Artigo da seção pessoas Hector Babenco

Hector Babenco

Artigo da seção pessoas
Teatro / cinema  
Data de nascimento deHector Babenco: 07-02-1946 Local de nascimento: (Argentina / Buenos Aires / Buenos Aires) | Data de morte 13-07-2016 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
Hector Eduardo Babenco (Buenos Aires, Argentina, 1946 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor, roteirista e produtor. Filho de comerciantes judeus vindos da Polônia e da Federação Russa, nasce em Buenos Aires, onde passa parte da infância. Aos 9 anos, muda-se com a família para Mar del Plata e, aos 17, deixa a Argentina por se recusar a servir no Exército. Vive em diversos países da Europa, sobrevivendo de bicos e figuração. Na Espanha, onde passa dois anos, inicia sua prática em cinema como assistente de direção do cineasta espanhol Mário Camus (1935).

Sem poder retornar ao seu país natal por não ter cumprido o serviço militar, em 1969, muda-se para São Paulo e, em 1977, naturaliza-se brasileiro. Durante quatro anos, trabalha com documentários, como O Fabuloso Fittipaldi (1973), do diretor Roberto Farias (1932). Em 1975, finaliza seu primeiro longa-metragem O Rei da Noite, com os atores Paulo José (1937) e Marília Pêra (1943-2015) nos papéis principais. Seu filme seguinte, Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1976), inspirado em fatos reais da corrupção policial no Brasil, marca o sucesso de Babenco na América Latina, com mais de 5 milhões de espectadores. Em 1980, lança Pixote, a Lei do Mais Fraco, única coprodução com a Embrafilme. Considerado um dos filmes mais importantes da década de 1980, ganha destaque nos Estados Unidos, eleito melhor filme estrangeiro do ano pela Associação dos Críticos de Los Angeles e de Nova York. Este trabalho abre a oportunidade para sua primeira coprodução norte-americana, O Beijo da Mulher Aranha (1985), adaptação do livro do escritor argentino Manuel Puig (1932-1990). O filme, rodado em inglês, conta com a interpretação do ator americano William Hurt (1950), que ganha o Oscar e a Palma de Ouro do Festival de Cannes de melhor ator em 1985.

Seguindo as parcerias internacionais, dirige Ironweed (1987), baseado no romance do escritor americano William Kennedy (1928), com os atores americanos Jack Nicholson (1937) e Meryl Streep (1949). Em 1990, faz outra adaptação – do romance do também americano Peter Matthiessen (1927) – e realiza Brincando nos Campos do Senhor (1991), filmado na Amazônia. Dirige Coração Iluminado (1998), seu projeto mais pessoal, inspirado em lembranças de adolescência, que o levam a rever seu país de origem. Em 2003, adapta para o cinema o livro Carandiru, do médico Dráuzio Varella (1943), sucesso de bilheteria. Em 2007, volta à Argentina para gravar O Passado, com o ator mexicano Gael García Bernal (1978) no papel do protagonista e participação do brasileiro Paulo Autran (1922-2007).

Em 1988, estreia na direção teatral no espetáculo Loucos de Amor, do dramaturgo americano Sam Shepard (1943). Em 2000, dirige Closer – Mais Perto, do dramaturgo inglês Patrick Marber (1964). Seu recente trabalho nos palcos acontece em 2010, ao fazer a adaptação, junto com o encenador Marco Antonio Braz (1966), do best-seller Hell Paris, da escritora francesa Lolita Pille (1982). A versão teatral do romance, a primeira feita no mundo, recebe o nome de Hell, tendo sua mulher e atriz Bárbara Paz (1974), no papel principal. Sua última direção no cinema, é o longa-metragem autobiografico Meu Amigo Hindu (2015).

Análise da trajetória
Hector Babenco é conhecido por filmes como Pixote, a Lei do Mais Fraco, O Beijo da Mulher Aranha e Carandiru que trazem um retrato realístico e poético do submundo. Na década de 1970, no início da carreira, faz parte de um projeto de cinema brasileiro distante do cinema novo. Naquele momento, o vigor do cinema no Brasil permite encenar uma história pessoal e, por meio dela, fazer um diagnóstico do país. De acordo com o crítico Ismail Xavier (1946), sem configurar um movimento, mas tentando assegurar novas maneiras de representar os problemas brasileiros, Babenco não repete o passado nem privilegia as orientações de um cinema autoral. O caminho é o retorno às formulas que garantam o acesso ao grande público1.

Com um gênero erguido sobre as leis do realismo de cena, realiza em O Rei da Noite, Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia e Pixote, a Lei do Mais Fraco um panorama sobre o marginalismo urbano. Babenco liga-se às regras do espetáculo, priorizando o apelo popular, a narrativa bem dividida e uma atuação que não permite artificialismos. Ao mesmo tempo, preocupa-se em colocar nas telas os problemas sociais vividos em grandes metrópoles ao usar um tom documental. Isso se verifica em Pixote, que retrata a história de um menino de 11 anos, analfabeto, que não conhece os pais e vive entre celas de reformatórios e quartos sujos da periferia. O lirismo do filme deve-se ao lado humano de seus personagens num processo de descoberta, buscando entender seus espaços de sobrevivência. Pixote é considerado um dos três melhores filmes dos anos 1980 por críticos americanos.

