Artigo da seção pessoas Gregori Warchavchik

Gregori Warchavchik

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Artes visuais  
Data de nascimento deGregori Warchavchik: 04-1896 Local de nascimento: (Ucrânia / Odessa) | Data de morte 27-07-1972 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Lúcio Costa, Frank Lloyd Wright e Gregori Warchavchik, Rio de Janeiro , 1931

Biografia

Gregori Ilych Warchavchik (Odessa, Ucrânia, 1896 - São Paulo, São Paulo, 1972). Arquiteto. Forma-se em 1920, no Reggio Istituto Superiori di Belle Arti [Real Instituto Superior de Belas Artes], em Roma, e trabalha com os ex-professores Marcello Piacentini e Vincenzo Fasolo. Muda-se para o Brasil em 1923, contratado pela Companhia Construtora de Santos, dirigida por Roberto Simonsen (1889-1948), onde permanece por três anos e meio como arquiteto assalariado. Em 1925, publica o texto Futurismo? no jornal italiano de São Paulo Il Piccollo (traduzido e republicado no Correio da Manhã com o título Acerca da Arquitetura Moderna, considerado o primeiro manifesto de arquitetura moderna no Brasil). Publica outros textos, sobretudo na década de 1920, intervindo no debate arquitetônico local ao defender parâmetros racionais para a arquitetura. Após se casar com Mina Klabin, filha de um industrial da elite paulista, em 1927, Warchavchik se naturaliza brasileiro e se insere na sociedade paulistana e nos círculos modernistas, abrindo escritório próprio.

Sua primeira obra, a casa da rua Santa Cruz, de 1928, é considerada o primeiro exemplar da arquitetura moderna no Brasil. Em 1930, Warchavchik constrói a casa da rua Itápolis, inaugurada com a "exposição de uma casa modernista", onde além da residência projeta peças de mobiliário, luminárias e esquadrias, e decora o ambiente com obras de arte e peças de design dos modernistas brasileiros. É convidado por Le Corbusier, que visita a casa ainda em construção, para ser o delegado da América do Sul nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam's) e, em 1931, Lucio Costa convida-o a dar aulas na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro. Warchavchik expõe no Salão de 31 as únicas obras modernas construídas no Brasil até então, e faz as primeiras obras modernas do Rio, entre elas a Casa Nordschild, 1931, e a reforma de uma cobertura no Edifício Olinda, na avenida Atlântica, em 1932, ambas inauguradas com exposições semelhantes à exposição de São Paulo. Associado a Lucio Costa, projeta a Casa Schwartz, em 1932, e uma vila operária no bairro portuário da Gamboa, 1932/1933, entre outros projetos e obras.

De volta a São Paulo, em 1932, Warchavchik tenta retomar os trabalhos no escritório, porém até 1938 apenas administra os terrenos da família da esposa, propondo parcelamento e venda de lotes. Volta a trabalhar com projetos no fim dos anos 1930 e obtém o prêmio na categoria prédios de apartamentos no concurso promovido por Pretes Maia na Prefeitura de São Paulo com o Edifício Barão de Limeira, de 1939. Nesse ano participa do concurso para o Paço Municipal de São Paulo, ficando em 2º lugar. Mantém escritório até a década de 1960, projetando edifícios e casas para o mercado imobiliário, sem grandes inserções no debate arquitetônico nacional, agora protagonizado pelos arquitetos cariocas.

Análise

Introdutor da arquitetura moderna no Brasil - através de suas obras e, sobretudo, de seus textos divulgados na imprensa -, o ucraniano Gregori Warchavchik tem lugar de destaque na história da arquitetura brasileira, ainda que sua figura tenha recebido interpretações diversas e conflitantes na historiografia da arquitetura nacional. Se sua obra é inicialmente "tratada como um esboço individual de renovação, sem importância especial para a compreensão da nova arquitetura brasileira",1 e a historiografia especializada, com alguma exceção, geralmente ignora sua "ação de difusão doutrinária da arquitetura moderna no país nos anos cruciais da segunda metade da década de 1920", tratando-o como "autor de um único texto",2 hoje em dia Warchavchik vem sendo alvo de revisões que buscam compreender seu papel na história da arquitetura moderna do Brasil.

