Artigo da seção pessoas Haroldo de Campos

Haroldo de Campos

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Literatura  
Data de nascimento deHaroldo de Campos: 19-08-1929 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 16-08-2003 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Auto do Possesso , 1950 , Haroldo de Campos
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia

Haroldo Eurico Browne de Campos (São Paulo, São Paulo, 1929 - idem, 2003). Poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário. No Colégio São Bento, cursa o ensino secundário clássico. Ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Durante o período de graduação, dedica-se também à criação poética, inicialmente vinculando-se ao Clube da Poesia, grupo ligado à geração de 45. Forma-se em 1952, mesmo ano em que rompe com o Clube e, com o irmão Augusto de Campos (1931) e o amigo Décio Pignatari (1927-2012), cria a revista Noigandres, que se configura como publicação inaugural do movimento concretista.

Haroldo dedica-se aos trabalhos do grupo até 1963, período em que publica as obras experimentais O Mago do Ô Mega (1955), Fome de Forma (1958) e Servidão de Passagem (1961) e no qual participa de mostras e exposições na Europa. A estada na Europa proporciona seu encontro com o poeta americano Ezra Pound (1885-1972) e o músico alemão Stockhausen (1928-2007), além de outros artistas e intelectuais que o influenciam e com os quais passa a dialogar. Em 1962, escreve importante ensaio intitulado Da Tradução como Criação e como Crítica, elaborado concomitantemente às traduções que desenvolve de poetas ingleses, alemães, haikaistas japoneses e, sobretudo, de Un Coup de Dés, do poeta francês Mallarmé (1842-1898), poema que serve de base para as ideias concretistas, na década de 1950. 

No final da década de 1960, tem contato e trabalha com integrantes do movimento tropicalista, em especial Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil (1942), com os cineastas Júlio Bressane (1946) e Ivan Cardoso (1952) e com o artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980). Na mesma época, começa o seu doutorado sobre a obra Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1945), com o auxílio da bolsa Guggenheim, trabalho publicado, mais tarde, com o título Morfologia de Macunaíma.

Em 1971, leciona como professor visitante na Universidade do Texas, em Austin. Entre 1973 e 1989, é professor titular da cadeira de Semiótica da Literatura, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), e professor convidado na Universidade de Yale e novamente na Universidade do Texas. Ainda na década de 1970, o interesse pela literatura latino-americana, bem como sua participação nos estudos críticos a ela circunscritos, vinculados à formulação do conceito de neobarroco, o levam a corresponder-se com importantes escritores, como Julio Cortázar (1914-1984), Octávio Paz (1914-1998) e Cabrera Infante (1929-2005). 

Em 1984, publica Galáxias, texto que se torna bastante conhecido na década de 1990 por possuir trechos musicados por Caetano Veloso. Durante sua longa e produtiva carreira, Haroldo recebe oito prêmios Jabuti, além de ser homenageado tanto no Brasil quanto no exterior, destacando-se a inclusão de sua biografia no Who’s Who in the World e o título de doutor honoris causa concedido pela Universidade de Montreal, Canadá. O poeta falece em 2003 e todo o seu acervo é doado para a Casa das Rosas, instituição cultural localizada em São Paulo, que passa a se chamar Espaço Haroldo de Campos.

Análise

Inicialmente ligado ao grupo de poetas da geração de 45, que se empenham em retradicionalizar a poesia brasileira a partir do retorno às formas clássicas e à valorização de temas universalizantes (sem o aproveitamento da experiência local, que tanto influenciara os modernistas), Haroldo de Campos soube deles se desvencilhar, seguindo os passos do poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

O surrealismo vago e verborrágico presente em sua obra de juventude - O Auto do Possesso (1951), publicado quando contava com 21 anos - é logo substituído por uma concretude que valoriza o isomorfismo entre o trabalho formal e o conteúdo do texto poético1. Essa mudança de perspectiva acontece devido à leitura que o poeta faz de Un Coup de Dés, de Mallarmé, que se torna o embrião das ideias que alimentam o movimento concretista e cujos resultados comparecem em O Mago do Ô Mega e Fome de Forma. Em particular no primeiro, formado de um conjunto de cinco poemas, o fundo negro serve de tabuleiro sobre o qual palavras, sílabas e letras se amalgamam e se fraturam, numa espécie de descascamento morfológico e fônico, cujo ponto de chegada corresponde ao que o poeta entende como essência da linguagem: o ex nihilo que finaliza a série. 

Os principais recursos poéticos utilizados nessa série de poemas e também nos que compõem esses primeiros trabalhos concretistas de Haroldo são aliterações, assonâncias, rimas internas e, sobretudo, o estabelecimento de relações sonoras entre palavras por meio de paranomásias e trocadilhos, expediente bastante comum na poética dos poetas seiscentistas ou barrocos. Nota-se, nesses jogos linguísticos, a busca por certo tipo de agudeza, no sentido que o crítico João Adolfo Hansen (1942) indica em poetas como Góngora (1561-1627), Quevedo (1580-1645) e, no Brasil, Gregório de Matos (1636-1696): não é à toa a valorização dada por Haroldo a esse último poeta, que fica conhecido como Boca do Inferno. Tal convicção na relevância do barroco para a história da literatura nacional o levam a escrever uma crítica à obra Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido (1918). No ensaio O Sequestro do Barroco (1989), Haroldo questiona a pouca importância dada ao estilo, nos estudos de Candido, bem como aos escritores nos quais é possível identificar um veio barroco, como é o caso de Sousândrade (1833-1902). 

