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Rubem Rocha Filho

  • Análise
  • Biografia
    Rubem Rocha Filho (Rio de Janeiro RJ 1939 - Recife PE 2008). Teórico, ator, diretor, autor, crítico e professor. Transita com inteligência e sensibilidade em todas as vertentes de sua ampla atuação no teatro. Fora dos palcos, desenvolve carreira literária voltada, sobretudo, para o público infanto-juvenil.

    Como ator e encenador, participa de diversos trabalhos tanto no Rio de Janeiro quanto no Recife. No entanto, é na capital pernambucana que se consolida como homem de teatro, atuando e dirigindo espetáculos em vários grupos, entre os quais o Teatro Popular do Nordeste (TPN), a Companhia Praxis Dramática (CPD), o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF) e Aquarius Produções Artísticas (APA).

    Escreve a peça Diário da Corte, em 1959, e com esse texto ganha uma bolsa de estudo para cursar dramaturgia no Wesleyan College, em Connecticut, nos Estados Unidos. Forma-se em 1961 e em seguida passa um ano na Europa, e entra em contato com o teatro português, francês e italiano. De volta ao Brasil, gradua-se bacharel em ciências sociais, em 1965, pela Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em parceria com Leopoldo Serran e Cacá Diegues, escreve, em 1963, o roteiro de Ganga Zumba, primeiro filme de Diegues.

    Exerce a crítica teatral no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil. Participa intensamente, como palestrante e tradutor, das comemorações do 4º centenário de William Shakespeare, em 1964, em evento realizado na Maison de France do Rio de Janeiro. Na segunda metade da década de 1960, Rubem Rocha Filho ministra breves cursos em universidades federais dos estados da Bahia, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, e do Pará, como professor convidado.

    Em 1968, reside temporariamente no Recife, a convite de Hermilo Borba Filho. Por meio de um convênio com o Serviço Nacional de Teatro (SNT), dirige O Melhor Juiz, o Rei, de Lope de Vega, para o TPN, espetáculo premiado como o melhor do ano pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco (ACTP). Na ocasião, em entrevista concedida ao crítico Van Jafa, Rubem declara: "Do meu ponto de vista pessoal, aprendi muito com meu estágio no Nordeste. Restrito à minha vida carioca eu desconhecia todo um aspecto da cultura brasileira, rico, cheio de ansiedades e dono de uma visão do mundo própria e original. Para autores e diretores do Sul, a descoberta do Brasil, a interiorização aqui mesmo, vale mais do que a Europa".1

    Ainda em 1968, dirige A Estreita Porta do Céu (A Construção), de Altimar Pimentel, para um grupo de estudantes da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba (FAFI/UFPB). No Grande Teatro da Televisão Universitária do Recife, em 1969, atua na peça Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, direção de Milton Baccarelli. De volta ao Rio de Janeiro, em junho de 1969, dirige A Incelença, de Luiz Marinho, para o Teatro Escolar da Divisão de Teatro do Governo do Estado da Guanabara, atual Estado do Rio de Janeiro.

    A revista Dionysos publica, em 1969, o artigo de Rubem Rocha Filho intitulado Aspectos da Dramaturgia Nordestina, fruto das experiências vividas nas diversas oportunidades em que dá cursos e dirige espetáculos no Nordeste. Nesse pequeno ensaio discute, sobretudo, a relação entre o regional e o rural na moderna dramaturgia nordestina.2

    Rubem Rocha Filho recebe o diploma de Altos Estudos Portugueses, da Universidade de Lisboa, em 1970. De 1971 a 1979, reside em Londres, onde escreve e produz programas de rádio para a BBC, e leciona cultura brasileira no King's College da London University. Regressa ao Brasil em 1979 e volta a residir no Recife, mas permanece, nos quatro anos seguintes, num vai e vem entre a capital pernambucana e sua cidade natal. No Recife, em 1979, dirige, para a Aquarius, Era uma Vez um Circo, peça de sua autoria para o público infantil, e Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri, para o THBF, na qual também atua.

