hi, hi, Johny, hi, hi Alfredo / nada respira como antes só o medo / vejo as meninas dos Jardins / belas nos seus jeans / a riqueza é um alqueire / uma quadra da Oscar Freire". A construção é arrematada pelo jogo de sonoridades com as palavras "rap" e "happy", "boi" e "boy": "As meninas do Itaim gostam de rap / (...) gostam de happy end" e "o meu boy morreu1 / que será de mim / manda buscar outro correndo / lá no Itaim".2 Na toada Bienal, de 1999, usa um gênero tradicional para se reportar à arte moderna. Instigado pelo tema da 23ª Bienal Internacional de São Paulo, "a desmaterialização da obra de arte no fim do milênio", em parceria com Zé Ramalho faz uma composição inusitada, que não deixa de ser uma ironia à arte e ao mercado de bens culturais no Brasil: "Pra entender um trabalho tão moderno / é preciso ler o segundo caderno / calcular o produto bruto interno / multiplicar pelo valor das contas de água luz e telefone (...)".

Na busca por composições espontâneas e intuitivas, Zeca abdica de rótulos. Prefere se definir pela negação: "Não sou do samba / nem sou do rock / minha tribo sou eu", trecho de Minha Tribo Sou Eu, de 2002.

Notas

1 O Meu Boi Morreu é uma cantiga de domínio público ligada à celebração do bumba meu boi, registrada em fonograma pelos cantores Bahiano e Eduardo das Neves, em 1916. Os versos originais são: "O meu boi morreu / que será de mim / manda buscar outro, oh, maninha / Lá no Piauí".

2 Itaim refere-se ao Itaim Bibi, bairro da cidade de São Paulo.

Outras informações de Zeca Baleiro:

  • Outros nomes
    • José de Ribamar Coelho Santos
  • Habilidades
    • Produtor musical
    • Instrumentista
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor

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Fontes de pesquisa (4)

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ZECA Baleiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa281417/zeca-baleiro>. Acesso em: 25 de Jun. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7