Artigo da seção pessoas Maria Duschenes

Maria Duschenes

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deMaria Duschenes: 26-08-1922 Local de nascimento: (Hungria / Budapeste) | Data de morte 05-07-2014 Local de morte: (Brasil / São Paulo / Guarujá)
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Acervo Família Duschenes Fotografia Autoria Desconhecida

Maria Ranschburg (Budapeste, Hungria, 1922 - Guarujá, São Paulo, 2014). Professora, coreógrafa e dançarina. Dos 11 aos 15 anos, estuda rítmica com Olga Szent Pál (1895-1968). Tem no período um ano de aulas de balé clássico com Aurel von Milloss (1906-1988). Em setembro de 1937, ingressa na Kurt Joss Leeder Scholl of Dance, na Inglaterra. Ali aprende aos princípios do pesquisador do movimento, coreógrafo, desenhista e dançarino húngaro Rudolf Laban (1879-1958). A instituição é fechada em setembro de 1939 devido aos bombardeios da 2ª Guerra Mundial.

Em 1940, viaja ao Brasil e instala-se em São Paulo, onde se casa, em 1942 com o arquiteto alemão Herbert Duschenes (1914-2003) e adota o sobrenome de seu marido, responsável pela direção de alguns de seus espetáculos e pelo registro de seus cursos e apresentações, formando um acervo de imagens e vídeos sobre dança em São Paulo. Em 1943, contrai poliomielite. Sua paralisia é quase total no início - segundo laudo médico, apenas os órgãos respiratórios realizam movimentos - e sua recuperação se dá após quase um ano sem andar. Apesar da melhora, permanece com algumas lesões irreversíveis. Viaja com seu marido ao exterior anualmente e frequenta os cursos de José Limon (1908-1972), Martha Graham (1894-1991), Doris Humprhey (1895-1968) e Alvin Nikolais (1910-1993). Participa como professora, em São Paulo, de cursos e palestras em faculdades, congressos e apresentações anuais de dança com estudantes e profissionais, além de fazer parte de projetos educacionais junto a instituições públicas e particulares. Em 1970, conclui formação com Lisa Ullmann (1907-1985). Recebe o Art of Movement Studio Certificate, do Laban Art of Movement Centre, reconhecido pelo Ministério da Educação e Ciências da Inglaterra. É membro do Dance Notation Bureau de Nova York. Prepara, em 1967, um programa de curso de dança a ser implantado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). O curso não é realizado, porém ela o ministra em 1968, em seu estúdio, para professores, dançarinos e atores. Em 1977, promove a vinda de Lisa Ullmann a São Paulo.

Introduz, em 1979, projeto de dança educativa em bibliotecas infantojuvenis da mesma cidade. Nele, 80 crianças participam de uma dança-coral em comemoração ao centenário de Rudolf Laban. A gravação é enviada ao Centro Laban de Londres e recebe menção honrosa. Permanece na coordenação do Dança nas Bibliotecas por dez anos. Na 21ª Bienal de São Paulo, em 1991, é homenageada com a dança-coral Origens. No mesmo ano, diminui a quantidade de trabalho. Em 1999, para de dar aulas em decorrência do mal de Alzheimer. Seus ensinamentos são referência na educação da dança e do movimento no Brasil. Escreve os prefácios para os livros: O Domínio do Movimento (1978) e Arte do Movimento - as Descobertas de Rudolf Laban na Dança e Ação Humana (1988)

Análise
O legado de Maria Duschenes para a dança paulistana e brasileira está sobretudo na relação entre dança e educação. Seu projeto artístico-educacional contribui de maneira decisiva tanto na atualização da linguagem em si - até então restrita, no Brasil, ao balé clássico e às técnicas modernas - como na criação do curso de licenciatura em dança. A educadora chama a atenção para a importância da dança e dos movimentos próprios da cultura brasileira, mas sem deixar de apresentar aos seus alunos concepções estéticas e educativas provenientes de sua formação multifacetada em dança e educação do movimento.

Os estudos na Kurt Joss and Leeder Scholl of Dance, em Dartington Hall, castelo transformado em escola pelo casal mecenas Leonard Elmhirst (1893-1974) e Doroty Whitney Elmhirst (1887- 1968), são permeados pela concepção de uma educação progressista e de ajuda humanitária que ambos têm. Nessa escola, com ênfase no aprendizado da Arte de Movimento de Rudolf Laban, que lá chega em fevereiro de 1938, tem estudos diários de seis horas, com aulas de improvisação, concentração, relaxamento, técnicas de barra, solo e centro, anatomia, respiração, repertório da movimentação humana, estudos espaciais (corêutica), dinâmicas (eucinética), coreosofia, coreologia, notação de movimento (labanotation). Assiste a ensaios do grupo de Joss e de outras companhias.

