Artigo da seção pessoas Roberto Carlos

Roberto Carlos

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deRoberto Carlos: 19-04-1941 Local de nascimento: (Brasil / Espírito Santo / Cachoeiro de Itapemirim)

Biografia

Roberto Carlos Braga (Cachoeiro do Itapemerim, Espírito Santo, 1941). Cantor, compositor. A mãe lhe ensina os rudimentos do violão, cujo estudo ele prossegue como autodidata. Tem aulas de piano e violino no conservatório da cidade, mas é como cantor-mirim que, em 1950, começa a se apresentar na rádio local. Em 1956, muda-se para a casa de uma tia em Niterói, seguindo para o subúrbio do Rio para iniciar carreira musical. No ginasial, num programa da TV Tupi, faz cover do cantor estadunidense Elvis Presley (1935-1977). Com Arlênio Lívio (1942-2003) e Tim Maia (1942-1998) forma a banda The Sputiniks, apresentando-se no bar Divino, que reúne jovens americanófilos da Tijuca. Em 1957, o grupo se apresenta no “Clube do Rock”, primeiro programa de TV do gênero. A banda implode quando Carlos Imperial (1935-1992), diretor do programa, pede a Roberto Carlos para imitar Elvis Presley, irritando Tim Maia. 

Em 1958, “Chega de Saudade”, de João Gilberto (1931), causa impacto no cantor, que passa a imitá-lo. Com voz pequena e entonação quase falada, grava, em 1959, seu primeiro 78 rpm, com duas canções do gênero: “João e Maria”, parceria com Carlos Imperial, e a satírica “Fora do Tom”, de Imperial: “Nem quero imaginar/ que desafinação/ se todos fossem iguais a vocês”. Seu primeiro LP, Louco por Você (1961), tem versões de canções estrangeiras e composições originais. 

Com o segundo LP, Splish Splash (1963), volta-se para a música jovem anglo-americana, iniciando longa parceria com Erasmo Carlos (1941) num nicho explorado por Sérgio Murilo (1941-1992) e Celly Campelo (1942-2003), o rei e a rainha do rock no Brasil. Quando Murilo rompe com a CBS, substitui-o na gravadora e passa a viver só de música. Entre 1965 e 1968, ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa (1946), apresenta na Record de São Paulo o programa “Jovem Guarda”, que dá nome ao movimento protagonizado pelo trio. Com transmissão para todo o Brasil, o programa faz dele objeto de adoração nacional. 

Em 1968, é lançado o filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, o primeiro dos quatro estrelados pelo cantor, embalado pelo disco homônimo e inspirado nos filmes A Hard Day’s Night (1964) e Help! (1965), dos Beatles. No mesmo ano, é o primeiro estrangeiro a vencer o festival de música de San Remo, na Itália, lançando-se no mercado internacional. Grava o álbum O Inimitável, em que flerta com o soul e a black-music, antes de se estabelecer como cantor romântico. Entre 1970 e 1990, lança, em média, um LP de canções inéditas por ano no Brasil e mais 20 no exterior (em espanhol e italiano), batendo recordes de vendas no país e na América Latina, com mais de 120 milhões de cópias. Também grava em inglês e francês.

Em 2006, envolve-se numa polêmica com o jornalista Paulo Cesar de Araújo, autor de uma biografia não autorizada. Na justiça, consegue proibir a circulação do livro, provocando um debate sobre invasão de privacidade e censura.

Mesmo diminuindo o ritmo de shows e gravações, permanece entre os artistas brasileiros mais ouvidos no país1 e no exterior2. Possui uma estatueta do Grammy Awards e cinco do Grammy Latino, que o elege personalidade do ano em 2015. 

Análise

Sustentando até hoje o título de “rei”, Roberto Carlos é o artista  mais bem-sucedido, financeiramente, do Brasil e um dos mais longevos, com quase 60 anos de carreira, que podem ser agrupados em diferentes fases. 

Na primeira (1959-1963), aproxima-se da bossa nova, com gravações que mesclam signos modernos a valores conservadores. Em “Ser Bem” (Carlos Imperial), do seu primeiro LP, a melodia de notas dissonantes recebe letra bem comportada: “Ser bem é na hípica jantar /É no Jockey desfilar/ E de noite no Sacha’s com baby juntinho dançar”. 

