Artigo da seção pessoas Rosana Paulino

Rosana Paulino

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deRosana Paulino: 18-04-1967 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Registro fotográfico Marcus Leoni

Rosana Paulino (São Paulo, São Paulo, 1967). Artista visual, pesquisadora e educadora. Faz da imagem impressa um meio estruturador de seu pensamento visual, e desdobra-a em diferentes linguagens. Desde os anos 1990, investiga questões de gênero, identidade e representação negra, quando eram pouco discutidas no cenário artístico brasileiro.

Cursa artes plásticas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) entre 1991 e 1995, período em que também se dedica à gravura no ateliê de restauro do Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP) e na oficina de gravura do Museu Lasar Segall.

A produção de Paulino ganha visibilidade com a instalação Parede da Memória (1994), extensa composição em grade formada pela reprodução de onze pequenos retratos do arquivo familiar da artista que, agrupados em diferentes combinações, desdobram-se em 1500 imagens. As fotocópias são inseridas em almofadas preenchidas com algodão e emolduradas por uma costura manual ao modo de patuás1.

Embora parta de elementos pessoais, como a memória do patuá na casa de infância e os retratos de família, essa busca por identidade só se realiza no coletivo, na reunião de muitos indivíduos para tornar manifesta a força de sua representação. A disposição dos retratos se contrapõe às antigas tipologias fisionômicas que mapeavam características étnicas e psicossociais. Paulino inverte a função dessa estrutura classificatória e dirige sua indagação à memória individual e coletiva. A expressiva representação de pessoas negras faz lembrar, por oposição, sua rara ocorrência – excetuando-se o registro etnográfico – em séculos de produção visual no Brasil.

Em 1998, faz uma especialização em gravura no London Print Studio, em Londres, com bolsa concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A seguir, leciona disciplinas de desenho e gravura, trabalha como assistente de restauração e participa de exposições no Brasil e no exterior.

Na instalação Bastidores (1997), a artista reproduz fotografias sobre tecido esticado em suportes para prática de bordado. No lugar de ornamentações, linhas pretas são usadas para amordaçar e vendar olhos e gargantas de mulheres negras. O termo bastidor é ao mesmo tempo o suporte para a obra e o cenário de violência contra a mulher. A expectativa da delicadeza do bordado é contrariada na denúncia da violência camuflada pelas paredes domésticas.

É bolsista da Fundação Ford entre 2006 e 2008, quando produz a série Ama de Leite (2005-2008), na qual formas dissociadas retiram a subjetividade de esculturas sem rostos e membros, expondo a visão escravocrata que considerava as amas de leite apenas uma função e não como indivíduos. Fitas coloridas são presas aos muitos pares de seios e, tal como um fluxo de leite, saem em direção a bonecos presos nas extremidades.

Obtém o título de Doutora em poéticas visuais pela ECA/USP, em 2011, com a pesquisa Imagens de Sombras, na qual investiga a construção da imagem da mulher negra no Brasil, entre as marcas deixadas pela escravidão e desigualdades de gênero. Essas questões são pensadas por meio da instalação, gravura e de outras linguagens. Em 2011, recebe o 1º Prêmio Nacional de Expressões Afro-Brasileiras.

No ano seguinte, participa de residência artística no Tamarind Institute da University of New Mexico, Estados Unidos (EUA). A atividade faz parte de um projeto financiado pelo Departamento de Estado dos EUA, que visava levar artistas brasileiros ao Tamarind para que tivessem experiências com mestres impressores do instituto. A residência motiva, em 2013, a exposição Brasileiros e Americanos na Litografia do Tamarind Institute, realizada no Museu Afro Brasil, na qual Rosana e os colegas expõem as litografias produzidas no período de residência.

É bolsista no Bellagio Center, da Fundação Rockefeller, na Itália, em 2014. Como curadora, em 2016, realiza, ao lado da designer Diane Lima, a mostra Diálogos Ausentes, no Itaú Cultural, que discute a produção de artistas afro-brasileiros contemporâneos.

Em muitos de seus trabalhos, a fotografia é pensada em diálogo com o desenho e a gravura. Na série Assentamento (2013), manipula retratos de “tipos brasileiros” produzidos pelo fotógrafo francês Auguste Stahl (1824-1877) para o livro Viagem ao Brasil, 1865-1866, de Louis Agassiz (1807-1873), naturalista suíço que investiga teorias de superioridade racial. Reproduções dessas fotografias em tamanho natural são recortadas e rearranjadas por Paulino numa costura rústica que expõe uma sutura entre as partes mutiladas da imagem. Intervenções gráficas sinalizam o processo de cicatrização e enraizamento, metáfora do trauma das pessoas que foram desterritorializadas pela escravidão. Num processo semelhante, no livro de artista ¿História Natural? (2016), Paulino transforma poeticamente a significação da iconografia científica oitocentista.

Em muitos trabalhos de Paulino, paira um desejo de redenção simbólica, ao expor as fraturas existentes nas tradicionais representações de indivíduos marcados pela escravidão. Para resgatar fragmentos de identidades expropriadas, recorre ao diálogo com a representação etnográfica que, se por um lado é fruto do olhar do colonizador, por outro, guarda rastros que permitem indagar pelo “outro” na história.

