Artigo da seção pessoas Zanine Caldas

Zanine Caldas

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deZanine Caldas: 25-04-1919 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Belmonte) | Data de morte 20-12-2001 Local de morte: (Brasil / Espírito Santo / Vitória)

Biografia

José Zanine Caldas (Belmonte, Bahia, 1918 - Vitória, Espírito Santo, 2001). Arquiteto, designer, maquetista. Trabalha, na década de 1940, como desenhista do escritório Severo & Villares e como membro do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional - Sphan. Abre um ateliê de maquetes no Rio de Janeiro, onde trabalha entre 1941 e 1948, e, por sugestão de Oswaldo Bratke (1907 - 1997), transfere-o depois para São Paulo, em atividade de 1949 a 1955. O ateliê atende os principais arquitetos modernos das duas cidades, e é responsável pela maioria das maquetes apresentadas no livro Modern Architecture in Brazil, 1956, de Henrique E. Mindlin. Em 1949, Caldas funda em São José dos Campos, São Paulo, a fábrica Móveis Artísticos Z e se desliga da empresa em 1953.

Caldas trabalha como assistente do arquiteto Alcides da Rocha Miranda (1909 - 2001) na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, entre 1950 e 1952. Na capital paulista, desenvolve projetos paisagísticos até 1958, quando se transfere para Brasília, onde constrói sua primeira casa, em 1958, e coordena a construção de outras até 1964. Indicado por Rocha Miranda a Darcy Ribeiro (1922 - 1997), ingressa na Universidade de Brasília - UnB em 1962, dá aulas de maquetes até 1964, quando perde o cargo em virtude do golpe militar. Nesse ano viaja pela América Latina e África, e, retornando ao Rio de Janeiro, constrói sua segunda casa, a primeira de uma série construída na Joatinga até 1968. Nesse ano, muda-se para Nova Viçosa, Bahia, abre um ateliê-oficina, que funciona até 1980, e participa do projeto de uma reserva ambiental com o artista plástico Frans Krajcberg (1921), para quem projeta um ateliê em 1971.

Simultaneamente, entre 1970 e 1978, mantém o escritório no Rio de Janeiro, para onde retorna em 1982. Um ano depois funda o Centro de Desenvolvimento das Aplicações das Madeiras do Brasil - DAM, e o transfere em 1985 para a UnB. Nesse período propõe a criação da Escola do Fazer, um centro de ensino sobre o uso da madeira da região para a construção de casas, mobiliário e objetos utilitários para a população de baixa renda. Em 1989 é reintegrado no seu posto na UnB, mas não chega a dar aulas. Nesse ano vai para Europa, onde projeta residências em Portugal e dá aulas na École d´Architecture [Escola de Arquitetura] de Grenoble, França.

Em 1975 o cineasta Antonio Carlos da Fontoura faz o filme Arquitetura de Morar, sobre as casas da Joatinga, com trilha sonora de Tom Jobim (1927 - 1993), para quem Caldas projeta uma casa. Dois anos depois, a obra do arquiteto é exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, em Belo Horizonte, e no ano seguinte no Solar do Unhão, em Salvador. Em 1986, a publicação de sua obra na revista Projeto n. 90 inicia uma polêmica no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura - Crea sobre o fato de Caldas ser autoditada. Vários arquitetos saem em sua defesa, entre eles Lucio Costa (1902 - 1998), que lhe entrega cinco anos depois, no 13º Congresso Brasileiro de Arquitetura em São Paulo, o título de arquiteto honorário dado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB. O Musée des Arts Decoratifs [Museu de Artes Decorativas] de Paris mostra suas peças de design em 1989, ano em que recebe a medalha de prata do Colégio de Arquitetos da França.

Análise

De maquetista dos principais arquitetos modernos brasileiros nas décadas de 1940 e 1950 a arquiteto de prestígio a partir do fim dos anos 1960, de precursor de uma indústria moveleira nos anos 1950 a criador de móveis artesanais nos anos 1970, José Zanine Caldas se destaca no cenário arquitetônico nacional por explorar as potencialidades construtivas e as qualidades plásticas das madeiras brasileiras, no momento em que o "gosto pelo alternativo e o rústico disseminou-se por todo o território brasileiro [...], incentivado pelas campanhas de preservação ambiental, pelo desgaste dos modelos vigentes em concreto armado e pela re-emergência do ideal regionalista no panorama internacional".1