O texto Acerca da Arquitetura Moderna, 1925,3 considerado o primeiro manifesto da arquitetura moderna no país, embora não tenha tido repercussão imediata, já contém os elementos de sua argumentação posterior. O caráter histórico da noção de beleza, a incompatibilidade entre a racionalidade construtiva dos engenheiros e a ornamentação postiça dos arquitetos (acadêmicos) e as novas imposições da vida moderna gerariam um "estilo do nosso tempo":4 a arquitetura moderna. Nos princípios da nova arquitetura ali defendidos, baseados na racionalidade, no antidecorativismo e na economia da construção, Warchavchik reconhece as exigências impostas pelo desenvolvimento da indústria. Seus textos posteriores5 firmam essa visão sobre o problema, encontram interlocutores interessados e geram polêmicas e desdobramentos no meio local. A atuação na imprensa, intensa nos anos 1920, arrefece nas décadas seguintes, e o arquiteto passa a focar sua ação no projeto e na construção.

Seu primeiro projeto como arquiteto autônomo, a famosa casa modernista da rua Santa Cruz, de 1928 - obra moderna pioneira no Brasil -, é alvo de discussões entre especialistas que frisam a discrepância entre obra e discurso, já que a casa, construída de tijolos revestida para simular construção de concreto armado, e coberta com um convencional telhado de telhas de barro escondido atrás de uma platibanda, trairia os princípios da nova arquitetura. Ainda que indiscutíveis "avanços" fossem notados, como a não ornamentação, os efeitos de transparência obtidos pelo uso do vidro em amplas superfícies ou o desenho dos acabamentos e mobiliários buscando a unidade da obra, são as concessões diante do passado ou das imposições do meio - reconhecidas pelo próprio arquiteto nas justificativas de suas opções - o ponto realçado pela crítica. Exceção feita a Geraldo Ferraz,6 essa é a leitura dominante de sua obra até os anos 1980.7 Entretanto, a partir da década seguinte há uma espécie de revisão do significado da obra para a afirmação da linguagem moderna no país. A casa é lida como "a obra mais emblemática da virada arquitetônica brasileira", em que "as discrepâncias, as concessões e os desvios patentes [...] falam precisamente das possibilidades do modernismo" no Brasil.8 Ou seja, as especificidades e as contingências da sua execução passam a ser tomadas como índice da própria modernização brasileira.

Após a casa da Santa Cruz, o arquiteto constrói algumas residências modernas para uma classe média esclarecida, que formam um conjunto razoavelmente expressivo da nova arquitetura, e dois conjuntos de casas econômicas. Mas é a casa da rua Itápolis, de 1930, inaugurada com a "exposição de uma casa modernista", que marca o estabelecimento da aceitação dessa nova forma de construir, divulgando a estética moderna para além do pequeno círculo de intelectuais modernistas e atingindo um público menos sofisticado.9 Notam-se inovações em relação ao imóvel da rua Santa Cruz, seja na disposição da planta, seja na lógica das aberturas e volumes. A perspectiva de eixo é eliminada, e Warchavchik propõe uma hábil estrutura de circulação, na qual os quatro acessos do exterior se dão em torno da caixa de escadas central, resultando uma solução distributiva ao mesmo tempo generosa e eficaz. Remetendo-se às experiências de "máquinas de habitação" do início da década de 1920, proposta por Walter Gropius (1883-1969) e outros arquitetos ligados à Bauhaus, no projeto também se nota algum diálogo com a arquitetura tradicional brasileira, visível por exemplo no uso da madeira natural na pérgola dos fundos da sala de jantar ou na própria vegetação do jardim, projetado por sua esposa Mina Klabin, com plantas da flora brasileira. Além disso, é a primeira vez que distintas manifestações do modernismo local se integram a um ambiente de vanguarda - reunindo arquitetura, artes e design na proposta de transformação do ambiente habitado.