Por isso, também, nota-se no decorrer de sua obra, e à medida que ela se afasta do estilo de seu irmão, o também poeta Augusto de Campos, um retorno à verborragia que já era comum em sua obra de juventude, mas que volta agora repleta de referências literárias (oriundas principalmente de seus textos críticos e de seus trabalhos de tradução) e efeitos barroquizantes. O destaque é, sem dúvida, o texto Galáxias (iniciado na década de 1960, mas só finalizado em 1984), uma mistura de prosa e poesia que valoriza, sobretudo, a leitura em voz alta, em que, de acordo com o próprio Haroldo, as “palavras oralizadas podem ganhar força talismânica, aliciar e seduzir como mantras”. Destaca-se, também, o diálogo estabelecido com Dante (1265-1321), Camões (1524-1580) e Drummond (1902-1987), em A Máquina do Mundo Reinventada.

Outro importante recurso é a valorização do espaço em branco da folha, à maneira do “lance de dados” mallarmaico, o que remete ao que o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer (1925) chama de constelações, implicando o “fim do verso” alardeado em manifestos escritos nas décadas de 1950 e 1960, reunidos no volume Teoria da Poesia Concreta. Há, desse modo, uma valorização da comunicação visual, que tem como base a leitura que Haroldo faz de Fenollosa (1846-1908), estudioso de ideogramas chineses, por meio dos experimentos e ensaios de Ezra Pound (1885-1972). 

No âmbito da tradução, o poeta valoriza a ideia de “transcriação”, já presente em Da Tradução como Criação e como Crítica. O principal objetivo do tradutor, segundo a concepção de Haroldo, é fazer com que, de alguma maneira, a essência poética da língua de partida encontre ressonância da língua de chegada, mesmo que isso signifique certas alterações semânticas em relação ao poema original, as chamadas “lei das compensações em poesia”2. O empenho do autor de Galáxias em seu trabalho de “transcriação” lhe vale um elogio do escritor italiano Umberto Eco (1932), segundo o qual a melhor tradução de cantos da Divina Comédia seria justamente a de Haroldo.

Na crítica literária, Leyla Perrone-Moisés indica a filiação deste a três linhas de pesquisa: o formalismo russo, sob a perspectiva das ideias linguísticas de Roman Jakobson (1896-1982), o desconstrucionismo do filósofo Jacques Derrida (1930-2004) e a estética da recepção desenvolvida pelo crítico Robert Jauss (1921-1997). Esta última, em conjunto com os conceitos de sincronia e diacronia, presentes na obra do linguista russo, serve-lhe de base para o seu projeto de reconfiguração da história literária, assim como a reavaliação de categorias importantes para os estudos comparados, como é caso da influência e da intertextualidade. Desse modo, a relação entre a literatura estrangeira e a nacional não pode mais ser entendida como mera influência passiva, mas sim como deglutição antropofágica, o que recupera uma perspectiva presente no modernismo de Oswald de Andrade (1890-1954). Também daí vem o conceito de paideuma - formulado por Pound e redefinido por Haroldo de Campos -, que valoriza uma leitura da tradição literária mediante necessidades estéticas do presente, o que também ocasiona muitas das críticas dirigidas ao grupo concretista, acusados de fazer uma leitura da história literária somente pelo prisma do concretismo.

Notas

1 FALEIROS, Álvaro. Haroldo de Campos e a dobra de Mallarmé. In: Anais do Congresso Internacional da Abralic: tessituras, interações e convergências. Universidade de São Paulo, jul. 2008.

2 SCHANEIDERMAN, Boris. Haroldo de Campos, poesia russa moderna, transcriação. Revista da USP, n. 59, set./out./nov. 2003. p. 172-180.

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Exposições (18)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (9)

  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1989.
  • CAMPOS, Augusto; PIGNATARI, Décio; CAMPOS, Haroldo. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-60. São Paulo: Edições Invenção, 1965.
  • CAMPOS, Haroldo de. Galáxias. São Paulo: Editora 34, 2004.
  • FALEIROS, Álvaro. Haroldo de Campos e a dobra de Mallarmé. In: Anais do Congresso Internacional da Abralic: tessituras, interações e convergências. Universidade de São Paulo, jul. 2008.
  • FAUSTO, Boris. Lembrando Haroldo. Folha de S.Paulo, São Paulo, Caderno Opinião, 25 ago. 2003. p. A2
  • HANSEN, João Adolfo. Retórica da agudeza. In: Letras Clássicas, n. 4, ano 4, Humanitas, São Paulo, 2000. p. 317-342
  • OSEKI-DÉPRÉ, Inês. Haroldo de Campos ou a educação do sexto sentido. In: CAMPOS, Haroldo de. Melhores poemas de Haroldo de Campos. 3ª. ed. São Paulo: Global Editora, 2000.
  • PERRONE-MOISÉS, Leyla. O teórico e o crítico. Folha de S.Paulo, São Paulo, Caderno Mais!, 14 set. 2003. p. 14-16
  • SCHANEIDERMAN, Boris. Haroldo de Campos, poesia russa moderna, transcriação. Revista da USP, n. 59, set.-out.-nov. 2003. p. 172-180

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • HAROLDO de Campos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21896/haroldo-de-campos>. Acesso em: 18 de Jun. 2018. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7