Artigo da seção pessoas Orlando Azevedo

Orlando Azevedo

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deOrlando Azevedo: 12-05-1949 Local de nascimento: (Portugal / Açores / Terceira)
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Paranaguá - centro , 1993 , Orlando Azevedo

Biografia

Orlando Manuel Monteiro de Azevedo (Ilha Terceira dos Açores, Portugal 1949). Fotógrafo. Em 1963, transfere-se com sua família para Curitiba. Retorna a Portugal e, em 1968, torna-se repórter fotográfico das revistas Azem Lisboa e Quatro Estações. No mesmo ano, radica-se definitivamente no Brasil. Forma-se em direito na Faculdade de Direito de Curitiba, em 1980. Nessa década, junto com a fotógrafa Vilma Slomp (1952), funda a agência Fotográfica Comunicação e Editora, e passa a atuar nas áreas de imprensa e publicidade. Paralelamente, desenvolve projetos que dão origem a exposições e livros, tais como Fitas e Bandeiras Venske, 1988, Foz do Iguaçu, Nossa Terra, 1989 e Jardim de Anões, 1993. Recebe da Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul o prêmio máximo na 2ª Bienal Internacional de Fotografia Ecológica, em 1981. Assume o cargo de diretor de artes visuais da Fundação Cultural de Curitiba, de 1993 a 1996, e cria a Bienal Internacional de Fotografia da Cidade de Curitiba. Entre 1999 e 2002, realiza a expedição fotográfica Coração do Brasil, na qual percorre 70 mil quilômetros do território nacional registrando pessoas, aspectos culturais, paisagens, a fauna e a flora do país. O conjunto de imagens dá origem à série de livros Coração do Brasil, 2002, composta de três volumes, Terra, Homem e Mito, e à exposição homônima realizada em 2002, no Museu Casa Andrade Muricy, em Curitiba. Em seguida, a mostra é apresentada em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

Análise

As fotografias de Orlando Azevedo tratam de temas amplos e diversificados: o corpo feminino, a paisagem humana e natural, a religiosidade, a cultura material e a realidade social do Brasil.

Nos ensaios com mulheres nuas, Azevedo enfoca detalhes de corpos jovens que correspondem ao ideal de beleza freqüentemente veiculado pelos meios de comunicação. Ao mostrar imagens de nádegas associadas a símbolos fálicos, ele ratifica estereótipos relacionados à sexualidade e ao corpo da mulher.

Na série Jardim de Anões, ele faz um inventário de anões de jardins de casas em Curitiba, com a intenção de chamar a atenção para uma peculiaridade local relacionada à imigração polonesa e alemã no Paraná. As peças lembram um universo infantil e, ao mesmo tempo, evidenciam a passagem do tempo, pois sua superfície é marcada pela ação da chuva e do sol. Ainda assim, o resultado não se afasta do caráter decorativo do referente, criando um enunciado de valorização das tradições culturais locais.

Na expedição Coração do Brasil, inicida na data emblemática de 21 de abril de 1999 e seguida até 2002, Azevedo viaja durante 14 meses registrando a paisagem natural, a fauna e a flora, a população, aspectos culturais, ícones religiosos e festas folclóricas em todos os Estados do país. Os resultados estão reunidos em três livros: Terra, Homem e Mito.

No primeiro deles, as imagens coloridas se caracterizam, sobretudo, pelo aspecto descritivo e assumem um discurso ecológico. Destacam-se paisagens de montanhas e formações rochosas do monte Roraima, em Rondônia e da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, flores e céus com nuvens coloridas. No entanto, a ambição de retratar toda a extensão do território nacional por vezes carece de critérios e acaba chamando a atenção para lacunas.

O volume Homem traz retratos em preto-e-branco de crianças, idosos, gaúchos, caminhoneiros, prostitutas, agricultores e jangadeiros, entre outros trabalhadores, quase sempre posados. As legendas não identificam os nomes das pessoas, e sim o local onde a foto foi feita, o que demonstra que a intenção não é representar indivíduos, mas os tipos que compõem o que o artista apresenta como o "povo brasileiro". A convivência entre alegria e precariedade, malemolência e força é mostrada como característica do país. Mesmo que a maior parte dos retratados olhe diretamente para a lente, percebe-se constrangimento e artificialidade em algumas expressões, como se eles não pudessem esquecer que estão sendo observados por um desconhecido.

Além de entrar em contato com realidades diferentes da sua, Azevedo se pauta no repertório visual vinculado à tradição documentarista amplamente divulgado por meio de livros e exposições. Desse modo, muitas vezes o potencial estético da cena se sobrepõe à informação. O interesse pela senhora idosa com a face extremamente enrugada, por exemplo, parece residir no efeito visual que a textura de sua pele pôde criar quando registrada pela película fotográfica em preto-e-branco. Pela escolha de luz e enquadramento, e pela diversidade dos assuntos abordados, a obra de Azevedo remete aos trabalhos de diferentes fotógrafos brasileiros, como Sebastião Salgado (1944), Miguel Rio Branco (1946), Celso Oliveira (1957) e Araquém Alcântara (1951), entre outros que se dedicaram ao registro de crianças, trabalhadores, paisagens e festas populares.