Desde sua chegada ao país, Duschenes volta-se para a educação, pois sabe da importância de compartilhar sua bagagem artística, cultural e educacional. Ela faz do ensino sua contribuição para a produção de conhecimento em dança. Apreende dos ensinamentos de Laban as propriedades físicas, qualitativas e intelectuais do movimento em qualquer tipo de manifestação. Acredita que o movimento é um fator integrador da pessoa. Contribui, portanto, para algo inédito no ensino de dança à época: uma concepção não dualista de corpo. Dentro desta concepção de ensino da dança forma uma geração de importantes bailarinos como Juliana Carneiro da Cunha (1949), Maria Mommensohn, Yolanda Amadei e Denilto Gomes (1953-1954).

A poliomielite que contrai em 1943 transforma a sua percepção em relação aos questionamentos sobre dança e movimento, pois, como muitos estudiosos e educadores, faz de si mesma objeto de investigação para o conhecimento das possibilidades e limites do corpo. Além do entendimento adquirido ao analisar seu corpo, Duschenes possui conhecimentos diversificados, tanto teóricos quanto práticos. Para abordá-los, faz da própria diversificação - de ideias, pessoas, técnicas, culturas e lugares - o seu assunto de trabalho em aulas, espetáculos, palestras e oficinas. Como estratégia para ministrar aulas, a educadora não recorre a um vivenciar sensorial e emotivo desvinculado do entorno, mas sim à análise de seus alunos. Primeiro conversa com eles e os vê dançar. Só depois forma os grupos para os quais irá lecionar. As aulas que ministra, as danças-corais que dirige e as palestras que profere criam um ambiente lógico-fenomenológico do fazer, do contextualizar e do analisar a dança. Em toda sua trajetória profissional, desenvolve projetos que têm como busca a exploração, a descoberta e o esclarecimento ao se dançar e ao ver o outro dançar.

Reúne seus grupos anualmente, durante 30 anos, em apresentações em praças e parques públicos, teatros não convencionais, altares de igrejas, pátios de colégios e estacionamentos. Compreende e ensina improvisação como se fosse a própria dança e não uma estratégia para se criar dança, ministrando aulas para crianças, leigos, dançarinos, professores e psicólogos. A música que utiliza nas classes, muitas vezes ao vivo, tem a mesma proposta de improvisação. Suas trilhas sonoras abarcam imensa variedade: são de diferentes épocas, percorrendo desde os clássicos até as vanguardas musicais. Muitas vezes, são colocados sons de animais.

Todos os espetáculos que apresenta levam à cena a concepção do processo em sala de aula, que é consiste na exploração de cada corpo que dança em forma de improvisação. Duschenes também tem como conceito a inter-relação do movimento, do espaço, da música, da iluminação e do figurino. Mixed Media (1968 e 1971) e Espetáculo Cinético (1972) enfatizam o uso de materiais que, acoplados ao corpo como figurino, modificam a figura humana, buscando a abstração de formas. Já Magitex (1978), com o Grupo de Dança Contemporânea Maria Duschenes, é inspirado no mito de tecelagem e na observação da estamparia e maquinaria de tecer contemporânea. Nele, Duschenes cria uma coreografia com participação de 14 dançarinos e de música ao vivo. Ela trata o figurino como parte do desenho de luz. O espaço, no prédio da Bienal de São Paulo, foi especialmente construído para a apresentação.

A amplitude dos ensinamentos de Maria Duschenes está inscrita na singularidade de atuação de cada pessoa, profissional ou não, com a qual ela trabalha visando criar uma narrativa coesa, inserindo o singular no todo.

Outras informações de Maria Duschenes:

Midias (3)

Maria Duschenes (s.d.)
Acervo Maria Duschenes Fotografia Autoria desconhecida

A personalidade de Maria - Ocupação Maria e Herbert Duschenes (2016)
O filho e o neto do casal Duschenes – Ronaldo Duschenes e Daniel Duschenes, respectivamente – e a professora e pesquisadora em dança Cássia Navas comentam como a poliomielite, doença com que Maria teve de conviver desde os 22 anos, influenciou sua vida e contam que, por seu envolvimento com a dança, ela dizia estar curada da paralisia. Os entrevistados falam de sua presença tímida, delicada, muito potente e um pouco resignada, de uma bailarina que teve de aprender a dançar em outros territórios.
Depoimentos gravados para a Ocupação Duschenes, em abril de 2016, em São Paulo/SP e Curitiba/PR.
A Ocupação Maria e Herbert Duschenes celebra o casal que, apesar de atuar em áreas distintas – ela no campo da dança e ele no da arquitetura –, se dedicou à educação e ao desenvolvimento de formas inovadoras de compartilhar o saber. A ocupação fica em cartaz entre 27 de abril e 12 de junho de 2016.

