Artigo da seção pessoas Neville D'Almeida

Neville D'Almeida

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deNeville D'Almeida: 1941 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

Biografia

Neville Duarte de Almeida (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1941). Diretor cinematográfico. Na juventude, acompanha a crítica mineira de cinema, frequenta as sessões do Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte, onde inicia sua formação cinematográfica.

Em meados dos anos de 1960, parte para os Estados Unidos para trabalhar como guia turístico e estudar cinema no New York College. Em 1966, dirige seu primeiro filme, O Bem-Aventurado, premiado no Festival de Cinema Amador JB-Mesbla. Ainda em Nova York, faz assistência de direção para Nelson Pereira dos Santos (1928), em Fome de Amor (1967).

Seu primeiro longa-metragem é Jardim de Guerra (1968), com argumento de Jorge Mautner (1941) e fotografia de Dib Lutfi (1936). O filme é interditado pela censura logo após a promulgação do Ato Institucional n. 5 e permanece inédito por cerca de cinco anos. Segue com o polêmico Piranhas no Asfalto (1971), reforçando a sua identificação com o chamado cinema marginal.

Devido à perseguição política a seus filmes e sem amparo por parte da crítica e do meio cinematográfico, Neville D’Almeida exila-se em Londres. Lá, realiza Mangue Bangue (1970) e The Night Cats (1971), mas novamente enfrenta problemas com a censura local.

Em 1973, faz pesquisas sobre o Super-8, produzindo diversos curtas-metragens. No ano seguinte, dirige Na Gira de Umbanda e inicia os trabalhos para a adaptação da obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), “A dama do lotação”. O filme (1978), coproduzido pela Embrafilme e que tem Sônia Braga (1950) como protagonista, circula em 80 cinemas brasileiros, com representativa bilheteria. Mais tarde, adapta outra obra do dramaturgo carioca, Os 7 Gatinhos (1980), duramente criticado no Festival de Gramado.

Rio Babilônia (1982) é uma de suas obras mais polêmicas. Motiva vários debates na sociedade, apesar dos cortes feitos pela censura. Durante os anos da Retomada1, realiza um remake de Matou a Família e Foi ao Cinema (1991), de Julio Bressane (1946), cineasta também ativo no cinema marginal. Em 1997, dirige Navalha na Carne, adaptação da obra de Plínio Marcos (1935-1999).

Análise

A produção cinematográfica das décadas de 1960 e 1970, período em que Neville D’Almeida inicia sua carreira, é analisada pela historiografia com base na dualidade entre o cinema novo e o cinema marginal. Nessa categorização, o diretor mineiro é identificado com o grupo de cineastas marginais, experimentais ou udigrudis. Sua formação em cinema desenha-se em Belo Horizonte, quando se torna um cinéfilo que parte para a prática.

Jardim de Guerra aborda temas delicados para uma sociedade conservadora sob o regime militar - sexo, violência, drogas, feminismo. Segundo o crítico Jairo Ferreira (1945-2003), o filme é político sem falar de política. Mesmo perseguido pela censura, é apresentado no Festival de Cannes, de 1969. Desperta o interesse de cineastas e críticos internacionais, como Agnès Varda (1928) e Robert Benayoun (1926-1996), que destacam a sua poética ao tratar de tabus sociais.

Em meados da década de 1970, o diretor dá novo rumo à carreira. É um momento em que o cinema brasileiro vive uma euforia, devido à atuação da Embrafilme. Assim como outros cineastas brasileiros, opta pelo pragmatismo comercial, com produções que buscam o público. Essa transformação de diretor marginal a diretor de grandes produções desperta curiosidade e expectativa na crítica especializada.

A Dama do Lotação é a primeira adaptação das crônicas de A Vida como Ela É… (1961), de Nelson Rodrigues. O filme apresenta qualidade técnica, e o apelo erótico é assumido pelo diretor como estratégia para discutir a condição feminina na trama. Isso justifica, em parte, a análise do crítico Jean-Claude Bernardet (1936), que afirma tratar-se de uma pornochanchada invertida. Essa interpretação, contudo, não é consenso entre os críticos.

Em Os 7 Gatinhos, o diretor explora temas recorrentes na obra de Nelson Rodrigues - sexo, violência, prostituição e morte - com base nas relações de uma família suburbana, moralmente corrompida. Para o crítico Ismail Xavier (1947), as adaptações de Nelson Rodrigues feitas por Neville D’Almeida e outros cineastas, entre os anos de 1978 e 1983, têm o traço comum da busca do público e o erotismo no patamar da vulgarização.

Seu último trabalho com financiamento da Embrafilme é Rio Babilônia, um mosaico da cidade do Rio de Janeiro e das relações tensas entre seus tipos sociais - traficantes, turistas, políticos, prostitutas. Navalha na Carne, segue linha mais autoral. É uma adaptação da obra de Plínio Marcos, dramaturgo prestigiado desde os anos 1960 e que, nas décadas seguintes, desperta interesse no meio cinematográfico. Apesar das expectativas em torno de seu lançamento, o filme não agrada à crítica e tem repercussão de público aquém do esperado.

Ao longo da carreira, em busca de equilíbrio entre qualidade técnica, experimentalismo artístico e comunicação com o público, Neville D’Almeida nem sempre tem êxito. O excessivo apelo sexual, apresentado como questionamento de valores morais, transforma-se em estratégia mercadológica. São várias as polêmicas em torno de sua filmografia, mas todas revelam a força transgressora e criativa do diretor.

Nota

1 Fala-se de Retomada para se referir as produções do cinema brasileiro a partir de 1995, em relação aos filmes que se beneficiaram dos recursos e incentivos possibilitados pelo Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro e posteriormente pela Lei do Audiovisual, instituídos pela Secretaria Para o Desenvolvimento do Audiovisual, criada em 1992, no governo do presidente Itamar Franco.

Outras informações de Neville D'Almeida:

  • Outros nomes
    • Nevile Duarte Almeida
    • Neville Duarte de Almeida
  • Habilidades
    • cineasta
    • diretor
  • Relações de Neville D'Almeida com outros artigos da enciclopédia:

Exposições (15)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (10)

  • AUTRAN, Arthur. Os descaminhos do cinema: observação para uma trajetória do cinema marginal. Paupéria: revista de cinema, São Paulo, v. 1, n. 1, ago. 1991. p. 21-3
  • CINEMAIS. Metáfora, censura, política e pornochanchada. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 28, mar./abr. 2001. p. 71-90
  • CINEMATECA Brasileira (Org). Coleção de recortes de jornais e revistas sobre Neville D'Almeida, 1976-1978.
  • FILME Cultura. E agora, Neville. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 54, maio 2011. p. 83-84
  • FILME Cultura. O som, os diretores. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v. 14, n. 37, jan./mar. 1981. p. 18-23
  • FREIRE, Rafael de Luna. Navalha na tela: Plínio Marcos e o cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Tela Brasilis, 2008.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • RAMOS, Fernão, MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • RODRIGUES, João Carlos. A dama do lotação: o produto e seu lançamento no mercado. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 52, out. 2010. p. 43-46
  • XAVIER, Ismail. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NEVILLE D'Almeida. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21519/neville-dalmeida>. Acesso em: 22 de Nov. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7