Artigo da seção pessoas Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / literatura  
Data de nascimento deGraciliano Ramos: 27-12-1892 Local de nascimento: (Brasil / Alagoas / Quebrangulo) | Data de morte 20-03-1953
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Memórias do Cárcere , 1953 , Graciliano Ramos
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo AL 1892 - Rio de Janeiro RJ 1953). Romancista, contista e cronista. Primogênito de 16 irmãos, filho do comerciante Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ramos. Com 13 anos, vai estudar no Colégio 15 de Março, em Maceió. Inicia, em 1906, a colaboração com o jornal O Malho, do Rio de Janeiro, publicando alguns de seus sonetos. Três anos depois, passa a escrever regularmente no Jornal de Alagoas, de Maceió. Muda-se para Palmeira dos Índios, no interior do estado, em 1910, sem contudo interromper a colaboração nos jornais da capital alagoana. No ano de 1914, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha como revisor de vários jornais, mas volta às pressas para Palmeira dos Índios no ano seguinte, devido à morte de três irmãos e um sobrinho, vitimados pela peste bubônica. Casa-se com Maria Augusta Ramos, com quem tem quatro filhos (ela morre em 1920, por complicações no parto). Assume, em 1917, a loja de tecidos Serena e, em 1925, começa a escrever o romance Caetés. É eleito prefeito da cidade em 1927. No ano seguinte casa-se com Heloísa Leite de Medeiros - o primeiro filho do casal é o também escritor Ricardo Ramos (1929 - 1992). Em 1929, envia ao governador de Alagoas um relatório de prestação de contas do município, que acaba nas mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt (1906 - 1965), que, entusiasmado com a qualidade literária, procura o escritor. Volta a colaborar no Jornal de Alagoas, em 1930, renuncia assim ao mandato de prefeito e muda-se para Maceió, onde assume o cargo de diretor da Imprensa Oficial, do qual se demite no ano seguinte. É nomeado, em 1933, diretor da Instrução Pública de Alagoas e torna-se redator do Jornal de Alagoas. No mesmo ano, estreia na literatura com a publicação de seu primeiro romance, Caetés, pela editora de Schmidt. Acusado de ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), é preso e enviado para o Rio de Janeiro, cumprindo pena de 1936 a 1937. É nomeado inspetor federal de ensino secundário no Rio de Janeiro em 1939, e seis anos depois filia-se ao PCB, a convite do líder e secretário-geral do partido, Luís Carlos Prestes (1898 - 1990). Em Buenos Aires, é operado sem sucesso e retorna gravemente doente para o Rio de Janeiro, onde morre, de câncer de pulmão, em 1953.

Comentário Crítico
A obra de Graciliano Ramos surge num contexto de grande projeção do romance de 30 no Nordeste, marcado por um regionalismo problemático que, como nota Antonio Candido, não se limita ao mero descritivismo de paisagens e costumes rurais, que caracteriza essa vertente ficcional no século XIX com o romantismo.

O romance de 30 se concentra nos dramas específicos das regiões onde mais se evidencia a situação de atraso do Brasil. Assim, o ciclo desolador da seca e a vida itinerante do sertanejo surgem nos romances de José Américo de Almeida (1887 - 1980) e nos de Rachel de Queiroz (1910 - 2003), ao passo que a decadência da aristocracia rural é retraçada pelo ciclo da cana-de-açúcar de José Lins do Rego (1901 - 1957), além da vida miserável do trabalhador rural e urbano nas páginas de Jorge Amado (1912 - 2001) e Amando Fontes (1899 - 1967), entre outros.

Ramos tem seu nome muitas vezes associado a essa vertente da ficção, embora essa associação seja objeto de polêmica e contestação por parte de importantes historiadores e críticos literários. Isso porque romances como Caetés e Angústia, apesar de transcorrerem no cenário nordestino (capital e províncias), não se detêm em problemas específicos da região. E quando essa problemática tem mais ênfase, como ocorre em Vidas Secas ou mesmo em São Bernardo, ela não chega a prevalecer sobre os personagens, o que não implica, absolutamente, subestimá-la.

Essa é, talvez, a principal diferença da ficção do escritor alagoano em relação à média dos romances regionais do período: enquanto nestes os fatores do enredo (meio social, paisagem ou problema político) tendem a predominar sobre o personagem, na obra de Graciliano ocorre o inverso. O homem aparece, em sua obra, vinculado a uma realidade regional, mas não ofuscado por ela. Obras como São Bernardo acabam, assim, por romper com divisões e polarizações simplificadoras do tipo romance social versus romance psicológico estabelecidas pela crítica e historiografia tradicionais para classificar a produção ficcional do período.