Com esse trabalho, consegue o reconhecimento no mercado cinematográfico dos Estados Unidos e faz o filme O Beijo da Mulher Aranha, em 1985. A partir deste momento, insere o cosmopolitismo em sua carreira. Rodado em São Paulo, a obra é uma coprodução americana, com participação de atores de diversas nacionalidades e diálogos em inglês. O filme conta a história de dois prisioneiros – um ativista político e outro homossexual obcecado por filmes de Hollywood da década de 1940 – numa cela de prisão de um país da América do Sul. Babenco não situa espaço e tempo da sua história, prefere compor um cenário sem contornos definidos, o que favorece a identificação em diferentes contextos nacionais. Realiza, um filme universal, aberto a leituras heterogêneas.

Outra marca diferencial é a direção de atores. Tanto em seus filmes anteriores quanto em produções seguintes, como em Ironweed e Brincando nos Campos do Senhor, o trabalho com a caracterização de cada personagem reforça o realismo cênico em suas obras. Mesmo em Coração Iluminado – filme mais autobiográfico, rodado na Argentina e sem muitas repercuções no Festival de Cannes do daquele ano – a atuação do elenco ganha destaque, principalmente a da atriz Maria Luiza Mendonça (1970), no papel de uma mulher neurótica e passional.

Sem perder o rigor na interpretação, realiza Carandiru, um filme sobre meninos de rua, já retratados em Pixote, agora adultos e com a mesma falta de opção. Baseado no livro Estação Carandiru do médico Dráuzio Varella, o longa mostra a chegada de um médico no complexo prisional do Carandiru para um programa de prevenção contra a Aids com os presos. O médico entra em contato com os detidos que contam suas histórias com o objetivo de se inocentarem da pena pelos crimes cometidos. Tudo isso culmina na rebelião de 1992, quando mais de cem presos são mortos pela polícia.

Uma pesquisa histórica é realizada de maneira complementar, pois a realidade do que se mostra é peça imprescindível na trama. O filme caracteriza-se por denunciar ambientes corruptos e superlotados na maior prisão da América Latina na época. Diferente de Pixote, em Carandiru Babenco coloca homens mais maduros. Seu trabalho de direção é mais reflexivo do que intuitivo, capaz de organizar a narrativa com uma linguagem verossímil e dinâmica. Permite que a técnica e os detalhes falem mais alto do que a emoção, apesar de a origem da narrativa ser o melodrama2.

Quatro anos depois do sucesso Carandiru, retorna à Argentina para filmar O Passado. Desta vez, trata das memórias afetivas. O longa tem tom mais emocional e poético, assim como Coração Iluminado. Baseado no livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls (1959), o ator mexicano Gael Garcia Bernal interpreta um jovem que se casa adolescente com a personagem vivida pela atriz argentina Anália Couceyro (1974), sua primeira namorada. Após 12 anos, ele decide se separar, porém, a presença constante de sua ex-mulher acaba causando pequenas tragédias em sua vida. Com olhar intimista, propõe um ritmo mais lento ao filme, para reforçar a tensão dramática e estagnação da vida do casal recém-separado.

A obra de Babenco encerra-se com Meu Amigo Hindu (2016), uma autobioagrafia que rememora o tratamento contra o câncer linfático do diretor. Willem Defoe (1955) interpreta Babenco e, por meio dele, vê-se o mundo segundo o próprio direitor, numa reflexão sobre si mesmo.

Babenco ocupa lugar de destaque no mercado cinematográfico brasileiro e mundial, por demonstrar possibilidades diversas da realidade cênica em seus filmes – ora mais psicológico, ora mais social. Utiliza as ferramentas do espetáculo para manter os canais de comunicação com o público, atraindo mais espectadores.

Notas
1 XAVIER, Ismail. A força e os limites da matriz melodramática. Revista USP, São Paulo n.19, 1993.
2 THOMASSEAU, Jean Marie. O Melodrama. São Paulo: Perspectiva, 2005.

Outras informações

  • Outros nomes
    • Hector Eduardo Babenco
  • Habilidades
    • diretor de cinema
    • diretor de teatro

Obras (3)

Espetáculos (2)

Fontes de pesquisa (7)

  • NAGIB, Lúcia. O Cinema da Retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • BRAGANÇA, Felipe. Carandiru, de Hector Babenco. Contracampo, revista de cinema, Rio de Janeiro, 6 jul. 2006. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/criticas/carandiru.htm >. Acesso em: 3 ago. 2011.
  • DANIEL PIZA. Site Oficial. Disponível em: < http://www.danielpiza.com.br/interna.asp?texto=1555 >. Acesso em: 3 ago. 2011.
  • NASCIMENTO, Hélio. Cinema Brasileiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981. p. 87-91.
  • RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia de cinema brasileiro. São Paulo: Editora SENAC, 2ª Edição, 2004.
  • THOMASSEAU, Jean Marie. O Melodrama. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  • XAVIER, Ismail. A força e os limites da matriz melodramática. Revista USP, São Paulo, n.19, 1993.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • HECTOR Babenco. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa204114/hector-babenco>. Acesso em: 31 de Mar. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7