Artigo da seção pessoas Roberto Farias

Roberto Farias

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deRoberto Farias: 1932 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Nova Friburgo)

Biografia
Roberto Figueira de Farias (Nova Friburgo RJ 1932). Diretor, produtor, distribuidor e roteirista. Inicia sua carreira no cinema no começo dos anos 1950 como assistente de direção da Atlântida e em algumas produções do estúdio do diretor Watson Macedo (1919 – 1981), sendo seu primeiro trabalho, o filme Maior que o Ódio (1951), de José Carlos Burle (1910 – 1983). Fazendo parte dos Estúdios da Brasil Vita Filmes, dirige seu primeiro longa, a chanchada Rico Ri à Toa (1957) e no ano seguinte, No Mundo da Lua (1958), também do mesmo gênero. Em seguida, realiza o policial sobre a vida do bandido Promessinha, Cidade Ameaçada (1959), após o cineasta Roberto Santos (1928 – 1987) abandonar as filmagens. Dois anos depois, lança a comédia Um Candango na Belacap (1960) – uma produção de Herbert Richers (1923 – 2009), com o ator Grande Otelo (1915 – 1993). Pela mesma produtora, faz Assalto ao Trem Pagador (1962), um dos filmes mais conhecidos de sua carreira, premiado como Melhor Filme e Roteiro para Roberto Farias no Festival da Bahia daquele ano. Em 1964, dirigi a aventura Selva Trágica (1964), protagonizado pelo seu irmão, o ator Reginaldo Faria (1937). Cria a Difilm Distribuidora do Cinema Novo em 1965, junto com cineastas e produtores como Luis Carlos Barreto (1928) e Glauber Rocha (1939 – 1981). Ao mesmo, abre também sua produtora, a R.F. Farias, realizando a comédia carioca Toda Donzela Tem Um Pai Que é Uma Fera (1966), seguido da aventura Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) e a comédia Os Paqueras (1969) – mesmo ano em funda sua outra distribuidora, a Ipanema Filmes, que visava não ficar preso a qualquer estilo cinematográfico. Dirige mais dois longas de aventura, Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971). Ao lado do diretor Hector Babenco (1946), realiza, em 1973, o documentário O Fabuloso Fittipaldi, sobre a vida do corredor de automobilismo Emerson Fittipaldi (1946). Entre 1974 e 1978, ocupa o cargo de Diretor Geral da Embrafilme (Empresa Estatal de Produção e Distribuição de Filmes), período em que o cinema nacional alcança significativa visibilidade, tanto no mercado interno quanto no internacional. Como parte de sua gestão, cria o Conselho Nacional de Cinema (Concine) em 1976. Contando com o apoio da Embrafilme, consegue lançar, em 1982, o longa Pra Frente Brasil, primeiro trabalho que aborda de maneira explícita a tortura na Ditadura Militar. Recebe prêmios, incluindo o de Melhor Filme no Festival de Gramado do mesmo ano. Cinco anos depois, faz a comédia Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987), baseado na peça teatral O Auto da Compadecida, do escritor Ariano Suassuna (1927). Na televisão, também atua como diretor de séries e minisséries, destacando As Noivas de Copacabana em 1992 e Contos de Verão em 1993, exibidas pela Rede Globo.

Comentário Critico
Depois de um começo de carreira com as chanchadas nos estúdios da Atlântida, como assistente do diretor Watson Macedo (1919 – 1981) e com seus primeiros filmes Rico Ri À Toa (1957) e No Mundo da Lua (1958) nos Estúdios da Brasil Vita Filmes, Roberto Farias tem sua obra marcada, principalmente, pela mistura entre o cinema de estúdio e o cinema de locação, entre o gênero policial e o neo-realismo, impondo-se com uma preocupação com o espetáculo a partir de Assalto ao Trem Pagador (1962).

Em Assalto – primeiro longa-metragem de grande destaque de sua trajetória – além de introduzir o gênero policial, que vem da influência estética dos filmes noir norte-americanos, permite o aparecimento de uma crítica sociológica adaptada à atualidade brasileira. Tendo como ponto de partida o fato verídico ocorrido no Rio Janeiro, o assalto contra o trem pagador da central do Brasil, o filme se aproxima diretamente à realidade, mesclando documento e espetáculo dentro da história de personagens marginalizadas que procuram, através da violência, uma solução para seus problemas. Compõe a trama dividida em três pólos diferentes: o da Favela, o de Copacabana e o da polícia – identificada como a defesa da sociedade capitalista. Para tal, escolhe atores pela tipologia física, caracterizando-os como tipos sociais, a partir do jeito de se vestir ou da cor de pele, como forma de explorar as nuances de comportamento de cada um. Exemplos disso são papéis vividos pelo atores Eliezer Gomes (Tião Medonho) e Reginaldo Farias (Grilo). Segundo o crítico Hélio Nascimento, Farias realiza “um cinema de personagens e não de símbolos desumanos e desprovidos de autenticidade, ou seja, a simbologia não necessita deturpar a realidade (...).” 1