Na fase iê-iê-iê3  (1963-1968), apresenta as primeiras contribuições para a música brasileira, lançando-se como compositor. Para além das versões, como a canção-título “Splish Splash”, o disco revela a criação de um repertório próprio de música jovem, como “Parei na Contramão” (parceria com Erasmo Carlos). Outros sucessos da dupla, como “É Proibido Fumar”, “Quero que Vá Tudo pro Inferno” e “Namoradinha de um Amigo Meu”, preservam a conciliação entre modernidade e conservadorismo da fase bossa nova. Se as letras ousam falar abertamente do desejo e da transgressão a certas proibições, revelam um comportamento constrangido pelas regras de uma sociedade patriarcal e monogâmica, segundo as quais “o que é dos outros [a namoradinha] não se deve ter”.  

Ainda na fase iê-iê-iê, Roberto Carlos revela tino empresarial, sendo um dos detentores da marca Calhambeque, criada pelo publicitário Carlito Maia (1924-2002) para financiar o programa Jovem Guarda. Vendendo todo tipo de produto, a marca revela o marketing por trás do programa e perdura na marca Roberto Carlos, que vende de sucos a cruzeiros marítimos e empreendimentos imobiliários. Também aponta a segmentação do mercado fonográfico brasileiro. A jovem guarda é alvo de duras críticas dos segmentos musicais mais politizados, representados pela MPB. O embate se dá pelo aspecto comercial e pela cópia de referências estrangeiras num momento de valorização do nacional-popular4.

A terceira fase do cantor (1968-1971) é marcada por sua aproximação do soul e da black music, gravando, entre outras, a canção “Não vou Ficar” (Tim Maia), ex-colega no grupo Sputniks. Isso se deve ao desgaste do rock’n roll e à tendência dos artistas brasileiros de se aproximar da música negra. Esta, além de liberar o corpo num momento histórico marcado pela luta contra a repressão, é associada à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Vale lembrar que, em 1968, o Ato Institucional n° 5 endurece a ditadura no Brasil. Mesmo sem se engajar politicamente e com letras de um romantismo autocentrado, Roberto e Erasmo Carlos, revelam, nessa fase, o fim da ingenuidade diante de um mundo que se transforma, em canções como “As Canções que Você Fez pra Mim”, “Se Você Pensa” e “As Curvas da Estrada de Santos” (“Só ando sozinho e no meu caminho o tempo é cada vez menor/ Preciso de ajuda, por favor me acuda, eu vivo muito só”). Um momento de aproximação com a MPB se dá quando Roberto grava, em 1971, a música “Como Dois e Dois”, de Caetano Veloso (1942), para quem, no mesmo ano, compõe “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, parceria com Erasmo. Sua aceitação definitiva pela MPB é em 1978, quando Nara Leão (1942-1989) grava um disco só com canções dele e de Erasmo. 

No início dos anos 1970, inicia a última fase, dedicada à música romântica com a qual se identifica para sempre. A temática amorosa marca as parcerias com Erasmo Carlos em baladas (“Como é Grande o Meu Amor por Você”), souls (“Eu te Amo, Eu te Amo,  Eu te Amo”) e canções (“As Flores do Jardim de Nossa Casa”). Se antes o romantismo restringe-se à letra, agora, aparece na música, em arranjos dominados por cordas e piano e em melodias clichês com vogais estendidas. Nesse estilo, Roberto e Erasmo Carlos compõem clássicos como “De Tanto Amor”, “Olha” e “Emoções”. “Detalhes”, maior sucesso da dupla, é uma balada sobre uma revanche amorosa, em que o abandonado tem certeza de que será lembrado: “Se alguém tocar seu corpo como eu/ Não diga nada/ Não vai dizer meu nome sem querer/ À pessoa errada”. Outra recorrência são as letras descritivas ou narrativas, como “O Portão”, que registra o retorno de um homem ao lar, e “Rotina”, que narra os pensamentos eróticos dos amantes separados pela rotina de trabalho. A canção inaugura a chamada “fase motel” do cantor, nas quais a alusão ao sexo é mais explícita, como em “Cavalgada” (“Vou cavalgar por toda noite/ Por uma estrada colorida/ Usar meus beijos como açoite/ E minha mão mais atrevida/ Vou me agarrar aos seus cabelos/ Pra não cair do seu galope”).

