Artigo da seção pessoas Walter Hugo Khouri

Walter Hugo Khouri

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deWalter Hugo Khouri: 1929 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 27-06-2003 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
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Amor Estranho Amor [cartaz] , ca. 1982 , Walter Hugo Khouri
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Biografia
Walter Hugo Khouri (São Paulo, SP, 1929 - idem 2003). Diretor, produtor, roteirista. Filho de libanês e mãe italiana, com a morte precoce do pai, vai morar no Rio de Janeiro com o avô materno, positivista, astrônomo, matemático e arquiteto, de quem mais tarde reconhece a influência. Ainda adolescente, deseja ser escritor, inclina-se para a música e a filosofia, assiste de seis a sete filmes por semana. De volta a São Paulo, ingressa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP) (1949-1951), que não o conclui. Atuou na preparação de O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto (1906-1982), na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, sem, entretanto, participar das filmagens. No mesmo ano, filma com dificuldades O Gigante de Pedra, que até 1954 não encontra circuito de exibição. Entre 1954 e 1955, trabalha na TV Record adaptando clássicos para o teleteatro da emissora. Publica em 1955, texto importante sobre Ingmar Bergman (1918-2007), o que lhe rende, até 1958, uma coluna especial no jornal O Estado de S.Paulo, na qual escreve sobre o cinema sueco. Volta a filmar em 1957 quando a Brasil Filmes, empresa que aproveita os estúdios e o maquinário da Vera Cruz em liquidação, o convida para realizar Estranho Encontro (1957), com custos reduzidos. A repercussão altamente positiva propicia dois filmes de encomenda: a co-produção Brasil/Estados Unidos - Fronteiras do Inferno (1958), e Na Garganta do Diabo (1959), este premiado de grande sucesso internacional. Cria, em 1963, uma empresa produtora, a Kamera Filmes, com a qual realiza A Ilha (1963), Noite Vazia (1964), O Corpo Ardente (1965) e As Amorosas (1968), os dois primeiros com excelente retorno financeiro. Dirige um episódio 2 do filme As Cariocas (1966). No mesmo ano, ao assumir com o irmão, William Khouri, o controle acionário da Companhia Vera Cruz, obtém o direito de usufruto do parque técnico da empresa. O regime de comodato possibilita inúmeras co-produções com companhias distribuidoras internacionais, entre as quais O Palácio dos Anjos (1970), por ele dirigido. A continuidade da empresa torna-se inviável, e ela retorna ao controle da instituição financeira responsável por sua liquidação. Durante os anos de 1970 até meados da década seguinte, respeitabilidade estética e resultados comerciais dão continuidade à sua carreira, por meio de recursos de produtores da Boca do Lixo (notadamente A. P. Galante e Alfredo Palácios), ou por financiamento da extinta Empresa Brasileira de Filmes S/A. (Embrafilme). Realiza no período: As Deusas (1972), O Último Êxtase (1973), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), As Filhas do Fogo (1978), O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, o deus do amor (1981), Amor, Estranho Amor (1982), Amor Voraz (1984) e Eu (1986). Com a extinção da Embrafilme, no início do Governo Fernando Collor de Melo, em 1990, busca uma co-produção Brasil/Itália e realiza Forever (1991),  uma tentativa sem sucesso de conquista do mercado internacional. As Feras (1995) é produzido por Aníbal Massaini Neto (1945), o lançamento tardio, em 2001, encontra um mercado exibidor adverso. Paixão Perdida (1999), seu último filme, reúne inúmeros patrocinadores e co-produtores, mas escasso retorno comercial.

Análise da trajetória
Um cinema de alta densidade filosófica e psicológica, formalista, obcecadamente repetitivo, sem estatura política, são os adjetivos que procuram definir, de maneira correta ou equivocada, a produção de Walter Hugo Khouri. É possível dividi-la em três fases. Na primeira, basicamente a dos anos 1950, o cineasta persegue um ideário estético, que vê concretizado na obra de Ingmar Bergman, embora aprecie com igual intensidade o cinema de Joseph von Sternberg (1894-1969), o filme de terror de Val Lewton (1904-1951) e o expressionismo alemão. O modo de produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz parece compatível com a busca de um estilo: qualidade técnica e domínio da narrativa, com o acréscimo de um tom universal na abordagem da condição humana e elaboração de uma "atmosfera" visual e sonora especificamente cinematográfica.

