Artigo da seção pessoas Clarival do Prado Valladares

Clarival do Prado Valladares

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Artes visuais  
Data de nascimento deClarival do Prado Valladares: 26-09-1918 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador) | Data de morte 13-05-1983

Biografia

Clarival do Prado Valladares (Salvador, Bahia, 1918 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1983). Crítico de arte, historiador de arte, fotógrafo, poeta e médico. Durante a juventude, vive no Recife, onde atua como auxiliar de pesquisa de campo do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) e inicia o curso de medicina. Em 1941, transfere-se para o Rio de Janeiro e, mais tarde, para Salvador, onde conclui a faculdade. Em 1952, defende tese de doutorado na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Entre 1953 e 1956, realiza pós-graduação em patologia, na Universidade de Harvard, e em biologia, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil em 1956, torna-se docente de anatomia patológica na Ufba. A partir de 1959, leciona também história da arte na Escola de Belas Artes e na Escola de Teatro da mesma universidade.

No início dos anos 1960, retorna ao Rio de Janeiro e intensifica a atividade em artes plásticas. Em 1962, publica Paisagem Rediviva, coletânea de textos sobre arte; em 1965, escreve O Comportamento Arcaico Brasileiro e, em 1967, Riscadores de Milagres: Um Estudo sobre Arte Genuína. Colabora com o Jornal do Brasil e a revista GAM: Galeria de Arte Moderna, entre outras publicações.

Participa do júri da Bienal Internacional de São Paulo em 1967, 1973 e 1977; da 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas, em 1966, em Salvador; e de eventos semelhantes de nível internacional, como a 3ª Bienal Interamericana de Arte, em Córdoba, Argentina, e o 1º Festival Mundial de Artes Negras, em Dacar, Senegal, ambos em 1966. Entre 1964 e 1967, integra a Comissão Nacional de Belas Artes, além de tornar-se membro do Conselho Federal de Cultura, ainda em 1967. Entre 1971 e 1977, faz parte do júri de premiação do Panorama de Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna São Paulo (MAM/SP).

Na década de 1970, publica os livros Emiliano Di Cavalcanti e Lasar Segall, ambos pela editora argentina Codex. Em 1978, lança Rio Barroco e Rio Neoclássico e recebe o Prêmio Gonzaga Duque, da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e da Fundação Nacional de Artes (Funarte), pelo livro Lula Cardoso Ayres - Revisão Crítica e Atualidade. Em 1981, publica Aspectos da Arte Religiosa no Brasil - Bahia, Pernambuco, Paraíba e Albert Eckhout: Pintor de Maurício de Nassau no Brasil (1637-1644).

Análise

Clarival do Prado Valladares contribui para os estudos de arte brasileira com o levantamento de larga iconografia dos temas abordados, entendendo-se o próprio crítico e historiador da arte como um “fotógrafo-pesquisador”1. São diversos os títulos de documentação iconográfica produzidos por ele, como Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (1972), Rio Barroco, Rio Neoclássico e Aspectos da Arte Religiosa no Brasil, entre outros.

O crítico possui como interesses centrais aspectos arcaicos e populares da arte brasileira. Entre os trabalhos sobre esses assuntos estão: Agnaldo Manuel dos Santos - Origin, Revelation and Death of a Primitive Sculptor (1963); Artesanato Brasileiro (1978); e Comportamento Arcaico Brasileiro (1965). O historiador da arte Walter Zanini (1925-2013) observa ainda o interesse de Valladares pela arte afro-brasileira, exemplificado pela publicação The Impact of African Culture on Brazil (1977)2.

Segundo o crítico, a cultura popular “genuína” cessa quando “as áreas de comportamento arcaico (insuladas no sertão ou marginalizadas na periferia urbana) são atingidas pelo progresso industrial em termos de sistemas viários, comunicação massificada, mercado de trabalho codificado, automação e sobrecarga publicitária”3. Seu viés analítico deve-se aos estudos iconológicos - no no recolhimento e exame de imagens que formam o objeto de suas pesquisas - e à sociologia da arte, na busca pelo gosto dominante de determinada comunidade em determinada época. Em Aspectos da Arte Religiosa no Brasil - Bahia, Pernambuco, Paraíba explicita essa visão: 

Ao invés de considerar o quanto [os templos religiosos devem] ao protótipo, preferimos assinalar neles o quanto divergem, o quanto reformulam, o quanto renovam na conquista de uma nova linguagem plástica e estética, somente possível à contingência sociológica brasileira4.