Ramos estreia com Caetés, romance concebido ainda dentro dos padrões da ficção realista do século XIX, revelando a influência do escritor português Eça de Queirós na descrição das cenas e na caracterização dos personagens. O enredo gira em torno do envolvimento amoroso de João Valério, guarda-livros com pretensões literárias, e Luísa, esposa do patrão. Em paralelo a essa história, desenvolve-se outra. Ramos emprega a estratégia do romance dentro do romance, pois João Valério ocupa-se de escrever um romance histórico sobre o martírio do bispo Sardinha, devorado pelos índios caetés. Ambas as histórias, a dada altura, acabam por se imbricar, na medida em que o protagonista reconhece trazer em si um eu primário adormecido e reprimido, metaforicamente equiparado a um caeté recôndito: "Que sou eu", diz ele, "senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora?". E, de fato, um traço marcante da ficção do escritor alagoano é essa investigação progressiva do eu subjacente à imagem social.

Se Caetés é visto como um campo de provas em que o escritor pode testar sua técnica narrativa e seu estilo, estes já aparecem completamente definidos no livro seguinte. Em São Bernardo, pode-se reconhecer as principais marcas estilísticas da escrita ("clássica", a seu modo) de Graciliano Ramos: a preferência por frases curtas ou mesmo elípticas, as orações simples e os períodos coordenados, o vocabulário reduzido e algumas gírias. Como diz o poeta João Cabral de Melo Neto (muito influenciado pela escrita de Ramos), o romancista alagoano parece sempre escrever com as mesmas 20 palavras. Dessa escrita enxuta resulta a força de seu estilo seco e de seu lirismo contido, sem ênfase de nenhuma natureza.

Como no romance de estreia, São Bernardo também é narrado na primeira pessoa. Nos dois primeiros capítulos, o narrador não se ocupa propriamente da história, mas de sua composição, relatando os antecedentes do livro que só tem "início" no terceiro capítulo. O narrador dá como "perdidos" esses dois capítulos iniciais, mas a verdade é que eles já revelam muito de seu modo de ser e de agir, bem como de sua história. A partir do terceiro capítulo, o que ele faz é retraçar sua trajetória de ascensão social, passando de guia de cego a proprietário das terras de São Bernardo, que sempre foi a grande meta de sua vida. O que se vê na primeira parte do romance é "a construção de um burguês", como nota Carlos Nelson Coutinho. O protagonista Paulo Honório é o "emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente", que invade o sertão brasileiro, sob a orientação de três ideais burgueses: "Ação transformadora, velocidade enérgica, posse total", segundo João Luís Lafetá.

Paulo Honório é um herói movido pelo sentimento de propriedade não só em relação aos bens materiais, mas também em relação aos seres que vivem ao seu redor, que acabam sendo convertidos, por ele, em "coisas" que podem ser manipuladas e possuídas como os demais bens. E assim, depois da posse das terras de São Bernardo, Paulo Honório, levado por esse mesmo sentimento, pretende ter uma esposa para constituir uma família. O alvo escolhido, entretanto, a professora Madalena, mulher intelectualmente preparada e emancipada, não se sujeita ao autoritarismo e à brutalidade do marido em relação a todos que frequentam suas terras, moram e trabalham nelas. Paulo Honório, por sua vez, não compreende a posição humanitária da esposa, irrita-se por ela não se sujeitar aos seus desígnios. Uma desconfiança infundada em relação a Madalena leva-o à hipótese de traição e ao ciúme, que, como bem nota Antonio Candido, nada mais é senão uma "variante do seu sentimento de propriedade", que acaba por destruir ambos. O retrato de Paulo Honório como ciumento permite aproximá-lo de outro grande personagem da tradição literária brasileira: Bento Santiago, o Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839 - 1908).