Nota

1 Patuás são considerados objetos de proteção trazida pelos ancestrais, orixás e outras divindades nas religiões afro-brasileiras.

Outras informações de Rosana Paulino:

  • Habilidades
    • Desenhista
    • Gravadora
    • Pintora
    • Artista visual
    • Pesquisadora

Midias (1)

Rosana Paulino – Série Cada Voz (2019)
Rosana Paulino apresenta sua perspectiva sobre o que é ser artista. Traz elementos não reconhecidos tradicionalmente na cultura brasileira, em especial, a representação da população negra para além do olhar do artista branco.

A Enciclopédia Itaú Cultural produz a série Cada Voz, em que personalidades da arte e cultura brasileiras são entrevistadas pelo fotógrafo Marcus Leoni. A série incorpora aspectos de suas trajetórias profissionais e pessoais, trazendo ao público um olhar próximo e sensível dos artistas.

Créditos
Presidente: Milú Villela
Diretor-superintendente: Eduardo Saron
Superintendente administrativo: Sérgio Miyazaki
Núcleo de Enciclopédia
Gerente: Tânia Rodrigues
Coordenação: Glaucy Tudda
Produção de conteúdo: Camila Nader
Núcleo de Audiovisual e Literatura
Gerente: Claudiney Ferreira
Coordenação: Kety Nassar
Produção audiovisual: Letícia Santos
Edição de conteúdo acessível: Richner Allan
Direção, edição e fotografia: Marcus Leoni
Assistência e montagem: Renata Willig

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Temas do artigo: Artes visuais  
Data de iníciosp-arte 2010: 29-04-2010  |  Data de término | 02-05-2010
Resumo do artigo sp-arte 2010:

Fundação Bienal de São Paulo

Fontes de pesquisa (32)

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  • A NOVA mão afro-brasileira. curadoria Emanoel Araújo; fotografia Henrique Luz. São Paulo, SP: Museu Afrobrasil, 2014. 224 p.
  • AMARAL, Aracy. A mulher é o corpo. In: AMARAL, Aracy. Textos do Trópico de Capricórnio. Artigos e ensaios (1980-2005): Bienais e artistas contemporâneos no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2006. v. 3.
  • AVESSO do avesso. Curadoria Sérgio Pizoli. São Paulo: Paço das Artes, 1996.
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  • MONTES, Maria Lúcia (coord.). Os herdeiros da noite fragmentos do imaginário negro: 300 anos de Zumbi. Curadoria Emanoel Araújo; tradução Francisco de Castro Ramos Neto. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1995.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte afro-brasileira. Curadoria François Neyt, Catherine Vanderhaeghe, Kabengele Munanga, Marta Heloísa Leuba Salum; tradução Arnaldo Marques, Rachel McCorriston, Paulo Henriques Britto, John Norman. São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais; Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Negro de corpo e alma. Curadoria Emanoel Araújo, Maria Lúcia Montes, Carlos Eugênio Marcondes de Moura; tradução Christopher Ainsbury, Denise Kato, Doris Hefti, Douglas V. Smith, Eduardo Hardman, Eugênia Deheinzelin, Grant Ellis, H. Sabrina Gledhill, John Norman, Katica Szabó, Lilian Escorel, Regina Alfarano, Ricardo Gomes Quintana, Robert Slenes, Carlos Galvão, Suzanne Oboler, Elitza Bachvarova, Thomas William Nerney. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.
  • PANORAMA DE ARTE ATUAL BRASILEIRA, 1997, São Paulo, SP. Panorama de Arte Atual Brasileira 1997. São Paulo: MAM, 1997.
  • PARA NUNCA esquecer: negras memórias, memórias de negros. O imaginário luso-afro-brasileiro e a herança da escravidão. Curitiba, Museu Oscar Niemeyer, 2005. Catálogo de exposição.
  • PAULINO, Rosana. Álbum de desenho. Tradução Yara Nagelschmidt. São Paulo: Adriana Penteado Arte Contemporânea, 1997.
  • PAULINO, Rosana. Depoimento. Ciclo de debates Diálogos ausentes. São Paulo: Itaú Cultural, 2016. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=7awdUzh9UVg >. Acesso em: 2 maio 2018.
  • PAULINO, Rosana. [Currículo]. Enviado pela artista em: 
  • PAULINO, Rosana. Imagens de sombras. 2011. Tese (Doutorado em Poéticas Visuais) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011.
  • SANTOS, Renata Aparecida Felinto dos. A construção da identidade afrodescendente por meio das artes visuais contemporâneas: estudos de produções e de poéticas. 2016. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), São Paulo, 2016.
  • SÉCULO 20: arte do Brasil. Curadoria Nelson Aguilar, Franklin Espath Pedroso. Lisboa: Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, 2000.
  • TERRITÓRIOS: artistas afrodescendentes no acervo da Pinacoteca. curadoria Tadeu Chiarelli. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2016. 7 p., [folha dobrada].
  • VIANA, Janaina Barros Silva. Uma possível arte afro-brasileira: corporeidade e ancestralidade em quatro poéticas. 2008. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), São Paulo, 2008.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ROSANA Paulino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa216153/rosana-paulino>. Acesso em: 15 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7