Os interesses de Valladares estendem-se à arte brasileira moderna, escrevendo sobre a obra de Candido Portinari (1903-1962), Di Cavalcanti (1897-1976) e Lasar Segall (1889-1957). José Pancetti (1902-1958), Guignard (1896-1962) e Djanira (1914-1979) figuram em textos críticos de menor fôlego. Além desses, artistas nordestinos como Lula Cardoso Ayres (1910-1987), Genaro (1926-1971) e Alberto Valença (1890-1983) têm lugar em sua produção crítica.

A monografia sobre o pintor Lula Cardoso Ayres, premiada em 1978 pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), pode ser vista como exemplo do pensamento do crítico. Nesse trabalho, ele faz uma análise da obra do artista pernambucano, que reúne aspectos da arte moderna e traços da arte popular nordestina. Visa legitimar essa característica de Ayres e aponta outros artistas de renome que também trabalham nesse sentido de investigação das formas primitivas. Lembra, por exemplo, o interesse do pintor francês Fernand Léger (1881-1955) pela “síntese geometrizada da arte genuína”5.

A escolha de Léger, figura consagrada da arte moderna, como parâmetro de comparação não é arbitrária. Ao aproximar o artista francês e Ayres, coloca o pernambucano ao lado dos modernistas Tarsila do Amaral (1886-1973) e Di Cavalcanti, em cujas obras também observa a influência de Léger. Para Valladares, o interesse desses artistas é conquistar uma forma, com base na cultura local, entendida universalmente.

Segundo o crítico, o contato de Ayres com a abstração acontece nas bienais internacionais de São Paulo. Valladares considera a arte abstrata uma linguagem “hermética” e reputa a isso o retorno de Ayres, entre outros artistas brasileiros, à figuração após breve produção não figurativa6. O tom da observação indica a postura do crítico sobre os contornos da arte brasileira. Para ele, não a abstração, mas o tratamento sintético da forma é um ponto de contato fundamental entre a arte popular local e a erudita.

Os textos de Clarival Valladares demonstram olhar aprofundado sobre as manifestações da arte popular, atento ao diálogo entre ela e a erudita. A investigação iconográfica, por sua vez, contribui com subsídios para pesquisas sobre arte no Brasil, facilitando o acesso do pesquisador ao complexo das obras de determinados períodos e locais.

Notas

1 VALLADARES, Clarival do Prado. Obra seleta. Salvador: Museu de Arte da Bahia; Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand; Museu Nacional de Belas Artes; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983

2 ZANINI, Walter (Org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Walther Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983, p. 1057.

3 VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e sociedade nos cemitérios brasileiros: um estudo da arte cemiterial ocorrida no Brasil desde as sepulturas de igrejas e as catacumbas de ordens e confrarias até as necrópoles secularizadas. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional; Brasília: Conselho Federal de Cultura, 1972, p. 35.

4 VALLADARES, Clarival do Prado. Aspectos da arte religiosa no Brasil - Bahia, Pernambuco, Paraíba. Rio de Janeiro: Spala: Construtora Norberto Odebrecht, 1981, p. 30.

5 VALLADARES, Clarival do Prado. Lula Cardoso Ayres: revisão crítica e atualidade. Rio de Janeiro: Spala: Construtora Norberto Odebrecht, 1979, p. 28.

6 Ibidem, p.131.

Outras informações de Clarival do Prado Valladares:

  • Outros nomes
    • Clarival Valadares
    • Clarival do Prado Valadares
    • Clarival Valladares
  • Habilidades
    • curador
    • crítico de arte
    • professor universitário
    • médico
    • historiador da arte
    • fotógrafo
    • poeta

Exposições (18)

Fontes de pesquisa (7)

  • PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.
  • VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros: um estudo da arte cemiterial ocorrida no Brasil desde as sepulturas de igrejas e as catacumbas de ordens e confrarias até as necrópoles secularizadas. Brasília; Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura / Departamento de Imprensa Nacional, 1972.
  • VALLADARES, Clarival do Prado. Aspectos da Arte Religiosa no Brasil - Bahia, Pernambuco, Paraíba. Rio de Janeiro: Spala / Construtora Norberto Odebrecht, 1981.
  • VALLADARES, Clarival do Prado. Lula Cardoso Ayres - revisão crítica e atualidade. Rio de Janeiro: Spala / Construtora Norberto Odebrecht, 1979.
  • VALLADARES, Clarival do Prado. Nordeste Histórico e Monumental. Salvador: Odebrecht, 1990.
  • VALLADARES, Clarival do Prado. Obra Seleta. Salvador: Museu de Arte da Bahia; Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand; Museu Nacional de Belas Artes;  Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1983.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. 2v.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CLARIVAL do Prado Valladares. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa25557/clarival-do-prado-valladares>. Acesso em: 13 de Dez. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7