Artigo da seção pessoas Renato Cohen

Renato Cohen

Artigo da seção pessoas
Teatro / artes visuais  
Data de nascimento deRenato Cohen: 26-05-1956 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre) | Data de morte 18-10-2003 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Renato Cohen (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1956 - São Paulo, São Paulo, 2003). Ator, diretor, performer, teórico e pesquisador. Pertence à geração chamada “teatro das imagens”, que relativiza a importância do texto. Sua atuação começa em fins dos anos 1980, após se formar em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), quando se aproxima do pesquisador e diretor teatral Luiz Roberto Galizia (1954-1985), integrante do grupo Ornitorrinco. Ao longo da década de 1980, cria performances e tem breve passagem como programador do Sesc Fábrica Pompeia. Essa vivência é utilizada em sua dissertação de mestrado em artes cênicas na USP, convertida em livro.

Nos anos 1990, faz seus primeiros experimentos cênicos: Magritte – Espelho Vivo (MAC/USP, 1986-1988), Sturm und Drang – Tempestade e Ímpeto (Casa Modernista,1990-1993) e Vitória sobre o Sol (Centro Cultural São Paulo, 1995-1996), versão livre de uma ópera futurista russa. Apresenta o projeto Máquina Futurista (Itaú Cultural,1997) e KA (Museu Ferroviário, Campinas, 1998), adaptação do texto homônimo. Essa montagem é realizada com formandos de artes cênicas da Universidade de Campinas (Unicamp), onde passa a ministrar aulas na graduação e pós-graduação. Cohen cria um novo grupo, batizado com o nome da peça. Também nesse ano publica seu segundo livro, fruto do doutorado realizado na USP.

Em 1999, com o grupo KA, apresenta no Centro Cultural São Paulo (CCSP) o espetáculo Dr. Faustus Liga a Luz, da escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946). No mesmo ano desenvolve o projeto Imanências - Caixas do Ser, na Casa das Rosas, iniciando um debate sobre o programa televisivo Big Brother. Gradua-se em artes do corpo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e faz pós-graduação em comunicação e semiótica na mesma universidade. Em 2002, dirige o evento Constelação (Sesc Vila Mariana), série de performances transmitidas pela internet. Sua última produção, Hiperpsique (Sesc Pompeia, 2003), traz à cena elementos dramáticos retirados de chats e textos da internet. Nesse ano, rebatiza o nome do seu grupo como Mídia KA.

Paralelamente, Cohen desenvolve trabalho junto ao Hospital-Dia A Casa, centro de pesquisa e terapia de psicóticos. Juntamente com Peter-Pál Pelbart (1956) e Sergio Medeiros, trabalha com pacientes e dirige espetáculos singulares, como Ueinzz - Viagem à Babel (1997), que dará nome ao grupo até hoje atuante, Dedalus (1998) e Gothan SP (2001).

Análise

Cohen, ao publicar seu primeiro livro, Performance como Linguagem (1989), propõe a tese de que a performance é um dos fatores de desconstrução do teatro. Ele defende, para essa modalidade artística, o status de linguagem autônoma. Sugere ideias que provêm, simultaneamente, da literatura, da poesia, das artes visuais, do teatro, da dança e talvez até da música para compreender a nova expressão artística que se revitaliza nos anos 1980. Com sua pioneira investigação, lança termos como persona, mise-en-scène, work in progress - tomada de James Joyce (1882-1941) na época da escritura de seu romance Finnegans Wake (1939) - performance e “performatividade”, palavras frequentemente usadas no teatro, na dança e nas artes. Work in Progress na Cena Contemporânea (1989), seu segundo livro, aprofunda esses estudos.

Interessado na contracultura americana, Cohen depara-se com o new wave, que compreende o punk e as iniciativas de do it yourself (faça você mesmo), que fez surgir híbridos de músicos e artistas visuais. Com essa base, cria performances como Moura Bruma e Dr. Jericko (1983) e Tarô-Rota-Ator (1984), que algumas vezes ocorrem em casas noturnas, como o Madame Satã. Trabalhando como um dos programadores do Sesc Pompeia, realiza eventos dedicados à performance, como as 14 Noites.

Em seu trabalho Magritte – Espelho Vivo, o público é conduzido por espaços que reproduzem quadros do pintor belga, utilizando parte das salas reservadas às bienais, no Parque Ibirapuera. Já Sturm und Drang – Tempestade e Ímpeto acontece nos jardins e na piscina vazia da Casa Modernista, que estava praticamente abandonada. Cohen funda o grupo Orlando Furioso e, com ele, realiza Vitória sobre o Sol, que trata de um de seus temas prediletos: a morte. Alguns elementos dessa encenação são reaproveitados na instalação multimídia Máquina Futurista (1997), que dirige com o grupo de artistas e teóricos formado de Lali Krotoszynski (1961), Teresa Labarrère (1961), Lucio Agra (1960) e Arnaldo de Melo (1960). Performance, instalação, workshops e a participação no evento telemático Global Bodies,  produzido pelo Zentrum für Kunst und Medien (ZKM), na Alemanha, compõem o trabalho, marcando o início de seu interesse pelo uso de tecnologias de transmissão, às quais adicionará a pesquisa de rituais ancestrais e xamanismo.