Estranho Encontro (1958) rearticula elementos melodramáticos de uma relação sadomasoquista à feição de alguns filmes "noir", e Na Garganta do Diabo (1959) alcança alta força poética na evocação de vida e morte sugerida pelas cataratas de Iguaçu. Críticos rigorosos como Gustavo Dahl (1938-2011) ou Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) reconhecem, com ressalvas, a emergência de um grande criador.1 No entanto, ambos os filmes já nascem envelhecidos e não correspondem aos desejos de superação política e estética de grupos mais jovens. Khouri, na intensa politização que percorre os anos 1960, se coloca numa posição que não lhe desagrada - a de homem deslocado das movimentações nacionalistas e revolucionárias e que investe contra o "fanatismo" e a "predisposição patriótica de grupos ingênuos e mal informados"2.

Por conta de afirmações semelhantes e da favorável repercussão comercial de A Ilha (1963), Khouri se torna o representante da ala universalista, cujo projeto econômico e estético pressupõe indústria, internacionalização e qualidade técnico-artística tradicionais, sob o beneplácito de uma legislação protetora a ser desenhada sob a égide do regime militar. Tal projeto encontra resistências por parte do grupo do Cinema Novo3, distinto na sua concepção de um cinema independente e moderno.

Na prática, e de um ponto de vista distanciado da polarização ideológica da época, isso não significa total abstenção de diálogo. A produção de Khouri inaugura uma segunda fase, na qual preocupações mais maduras de ordem existencial se sobrepõem a um pano de fundo social. Noite Vazia (1964) e As Amorosas (1968) representam a alienação de extratos burgueses que se debatem nas amarras do cotidiano e que procuram fugir dessas limitações por meio do sexo, com o qual visam alcançar a liberdade e a transcendência espiritual. A cidade de São Paulo, como espaço determinante do desenvolvimento capitalista brasileiro, é usada como metáfora da opressão que se abate sobre os seres humanos e os desfigura a ponto de torná-los a materialização do cinismo e da prepotência.

A presença do sexo como elemento norteador das buscas existenciais de seus personagens é atrativo para as fontes de financiamento que o cinema paulista da Boca do Lixo oferece a partir dos anos 1970. Dentro desse período de crescentes ousadias na representação do erotismo, Khouri constrói a terceira fase de sua obra; alguns títulos aproximam-se da pornochanchada4, outros servem de subterfúgio comercial para dar vazão às suas premissas artísticas e temáticas.

Marcelo, o personagem criado em As Amorosas, reaparece em mais 8 filmes, alguns com grande sucesso de bilheteria, revelando diferentes etapas de sua vida, na maioria das quais a cidade de São Paulo recebe tratamento de quase personagem. Em Eros, o deus do amor (1981), por exemplo, adquire contornos edipianos, é uma "placenta gigantesca" dentro da qual protagonista e espaço ficam intimamente interligados pela indiferença, distância e egoísmo com que Marcelo trata o sexo oposto.

Em Convite ao Prazer (1980), quase em tom de comédia, ele é o garanhão cafajeste, cujo cinismo beira a crueldade ao envolver em suas artimanhas sexuais um dentista de classe média, que cai no ridículo ao tentar reproduzir, como as figuras popularescas da pornochanchada, o comportamento sexual do amigo rico. Já em Paixão e Sombras (1977), ao retratar um cineasta que vaga pelo cenário e pelos bastidores de seu próximo filme, o personagem parece fundir-se à personalidade do próprio Khouri, o que possibilita reproduzir e rebater as críticas que lhe são feitas, e evocar o estúdio (Vera Cruz) que acolhera as suas produções anteriores.

Essas três fases consolidam as características de um estilo khouriano: a dramatização de eventos psicológicos se junta a indagações filosóficas; espaços concentrados e limitadores se abrem para amplas e libertadoras paisagens naturais; o entrecho dramático, que recorre muitas vezes a frágeis diálogos com teor explicativo, cede lugar para a representação, com grande impacto visual e sonoro, de devaneios, sonhos ou do estado contemplativo das personagens.

O Corpo Ardente (1966), que o cineasta declara como obra predileta, pode ser o ponto máximo da concretização desse estilo. Quase um filme abstrato e, numa trama que se dissolve com a alternância de passado e presente, a música e as imagens transmitem, pelo ritmo, os sentimentos de uma burguesa entediada que observa na paisagem montanhosa e no cio de um cavalo selvagem os símbolos de seu anseio de ascese e de sustentação espiritual.

Alguns filmes escapam desse esquema classificatório. Mistério e suspense, experiências místicas e metafísicas, transmutações psicológicas e parapsicológicas, aparecem, de maneira mais explícita, em O Anjo da Noite (1974), As Deusas (1972) e Amor Voraz (1984). Para o psicanalista Flávio Fortes d'Andrea, ao analisar As Filhas do Fogo (1978),5 predomina no cineasta a vontade de exprimir o inconsciente humano ou de representar os sonhos por meio de equivalências encontradas na materialidade cinematográfica: a atemporalidade, a ilogicidade, as condensações e os deslocamentos.