Caldas torna-se designer e arquiteto, sobretudo, por meio do ateliê de maquetes, que o faz famoso não só pela qualidade dos modelos, mas também por sua capacidade de propor soluções para os problemas de projeto que identifica durante a execução dos modelos.2 É por esse caminho que descobre no Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo - IPT/USP a madeira compensada. A descoberta inspira a criação da fábrica Móveis Artísticos Z, cujo objetivo é produzir móveis industrializados em larga escala, de bom desenho, a preços acessíveis, com base no uso racional de chapas de compensado, que podem evitar o desperdício do material e minimizar a necessidade de mão-de-obra qualificada, já que as peças são produzidas mecanicamente, o emprego de mão-de-obra fica restrito à montagem do mobiliário. De certa forma, a experiência se aproxima estética e tecnicamente daquela levada a cabo pelos arquitetos italianos Giancarlo Palanti (1906 - 1977) e Lina Bo Bardi (1914 - 1992) no Studio d'Arte Palma, 1948-1951, numa época em que o design moderno brasileiro alcança grande prestígio.

Se nos anos 1950 os móveis de Caldas são desenhados segundo essa lógica industrial, nos anos 1970, quando retoma o trabalho como designer, seus móveis passam a ser esculpidos artesanalmente, em completa oposição à racionalidade dos móveis da Z. A mudança está sem dúvida relacionada à viagem, em 1964, à América Latina e África, quando reconhece o valor do saber fazer popular, mas, sobretudo, com a experiência em Nova Viçosa, pois é no contato com o agreste, com os canoeiros e com a paisagem ameaçada daquela cidade baiana que ele se aproxima dos ambientalistas. Os móveis são construídos com toras brutas de madeira, cujas linhas retorcidas inspiram seu desenho.

É também em Nova Viçosa que o arquiteto constrói a Casa dos Triângulos, ca.1970, a Casa da Beira do Rio, ca.1970, e o Ateliê Franz Krajcberg, 1971, e adota um sistema construtivo com madeiras típicas da região bastante artesanal, que consiste na montagem no chão de um gabarito, no tamanho real da casa a ser construída em que se definem e aparelham as peças e se ergue a estrutura, que é depois desmontada para a numeração das peças e o envio da estrutura para o local da obra. A Casa Hélio Olga Jr., 1980/1982, é construída em São Paulo dessa maneira, com desenho e madeira fornecidos por Caldas e montagem realizada pelo proprietário, que se destaca nos anos 1990 à frente da Construtora Ita. Nessa casa, como nas elaboradas para Eurico Ficher, 1973/1974 e Pedro Valente, 1973/1976, na Joatinga, e outras tantas erguidas em Itaipava, Friburgo, Búzios, Angra dos Reis e Salvador, a estrutura de madeira se destaca das paredes de vedação, a cobertura de telha de barro de largos beirais e os materiais de demolição dão à construção a sensação de rusticidade, aconchego e nostalgia.

Se a obra de Caldas desde então de fato se concentra "na construção de casas para a elite com programas e sítios excepcionais", como aponta o historiador e crítico de arquitetura Roberto Conduru, não é possível menosprezar sua dedicação ao Centro de Desenvolvimento das Aplicações das Madeiras do Brasil - DAM, onde inicia pesquisas sobre habitação popular baseado em processos construtivos artesanais com a participação dos usuários. No DAM de Brasília, desenvolve protótipos de casas populares com toras de eucalipto como estrutura e vedação em solo-cimento, apostando num ideal de autoconstrução já testado na Casa do Nilo, em São Gonçalo, Rio de Janeiro. A partir desse momento, como ocorrera com o desenho dos móveis, Caldas adota toras de madeira brutas, roliças e não mais aparelhadas, em geral descartadas, aliadas aos materiais de demolição, que radicalizam o efeito de rusticidade e aconchego testado anteriormente e se espraiam para projetos não-residenciais, como a Capela da Fazenda Barra das Princesas Agropecuária S. A., em Araguaia, Mato Grosso, as capelas de Guarapari, Espírito Santo, e Itapissuma, Pernambuco e a Pousada Pedra Azul, em Domingos Martins, Espírito Santo.

Do industrialismo dos anos 1950 ao ecologismo dos anos 1970, destaca-se a descrença na possibilidade de integração social via desenvolvimento industrial e a aposta no saber fazer popular como caminho de inserção de uma população cada vez mais marginalizada. A mudança, como ocorrera nos móveis, afasta o arquiteto da proposta de serialização levada a cabo na Z e ensaiada inicialmente na oficina de Nova Viçosa, aproximando-o do artesanato e da linguagem vernacular e nativista, que marca projetos como a casa do arquiteto Carlos Frederico Ferreira (1906 - ca.1996) e a Casa Hildebrando Accioly de Francisco Bolonha (1923), ambas de 1949, Casa Tiago de Mello, de Lucio Costa (1902 - 1998), de 1978 e as obras de Severiano Porto (1930) na Amazônia, mas que permanecem restritos a uma pequena parcela da sociedade brasileira.