Seu filme seguinte, Selva Trágica (1964), repete o mesmo modelo do filme anterior, mas o torna mais simbólico com a representação da força opressora pela Companhia de Erva- Mate, em relação aos seus empregados que vivem em um regime feudal, dentro de um ambiente de tratamento cruel e desumano, comandado pelos proprietários preocupados somente com a produção. Nesse sentido, Selva Trágica escancara a contraposição, sendo neste caso, entre o patrão (opressor) e funcionário (oprimido) – representado pelo homem rebelde (Reginaldo Farias) – mostrando como a revolta e a liberdade podem ser destruídas pelo coletivo que detém o poder. Para o cineasta Glauber Rocha, apesar deste filme não ter obtido sucesso de bilheteria, o considera mais realista do que o Assalto. “Não sendo um filme de imitação americana, Selva Trágica era um filme brasileiro de denúncia social: um filme forte e triste, mais Brasil do que Estados Unidos.” 2

No entanto, essa recusa do público faz com que Farias volte a fazer uma seqüência de longas ligados a comédia e aventura comerciais. Mesmo tendo fundado, em 1965, a Difilm – distribuidora de filmes ligada ao movimento do Cinema Novo – junto com próprio Glauber Rocha, Farias decide ampliar sua rede de distribuição e cria sua própria distribuidora, a Ipanema Filmes e também sua produtora, a R.F. Filmes. Dessa forma, deixar de se limitar aos trabalhos dos cinemanovistas, abrindo possibilidade para filmes de outros gêneros, como: Toda Donzela Tem Um Pai Que é Uma Fera (1966) e uma série de outras interpretadas pelo cantor Roberto Carlos – Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971). Além disso, essa afinidade com os mecanismos de distribuição junto à sua atuação na política cinematográfica fazem com que Farias seja indicado para o cargo de Diretor Geral da Embrafilme de 1974 a 1978, o afastando, por alguns anos, da carreira como cineasta.

Em 1982, Farias dirige Pra Frente, Brasil! – filme que conta com o apoio da própria Embrafilme para lançar este trabalho – ainda em épocas de Ditadura – que retrata a prática da tortura no Brasil no auge da Ditadura Militar, no início da década de 1970, simultaneamente com o desenrolar da Copa do Mundo no México, ocorrido naquele ano. Inclusive, o próprio titulo da trama é retirado da música tema do evento futebolístico. O longa mostra os acontecimentos na vida de um homem de classe média que acaba sendo preso por "engano" pelos agentes da repressão, submetido à tortura e sem nenhuma forma de contato com a família, com o objetivo de expor como a repressão à liberdade passa a atingir pessoas "apolíticas" (indivíduos que diziam não ter envolvimento com política, mas que acabavam se prejudicando pela omissão diante da ditadura). Para o cineasta, a intenção é “contar uma história no estilo policial para atingir a maioria das pessoas e fazê-las entenderem que havia uma força misteriosa que se escondia na sombra, mas que era capaz de prender uma pessoa comum que não era subversiva, apolítica e torturá-las até a morte.” 3 Esteticamente, opta por uma narrativa ficcional clássica, sem a intenção de ser um documentário, mas sim filme-denúncia que conduz o espectador durante todo o filme, através de uma montagem ágil com cortes rápidos.   

Identifica-se, assim, um elemento bem característico de sua obra: a capacidade de transitar bem entre gêneros cinematográficos. Mesmo sendo os filmes policiais que tiveram destaque em carreira, como Assalto ao Trem Pagador e Pra Frente, Brasil!, Farias não se limita a esse gênero, fazendo comédias como Um Candango na Belacap (1960) e Os Paqueras (1968) – influência recebida do chanchadas feitas no início de sua carreira. Também não se limita estilisticamente ao movimento do Cinema Novo, construindo uma obra mais comercial, que prioriza o espetáculo e o maior entendimento do espectador, como nos moldes estéticos norte-americanos, mas sem deixar de inseri-las à realidade brasileira.

Outras informações de Roberto Farias:

  • Outros nomes
    • Roberto Figueira de Farias
  • Habilidades
    • produtor
    • diretor de cinema
    • roteirista
  • Relações de Roberto Farias com outros artigos da enciclopédia:

Obras de Roberto Farias: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (5)

  • ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo.2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • BILHARINHO, Guido. O cinema brasileiro nos anos 80. Uberaba: Instituto Triângulo da Cultura, 2002. 
  • NASCIMENTO, Hélio. Cinema Brasileiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981.
  • RAMOS, Fernão e MIRANDA, Luiz Felipe (orgs.)Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo: Editora Senac, 2000. p.206
  • SIMIS, Anita (org). Cinema e televisão durante a ditadura militar: depoimentos e reflexões. Orelha de Marcelo Ridenti. Textos de Roberto Farias e outros.  Araraquara, 2005.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ROBERTO Farias. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa219265/roberto-farias>. Acesso em: 22 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7