Artigo da seção pessoas Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deCarolina Maria de Jesus: 14-03-1914 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Sacramento) | Data de morte 13-02-1977 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Carolina Maria de Jesus (Sacramento,  Minas Gerais, ca.1914 - São Paulo, São Paulo, 1977). Autora de diários, romancista e poeta. Moradora da favela do Canindé, em São Paulo, retrata a região marginalizada com depoimentos que mesclam o cotidiano dos moradores aos próprios sentimentos em relação à desigualdade a que é exposta.

Sua escolaridade se resume aos dois anos em que frequenta o Colégio Allan Kardec, provavelmente em 1923 e 1924. Neste ano, muda-se com os familiares para uma fazenda em Lageado, Minas Gerais, onde trabalham como lavradores. Retorna a Sacramento em 1927, e as dificuldades econômicas levam-na a migrar para Franca, São Paulo, em 1930. Vive durante um ano na fazenda Santa Cruz, depois, na cidade, onde trabalha como ajudante na Santa Casa de Franca, auxiliar de cozinha e doméstica.

Em 1937, muda-se para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Em 1948, passa a residir na favela Canindé, sobrevivendo como catadora de papel e ferro velho. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas (1929-2018), em reportagem sobre a inauguração de um playground no Canindé, conhece Carolina e interessa-se por seus 35 cadernos de anotações em forma de diário. Publica um artigo sobre ela com trechos dos diários, no jornal Folha da Noite1. No ano seguinte, na revista O Cruzeiro, volta a divulgar os trechos e empenha-se na publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960).  O livro, com passagens dos diários, de 1955 até 1960, é sucesso editorial2

Na obra, a mulher negra e favelada, com pouca escolaridade, registra seu cotidiano de pobreza e a humilhação a que estão sujeitos os habitantes da favela. As anotações de Quarto de Despejo, embora com descontinuidades cronológicas, apresentam narrativa coesa: cada dia é igual a todos os outros, e a vida é conduzida pela fome e pela luta contra ela. Constata-se que o trabalho, precário, pereniza da pobreza.

Nos apontamentos diário, oscila entre desânimo e alegria, norteados pela carência de condições materiais para manter a dignidade dela e dos filhos. Carolina Maria de Jesus busca se diferenciar dos outros moradores da favela e deixa documentada, a perda da honra daqueles que, excluídos, estão no "quarto de despejo" da cidade. Escrever sobre a favela é uma forma de tentar dar sentido à própria vida e de revelar a miserabilidade originada na modernização dos anos 1950.

O relato é direto e cru, sem temer os temas-tabus, como incestos e relações promíscuas e o horror que a fome produz. Os recursos da repetição e das frases feitas indicam, no plano do sentido,  a imobilidade do mundo social representado. A cada entrada no diário, a autora anota o horário em que acorda, os gastos que terá se quiser se alimentar e vestir os filhos e o que poderá, ou não, acumular em dinheiro. Este, com valor concreto e imediato, quase como um objeto. O lirismo aparece em anotações sobre a natureza, contraponto à miserabilidade que a atinge.

Fugindo dos cânones do que se considera "literatura" em meios acadêmicos, Quarto de Despejo ultrapassa o simples depoimento. Trata-se de uma obra em que, apesar das condições materiais e culturais da autora, constrói-se como representação da dinâmica social urbana, vista pelo ângulo dos que estão à margem. Carolina Maria de Jesus escreve para denunciar a favela e para sair dela.Também para, diferenciando-se dos outros moradores, lutar contra o rebaixamento a que estão sujeitos os miseráveis, num momento em que se anuncia um salto modernizador de São Paulo e do Brasil.

Após o sucesso de Quarto de Despejo, em 1961, Carolina muda-se para uma casa que consegue comprar no bairro de Santana e mantém o diário com registros do que lhe acontece ali, editados em Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada (1961). 

Nesta obra, notam-se as contradições da autora quanto ao que deseja para si e a família. Ficam patentes as hesitações sobre os anseios pelo reconhecimento público ou sobre o repúdio pelos mecanismos que dificultam a trajetória como escritora. Essa conjunção ajuda a entender as razões pelas quais a obra é considerada pouco significativa e voltada para o trajeto instável de um indivíduo. Confinada à forma do diário, Carolina Maria de Jesus repete uma fórmula, cujo efeito não tem a força reveladora de Quarto de Despejo. A figura da ex-favelada e sua obra são consideradas apenas quando revelam a face negativa do desenvolvimentismo. As oscilações ideológicas da mulher que, famosa, busca a atenção da imprensa e do público não trazem elementos julgados significativos à época.

Em 1963, publica Pedaços da Fome, seu único romance, de pouca repercussão. Em 1969, muda-se para um sítio no bairro de Parelheiros, São Paulo, onde é praticamente esquecida pelo mercado editorial, apesar de tentativas de voltar à cena literária. Após sua morte, são editadas obras escritas entre 1963 a 1977, das quais a mais significativa é Diário de Bitita, com memórias de infância e juventude, inicialmente lançado na França.

Diário de Bitita, resgata a força literária da produção de Carolina Maria de Jesus. Traz memórias da infância e adolescência, em Sacramento e nas fazendas onde trabalha, e de seus tempos em Franca. Nesta obra, a injustiça social, a opressão, o preconceito contra os negros, os abusos dos poderosos são apresentados sob a perspectiva daquela que os vive.

Apesar de suas condições materiais, Carolina Maria de Jesus luta para conquistar dignidade e para se constituir como resistência contra a  exploração e à desumanização. Sua obra testemunha a luta e opressão a que estão confinados os pobres no Brasil das primeiras cinco décadas do século XX.

Notas

1 Audálio Dantas, desiste da reportagem inicial e passa a escrever sobre Carolina Maria de Jesus e seus diários. No artigo, o repórter anuncia que pretende,  junto com um grupo de editores, custear a publicação do livro. Artigo publicado na Folha da Noite, São Paulo, em 9 de maio de 1958, p. 09.
2 A escritora já havia levado seus diários a editoras, que os recusaram, segundo relato presente em: JESUS, Maria Carolina de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada.10 ed. São Paulo : Ática, 2014. 

Outras informações de Carolina Maria de Jesus:

  • Habilidades
    • Romancista
    • Poeta

Obras de Carolina Maria de Jesus: (8) obras disponíveis:

Espetáculos (1)

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (16)

  • FRASSON. Ivana Bocate. Na cozinha, o duro pão; no quarto, a dura cama: um percurso pelos espaços na obra de Carolina Maria de Jesus. Dissertação (Mestrado em Letras). 2016. – Universidade Estadual de Londrina. Londrina, 2016.
  • JESUS, Maria Carolina de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada.10 ed. São Paulo : Ática, 2014.
  • ARANHA, Simone da Silva. Sobre Carolina Maria de Jesus, o Quarto de Despejo e a Casa de Alvenaria. Cadernos do IFCH. no 31. IFCH, Unicamp, 2004.
  • DANTAS, Audálio. Nossa Irmã Carolina. Apresentação à primeira edição. In: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. Diário de uma Favelada.  (p. 5-12).
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Como citar?

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  • CAROLINA Maria de Jesus. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa253139/carolina-maria-de-jesus>. Acesso em: 26 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7