O mergulho nesse universo resulta em KA, complexa prosa poética, em que Cohen experimenta a fusão entre poesia e cena, recorrendo a textos de vários poetas, notadamente Khlébnikov e Maiakóvski (1893-1930). Além do poeta futurista Khlébnikov (1885-1922), seus autores preferidos são Joseph Beuys (1921-1986) e Bob Wilson (1941). Ka também apresenta um aspecto importante de seu trabalho, a conexão entre pedagogia e performance.

Considerando a importância da pesquisa de Richard Schechner (1934) no programa de Performance Studies, da Universidade de Nova York, Cohen o visita em 2002. Já antes atua junto aos pacientes do Hospital-dia A Casa, esforço de antipsiquiatria inspirado em outras iniciativas. Esse trabalho tem sido considerado uma das mais radicais experiências no terreno que o próprio Cohen considera como “parateatral”. Um espetáculo da companhia Ueinzz (cujo nome deriva de seu primeiro experimento) constitui-se num surpreendente e perturbador desmonte do teatro como é visto tradicionalmente.

Convidado em 2001 a cuidar da área de performance na graduação em Comunicação das Artes do Corpo da PUC/SP, Cohen consolida um espaço de pesquisa a partir de práticas ligadas à inovação. Seus últimos experimentos, Constelação – 12 Horas de Performance (2002), realiza-se no Sesc Vila Mariana e Hyperpsique (2003) marca o retorno ao Sesc Pompeia. Nesse último, arrisca-se no humor, arregimentando fragmentos de uma dramaturgia esfacelada coletada na internet. Imagens fragmentadas, música pop, DJs e VJs constroem um novo discurso, hoje conhecido como teatro performático. Não é difícil concluir que Renato Cohen produziu régua e compasso da arte ao vivo do início do século XXI no Brasil.

Outras informações de Renato Cohen:

Espetáculos (8)

Exposições (2)

Eventos relacionados (4)

Fontes de pesquisa (14)

  • AGRA, Lucio. Renato Cohen, memória afetiva 1.0. Concinnitas - Revista do Instituto de Artes da Uerj. Rio de Janeiro, Uerj, Faperj, 7 Letras, ano 5, n. 6, jul. 2004.
  • AGRA, Lucio; DONASCI, Otávio. (R)entrer dans le vif de l’art / (Re)Viewing live art. In: ROLNIK, Suely (ed. e org.). Parachute, n. 116, São Paulo, Québec, ed. Parachute, out.-nov.-dez. 2004.
  • ALBUQUERQUE, Johana. Renato Cohen (ficha curricular) In: ___________. ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para a Fundação VITAE. São Paulo, 2000.
  • ARTE e Tecnologia. apresentação Ricardo Ribenboim; texto Vitória Daniela Bousso; curadoria Vitória Daniela Bousso. São Paulo, SP: Instituto Cultural Itaú, 1997. 120 p.
  • ARTE e Tecnologia. Vários. Catálogo do Instituto Cultural Itaú, São Paulo, 1997.
  • CARVALHAES, Ana Goldenstein. Persona performática: alteridade e experiência na obra de Renato Cohen. São Paulo: Perspectiva, 2012.
  • COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1989
  • COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 1989.
  • COHEN, Renato. Curriculum e sites correlatos enviados pelo diretor para a pesquisadora Johana Albuquerque. São Paulo, nov. 1999.
  • LIMA, Mariângela Alves de. Dedalus constrói ponte sobre a solidão. São Paulo, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 22 de setembro de 2000.
  • LIMA, Mariângela Alves de. O Teatro Paulista. Sete Palcos, Coimbra, Portugal, p. 33, n. 3, set. 1998.
  • PUC/SP. Site de pós-graduação. Disponível em: < http://www4.pucsp.br/cos/budetlie/ >. Acesso em: 19 ago. 2014.
  • ROLLA, Marco P.; HILL, Marcos. MIP – Manifestação Internacional de Performance. Belo Horizonte: Centro de Informação e Experimentação de Arte (Ceia), 2005.
  • SESC. Site Constelação. Disponível em: < http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/constelacao/ >. Acesso em: 19 ago. 2014.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RENATO Cohen. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa256193/renato-cohen>. Acesso em: 25 de Jun. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7