A partir de 1980, explora o filão sertanejo em canções como “Caminhoneiro” e “Todas as Manhãs”. Procurando identificar-se com seu público, que abrange diversas classes e idades, grava “O taxista” e canta elogios às mulheres fora do padrão de beleza, como em “Mulher Pequena” e “Mulher de 40”. A ecologia, também em moda, aparece em “As Baleias” e no rock “Amazônia”. Somente na segunda metade dos anos 1990, as regravações superam as inéditas, até a estagnação autoral quase completa, quebrada em 2012 pelo sucesso “Este Cara Sou Eu”.

Outra temática recorrente é o cristianismo, que surge em sua obra em 1970, quando grava o soul “Jesus Cristo”, e reaparece em “Todos Estão Surdos” e “Fé”, entre outras. Nos anos 1980, torna-se mais devoto, em canções angelicais acompanhadas de órgão como “Aleluia”, “Luz Divina”, “Jesus Salvador”, reunidas no álbum Mensagens (1999). 

Em 2001, busca conquistar os jovens com o álbum Acústico MTV, que o transforma em artista cult. A longa e variada produção do cantor, que compõe mais de 500 músicas e é gravado por artistas de diferentes gerações e estilos – da MPB ao brega, do rock ao samba, da música instrumental ao pop internacional –, reforçam a tese de Caetano Veloso de que Roberto Carlos é “a cara do Brasil”.

Notas

1. Em 2016, é o terceiro artista que mais recebe pagamento de direitos autorais por músicas tocadas no rádio, segundo o Ecad. BILBOARD. Os 10 autores mais populares de 2015 segundo o Ecad. Bilboard Brasil,  Disponível em: < www.billboard.com.br/noticias/os-10-autores-mais-populares-de-2015-segundo-o-ecad >  Acesso em: 20 out. 2016.

2. BILBOARD. Os 47 brasileiros mais ouvidos no exterior. Bilboard Brasil, 1 set. 2015. Notícias. Disponível em : < www.billboard.com.br/noticias/os-47-brasileiros-mais-ouvidos-no-exterior >. Acesso em 20 out. 2016.

3. Abrasileiramento do grito yeah, yeah, yeah!, entoado pelos Beatles no hit “She loves you”.

4. FROES, Marcelo. Jovem Guarda: em ritmo de aventura. São Paulo: Editora 34, 2000. p. 89.

Outras informações de Roberto Carlos:

  • Outros nomes
    • Roberto Carlos Braga
  • Habilidades
    • compositor
    • cantor/Intérprete

Espetáculos (1)

Fontes de pesquisa (8)

  • PILAGALLO, Oscar. Roberto Carlos. São Paulo: Publifolha, 2008 (Coleção Folha Explica, vol.79)

     

  • ARAÚJO, Paulo César de. Roberto Carlos Em Detalhes. Editora Planeta, 2006. 
  • FRÓES, Marcelo. Jovem Guarda: em ritmo de aventura. São Paulo: Editora 34, 2000.
  • MICELI, Sérgio. Força estranha do rei. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 dez. 2006. Caderno Cultura, p. D10.
  • SANCHEZ, Pedro Alexandre. Como Dois e Dois São Cinco. Editoria Boitempo, 2004.
  • SANCHEZ, Pedro Alexandre. Roberto Carlos: Na Corte do Rei. Billboard Brasil, nº 1, pp.42, out. 2009. Disponível em: < web.archive.org/web/20101018161332/http://billboard.br.com/noticias/na-corte-do-rei-roberto-carlos >. Acesso em: 20 out. 2016.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo II: 85 anos de músicas brasileiras (1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. v. 2 . 367 p. (Ouvido Musical) 
  • SOBRAL, Eliane. As emoções empresariais de Roberto Carlos. Isto É Dinheiro, São Paulo, 02 mar. 2011. Disponível em: < www.istoedinheiro.com.br/noticias/negocios/20110302/emocoes-empresariais-roberto-carlos/3625.shtml >. Acesso em: 20 out. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ROBERTO Carlos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21480/roberto-carlos>. Acesso em: 24 de Abr. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7