Créditos
Gerente do Núcleo de Comunicação e Relacionamento: Ana de Fátima Sousa
Coordenadores do Núcleo de Comunicação e Relacionamento: Carlos Costa e Jader Rosa
Entrevista: Amanda Rigamonti
Gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura: Claudiney Ferreira
Coordenadora de conteúdo audiovisual: Kety Fernandes
Produção audiovisual: Jahitza Balaniuk
Captação: Bela Baderna
Edição: Caetano Biasi (terceirizado)

As aulas de Maria - Ocupação Maria e Herbert Duschenes (2016).
O bailarino J. C. Violla, a professora e pesquisadora em dança Cássia Navas e as professoras de dança Cilô Lacava e Renata Macedo Soares contam suas experiências como ex-alunos de Maria Duschenes. Eles descrevem os primeiros encontros com dona Maria. Renata fala da casa em que as aulas aconteciam e de como a dança tomava conta do espaço, além de como a professora abriu um espaço de autoconhecimento por meio da dança.
Violla fala sobre como Maria intensificava o trabalho no corpo nos níveis em que a pessoa tinha mais dificuldade e equilíbrio. Em seus depoimentos, os entrevistados relembram como ela trabalhava com a expansão do repertório do movimento dos alunos.
Depoimentos gravados para a Ocupação Maria e Herbert Duschenes, em abril de 2016, em São Paulo/SP.
A Ocupação Maria e Herbert Duschenes celebra o casal que, apesar de atuar em áreas distintas – ela no campo da dança e ele no da arquitetura –, se dedicou à educação e ao desenvolvimento de formas inovadoras de compartilhar o saber. A ocupação fica em cartaz entre 27 de abril e 12 de junho de 2016.

Créditos
Gerente do Núcleo de Comunicação e Relacionamento: Ana de Fátima Sousa
Coordenadores do Núcleo de Comunicação e Relacionamento: Carlos Costa e Jader Rosa
Entrevista: Amanda Rigamonti
Gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura: Claudiney Ferreira
Coordenadora de conteúdo audiovisual: Kety Fernandes
Produção audiovisual: Jahitza Balaniuk
Captação: Bela Baderna
Edição: Caetano Biasi (terceirizado)

Exposições (1)

Artigo sobre 7ª Jovem Arte Contemporânea

Artigo da seção eventos
Temas do artigo: Artes visuais  
Data de início7ª Jovem Arte Contemporânea: 28-11-1973  |  Data de término | 12-12-1973
Resumo do artigo 7ª Jovem Arte Contemporânea:

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP)

Fontes de pesquisa (15)

  • NAVAS, Cássia; DIAS, Linneu. Dança moderna. São Paulo, a cidade e a cultura. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. 212p. ISBN 978-85-71760-05-9
  • ARRUDA, Solange. Arte do Movimento: as descobertas de Rudolf Laban na dança e ação humana. São Paulo: PW Gráficos e Editores Associados, 1988.
  • Centro Laban SP. São Paulo, 2005. Disponível em: http://www.centrolaban.com.br/duschenes01.html. Acesso em: 25 jun. 2010.
  • Coreógrafa Maria Duschenes, introdutora do método Laban no Brasi, morre ao 92 anos. Folha UOL. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/07/1483124-coreografa-maria-duschenes-introdutora-do-metodo-laban-no-brasil-morre-aos-92-anos.shtml. Acesso em: 14 jul. 2014
  • Estúdio Laban de Dança. São Paulo, 2011. Disponível em: http://estudiolabandedanca.webnode.com.br/sistema-laban-de-analise-do-movimento/.  Acesso em: 2 ago. 2011.
  • JOVEM ARTE CONTEMPORÂNEA, 7., 1973, São Paulo. 7º Exposição jovem arte contemporânea. São Paulo: MAC/USP, 1973. [28] p., il. p&b.  SPmac 1973/j
  • LABAN, Rudolf. A Vision of Dynamic Space. London & Philadelphia: The Falmer Press, 1984.
  • LABAN, Rudolf. O Domínio do Movimento. São Paulo: Summus, 1978.
  • MAR E MOTO. Videopesquisa: Maria Mommensohn e Sergio Rosenblit. Pesquisa: Maria Mommensohn. Colaboração: Cleide Martins. Imagens de arquivo: Herbert Duschenes. Recuperação de sons originais: Augusto Rocha. Trabalho realizado com apoio da Bolsa Vitae de Dança - 2001. São Paulo: Recplay, Videcom, TV Cultura, 2002. 1 DVD (1h35m), son., color.
  • MOMMENSOHN, Maria: PETRELLA, Paulo (org.). Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006.
  • PRESTON-DUNLOP, Valerie. Rudolf Laban: An extraordinary life. London: Dance Books, 1998. 
  • AMADEI, Yolanda. Entrevista concedida pela professora da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/USP) em 30 ago. 2011.
  • CAVALCANTI, Cibele. Entrevista concedida pela professora, dançarina e coreógrafa em 31  ago. 2011.
  • DUSCHENES, Ronaldo. Entrevista concedida pelo arquiteto em 9 ago. 2011.
  • ROCHA, Augusto Cesar F. P. da. Entrevista concedida pelo professor e atorem 31 jul.  2011.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MARIA Duschenes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa252508/maria-duschenes>. Acesso em: 15 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7