Depois de São Bernardo surge Angústia (1936), romance considerado por alguns críticos como a obra-prima do escritor alagoano, ao passo que Antonio Candido vê no livro algo excessivo que contrasta com o despojamento dos demais. Como nota ainda o crítico, há duas componentes básicas na obra de Graciliano Ramos: "Uma de lucidez e equilíbrio, outra de desordenados impulsos interiores". A primeira tende a predominar, mas é notória a presença latente da segunda. Nesse sentido, Angústia corresponde ao momento de explosão das componentes de desvario, que permanecem represadas nos outros livros. Nele, tem-se um exemplo do que se costuma definir como roman en abîme - romance em abismo, narrativa marcada por um vertiginoso mergulho no monólogo interior. Nesse "caos organizado" que é o terceiro romance, continua a narrativa em primeira pessoa, feita por Luís da Silva, figura atormentada, movida por um forte sentimento de autonegação e de repulsa em relação a si e ao mundo. A intensa atividade reflexiva contrasta com sua total inércia em relação à vida. O estatuto social desse narrador permite a José Paulo Paes inserir Angústia numa certa linhagem da ficção brasileira, denominada pelo crítico de romance do pobre-diabo, um (anti-)herói marcado por certa "vocação para o fracasso", que, apesar da baixa posição social, não participa da classe proletária.  A aparição desse personagem fracassado como um herói recorrente na ficção brasileira parece trazer uma íntima vinculação, segundo Paes, com "o frustrado papel de vanguarda que a pequena burguesia teve na nossa dinâmica social". E ao fracasso socioeconômico de Luís da Silva acrescenta-se ainda o afetivo, resultado de seu relacionamento frustrado com a vizinha Marina, que o abandona por um homem rico, falador e superficial - espécie de duplo que encarna a "metade triunfante" que lhe falta.

Depois de Angústia, Ramos abandona a narrativa em primeira pessoa, à qual ainda retorna adiante. Nesse meio-tempo, explora as possibilidades da narrativa em terceira pessoa em contos publicados em jornais brasileiros e argentinos (posteriormente reunidos, com supressões, rearranjos e acréscimos, na coletânea Insônia) e sobretudo em uma de suas maiores realizações ficcionais: Vidas Secas, que retraça a famigerada errância do sertanejo expulso pela seca, enfocando uma família de retirantes. Originado de um (ou alguns) conto(s), o romance preserva, em sua estruturação, as marcas de origem: são 13 capítulos marcados por certa autonomia, "verdadeiros casulos de vida isolada". Como quadros justapostos, os capítulos tendem a focalizar os personagens separadamente, num deslizar contínuo, ora para o mundo exterior, ora para o interior: uma perspectiva recíproca que ilumina o personagem pelo acontecimento e este por aquele, no dizer de Candido. Essa tomada parcial de cada personagem acentua a condição de vida isolada, encasulada no seu próprio cismar. Não há interação entre eles, visto que lhes falta o essencial: a palavra. Fabiano, sua mulher e filhos são seres espoliados não só de casa e comida, mas também de linguagem, pois, fiéis ao clima da seca, fazem uso de uma fala truncada e de alguns sons guturais. Para suprir essa fala minguada, a impossibilidade de comunicação e expressão, Ramos recorre a um narrador extremamente onisciente, que sabe e diz tudo o que se passa dentro e fora da cabeça dos personagens, inclusive da cachorrinha Baleia, numa passagem antológica. Essa voz narrativa pode se mostrar, num primeiro momento, restrita à função mediadora de dar voz aos que não a têm, de modo puramente impessoal. Mas, como demonstra Alfredo Bosi, numa leitura mais atenta, percebe-se todo um jogo de aproximação e distanciamento do narrador em relação à consciência dos personagens, de modo a sinalizar a não pactuação com a alienação do sertanejo em relação à realidade de sua condição.

Depois de Vidas Secas, o escritor alagoano retoma a narração em primeira pessoa com Infância e Memórias do Cárcere, marcando, assim, a transição da ficção para a confissão que, segundo Candido, sintetiza a lógica evolutiva da trajetória literária de Graciliano Ramos. É certo, porém, que esse caráter confessional tem sempre de ser relativizado, já que persiste muito de ficcional na reconstituição de seres e eventos do passado. Memórias do Cárcere é também obra inacabada, interrompida pela morte prevista e registrada nas páginas iniciais:
"Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão - e provavelmente isto será publicação póstuma, como convém a um livro de memórias".

Essa não é a única publicação póstuma. Logo em seguida surge Viagem, que relata a visita feita à União Soviética. Vêm, depois, as coletâneas Linhas Tortas (reunião de crônicas e artigos escritos entre 1915 e 1952), Viventes das Alagoas (quadros de costumes e paisagens do Nordeste), Alexandre e Outros Heróis (histórias infantis) e o volume que recolhe suas Cartas.

Outras informações

  • Outros nomes
    • Feliciano Olivença
  • Habilidades
    • romancista
    • contista
    • ensaísta

Obras (5)

Espetáculos (2)

Exposições (2)

Fontes de pesquisa (1)

  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. 415 p. R792.0981 A636t 1994

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRACILIANO Ramos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2658/graciliano-ramos>. Acesso em: 24 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7