Vertentes ainda não analisadas de uma extensa filmografia, sobre a qual o próprio cineasta declara: "Apenas fiz os filmes que senti vontade de fazer e que, evidentemente, de forma automática, devem ter refletido o ambiente em que vivo"6.

Notas
1 GOMES, Paulo Emílio. Rascunhos e exercícios. O Estado de S. Paulo, 21 jun. 1958, Suplemento Literário; DAHL, Gustavo. Compreender Khouri e Importância de Khouri. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28  e 21 mai. 1960. Suplemento Literário
2 La mia speranza nel cinema brasiliano. In: Il cinema brasiliano, p. 149-150
3 O Estado de S. Paulo, 22 abr. 1979
4 Cinemateca Brasileira, 30 anos de cinema paulista, p.33
5 ANDREA, Flávio Fortes d'. «A realidade interior por trás da superficialidade aparente». O Estado de São Paulo, São Paulo, 22 de abril de 1979, Suplemento Cultural.
6 CINEMATECA BRASILEIRA. 30 anos de cinema paulista: 1950 - 1980. São Paulo, 1980, p. 33.

 

Outras informações de Walter Hugo Khouri:

  • Habilidades
    • diretor de cinema
    • produtor
    • roteirista

Obras de Walter Hugo Khouri: (5) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (21)

  • BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 120-128.
  • ANDREA, Flávio Fortes d'. A realidade interior por trás da superficialidade aparente. O Estado de S. Paulo, Suplemento Cultural, 22 abr. 1979. 
  • AZEREDO, Ely. Dossiê Walter Hugo Khouri. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.3, n.12, maio-jun. 1969, p. 14-27. 
  • AZEREDO, Ely. Walter Hugo Khouri. In: Il cinema brasiliano. Genova : Silva Editore, 1961. p. 98-108. 
  • BANCO DO BRASIL. Retrospectiva Walter Hugo Khouri: meio século de cinema. São Paulo, 2001. p. 6-9.

  • BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema : a política dos autores : França, Brasil, anos 50 e 60. São Paulo : Brasiliense/EDUSP, 1994. p. 101-105. 
  • CINEMATECA BRASILEIRA. 30 anos de cinema paulista: 1950-1980. São Paulo, 1980. p. 27-34. 
  • DAHL, Gustavo. Compreender Khouri. O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 28 mai. 1960. 
  • DAHL, Gustavo. Importância de Khouri. O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 21 maio 1960. 
  • Enciclopédia do Cinema Brasileiro. Organização Fernando Pessoa Ramos, Luiz Felipe A. de Miranda. São Paulo: Editora Senac, 2000. p. 310-311.
  • FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo : Max Limonad, 1986. p. 229-238. 
  • GOMES, Paulo Emilio Salles. Falar bem e mal de Khouri. In: ____, ____. Paulo Emilio : um intelectual na linha de frente. São Paulo : Brasiliense, 1986. p. 225-226. [Originalmente publicado em Brasil Urgente, São Paulo, n.3, 31 mar. 1963]. 
  • GONÇALVES FILHO, Antonio. A palavra náufraga : ensaios sobre cinema. São Paulo : Cosac Naify, 2001. p. 162-163. 
  • KHOURI, Walter Hugo. O cinema de Ingmar Bergman. In: FILMOTECA DO MAM. Ingmar Bergman.  São Paulo, 1955. p. 2-14.
  • PFEIFFER, Maria Aparecida Rodrigues. Repensando Khouri. Cinemais, Rio de Janeiro, n.2, nov.-dez. 1996, p. 109-116.
  • PUCCI JUNIOR, Renato Luiz. O equilibrio das estrelas : filosofia e imagens no cinema de Walter Hugo Khouri. São Paulo : Annablume, 2001. 
  • RAMOS, Fernão. A coisa da imagem e a preponderância do afeto. In: CENTRO CULTURAL
  • ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo : Cosac & Naify, 2003. p. 117-120. 
  • STIGGER, Helena. Marcelo : o imaginário burguês de Walter Hugo Khouri : comunicação e psicanálise no cinema. Porto Alegre, 2007. Dissertação de mestrado apresentada na PUC/RS.
  • _____, _____. Rascunhos e exercícios. In: ____, ____. Crítica de cinema no Suplemento Literário. Rio de Janeiro : Paz e Terra/Embrafilme, 1982. p. 349-355. [Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 21 jun. 1958].
  •  _____, _____. La mia speranza nel cinema brasiliano. In: Il cinema brasiliano. Genova : Silva Editore, 1961. p. 141-151. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • WALTER Hugo Khouri. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa204214/walter-hugo-khouri>. Acesso em: 18 de Out. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7