Quando Lucio Costa o convida a integrar o novo quadro de docentes da recém-reformada Enba, Warchavchik amplia sua atuação ao Rio de Janeiro, como professor da primeira geração de arquitetos modernos e autor das primeiras obras modernas da então capital federal. Desenvolve parceria com Lucio Costa em trabalhos como o conjunto de casas operárias da Gamboa, de 1933. Ali, a planta quadrada com circulação central, já adotada nas casas modernistas, resolve o programa mínimo da moradia em um pavimento único. O cubo isolado, agora justaposto e escalonado, é ligado por um balcão contínuo sobre as lajes de cobertura dos terraços, formando uma extensa passarela de circulação coletiva, paralela ao limite do terreno, conferindo unidade ao conjunto. O arquiteto avança nas pesquisas projetuais e mobiliza novos recursos, certamente alimentado pelo contato com Lucio Costa e o meio estudantil carioca, mas deve se ressaltar também seu papel na divulgação e na futura consolidação da estética moderna por sua atuação no Rio de Janeiro no início dos anos 1930.

Notas

1. LIRA, José. Ruptura e construção: a obra de Gregori Warchavchik. Novos Estudos, São Paulo, Cebrap, n. 78, jul. 2007, p. 145-168.

2. MARTINS, Carlos. Gregori Warchavchik: combates pelo futuro. In: WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização Carlos A. Ferreira Martins; tradução Regina Salgado Campos. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. (Fontes da Arquitetura Moderna), p.20.

3. Publicado originalmente em italiano em 14 de junho de 1925 sob a rubrica "Note d'arte" no jornal da colônia italiana de São Paulo Il Piccollo, com o título Futurismo?, é traduzido e republicado no Rio de Janeiro no Correio da Manhã com o título Acerca da arquitetura moderna em 1 de novembro de 1925.

4. WARCHAVCHIK, Gregori. Acerca da arquitetura moderna. Correio da Manhã, 1 nov. 1925. Republicado em WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização Carlos A. Ferreira Martins; tradução Regina Salgado Campos. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. (Fontes da Arquitetura Moderna).

5. Todos os artigos reunidos em WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização Carlos A. Ferreira Martins; tradução Regina Salgado Campos. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. (Fontes da Arquitetura Moderna).

6. FERRAZ, Geraldo. Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925/1940. São Paulo: Masp, 1965.

7. Phillip Goodwin, 1943, Henrique Mindlin, 1956, Carlos Lemos, 1979 e Yves Bruand, 1981, ao longo dos anos, são críticos que discutem o lugar de Warchavchik na história da arquitetura moderna brasileira a partir desse viés (Cf. Carlos Martins, op.cit.). Mesmo para Hugo Segawa, escrevendo já nos anos 1990, a modernidade da obra do arquiteto persiste "mais como uma intenção" que efetivamente construção - ainda que reconheça seu importante papel como "agitador cultural" no sentido de mobilizar a opinião pública em favor da nova estética (Cf. SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 1999. p. 48).

8. LIRA, José, Op. cit., p. 165

9. São cerca de 20 mil visitantes entre 24 de março e 20 de abril de 1930.

Outras informações de Gregori Warchavchik:

  • Outros nomes
    • Gregori Ilych Warchavchik
  • Habilidades
    • Arquiteto

Obras de Gregori Warchavchik: (8) obras disponíveis:

Representação (1)

Exposições (20)

Artigo sobre Tempo dos Modernistas

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Temas do artigo: Artes visuais  
Data de inícioTempo dos Modernistas: 08-1974  |  Data de término | 09-1974
Resumo do artigo Tempo dos Modernistas:

Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp)

Fontes de pesquisa (4)

  • FERRAZ, Geraldo. Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940. São Paulo: Masp, 1965.
  • LIRA, José. Ruptura e construção: a obra de Gregori Warchavchik. Novos Estudos, São Paulo: Cebrap, n.78, jul 2007, pp. 145-68.
  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.
  • WARCHAVCHIK, Gregori. Arquitetura do século XX e outros escritos. Organização Carlos A. Ferreira Martins; tradução Regina Salgado Campos. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. (Fontes da Arquitetura Moderna).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GREGORI Warchavchik. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa226676/gregori-warchavchik>. Acesso em: 23 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7