Na seção Mito, a estratégia de fazer o espectador perceber a dimensão estética de coisas comuns e cotidianas alinha a obra de Azevedo à fotografia modernista. Ele chama a atenção para cores e texturas naturais mostrando closes de diferentes tipos de solo e formação rochosa. Nas imagens sacras, destaca detalhes de figuras banhadas de ouro e a dimensão teatral das esculturas barrocas. Mostra também a presença de ícones religiosos e profanos na decoração de casas, bares e caminhões. No fim do livro, o artista apresenta ossos, vísceras bovinas e o chão de um abatedouro tingido de sangue. Por vezes, o efeito visual proporcionado pela matéria remete ao universo da pintura abstrata, o que cria uma relação de ambigüidade entre o conteúdo de conotação trágica e a forma bela.

E, no contexto da história da arte brasileira, suas fotos atualizam idéias que caracterizaram o modernismo local como a noção de que a arte nacional deveria tratar de temas nacionais: a população, a natureza e os problemas sociais.1 Mas as imagens de Azevedo são produzidas numa época muito distinta daquela vivida por Mário de Andrade (1893-1945), que, no fim dos anos 1920, em expedições ao interior do país, fotografa aspectos culturais do Norte e do Nordeste. Num mundo assolado por imagens provenientes de diferentes mídias, o objetivo de revelar uma iconografia do país se dilui e não carrega mais o potencial de descoberta e de revelação das pretensões modernistas.

Nota

1 Sobre as relações entre arte moderna e fotografia documental no Brasil, ver: CHIARELLI, Tadeu. Identidade/não-identidade: a fotografia brasileira atual. Rio de Janeiro: Centro Cultural Light, 1997.

Outras informações de Orlando Azevedo:

  • Outros nomes
    • Orlando Manuel Monteiro de Azevedo
  • Habilidades
    • Curador
    • fotógrafo
  • Relações de Orlando Azevedo com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Orlando Azevedo: (9) obras disponíveis:

Exposições (65)

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Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (17)

  • OUTEIRO, Robson (coord.); PAIVA, Joaquim (org.). Visões e alumbramentos: fotografia brasileira contemporânea na coleção Joaquim Paiva. Versão em inglês Katica Szabó, Laura Ferrari; fotografia Denise Andrade. São Paulo: BrasilConnects Cultura & Ecologia, 2002. 296 p., il. p&b. color. 770.981 Pj149p
  • OUTEIRO, Robson (coord.); PAIVA, Joaquim (org.). Visões e alumbramentos: fotografia brasileira contemporânea na coleção Joaquim Paiva. Versão em inglês Katica Szabó, Laura Ferrari; fotografia Denise Andrade. São Paulo: BrasilConnects Cultura & Ecologia, 2002. 296 p., il. p&b. color.
  • AZEVEDO, Orlando. Expedição Coração do Brasil. Homem. Curitiba: Francisco Alves, 2002. 184 p., il. p&b.
  • AZEVEDO, Orlando. Expedição Coração do Brasil. Mito. Curitiba: Francisco Alves, 2002. 260 p., il. p&b, color.
  • AZEVEDO, Orlando. Expedição Coração do Brasil. Terra. Curitiba: Francisco Alves, 2002. 216 p., il. color.
  • AZEVEDO, Orlando. Fitas e bandeiras Venske. Curitiba: SEEC: SEIC, 1988.
  • AZEVEDO, Orlando. Jardim de Anões. Curitiba: Edição do autor, 1993. Sem paginação, il. color. Não catalogado
  • AZEVEDO, Orlando; PACHECO, Solange (Coord.). Expedição Coração do Brasil - Homem. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002. 184 p., il. p&b. ISBN 85-89365-02-6. 778.981 A994ho
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  • AZEVEDO, Orlando; PACHECO, Solange (Coord.). Expedição Coração do Brasil - Terra. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002. 216 p., il. color. ISBN 85-89365-03-4. 778.981 A994te
  • AZEVEDO, Ricardo José Duff. Fitas e bandeiras Venske . Curitiba: SEEC/ SEIC, 1988. 85 p. il. 778.9 A994f
  • BONI, Zé de. Verde lente: fotógrafos brasileiros e a natureza. São Paulo: Empresa das Artes, 1994.
  • BONI, Zé de. Verde lente : fotógrafos brasileiros e a natureza. São Paulo: Empresa das Artes, 1994. 228p., fotos p.b. co. ISBN 85-85628-11-1. 778.90981 B715v
  • CARBONCINI, Anna (Coord.). Coleção Pirelli/ MASP de Fotografias: v. 3. Versão em inglês Kevin M. Benson Mundy. São Paulo: MASP, 1993.
  • ENXERGANDO o planeta: Orlando Azevedo. IrisFoto, São Paulo, ano 45, p. 451, p. 64, jan. /fev. 1992. Não catalogado
  • ENXERGANDO o planeta: Orlando Azevedo. IrisFoto, São Paulo, ano 45, p. 451, p. 64, jan. /fev. 1992. Edição de aniversário.
  • ORLANDO Azevedo. IrisFoto, São Paulo, ano 46, n. 460, n. p. , jan. /fev. 1993. Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ORLANDO Azevedo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa27297/orlando-azevedo>. Acesso em: 16 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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