    Participa como ator, pela primeira vez, da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em 1980, ano em que dirige para a CPD, no Recife, Equus, de Peter Shaffer, um dos seus mais significativos trabalhos como encenador. O jornalista e escritor Paulo Fernando Craveiro ressalta a eficiência da encenação: "Com o texto poderoso de Shaffer, uma alucinante trajetória em que o cavalo e o cavaleiro cavalgam sua própria loucura, Rubem Rocha Filho dá uma dimensão do seu talento num trabalho direcional asséptico em que nada falta e nada sobra".3 No ano seguinte, adapta e dirige o espetáculo O Inspetor Vem Aí, baseado na obra de Nikolai Gogol, produção da Praxis e da Aquarius, que estreia no Teatro de Santa Isabel. Em sua versão da peça, as personagens são abrasileiradas, encaminhando a encenação para um deboche sobre o poder.

    Na área da dança, realiza importantes trabalhos com a coreógrafa Mônica Japiassu, que são marcos das primeiras criações de dança-teatro no Recife. Estruturados nessa linguagem monta os espetáculos Morte e Vida Severina, baseado na obra de João Cabral de Melo Neto, 1980; Tempos Perdidos, Nossos Tempos, inspirado na obra de Gilberto Freyre, 1981; Lorca: Verde que Te Quero Verde, baseado em poemas de Federico García Lorca; e O Capataz de Salema, a partir da peça homônima de Joaquim Cardozo, ambas em 1982. Em 1983, faz uma surpreendente adaptação do filme O Anjo Azul, de Josef Von Sternberg, de 1930, desenhando um panorama da Europa, especialmente da Alemanha pré-nazista, em que a opressão política é associada à repressão sexual. Para a jornalista Inês Cunha, do Diario de Pernambuco, O Anjo Azul  "é um espetáculo que ninguém deveria deixar de assistir, não só por sua beleza, mas também pela lição histórica que representa. Lição esta que a humanidade parece não ter se interessado em aprender".4

    Fixando-se definitivamente no Recife, a partir de 1983, segue colaborando com diversos grupos, dirigindo espetáculos, e prestando assessoria ao Instituto de Desenvolvimento Científico e Cultural da Fundação Joaquim Nabuco (Indec/Fundaj). No curso profissionalizante de teatro oferecido por essa instituição, leciona disciplinas de história da arte e interpretação.

    Trabalha como ator em As Tias, de Aguinaldo Silva e Doc Comparato, com direção de Guilherme Coelho, em 1983; e integra o elenco de Bella Ciao, de Luís Alberto de Abreu, direção de Lúcio Lombardi, em 1986, ambas montagens da Aquarius Produções. No ano anterior, atua em O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, dirigido por José Francisco Filho, no papel de Molina, desempenho pelo qual recebe elogios, revezando-se com o ator Valdi Coutinho.

    Realiza uma de suas últimas direções, O Santo Inquérito, de Dias Gomes, para o recém-fundado grupo Cooperarteatro, em 1986. No ano seguinte, atua em Tango, de Slawomir Mrozek, direção de Antonio Cadengue, realização da Aquarius Produções Artísticas.

    Volta a integrar, em 1997, o elenco da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, espetáculo do qual participa quase todos os anos, até sua morte. Em 1999, escreve, em parceria com Plínio Pacheco, a peça Noite Feliz, o Nascimento de Jesus, encenada na cidade-teatro de Nova Jerusalém, marcando o ciclo do Natal, em 1999, 2000 e 2003, e nos pátios externos dos estacionamentos do Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, em 2004. Em todas as edições desse espetáculo, trabalha como ator.

    Paralelamente às várias funções que exerce no teatro, não põe em segundo plano suas atividades de escritor e pesquisador. Publica textos, artigos, trabalhos literários e ensaios. Entre estes destacam-se O Teatro e o Inconsciente, 3º lugar no Concurso Nacional de Monografias do Serviço Nacional de Teatro 1978, publicado em 1982; Tempos Perdidos, Nossos Tempos: Viagem em Torno de Gilberto Freyre, pela Editora Massangana, em 1983; A Personagem Dramática, Prêmio no Concurso Nacional de Monografia, do Inacen 1983/1984, lançado em 1986; e Anjo ou Demônio Malandro ou Herói - Aspectos do Negro na Dramaturgia Brasileira, Prêmio Jordão Emerenciano do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife, na categoria ensaio 1997, publicado em 1998.