Notas

1. CONDURU, Roberto. Tectônica tropical. In: ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian. Arquitetura moderna brasileira. London: Phaidon, 2004. p. 56-105.
2. Depoimento de Lucio Costa. In: SILVA, Suely Ferreira da (coord.). Zanine, sentir e fazer. Rio de Janeiro: Agir, 1991.

Outras informações de Zanine Caldas:

  • Outros nomes
    • Zanine
    • José Zanine Caldas
  • Habilidades
    • designer de produtos
    • Arquiteto
    • Arquiteto-paisagista
    • escultor

Exposições (8)

Artigo sobre A Mata

Artigo da seção eventos
Temas do artigo: Artes visuais  
Data de inícioA Mata: 29-08-1991  |  Data de término | 27-10-1991
Resumo do artigo A Mata:

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP)

Artigo sobre 1º Salão de Arte

Artigo da seção eventos
Temas do artigo: Artes visuais  
Data de início1º Salão de Arte: 15-08-2006  |  Data de término | 20-08-2006
Resumo do artigo 1º Salão de Arte:

Galeria de Arte "A Hebraica" (São Paulo, SP)

Fontes de pesquisa (20)

  • ACAYABA, Marlene Milan. Branco & Preto: uma história de design brasileiro nos anos 50. Sao Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1994. 120 p. 749.2981 A168b
  • ACAYABA, Marlene Milan. Branco & Preto: uma história de design brasileiro nos anos 50. Sao Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1994. 120 p.
  • AFLALO, Marcelo (org.). Madeira como estrutura: a história da Ita. Textos Dominique Gauzin-Müller, Alberto Martins, Guilherme Wisnik. São Paulo: Paralaxe, 2005. 152p, il. color.
  • AFLALO, Marcelo (org.). Madeira como estrutura: a história da Ita. São Paulo: Paralaxe, 2005. 152p, il. color. Não Catalogado
  • Artesão faz arquitetura , mas quer ser apenas mestre-de-obras. Projeto, São Paulo, n.103, pp.88-92, set. 1987.
  • Artesão faz arquitetura , mas quer ser apenas mestre-de-obras. Projeto, São Paulo, set. 1987. N.103, pp.88-92. Não catalogado
  • CALDAS, José Zanine. Zanine. Textos Hugo Segawa. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2003. 84p, il. p&b. color.
  • CALDAS, José Zanine; XAVIER, Ana Maria (coord.). Ver Zanine. Curadoria Luís Antonio C. Magnani; texto Luís Antonio C. Magnani; ensaio Hugo Segawa. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2003. 83 p.
  • CALDAS, José Zanine; XAVIER, Ana Maria (Coord.). Ver Zanine. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2003. 83 p., il. p&b. color. CAT-G Z315 2003/v
  • CONDURU, Roberto. Tectônica tropical. In: ANDREOLI, Elisabetta (Org.); FORTY, Adrian (Org.). Arquitetura moderna brasileira. London: Phaidon, 2004. 240 p. ISBN 0-7148-9830-9. 720.981 A772ar
  • CONDURU, Roberto. Tectônica tropical. In: ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian. Arquitetura moderna brasileira. London : Phaidon, 2004. pp. 56 - 105, il p&b.
  • EXPOSIÇÃO virtual Zanine - Fábrica e Formão - mobiliário em madeira. Disponível no endereço: [http://www.acasa.org.br/zanine/index.html]. Acesso em 31/07/2006. Não catalogado
  • Ser ou não ser arquiteto. Projeto, São Paulo, n.103, p.86-87, set. 1987.
  • Ser ou não ser arquiteto. Projeto, São Paulo, set. 1987. N.103, p.86-87. Não catalogado
  • SILVA, Suely Ferreira da (coord.). Zanine, sentir e fazer. Rio de Janeiro: Agir, 1991. 144p, il. p&b. color.
  • SILVA, Suely Ferreira da (coord.). Zanine, sentir e fazer. Rio de Janeiro: Agir, 1991. 144p, il. p&b. color. Não catalogado
  • ZANINE. Viva ! Zanine brasileiro. Texto Roberto Pontual. São Paulo: A Casa, 1999. 
  • ZANINE. Viva! Zanine brasileiro. Texto Roberto Pontual. São Paulo: A Casa, 1999. Não catalogado
  • ZANINE; SILVA, Suely Ferreira da (coord.). Zanine: sentir e fazer. Edição José de Paula Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1995. 188 p.
  • ZANINE; SILVA, Suely Ferreira da (coord.). ZANINE : sentir e fazer. Rio de Janeiro: Agir, 1995. 188 p., il. color. 724.91 Z315z

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ZANINE Caldas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa25335/zanine-caldas>. Acesso em: 18 de Set. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7