    A partir da década de 1980, dedica-se com mais afinco à literatura infanto-juvenil e é premiado quatro vezes pela Academia Pernambucana de Letras, seja como ficcionista, seja como poeta. Em 1989, ganha o Prêmio Leda Carvalho por seu livro De Menino a Moço; em 1992, recebe o Prêmio Vânia Souto de Carvalho, por Os Assaltantes; obtém menção honrosa do Prêmio Amaro de Lira e César, em 1995, com livro de poemas Mariana de Marian; e, em 2001, ganha novamente o Prêmio Vânia Souto de Carvalho, por Resto de Mar

    Ainda como ator, participa dos filmes O Bandido da Sétima Luz, de Paulo Caldas, em 1987; Soneto do Desmantelo Blue, de Cláudio Assis, em 1993; Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, em 1996; Lugar Comum, de Leo Falcão, em 2002; e da minissérie Santo por Acaso, de Valdir Oliveira, produção da TV Jornal do Commercio/SBT, em 2007. É um profissional muito requisitado, por sua expressiva voz, para várias campanhas políticas e/ou publicitárias.

    Um ano antes de sua morte, Rubem Rocha Filho, em depoimento ao escritor Romildo Moreira, fala do significado do teatro em sua vida: "Ainda é o maravilhamento, o deslumbramento. A cortina, a luz, a magia toda, muito ligado ao melodrama, à comédia. E este fascínio ainda me chega através de alguns trabalhos que eu fiz como ator ou como diretor, como é o caso de Equus. Então, assim, o teatro que parece que morreu pra mim, não morreu em mim, porque fica na emoção e no contentamento".5


    Notas
    1. ROCHA FILHO, Rubem. Apud: JAFA, Van. Experiência nordestina de Rocha Filho. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, [s.p.], 9 out. 1968.

    2. Cf. ROCHA FILHO, Rubem. Aspectos da dramaturgia nordestina. Dionysos, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura - Serviço Nacional de Teatro, nº 17, p. 41-47, 1969.

    3. CRAVEIRO, Paulo Fernando. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 29 set . 1980.

    4. CUNHA, Inês. "O Anjo Azul" e "Foi Bom, Meu Bem?" encerram temporada neste final de semana. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 30 jul. 1983.

    5. ROCHA FILHO, Rubem. Apud: MOREIRA, Romildo. Vida teatro. Recife: Funcultura, 2008. p. 67.

Espetáculos

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Fontes de Pesquisa

ALVAREZ, Enéas. O Inspetor Vem Aí/Crítica. Jornal do Commercio, Recife, 10 dez. 1981. Caderno C, [s.p.]

CHAVES, Paulo Azevedo. Rubem e Mônica: um belo Anjo Azul. Diario de Pernambuco, Recife, 28 jul. 1983. Viver, [s.p.]

COUTINHO, Valdi. "Equus", a rejeição do deus-que-tudo-vê. Diario de Pernambuco, Recife, 15 ago. 1980. Viver, [s.p.]

COUTINHO, Valdi. Últimos dias do Inspetor. Diario de Pernambuco, Recife, 28 dez. 1981. Viver, [s.p.]

CRAVEIRO, Paulo Fernando Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], 29 set 1980.

CUNHA, Inês. "Bella Ciao". Diario de Pernambuco, Recife, 14 jun. 1986. Viver, p. B-8.

CUNHA, Inês. O Anjo Azul e Foi Bom, meu Bem? encerram temporada neste final de semana. Diário de Pernambuco, Recife, 30 jul. 1983. [s.p.]

JAFA, Van. Experiência Nordestina de Rocha Filho. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, [s.p.], 9 out. 1968.

MOREIRA, Romildo. Vida teatro. Recife: Funcultura, 2008.

ROCHA FILHO, Rubem. Aspectos da dramaturgia nordestina. In: Teatro de Amadores de Pernambuco. Dionysos, Rio de Janeiro,  n. 17, p. 41-47, jul. 1969. Edição especial.

RUBEM ROCHA Filho: Um inovador do teatro, diz "até breve" a Pernambuco. Diario de Pernambuco, Recife 28 nov. 1981. Viver, p. 1.

VIEIRA, Willian. Rubem Rocha Filho (1939-2008): Toda a teatralidade cabe em uma voz. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jun. 2008. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0206200814.htm. Acesso em: 12 jun. 2009.